sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

SER FELIZ APENAS JÁ NÃO ME BASTA.

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Há dois anos escrevi o “Parabéns a Você”, um livro sobre a busca da felicidade. Na época foi classificado e distribuído nas livrarias como auto-ajuda, fato que de inicio me deixou incomodado, já que este tipo de literatura sofre com o preconceito de ser redigido por e para pessoas menos intelectualizadas.

Deveria isto abalar minha felicidade? Justo eu que tinha escrito um livro sobre o assunto iria me perturbar e deixar que uma classificação teórica atrapalhasse minha felicidade?

Confesso que preferiria estar incluído na seleta categoria dos filósofos, intelectuais e pensadores. Best-seller também serviria, porém isto não foi razão suficientemente forte para diminuir o prazer e a felicidade que pegam carona quando finalmente se conclui um livro e se passa a curtir o lançamento.

Além do mais, naquelas alturas, depois de tanto estudar, pesquisar e refletir é claro que o livro foi de auto-ajuda, para mim obviamente. Como a própria palavra diz, ao mesmo tempo em que escrevia o livro, estava me ajudando a compreender os porquês da felicidade e de sua ausência.

Todos os livros têm, em maior ou menor grau, uma parcela de auto-ajuda. Não consigo imaginar um autor que não passe um pouco de sua experiência, conhecimento e até mesmo sonhos no que escreve e que isto não venha a lhe trazer algum tipo de retorno.

Acontece que escrever um livro só para se auto ajudar é um desperdício. Tanto a auto-ajuda como a felicidade não são completas isoladamente. É preciso dividi-las para que se multipliquem. Guardar para si o conhecimento ou tentar ser feliz sozinho são atitudes e sentimentos que fazem com que a proposta inicial se enclausure e perca o sentido.

Publicar um livro com o intuito de ajudar de alguma forma o leitor é o objetivo primordial de todo escritor. Sua gratificação está na critica, no elogio, no reconhecimento, na mudança de paradigma, no crescimento pessoal da comunidade e também no aprendizado que a retro-alimentação dos leitores lhe possibilitará.

A auto-ajuda do escritor não é a meta. É o bônus. Assim sendo, em última análise, qual o objetivo de um livro? Fornecer, informar, educar, ajudar o leitor. Ajuda e auto-ajuda.

Com a felicidade também aconteceu fenômeno semelhante.

Ser feliz apenas já não me basta. É muito pouco, ficou pequeno demais. Desfrutar felicidade sem produzi-la não tem a menor graça. Quando contribuo, seja lá de que jeito for, para tornar feliz a vida dos que me rodeiam, a felicidade deles se reflete e retorna para mim, e isto é o meu maior orgulho: saber que quem me ama é feliz.

FELIZ 2011!!!!!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2011, ano regido por Mercúrio

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Assim na terra como no céu. Os astros influenciam, pois tudo está interligado. Se soubermos aproveitar as tendências, com certeza nos harmonizaremos com as energias do cosmos de forma mais positiva.

Não falo de previsões, pois não temos o poder de controlar as leis do universo. Somos seres da escolha livre. Porém, existe uma destinação, um caminho que com estudo e sabedoria poderemos nos guiar.

Desde os caldeus o estudo da astrologia era feito com seriedade. Astrologia é ciência e arte. Os arquétipos do inconsciente coletivo atuam em nós. Quem tiver ouvidos, que ouça!

Este ano será regido por Mercúrio, o deus do conhecimento, da cura, da comunicação, da inteligência, da compreensão. Mercúrio favorece a aprendizagem, o ensino e a nossa capacidade de escrever. Ele é o mensageiro de Zeus com os mortais. É também o deus trapaceiro e mentiroso. Pode unir ou separar.

Como podemos aproveitar melhor este ano mercurial? Abrindo nossa mente a aprendizagem, cuidando das palavras bem ditas. Para quem tem talento, escrever é a grande possibilidade de comunicar o que vem da alma. Ler e estudar ampliará nosso conhecimento. Os diálogos serão favorecidos.

Parece óbvio tudo isto, mas este ano estas forças se ampliarão para quem estiver ligado, mais consciente e aberto ao encontro com os saberes.

Deus da cura, Mercúrio, favorece o cuidar do corpo e da mente. Poderemos usar nossa inteligência a favor de nossa saúde. Curar é transformar. Somos nosso próprio médico. Asclépio habita dentro de cada um de nós. Cuide do seu sistema nervoso, ele estará mais sensível. Atente-se a isto.

No seu mapa natal, você verá onde Mercúrio se encontra e poderá tirar proveito deste trânsito. Nós escolhemos nosso caminhar, mas quem venda os olhos perde as possibilidades infinitas de realização.

Evite ler horóscopo, ele é reducionista. Procure estudar seu mapa. Cada um é dono de seu destino. Aproveite este ano para estudar um pouco da astrologia e ser livre para se conhecer melhor.

Se desejar detalhes sobre Mercúrio e seu signo solar, entre no meu blog: http://rosangelarossi.blospot.com e Feliz Ano Novo.

Lembre-se, somos donos de nossas vidas. Podemos nos guiar com a sabedoria milenar. Deixe o preconceito de lado e aprenda. Este é um bom ano para ampliar seus conhecimentos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

inSOLação

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Obrar o lugar, contato com objetos, pedras, areia, cimento, brita, canos, poste, telas, espera plástica, buracos, mangueira, SOL, caixa de água, tábuas, tijolos, possíveis alicerces, suor, pele frita, olhos ardentes, poeira, SOL, quarenta graus, em um paralelo que parece deslocado pela vertigem, corpos quase nús, homens formigas sorridentes, escaldados, podam, juntam, misturam, capinam, entre carrinhos, fios e vigas.

Eu no meio e o SOL, pulando de galho em galho, litros de água mineral, protetor solar vencido pelas horas de exposição, fritada humana, crocante epitelial...
Aos amigos...

Na tentativa de nos constituirmos, simultaneamente, amigos do saber e amigos do outro, partilhamos nossa alegria em tê-los conosco em 2010.

Agradecemos a contribuição de cada partilha, e desejamos prosseguir, juntos, num belo caminho de constante aprendizagem.

Partilhamos alguns belos sons: http://www.youtube.com/watch?v=PbNV9AwFFc8 para celebrarmos a interseção de nossas tão diferentes formas de vida, e reiteramos o convite à partilha das descobertas, invenções e construções cotidianas.

Abraços e provocações à reflexão...

Equipe do Instituto Interseção
www.institutointersecao.com
(11) 3337-0631

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Tempo para quem fica

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

Martin Heidegger, filósofo alemão, desenvolveu dentre várias questões a angústia como condição para existência autêntica. Segundo ele, em dado momento da vida, o Dasein, o homem, toma uma consciência íntima de sua finitude. A essa consciência o autor chama de angústia.

Essa situação faz com que o homem suspenda toda sua ocupação no tempo, na vida. A partir daí, ele reconhece que dentre todas as possibilidades, a mais certa é o fim da existência.

Longe de fadar o Dasein à depressão ou coisas deste tipo, a angústia abre às possibilidades, tirando o sujeito da vivência condicionada pela ocupação cotidiana. A vida passa a ser um instante único e repleto de possibilidades a serem optadas, vivenciadas. Logo, a angústia do reconhecimento da própria finitude abre o sujeito ao presente único e possível.

No entanto, além da experiência pessoal da tomada de consciência da limitação da existência, há outro modo de vivenciar a questão da morte e do presente constante. Isso acontece, por exemplo, com a experiência da morte do outro, sobretudo quando este outro é muito próximo.

Essa experiência, na concepção heideggeriana não abre o Dasein para a autenticidade. Mas, na busca da Filosofia Clínica por compreender a pessoa em sua singularidade, é imprescindível uma compreensão desse fenômeno.

