sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Paixões dominantes*

“Existe uma vitalidade, uma força vital, uma energia, uma vitalidade que é traduzida em ação por seu intermédio, e como em todos os tempos só existiu uma pessoa como você, essa expressão é única. Se você a bloquear, ela jamais voltará a se manifestar por intermédio de qualquer outra pessoa.

Martha Graham


Uma expressividade continuada atravessa o mundo de cada sujeito, ainda quando este não lhe dá a devida importância. Pode se apresentar em uma só versão ou na vastidão dos percursos existenciais. Entrelaçar nas paredes de si mesmo a reivindicar continuidade.

Os deslizes indicam combinações variadas a se integrar no devir incansável dos dias. Seus vestígios de antecedência, embora pareçam surgir agora, referem murmúrios bem antigos. Sua persistência possui alternâncias na sucessão de instantes significativos. Pode integrar a freqüência dos renascimentos com as cinzas da anterioridade.

Ao tentar traduzir a natureza de sua duração esse tópico, quando determinante, surge como paradoxo ao gozo fugaz. A partir dessa fonte estrutural o prosseguimento se qualifica e segue seu curso.

Uma lógica do instante se multiplica com o fenômeno ritual. Ponto de onde o mesmo reaparece sob variadas personagens. Costuma agregar tudo a seu redor, como se dependesse disso para manter visibilidade existencial. Sustenta-se na mescla entre alegria e tristeza, vida empírica e vida sonhada, também nas evidências de uma proximidade entre o passado mais remoto e aquilo não pensado. Aprecia conceder sensações de bem estar subjetivo duradouro.

Propõe suas vontades com a sutileza e aptidão de encantar. Mantém a invisibilidade que perdura no tempo a oscilar entre objetivo e subjetivo, como um convite para revigorar caminhos já percorridos. Albert Camus questiona: “se podemos viver com nossas paixões, se podemos aceitar sua lei profunda, que é queimar o coração que elas ao mesmo tempo exaltam.”

Nem sempre é possível decifrar sua linguagem, embora a predominância seja mais fácil constatar. Quando se pensava extinta, ressurge sob outra forma ou nome. Sua dinâmica possui características estáveis e se detém a buscar interseção com os demais eixos estruturantes. As paixões dominantes podem ser refúgios confortáveis, como algo inconcluso a se alimentar dessa inconclusão.

Possui ramificações que proliferam mesmo quando desacreditadas. Acentua traços coadjuvantes até então desmerecidos, para atuar na sua manutenção. Possui disposição exuberante em se manter atual e assegura-se com a freqüência ao longo da vida.

Seu incessante exercício de animação encontra subsídios para se realizar por onde passa. A matéria-prima com a qual se reveste, pode ser encontrada facilmente em vários pontos. Esparrama vestígios na linguagem, nos gestos e atitudes, bem assim nas vicissitudes, acasos e, ainda quando a pessoa pretenda sufocar sua influência.

Possui tendências de ser irreversível e se vincula como herança às demais gerações. Sua característica de onipresença reverencia um lugar privilegiado, onde as coincidências se encontram. Mesmo o inesperado desdobra-se na recorrência das predileções subjetivas. Um evento precursor, de onde deriva sua essência, pode surgir intercalado nas mensagens a sinalizar outros interesses. Suas escolhas possuem ímpetos de atração irresistível consigo mesma.

Na compreensão de Antonin Artaud: “O espírito acredita no que vê e faz aquilo em que acredita: esse é o segredo do fascínio.” Sua manifestação contamina e agrega os demais tópicos determinantes, fazendo com que atuem numa mesma direção. Como se encontrasse um feitiço de grande influência na malha intelectiva. Veredas insaciáveis se mesclam nessa fonte nem sempre acessível à primeira vista.

É interessante sua dedicação para desenvolver gosto, aptidão e preferências. Fora desse contexto, pode destituir o sujeito de seu equilíbrio existencial. Suspeitas sobre a perda de foco pode se revelar nalgum mal estar ou desajuste. Se distanciado de seu eixo, tudo ao redor aparece sem sentido.

Martim Heidegger pressupõe: “a instauração do vigor, que abre originariamente os caminhos, engendra então em si mesma (...) a atividade febril de uma múltipla aplicação de habilidades.”

As recordações da narrativa histórica possuem competências para destacar os padrões da intencionalidade. Seu aspecto de transição possui eficácia de um cotidiano incessante, no qual habilidades até então desmerecidas, qualificam suas funções.

A efetividade desse logos institui um gozo ao qual está vulnerável. Ao superar os desacordos do dia-a-dia, é possível perceber suas preferências e o fluxo de idéias e atitudes que persistem. Vão esculpindo personagens e dando continuidade aos enredos indispensáveis. Sua importância não reside na força ou intensidade, mas se destaca pela regularidade e sobrevida.

Hélio Strassburger
Filósofo Clínico não filiado a Anfic