A morte é uma realidade tão comum quanto comer, para o ser humano. Às vezes não é tão aceito, o que não faz com que isso se torne incomum ou não natural para a realidade humana. Em alguns casos a morte do outro se torna uma perda tão difícil de superar, que a lembrança da pessoa se torna presente mesmo após anos passados do acontecido.

A falta do outro se torna de tal modo inaceitável, que quem perde vive como se a pessoa fosse um ausente sempre presente, e as lembranças atualizam a existência da pessoa em cada momento de quem perdeu.

As conversas, as atividades, os passeios, os momentos de lazer... tudo trás o outro para a partilha da alegria ou dor vivenciada no agora. O tempo da pessoa passa, o acontecimento do falecimento se dilui ao longo dos anos, mas sempre é retomada a presença da pessoa no instante em que se vive.

Muitas coisas são esquecidas ao longo dos anos. Momentos diversos vão sendo deixados para as fotos ou simplesmente, desaparecem. E diante de tudo isso a ausência se faz presença na lembrança que se entrelaça com a vivência cotidiana.

Esse é um aspecto reconhecido como a categoria tempo, que é apresentado pelo partilhante ao longo de sua partilha. O filósofo clínico, a partir de procedimentos que lhe são próprios, os reconhece para que o desenvolver da clínica obtenha o melhor êxito possível.

O tempo objetivo conta que a pessoa está a anos lembrando-se de um fato ou de um ente passado. O tempo subjetivo conta que o presente é vivenciado sempre com a máxima plenitude, sem deixar ninguém de fora, mesmo que isso se faça em lembranças de fatos tristes ou agradáveis.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Boa noite,

Segue o link para acessar a programação do cineclube audiovisUAI em janeiro de 2011 - uma seleção de filmes nacionais que abordam histórias de mulheres brasileiras serão exibidos, ao longo do mês, em comemoração as conquistas dos direitos feministas na sociedade e também na política.

http://audiovisuai.blogspot.com/

Lembrando a todos que mudamos o local e horário de funcionamento do cineclube: todos os domingos às 18h na Sede Social Santiaguense.

Entrada Franca!

Convide seus amigos e ajude a divulgar o nosso projeto.

Att.
Mariana Fernandes
Filósofa Clínica
São Tiago/MG
Poéticas do amanhã*


“Antes eu era transparente,
agora sou cheio de cores.”

Arthur Bispo do Rosário


A inédita conversação nos recantos da palavra delirante possui característica de anúncio. Sua perspectiva de grande abertura oferece derivações a insinuar vontades e perseguir refúgios existenciais. Uma filosofia dos devaneios sugere novas menções.

O hospício cotidiano, esse lugar legitimado por força de lei, atualiza seu discurso em paradoxos com olhares desfocados. Enquanto a enfermaria multiplica a fenomenologia dos delírios, o lugar reinventa a camisa de força da normalidade e persegue os poetas enlouquecidos pelo não-dizer.

No caso da vírgula contida nesses atalhos, dizeres desconsiderados prosseguem em rituais de ilusão. Sua estrutura significante faz referência aos incríveis vislumbres, numa palavraria sem sentido aos endereços já superados.

A condição de miserabilidade física do sonhador medicado faz reverência à medicina dos enganos. Essa como ciência da correção discursiva constrói seus muros e janelas sem vista, para proteger a aldeia lá fora. No entanto, o que são portas e grades ao viajante que aprendeu a bater asas e conheceu a arte de ultrapassar paredes ?

Ao sujeito assim disposto, a vida ensaia outros jeitos de existir. Propõe o curso invisível da resistência solitária. Sua estrutura de lógica desconhecida possui totens bem protegidos da intervenção alienista. Esse ritual aprecia compartilhar esboços e invenções nas lógicas do delírio.

Clarice Lispector compartilha: “Nunca vi uma coisa mais solitária do que ter uma idéia original e nova. Não se é apoiado por ninguém e mal se acredita em si mesmo. Quanto mais nova a sensação-idéia, mais perto se parece estar da solidão da loucura.”

Em si o lugar das ventanias se encontra com o lugar das promessas insatisfeitas. É improvável ser alguma reminiscência portadora de verdades, pois sua maquiagem, aspecto de borrão, oferece expressividades na velocidade incrível dos desatinos. Espécie de refém da normalidade a perambular pelos corredores da cidade. Os loucos por liberdade possuem sobrevida na caminhada pelos labirintos de si mesmo.

Nesse lugar as geografias modificam suas fronteiras com velocidade inacreditável. Um território onde a linguagem pode ser cúmplice ou adversária para se entender melhor. Na interseção com o logos desconhecido os parágrafos fazem referência ao fora de foco e seu aspecto de não-ser.

Evidencia as brechas da ciência normal, possivelmente rascunhos sobre novidades impossíveis à ótica anterior.

Ao não referir coisa com coisa uma quase explicação se oferece. Percepção vadia a desvelar óticas desconsideradas. Suas circunstâncias sugerem novas legendas que aguardam, num tempo sem pressa, o olhar das irregularidades criativas. Na voz dissonante do êxtase precursor, um apelo tenta descrever seus originais no suplemento imprevisível dos discursos.

Philippe Willemart diz assim: “Todas as palavras, expressões, cores e formas, sons e melodias estão lá, bastaria acariciá-los para atraí-los e fazer com que emerjam. A intensidade do afago mede o talento do artista (...). A obra está nascendo, mas as palavras ainda faltam.”

Nos escritos do agora cadáver desliza um projeto marginal em sobras, desvios e demais incompletudes. Com a metamorfose significante de cada um, a poesia singular acontece em várias direções. Um projeto de paixão dominante deixa rastros na mensagem descontinuada a sustentar eventos. Ao perseguir novidades se reencontra com o velho álbum entreaberto.

Na multidão das promessas não cumpridas, se insinuam outras versões. Por esses intervalos sem fronteira uma fonte atualiza a arte de cuidar jardins. O evento peregrino oferece preenchimentos aos vãos desmerecidos.

A lógica dos excessos contém rumores de alargar limites e desconstruir estereótipos de perfeição. Suas evidências articulam blefes desconstrutivos de longo alcance. Essas poéticas restariam intocadas, não fora a encenação subversiva a transgredir certezas. O mundo da terapia inclui o saber de que as raridades, muitas vezes, só possuem nitidez quando vistas de longe.

Semelhante as ventanias em ânimos de revolta, a perspectiva desconsiderada se movimenta noutras direções. Incrível as pessoas capazes de autogenia no curso de uma só idéia, antes de concluí-la já é outra. Uma epistemologia difusa se realiza na interseção entre ordem e caos. Nesses casos, talvez o discurso filosófico consiga trazer das lonjuras reflexivas a linguagem simples das coisas profundas.

Em Autran Dourado: “O bom do meu mestre imaginário era que ele não tinha idade. Era mutável como o vento (...). Contraditório e mesmo absurdo, Erasmo Rangel não tinha a virtude pequeno-burguesa de querer ter sempre razão, ser definitivo, conseqüente. ‘Graças a Deus’, dizia ele, ‘choco-me comigo mesmo, não sou sempre o mesmo.’”

Texto demarcado pelo contexto infrator e inacreditável, onde as vírgulas são cúmplices de algo por dizer. Mesmo assim, na multidão do instante, é possível ouvir o silêncio a insinuar desfechos. Ao terapeuta-artesão cabe esculpir sua obra numa interseção compreensiva, lado a lado com o outro em busca de melhores dias.

Na pessoa plural, a menção dos termos agendados aponta em múltiplas direções interpretativas. Assim como o leitor interfere no texto com sua leitura, o clínico não sai ileso na relação com o sujeito sob seus cuidados. A atividade do Filósofo Clínico também refere uma elucidação para desenvolver autonomias.

Ao sabor incerto das inéditas regiões, um personagem é capaz de múltiplos papéis. Mais que alimentar convicções sustenta dúvidas, especulações, sugere procuras. Nesse sentido, importa mais ultrapassar a primeira vista, onde nada se via, para voltar e superar a sensação de estrangeiro diante do próprio olhar.

O sonho do poeta internado se embala na embriaguez vertiginosa das miragens. A arte de pensar sem tipologias encontra aliados na descontinuidade dos ímpetos narrativos. A eficácia da descrição substitutiva está em ampliar o teor do discurso original. Nele se reinventa a desrazão em poéticas do amanhã.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

domingo, 26 de dezembro de 2010

Fragmentos filosóficos delirantes VII*

"Obras de arte acabadas, que admiramos e amamos profundamente, são, num certo sentido, vestígios de uma viagem que começou e acabou. O que alcançamos na improvisação é a sensação da própria viagem."

"A brincadeira, na forma da livre improvisação, desenvolve nossa capacidade de lidar com um mundo em constante mutação. Brincando com uma enorme variedade de adaptações culturais, a humanidade se espalhou por todo o globo terrestre, sobreviveu a várias idades do gelo e criou artefatos surpreendentes."

"Para sermos aceitos, esquecemos nossa fonte interior e nos protegemos por trás das rígidas máscaras do profissionalismo ou do conformismo que a sociedade continuamente nos impõe. Nossa parte infantil é a parte que, como o Louco, simplesmente faz e diz, sem precisar apresentar suas credenciais."

"No mundo oriental, ao contrário, praticar é criar a pessoa, ou melhor, revelar ou tornar real a pessoa que já existe. Não se trata da prática para algum fim, mas da prática que é um fim em si mesma."

"O trabalho criativo que comporta riscos e crescimento é desvalorizado, tratado como uma atividade supérflua ou extracurricular, um ornamento ou uma fuga da rotina da vida diária."

*Stephen Nachmanovicth

sábado, 25 de dezembro de 2010

Fragmentos filosóficos delirantes VI*

"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz."

"Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras - quais ? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo."

"Eu, alquimista de mim mesmo. Sou um homem que se devora ? Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e Deus."

"Nunca vi uma coisa mais solitária do que ter uma idéia original e nova. Não se é apoiado por ninguém e mal se acredita em si mesmo. Quanto mais nova a sensação-idéia, mais perto se parece estar da solidão da loucura."

"No dia seguinte não reconheço o que escrevi. Só reconheço a própria caligrafia. E acho certo encanto na liberdade das frases, sem ligar muito para uma aparente desconexão."

"Faço o possível para escrever por acaso. Eu quero que a frase aconteça. Não sei expressar-me por palavras. O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio."

*Clarice Lispector

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

SUGESTÃO DE PRESENTE PARA O FINAL DE ANO

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

As festas de final de ano se aproximam, e mais uma vez está na hora de começar a pensar nos presentes de natal, amigo secreto, formatura...

O que dar de presente para alguém que já tem tudo e não precisa de nada? Gravata, cinto, bolsa, CD, biquíni, perfume, livro, etc.

Seja o que for, esta pessoa já possui pelo menos cinco versões diferentes. A escolha do presente torna-se um exercício de criatividade, muitas vezes difícil de levar adiante e que acaba se transformando em tarefa aborrecida, deixada para a última hora e até mesmo esquecida.

Alguns levam a sério o espírito natalino, encarnam Papai Noel, preocupam-se em saber o que os outros gostariam de ganhar e dentro de suas possibilidades, presenteiam o objeto de desejo.

Outros ficam tão indecisos nesta hora que terminam por oferecer uma modalidade de presente criada no comércio, para facilitar a vida tanto de quem dá como de quem o recebe: o famoso e ao mesmo tempo impessoal cheque-presente.

Como funciona e qual a mensagem subliminar por trás de um cheque-presente? "Gosto de você, mas não lhe conheço o suficiente para saber o que lhe dar nesta ocasião, então achei melhor deixar você mesmo decidir. Vá até esta loja e escolha algo que lhe agrade dentro do valor X". A obrigação de dar uma lembrança é cumprida, e quem a recebe tem a liberdade de escolher entre as várias opções que a loja ofereça.

Resolve o problema de quem está sem criatividade, indeciso ou sem tempo, mas nem sempre agrada quem está recebendo. Para mim, dar um presente é mais ou menos como beijar. Dar um vale-presente seria o equivalente a pedir para outro entregar o seu beijo.

O valor fiscal do presente está no conteúdo e no preço, mas lá no fundo, o que vale mesmo é todo o trabalho (intelectual, físico e emocional) despendido para escolher, comprar e entregar. A dedicação é o valor agregado que não se inclui no preço do produto, por isto se chama “presente”.

Para o comércio o cheque-presente é uma opção interessante, pois assegura pagamento antecipado, com entrega da mercadoria no futuro. Existe, ainda, a possibilidade de o valor da compra ser aumentado mais adiante, caso o produto escolhido ultrapasse aquele estabelecido no cheque. Uma coisa é certa, o produto obrigatoriamente será comprado naquela loja.

Assim sendo, minha proposta é que este ano você faça a diferença. Presenteie aquilo que todos gostariam de ter, sem chances de errar. Ofereça saúde como presente. É isso mesmo que você leu: saúde.

Todos os adultos, depois de certa idade, devem prevenir doenças. Precisam de um check-up completo, mamografia, colonoscopia, consulta com clínico geral, cardiologista, dermatologista, ginecologista, urologista etc. Precisam, mas nem sempre o fazem.

Um vale-consulta, vale-exame, vale-academia pode ser o estímulo que faltava em direção à saúde.

Nos mesmos moldes do comércio de bens de consumo, ao presentear com o vale, a compra do serviço será efetivada, não podendo ser utilizada em outro estabelecimento, restando, então, a quem recebe usufruí-la.

Entretanto, diferente da impessoalidade que o cheque-presente traz em si, esta proposta de manutenção e melhoria de um bem incomensurável, invariavelmente trará à lembrança o responsável pela iniciativa. Fará registrar na memória aquele que, através de um gesto singular, demonstrou sermos verdadeiramente importantes.

“Vale-saúde” é um presente criativo e ousado, que talvez nem todos entendam num primeiro momento, mas inovações têm este preço.

Provavelmente você será encarado como maluco e precisará dar muitas explicações, mas o que realmente importa é que estará oferecendo o presente mais valioso e desejado da humanidade: a vida.

O tempo se encarregará de mostrar que seu presente não foi loucura. Foi uma prova de amor. E, além disso, de médico e de louco todos temos um pouco.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Uma Página em Branco

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

“O homem é a única criatura que se recusa a ser o que ela é”. Albert Camus.

Quando meus filhos eram crianças eu assisti Castelo Ra-tim-bum, onde o garoto Stradivarius recebe um livro em branco e irá usar sua imaginação para escrever sua história, suas magias.

Há um filósofo brasileiro que eu admiro muito que se chama Rubem Alves. Para mim, uma de suas maiores obras é o livro “O que é Religião”?. Que trata também desse assunto.

Vamos ao assunto: “Então a vespa caçadora sai em busca de uma aranha, luta com ela, pica-a, paralisa-a, arrastando-a então para seu ninho. Ali deposita seus ovos e morre. Tempos depois, as larvas nascerão e se alimentarão da carne fresca da aranha imóvel. Crescerão e sem haver tomado lições ou frequentado escolas, um dia ouvirão a voz silenciosa da sabedoria que habita seus corpos há milhares de anos:” chegou a hora, é necessário buscar uma aranha”.

Os pintassilvos cantam hoje como cantavam no passado. As colméias das abelhas, os joões-de-barro, não sei de alteração alguma para melhor ou para pior que tenham introduzido no plano de suas casas e tem sido assim há centenas de milhares de anos.

Como são diferentes as coisas para o homem. Tomemos uma criança recém-nascida. Do ponto de vista genético, ela já se encontra totalmente determinada: cor da pele, dos olhos, tipo de sangue, sexo, suscetibilidade a enfermidades. Mas como será ela? Gostará de música? De que música? Que língua falará? E qual será seu estilo? Por quais ideias e valores lutará? E que coisas sairão de suas mãos? Será engenheiro, advogado, médico, arquiteto? Aqui os geneticistas, por maiores que sejam seus conhecimentos, terão de se calar.

Por que o homem diferente de todos os animais, que é seu corpo, tem seu corpo, não é o corpo que o faz. É ele que faz seu corpo.

O mundo humano, que é feito com trabalho e amor, é uma página em branco na sabedoria que nossos corpos herdam de nossos antepassados.

O fato é que os homens se recusam a ser aquilo que a semelhança dos animais, o passado lhes propunha, tornando-se inventores de mundos. E plantaram jardins, fizeram choupanas, fizeram poemas, transformaram seus corpos, cobriram de tintas, metais, marcas e tecidos, inventaram bandeiras, construíram altares, enterraram seus mortos e os prepararam para viajar e, na sua ausência, entoaram lamentos pelos dias e pelas noites. Alguns adoram Deus, outros deuses e há aqueles que julgam ser ele o próprio Deus.

Minha pergunta é: por que razão os homens fizeram tudo isso? Onde estava a flauta antes de ser inventada? E o jardim e as danças? E os quadros? Ausentes? Inexistentes. Nenhum conhecimento poderia jamais arrancá-los da natureza. Foi necessário que a imaginação ficasse grávida para que o mundo da cultura nascesse.

Os homens não vivem apenas só de pão, vivem também de seus símbolos, de suas invenções de seus sonhos e para muitos isso é que dá sentido à suas vidas.

E você, o que tem inventado ultimamente?

Estamos juntos

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Grávidos de Deus

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Somos pertencentes a este universo infinito. Pó de estrelas.
Somos e estamos. Somos divinos e estamos humanos.
Por isto grávidos de Deus.

Esta consciência nos traz harmonia diante todos os conflitos existenciais.
O natal está chegando, tempo de parir o Si Mesmo, a criança divina que nos habita.

Hora de refletir sobre nossas possibilidades infinitas.
Hora de deletar vicios e agendanentos.
Hora de desapegar das tagarelices mentais.

Tempo de mergulhar profundo na alma e encontrar a fonte de luz.
Pare um pouco...
Inspire e expire... Assim lentamente a serenidade vai chegando.

Observe. Apenas observe.
As estrelas brilham na árvore da vida.
Os sinos anunciam....

Gestar é simplesmente estar aberto a receber um outro.
Só que o outro que vai nascer é o Cristo interno,
o ser consciente e luminoso que nos habita e no dia a dia esquecemos que Somos.

Prepare-se a festa é de cada um de nós.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Liberdade? Como assim!!!?


Floriza Maria Neves Veras
Filósofa Clínica
Teresina/PI


Existe algo mais controverso na nossa contemporaneidade do que o exercício da liberdade?

A primeira das dúvidas: Sou livre? A seguir inúmeras delas: Livre em relação a quê? Livre em relação a quem? Qual o meu parâmetro de liberdade? Eu fui livre para escolhê-lo? Como eu o reconheci para poder escolhê-lo? O que o outro faz dentro do meu conceito de liberdade?

Quem o colocou ali? (a pergunta é porque, segundo consta, o outro além de fazer parte dela também é minha responsabilidade) Quem disse que eu quero ou devo ser livre? Isso é bom ou é mau? É fácil ser livre? Quem julga a justeza de minha liberdade? Ah! Aonde me leva essa liberdade? Será ela um fim ou um meio? Para quem? Será ela finita como eu? (se minha liberdade interfere e gera desdobramentos no outro, isso pode extrapolar minha finitude). Eu responsável pela liberdade do outro? Será o outro também livre?

Minha mente fervilha de tantos questionamentos. Imagine só, até agora só falei da minha liberdade. O outro me fez lembrar que ser livre, significa conviver, interagir, ingerir, interferir, interceder com meus semelhantes. À expressão semelhante me ocorreram “n” interrogações, inquietações, reconhecimento de que, todas estas, conscientes ou não, habitam a mente de cada ser humano que busca, no decorrer desta rápida passagem, a qual denominamos de vida, a felicidade.

Felicidade, outro termo que nos remeteria a inúmeras outras indagações, e de novo nos encontraríamos imbricados na relação “eu e o outro”, porque é sabido que a felicidade é intima da liberdade.

Com o surgimento da filosofia a mente humana se liberta da dependência de deuses voluntariosos e por vezes mau-humorados que, sem regras e valendo-se de uma liberdade/poder absolutos, demonstravam seu poder através de artifícios que pudessem testemunhar sua força. Sob esta ótica todo o cosmo estava ao alcance de suas vontades e ao tiranizá-los encontravam nos humanos o alvo de suas ações, dado que estes pela crença se deixavam dominar.

O que esta independência representou para o ser humano? O termo LIBERDADE foi entendido e usado de maneiras muito diversas e em contextos diferentes desde os tempos dos antigos gregos até os tempos atuais.

No viés histórico filosófico sou livre, pelo menos minha mente possui todos os atributos para exercer a liberdade de “ser humano”. Se na minha singularidade sou livre e tenho os pressupostos para sê-lo, por que sequer conseguimos definir liberdade? Encaminhemos as seguintes considerações: sou livre na minha individualidade, mas só o sou porque sou humano.

É clássico o saber que o homem só desenvolve sua humanidade na interação com os outros humanos. Dado como certa esta premissa, é obrigatório o reconhecimento de um imbrincamento entre o meu agir e o do outro. Logo, podemos dizer: quando exerço minha liberdade o faço dentro de uma circunstancia que envolve outros, que concomitantemente estão a exercê-la a partir de suas circunstancias.

Na realidade de cada um é tecida, no intelecto, a percepção do outro, que alcança e é alcançada pelos fios da rede existencial. É desse amálgama que se constroem os parâmetros do agir e cuja mensuração é feita pelos seus componentes, voz tutorial que define, enfim, o nosso agir.

É lógica a conclusão de que o lugar do outro é indispensável na realização da nossa liberdade. Nossa, porque minha é só a liberdade intelectiva pois, quanto ao exercê-la, projeta-se em nós a perspectiva de pertença, que nos leva a desejar a legitimação perante o grupo de nossa influência.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Fragmentos filosóficos delirantes V*


"O sonhador, em seu devaneio sem limite nem reserva, se entrega de corpo e alma à imagem que acaba de encantá-lo."

"Pois o alquimista é um sonhador que quer, que goza em querer, que se magnifica no seu 'querer grande'. Ao invocar o ouro - esse ouro que vai nascer no subterrâneo do sonhador -, o alquimista pede ao ouro, como outrora se pedia a Indra, para "criar vigor". E é assim que o devaneio alquimista determina um psiquismo vigoroso."

"O sonhador escuta já os sons da palavra escrita. Um autor, não lembro quem, dizia que o bico da pena era um órgão do cérebro."

"Como pode um homem, apesar da vida, tornar-se poeta ?"

"O devaneio nos põe em estado de alma nascente."

* Gaston Bachelard

sábado, 18 de dezembro de 2010

Fragmentos filosóficos delirantes IV*

"O gênio enraizado no mundo contém em si todos os 'tipos'humanos, o louco, o santo, o criminoso, a mamãe e a puta, sem esquecer o tipo sem qualidades que constitui o homem de todos os dias."

"Trata-se na realidade de uma dialética específica, que poderíamos qualificar de alquímica, na qual o mesmo e o outro estão constantemente dialogando, num andamento sobressaltado, para formar um corpo social intenso que dura só um instante."

"No caso, a adesão aos totens coletivos parece-me traduzir um (re)conhecimento de si como resultado de um devir. Todos estamos na estrada. A realidade é estruturalmente impermanente."

"É instrutivo observar que, além da "língua oficial", a do pensamento conforme, existe uma multiplicação de idiomas, discursos tipicamente tribais, enraizados nas práticas cotidianas, de qualquer ordem que sejam: musicais, esportivas, sexuais, culturais e até políticas ou mesmo intelectuais."

"O sentido para a pessoa é fornecido pela pluralidade das máscaras que a constituem, e pelo contexto no qual suas diversas máscaras poderão expressar-se."

* Michel Maffesoli

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Abertura à subjetividade

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

Nossos dias estão cheios de receitas, conselhos, fórmulas, dicas, sobre como viver. “Pare de sofrer! Tenha metas na vida! Não se abale por qualquer coisa! Saia de dentro de casa! Não estude tanto! Você precisa aproveitar mais a vida! Você é muito jovem para casar! Já é tempo de começar a agir como um adulto!”

E tantos outros conselhos mais aparecem no dia a dia, como se a vida já viesse com um manual de instruções. Como se os que aconselham soubessem de um manual de como viver, e o conhecessem em todos os seus detalhes.

No entanto, o mundo não é feito de experiências semelhantes. Mesmo no caso de gêmeos, um sairia primeiro do que o outro, e daí já começaria uma série de pequenas diferenças de vivências que acarretaria no fim, numa enorme estrutura de pensamento de distância.

Respeitar as diferenças. Um ensinamento proposto pela Filosofia Clínica. Não há modelos a serem seguidos. Não há diagnósticos a serem encontrados. Há subjetividade.

E no consultório o partilhante apresenta seu pedido de ajuda para resolver algo que dificulta sua existência.
Não haverá pré-juizos a respeito dos procedimentos para ajudar quem busca o filósofo clínico.

Este, primeiramente, vai buscar colher tudo o que lhe for apresentado pelo sujeito que o procura. Dá-se, aí, a experiência da recíproca de inversão. O filósofo vai ao mundo do partilhante, tanto quanto é possível, e vislumbra outra maneira de ver o mundo.

Somente reconhecendo o modo como o partilhante vivencia sua existência, reconhecendo sua Estrutura de Pensamento, é que o filósofo começará a arriscar alguns procedimentos. Estes, chamados de submodos, serão aplicados a fim de ajudar o partilhante a seguir sua existência com seu conflito resolvido.

Não há, portanto, cura. Não há doença ou qualquer tipo de anomalia ou diagnóstico a priori. O que se observa é uma pessoa, única e irrepetível, solicitando um auxílio para suas questões. Cabe ao filósofo clínico reconhecer como essa pessoa vive e, partindo de sua própria individualidade, propor alguns caminhos. Caminhos estes anteriormente apresentados pelo próprio partilhante durante as consultas.

O trabalho da filosofia clinica está baseado nos princípios filosóficos. Mas, não como receitas, e sim como métodos de avaliação da historicidade do partilhante. Trata-se de um sistema aberto, cuja prática exigirá do filósofo um exercício de escuta e observação única com cada partilhante que se apresenta. Cada momento é ímpar.

Sem doença, fórmulas, receitas, manuais. Somente o filósofo clínico, com sua experiência e preparo filosófico e metodológico buscando a melhor qualidade de interseção possível com o partilhante, para que a recíproca de inversão seja frutuosa.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

MINAS*

SOL

CÉU AZUL

TRILHAS

ÁGUAS

MONTANHAS

VENTOS

FLORES

VEGETAÇÕES

PÁSSAROS

INSETOS

MURALHA DE PEDRA

INTERSEÇÕES

FARTURA DE VIDA


*Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei/MG

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

ALERTA: RUIDOS NA TRANSMISSÃO

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Na tentativa da comunicação verbal, nem sempre o que um fala é o que o outro escuta, e o mesmo pode ocorrer na forma escrita, quando o que se apresenta pode ser lido e entendido de maneiras diferentes.

A origem desta falta de sintonia pode partir tanto de quem envia como de quem recebe a mensagem, pois uma série de interferências internas e externas estão em jogo.

Nem sempre é fácil exprimir em palavras pensamentos e emoções, ou, em outros termos, é difícil transmitir com clareza um sentimento ou uma emoção, e talvez o motivo desta dificuldade seja a própria emoção, mas isto é um outro assunto...

Se por um lado existe a dificuldade em transmitir, receber também tem suas peculiaridades. Pessoas escutam, lêem, vêem e depois interpretam a mensagem de acordo com suas visões de mundo. Distorções também podem acontecer por desatenção, expectativa e ansiedade em assimilar de imediato o conteúdo da mensagem recebida. Um velho ditado popular já dizia “cada um escuta o que quer ouvir”.

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, dizia que o mundo não é mais do que “representação”, tendo de um lado o objeto constituído a partir de espaço e tempo e de outro a consciência subjetiva acerca do mundo, sem a qual este não existiria. O objeto, a coisa em si, passaria a ser representada por símbolos, idéias, valores, utilidade, de acordo com as visões de mundo de quem os estivesse utilizando.

Desacertos, brigas, mal-entendidos, quebras de contrato, divórcios podem vir a acontecer por descompasso no relacionamento, na comunicação ou em ambos. A literalidade das palavras poderia ser uma tentativa válida de sintonia na comunicação?

O ser humano é essencialmente verbal, utiliza palavras tanto para explicar como também para enganar, iludir, persuadir.

A linguagem verbal pode utilizar meios complementares, tais como gestos e expressões corporais, (“o corpo fala”), sem falar em recursos da própria palavra, trazidos pela diferentes culturas, tais como gírias, metáforas, simbologias, etc.

Experimente literalizar a explicação de um pensamento ou sentimento sem o uso de metáforas, simbologias e você terá idéia da dificuldade. Todos esses recursos utilizados podem ser eficientes para prender a atenção do receptor, mas não necessariamente ao conteúdo da mensagem. Podem inclusive, ter efeito contrário ao desejado, desviando a atenção e dificultando o processo de compreensão.

Mesmo quando do uso de uma mentira, isto nem sempre é um sinal de hipocrisia, pois às vezes acredita-se tão firmemente na versão ou visão criada, que a mentira está sendo contada inicialmente para o próprio criador e a palavra emitida já sai distorcida da realidade.

Há que se considerar que palavras nem sempre acompanham a velocidade do pensamento, e a diversidade humana representada por vivências, crenças, expectativas, bagagem cultural torna o processo de comunicação eficaz uma missão praticamente impossível. Assim, palavras, emitidas ou recebidas em plena literalidade, não seriam confiáveis e seriam incompletas em seu significado.

Talvez uma alternativa menos sujeita a falhas fosse prestar mais atenção aos atos, ao comportamento do que as palavras e promessas. Confúncio já dizia: “Atue antes de falar, e portanto fale de acordo com seus atos”.A distância entre o que as pessoas dizem e fazem muitas vezes não é percebida nem por quem fala nem por quem ouve.

Quando alguém nos dá a entender determinada situação, dizendo as palavras que queríamos ouvir, nossa reação natural é encaixar as palavras em nossa visão de mundo e acreditar no que ouvimos, muitas vezes ignorando o comportamento e funcionamento incoerente do prometido. Nossa escolha foi prestar atenção somente no que nos interessa e nos iludir com as palavras, ignorando o objeto, a situação ou a conduta de quem promete.

Sob esta ótica, a palavra seria uma forma de manipular a representação de mundo das pessoas. Uma ferramenta poderosa, que dependendo do uso, pode criar, levantar ou destruir visões de mundo. E esta ferramenta pode ser ou vem sendo utilizada por políticos, publicitários, professores, artistas, terapeutas e formadores de opinião muitas vezes de maneira irresponsável, sem medida de suas conseqüências.

Uma palavra mal interpretada, uma virgula fora do lugar, uma informação recebida sem reflexão, podem destruir pessoas, relacionamentos e até mesmo países.

Passemos a um exemplo prático: ao se anunciar um shampoo como o melhor para cabelos crespos, o que significa a palavra melhor? Qual a sua dimensão? Um político ao prometer um melhor tratamento a saúde pública, um terapeuta ao dizer que assim será melhor a seu paciente, um parceiro ao prometer melhor empenho, um professor ao indicar o melhor livro, estão pensando e transmitindo o quê? E o que foi captado pelo interlocutor terá alguma relação com o que foi pensado ou dito? Tudo depende de valores, elementos essencialmente subjetivos, que podem divergir completamente na concepção dos interlocutores.

Cuidado com as palavras. Palavras são anões. Exemplos são gigantes. Um verdadeiro intelectual não é medido pelo que lê, escreve ou fala, e sim por uma vida comprometida com suas idéias.

O critério de escolha de um político, terapeuta, companheiro, produto ou serviço ao se basear em palavras, titulações ou estética pode ser falho e gerar desilusões. A observância do comportamento, comprometimento e coerência entre o falar e o fazer são condutas mais apropriadas tanto para quem fala como para quem ouve, não esquecendo de que o silêncio pode falar mais do que mil palavras.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um carvaval que passou

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Como era bela tua fantasia... Deixei-me ofuscar pelas plumas, paetês, gregas, purpurinas... Tua alma por debaixo das vestes não tinha o mesmo brilho. "Ilusão carnavalesca" e eu de palhaça as gargalhadas.

Franca alegria era a minha aos pulos entre confetes, serpentinas, até tu escafeder-se. Segui na festa ladeira acima, ladeira abaixo, feliz com tua partida.

Ao clarear o dia próximo de um bueiro, vi tua máscara ao chão. Tomei com prazer mais um gole de cerveja e perguntei ao sol: Com que máscara tu irias desfilar agora?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Carinho cuidador

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

O corre e corre da vida nos coloca , muitas vezes, em falta com quem amamos.

Priorizamos as festas, as compras, a televisão, a internet, mas não temos tempo para uma visita, um telefonema a fim de cuidar de quem dizemos amar.

Neste mundo hiperconsumista o Outro fica sempre em segundo plano. As "coisas" passaram a ter mais valor. É uma pena!

Onde ficam as amizades verdadeiras? Onde ficam o compartilhar e estar juntos pelo simples estar junto? Onde ficam as confidências e trocas afetivas?

O movimento Slow nos convida a refletir sobre o tempo perdido com as correrias, inconsciências e consumismo desenfreado. Encontrar um tempo para um carinho cuidador alimenta nossa alma e nos traz de volta a humanidade.

Urge pararmos e pensarmos na importância de estarmos com o outro para vivermos coisas simples. Um papo legal ou cabeça. Um cozinhar juntos e deliciar uma boa mesa. Um caminhar sem pressa. Ler lado a lado comentando o lido. Coisas simples compartilhadas aquecem a alma.

Dar ou receber um carinho cuidador preencher nossa vida de significado. A alma se faz na relação com o outro.

Pensar como Sartre que o inferno é o outro , muitas vezes pode fecharnossa disponibilidade ao acolhimento amoroso. Compreensão, compaixão, paciência nos faz mais amorosos e prontos a cuidar do Outro.

Quer um carinho? Pois me encontre numa das estradas da vida. Vamos como peregrinos caminhar, lado a lado, no exercício de viver em comunhão o dia a dia.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Fragmentos filosóficos delirantes III*

"A base da geometria visual é a superfície, não o ponto. Esta geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam."

"Depois refleti que todas as coisas sempre acontecem precisamente a alguém, precisamente agora. Séculos de séculos e só no presente ocorrem os fatos."

"Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça."

"Hladik preconizava o verso porque ele impede que os espectadores se esqueçam da irrealidade, que é a condição da arte."

*Jorge Luis Borges

sábado, 11 de dezembro de 2010

Fragmentos filosóficos delirantes II*

"A ciência jamais pôde entender o irracional, e portanto não tem futuro diante de si neste mundo."

"Desconfiem de uma mulher que confessa a sua verdadeira idade. Uma mulher que diz isto, poderá dizer qualquer coisa."

"A moderação é uma coisa fatal. O suficiente é tão antipático quanto uma refeição. O superabundante é tão bom quanto um banquete."

"A sociedade pode até perdoar ao deliquente, mas nunca perdoa ao sonhador."

"Podemos resistir a tudo exceto às tentações."

"Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas."

"O que vem a ser a verdade ? Em assuntos religiosos, não passa da opinião que prevaleceu. No campo da ciência é a última novidade. No plano da arte, é a mais recente atitude do espírito."

*Oscar Wilde

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Fragmentos filosóficos delirantes I*


"Havia muito tempo que a pintura linear pura me enlouquecia, até que encontrei Van Gogh que pintava, não linhas ou formas, mas coisas da natureza inerte como se estivessem em plena convulsão."

"Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma idéia assustadora, e que só no delírio consegue encontrar uma saída para as coerções que a vida lhe preparou."

* Antonin Artaud

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Educação do Pensamento

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Há quem divida as coisas de tal forma que o que é visível é educado, penteado, possui vida pública; os invisíveis da vida, como o pensamento, podem ser deixados aleatórios, soltos, selvagens em seus domínios, mal criados. Não é liberdade, é desleixo. Não é autonomia, é descuido. É negligência também.

Mas isso somente se estende aos invisíveis. Quando o pensamento se torna visível, segundo a métrica de quem o divide assim, então imediatamente ele se torna educado e solícito, social, mostra urbanidade.

O pensamento se torna visível quando a pessoa vai expor um assunto no qual acredita, por exemplo. Mas, ainda assim, em tal caso há dois pensamentos básicos: um é educado segundo os preceitos mais profundos da hipocrisia convencionada; o outro, sincero e desleixado, desmazelado e porco, não aparece.

Alguns que dividem as coisas desta forma, pelo próprio estilo alcoviteiro, oculto, esquivo com que moldam ao relento suas ideias, podem achar que têm neste pensamento subsidiado um aliado. Os motivos pelos quais alguns creem nisso vai da proteção que dão à má educação até certas cumplicidades que só são subscritas nas alcovas de porão, sem passagem para a luz.

Eis que um dia o sujeito está alquebrado pela vida, mal sucedido em suas empreitadas de vivente urbano. Precisa de forças, de amizade, de quem lhe dê tapinhas às costas. A parte que educou de seu pensamento vai tratar disso, marcará os exames cardio respiratórios, procurará amenidades e buscará os auxílios. A parte má educada pode incomodar com incriminações; tachar, inculpar, imputar faltas ela usualmente poderá fazer; e, como é aleatória, mimada, inexperiente em coisas que exigem educação, chutará para os vários lados, contra, a favor, nem sempre separando as coisas; pode se tornar intransigente, irritadiça e recorrente em suas constantes interferências no humor, na alma, na pouca alegria que ainda resta para viver.

O pensamento mal educado não é mau, é apenas mal educado. Ele se comporta como um filho que não recebeu instruções de urbanidade, não sabe respeitar um velho pai, nem a si mesmo, e quando tenta fazer isso é usual que tudo se passe ao contrário.

Por que não educar o pensamento, tal qual fazemos com a higiene, a alimentação? Educação rima com liberdade, com cabresto, com autonomia, com escravidão. Em alguns casos é até mais indicado um pensamento mal educado do que conceitos vitorianos; em alguns casos.

A educação do pensamento seguirá os indicativos do que é próprio, pertinente, peculiar a cada pessoa. Não existe aqui uma regra, mas uma intenção. Educar segundo o que está em movimento desde cedo. Por exemplo: um sujeito com propensão a artífice que vai lidar com ferro recebe instruções neste sentido, assim como uma pessoa dócil e inclinada kantianamente aos preceitos exatos receberá réguas e esquadros para desenhar seus conceitos.

Um trecho de um escrito de Amadeu Amaral como ilustração:

“Para um simples passageiro de bonde, as ideias são como os bilhetes de loterias: é preciso jogar em muitas, para ter probabilidade de acertar em alguma. E ainda o melhor é não acertar. Criar fama de rico é uma das mais graves maçadas que possam cair sobre quem não necessite de tanto numerário. Responsabilidade social muito pesada. Admiradores. Compromissos. Facadas, amabilidades, invejas, intrigas, amofinações... Que bom travesseiro, a pobreza! A mim, o que me fez sorrir diante do louva-a-deus foi o riso dos outros, tão saudavelmente natural e estúpido. E foi também o próprio louva-a-deus, natural e bobo como esse riso.”

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pérolas imperfeitas*


“Não se evita impunemente uma crise interior.”
Cioran


Havia um rumor de vida nova naquelas incompletudes. Algo próximo de um vocabulário, talvez. Um teor inovador e de aparente sem nexo oferecido nas possibilidades de descobrir e inventar. Experimentações discursivas e as retóricas da existência apreciam conceder visibilidade por esses jogos de linguagem.

Espécie de diálogo contido entre o dizer e o não dizer, quem sabe até conversação entre questões imediatas e últimas. Disputa pela supremacia, um pouco antes de ser alguma coisa. Na estrutura tênue dos convívios, aprender a ver através das aparências pode significar mais.

É interessante notar que as vivências mais intensas possuem grande dificuldade para encontrar sua melhor perspectiva. A saga do querer dizer, pode se mostrar antítese as lógicas mais consideradas. Ainda assim, a multidão de personagens e fenômenos sem nome, deixa rastros visíveis nos intervalos da palavra.

Os termos agendados possuem eficácia de anunciar algo novo em cada expressão. Nas entrelinhas da indeterminação epistemológica uma quase idéia se faz rascunho. Ameaça a considerável lucidez com seus excessos e descontinua-se noutras buscas.

Na penumbra as miragens e sonhos esboçam efêmeras promessas. Assim, ao tentar descrever os rituais do incrível desconhecido, as expressões podem ser inacessíveis fora da casinha.

O esforço para se sair de uma realidade para entrar em outra, pode parecer loucura à perspectiva que se tenta superar. A vertigem da razão desencontrada pode ser um ritual de desabamento às retóricas da certeza.

Mesmo ao respeitar a literalidade, a manifestação de cada sujeito ficaria sem sentido, se distanciada dessa via precursora ao instante do dizer. As verdades em projeto possuem característica mutante ao olhar desacostumado com a sonoridade dos ritmos de cada língua.

No caso de ser refém da própria imaginação, é possível desvirtuar a maior parte da vida objetiva, transformando tudo ao redor num sonhar acordado. Nos vãos entre uma palavra e outra existem conteúdos, possível verdade de um devaneio, a se alojar nalgum exílio de aspecto inacessível.

Armadilhas conceituais decadentes ampliam os rastros da matéria-prima assim constituída, numa improvável versão fronteiriça onde real e irreal se misturam. Ao resvalar por uma e outra, os textos inacabados profanam convicções. Ao errante da incompletude se esboçam outras visões, incontáveis vontades a espera da melhor resenha.

Na atividade febril das releituras, as hermenêuticas do silêncio podem reconhecer um fugitivo de si mesmo. A ficção, tantas vezes ofuscada pela realidade, parece querer dizer sobre eventos onde elas se confundem. Os nomes e derivações transgridem o mundo conhecido em busca de sua alteridade. Diálogos sobre o lugar onde não-ser é.

Existe um saber andarilho, situado nalgum ponto entre a intencionalidade sem palavras e aquilo objetivado pelo desfecho. Ao romper o tédio dos dias perfeitos, a escassez conceitual pode significar uma antítese inesperada para outras direções. Como o vocabulário possui intimidade com os ânimos da subjetividade envolvida, é importante contextualizar a incerta clarividência sobre o que o outro quer dizer.

A insensatez de um cotidiano fora de foco permanece irreconhecível e à espera de alguma tradução. Sua ousadia é fonte de inspiração e se apresenta como perseguição solitária aos conteúdos do instante. Por esses rituais da não-palavra, a descrição dos fatos pode revelar subúrbios e afrontar os limites da certeza.

Na interseção com os códigos da singularidade, é possível encontrar a melhor perspectiva aos refúgios apontados pela estrutura do dizer.

Os conteúdos da inconclusão discursiva apreciam as reticências para oferecer contrapontos ao mundo conhecido. Assim, procuram testar as definições bem construídas, na concepção de um agora a possuir nada como ponto de partida.

Como algo que se anuncia, o espaço de um triz é capaz de transformar insignificâncias lógicas em algo mais. Aqui a interseção entre as formas delirantes e o cotidiano das eficácias discursivas oferece paradoxos para ser matéria-prima. Seu aparecimento sugere uma avalanche de originais, contida na linguagem inovadora, muitas vezes silenciada pela insegurança pioneira.

A dialética investigativa dessas a-versões costuma revelar múltiplos disfarces antes de encontrar alguma tradução eficaz. Aqui não se trata de tentar unificar os caminhos do entendimento, mas, ao contrário, tentar compreender a diversidade de interseções entre a pessoa e seu vasto universo interior. Ímpetos desconstrutivos costumam proteger essas vias de acesso.

Uma sensação de óticas de meia-verdade pode renovar os dialetos do saber marginal. Momentos onde a invenção da palavra costuma atualizar as pronúncias desconhecidas. As lógicas da imprecisão narrativa ajudam a decifrar o transbordamento dessas vivências consideradas indecifráveis.

A historicidade dos pretextos delirantes pode querer anunciar vislumbres, até então, ofuscados pela camisa de força da normalidade. A pluralidade do universo singular poderia ficar incomunicável ou aprisionado nalguma tipologia psiquiátrica, sem o aperfeiçoamento da semiose pessoal.

Nos eventos idealizados nos manuscritos se encontram múltiplos disfarces. Como se fora uma ficção sem ser, esses conteúdos apreciam ficar improváveis a vida lá fora. Os apontamentos em torno da escrita cuidam de proteger os refúgios ao mundo dos princípios de verdade.

A solidão de uma vida sem nomenclaturas se utiliza das estéticas da ilusão, para oferecer um esboço tênue e dispensar roteiros preestabelecidos. Ao cuidar e proteger os novos territórios, a aptidão de ser invisível oferece ao alienista apenas aquilo que ele procura.

Os monólogos da insignificância guardam antigos segredos. A idéia de uma só leitura diante da autoria precursora pode estruturar um não texto, um viés de anúncio solitário. Sua pronúncia estranha pode ficar inexpressiva ao vocabulário conhecido.

Assim os rascunhos da originalidade ensaiam novas texturas entre o pensar e o agir. Ao conceder um relance pelos novos signos, buscam facilitar a apreensão da versão do sujeito, como se estivesse renascendo por esse vocabulário recém chegado.

Em um mundo de burocratas, um ser visionário expõe um estranho esboço de si mesmo. O foco súbito parece querer compartilhar um lugar promissor as singularidades. As memórias sussurradas oferecem um deslocamento fugaz pelo inusitado subentendido. Os sinais esparramados reivindicam considerar o ainda sem nome.

Os termos agendados costumam antecipar a sutil microfísica dessas peculiaridades. As inúmeras perspectivas parecem transitar num limiar indizível, como uma miragem a deslizar entremeios da epistemologia tradicional. Seu aspecto de menção substituta associa o alheio e o estranho.

O instante fugaz desorganiza e prepara o seguinte, animado pelas cinzas que deixou para trás.
Pela porta entreaberta entre um nada e alguma coisa, a vida descontinua-se em ensaios, um pouco antes de ser história.

Na perspectiva da palavra, existem múltiplas formas camufladas de impossibilidade. Nos entremeios de um discurso muita coisa ainda segue inacessível.

Esses conteúdos distantes da vida de superfície preservam a arte da confidência. Os estudos e percepções sobre a linguagem desestruturada vão além do que se consegue dizer. Mesmo a aliada contradição, muitas vezes, não consegue auxiliar a travessia entre a referência ideal e sua transcrição.

A vitalidade subjetiva se alimenta no desacordo dos consensos. Lugar onde a imprecisão discursiva se entrevista para se superar.

Na historicidade assim disposta, um sem sentido aguarda legitimação. Talvez a rara aptidão dos românticos fracassados consiga realizar (no outro) a transição das crises para as possibilidades que anuncia.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Viajando com Paul

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Temos uma expressão muito comum por aqui: “Viajou, foi pro espaço”. Foi o que aconteceu comigo nessa segunda-feira no Show de Paul McCartney. Na Filosofia Clínica chamamos isso de deslocamento longo.

Eu costumo usar esse sub-modo como um auto procedimento quando estou naqueles lugares onde não me identifico: nas esperas de vôos em aeroportos, em viagens internacionais onde preciso dormir sentado numa poltrona de avião e em muitos outros casos... ao contrário nesse caso na categoria lugar do que me aconteceu no Morumbi no show.

Quando Paul e sua banda tocou “Hey Jude” o Morumbi inteiro, como num transe coletivo, num coro afinado, acompanhava com harmonia a melodia e com entusiasmo pronunciava cada palavra da letra da música.

Eu fechei meus olhos e em êxtase me desloquei para um mundo melhor, sem violência, sem compromissos, sem correrias, sem tristezas, sem dor e ali fiquei ouvindo Paul dizendo: “ Ei Jude não carregue o peso do mundo sobre seus ombros”.

Era para mim, era para todos nós que ele dizia “pare de chorar, pois a vida é bela” e só fui acordar de meu transe no “lara la la lara la la...” Quando abri meus olhos, ao meu lado estavam chorando desde jovens de 60 anos a adolescentes de 14, homens, mulheres, avós e netinhas abraçadas chorando. Impressionante, emocionante, extasiante... Que coisa.

Ouvir canções como “A Day in the life”, “Let it be”, “Blackbird”, “All my loving” na voz de quem fez e deu vida a isso, é um sonho realizado. Já plantei minha árvore, escrevi meus livros, tive meus filhos e agora assisti um show de Paul, um ex Beatles, essa também era uma de minhas buscas.

Acompanho Paul McCartney desde que ele sonhou, levantou, escreveu e deu vida àquela que para mim foi a canção que mudou a vida da banda dos quatros garotos de Liverpool e também a história da música no planeta, estou falando da música “Yesterday”.

Para Lindolf Bell, poeta catarinense que diz: “menor que seu sonho você não pode ser” - lembrando que isso era sim para Lindolf Bell - advertindo que para cada um pode ser diferente.

No caso de Paul McCartney, ele sonha, acorda, põe no papel, vira um projeto, grava, isso é, põe em prática, ou seja, tira do papel, não fica só no sonho, na intenção. É como no dizer de Amyr Klink “um dia temos que deixar de sonhar e partir”, se para alguns o sonho é o prenúncio da realidade, aqui temos um exemplo, uma prática.

Paul se preparou para fazer esses shows no Brasil. Ele aprendeu um bom vocabulário em português e usou para interagir com a plateia.

O show durou mais de três horas e ele dançou, pulou, cantou, gritou todo o tempo em que esteve no palco como um garoto de 18 anos. Em muitos momentos eu me deslocava para Liverpool, lá no Cavern Club onde tudo começou, tamanha a vitalidade desse jovem de 68 anos. De novo: ele se preparou para o trabalho. E nós nos preparamos para nossos afazeres?

Ele homenageou seu amigo e companheiro de tantas composições John Lennon,(Lennon e McCartney a dupla de todos os tempos) se emocionou quando afirmou que escreveu “My Love” para seu grande amor ou sua gatinha, como ele disse em português, “essa música é para minha gatinha Linda McCartney”, homenageou seu amigo George Harrison com a música da composição do amigo “Something”, foi emocionante esse momento.

Com uma produção como nunca havia visto antes, uma banda de quatro cinquentões que fazem por merecer estar no palco com ele. Ele se superou, ele se reinventou.

Inesquecíveis, emocionantes, contagiantes e maravilhosos momentos que vivi e que me acompanharão pela minha existência.Ainda estou atônico. Muito agradecido, queria dividir com vocês, espero ter repassado um pouco do que vi e senti.

Estamos juntos

domingo, 5 de dezembro de 2010

Despir-se de si

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ


Não fazer do mundo uma extensão de minhas interpretações. Este é um imperativo intrínseco à Filosofia Clinica. Não vamos encontrar isso nos cadernos de estudos nem nas aulas. Isso é um aprendizado da prática.

Compreender a Filosofia Clinica na prática é admirar o mundo, as pessoas, as coisas, as situações, sem querer dar a nossa solução ou interpretação para tudo.

A Filosofia Clinica nos ensina como as pessoas podem nos falar de si mesmas. Sem interpretá-las, nós aprendemos delas sobre elas. Reconhecemos diretamente da fonte. Interpretações são secundárias. Afinal é melhor ler uma obra do que o comentador dela.

Entrar no universo significativo do outro é abandonar, por momentos, meu próprio universo, ainda que em parte. A recíproca de inversão, ato de ir ao mundo significativo do outro, é um exercício nem sempre tão fácil.

As significações são tantas, e algumas podem nos confrontar com valores e modos de viver totalmente opostos aos nossos. Do mesmo modo outro risco pode surgir com a identificação com o mundo do outro, a ponto de chegar a esquecer de continuar aprofundando no que ele diz, e acabar por ficar inversivo, buscando em si e não no partilhante, as respostas para as questões existenciais dele.

A clínica filosófica é um desafio. Não se encontram outros meios para resolver as questões existenciais do outro do que nele mesmo. Não há livros com respostas ou lista de diagnósticos possíveis. Cada partilhante é um caso a ser diagnosticado, sem precedentes.

As seguranças são deixadas de lado. Tira-se a sandália dos pés para adentrar no solo sagrado que é o outro. Não há nada prévio a não ser o fato de o partilhante estar em busca de algum tipo de ajuda, o que também pode não acontecer. A partir daí, tudo é surpresa e novidade.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A ALIANÇA E O COMPROMISSO*

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Antes de colocar esta aliança em tua mão, preciso te contar algumas coisas sobre meu passado e nosso futuro.

A aliança funciona como um símbolo de compromisso do casal, uma representação visível de algo invisível, mas muito real, o nosso amor. O casamento civil também é uma maneira de materializar o compromisso, noivos e testemunhas assinam o documento.

De uma forma ou outra, ambos servem para representar esta relação com o transcendente. E por serem visíveis, concretos, reconhecidos publicamente, por vezes acabam por colocar em segundo plano o que foi a sua origem: o compromisso por amor e para amar.

Mas que compromisso é esse? Vou te dizer o que significa para mim e se concordares, gostaria de poder vestir esta aliança em nossas mãos com a excitação que este momento pede e com a tranquilidade de saber que esta troca está acontecendo contigo. O compromisso é simples, exige apenas dedicação para termos a cada dia, a certeza da escolha de estarmos verdadeiramente juntos.

Para evitar confusões, sugiro que nosso compromisso seja visível e palpável. Faremos um contrato, mas será escrito em braile. Cada vez que nossas mãos se tocarem escreveremos uma palavra; quando meu braço envolver tua cintura será uma frase; acariciar teu pescoço significará um parágrafo. O beijo será nossa assinatura.

Palavras não serão necessárias, gestos e atitudes darão validade ao contrato, que assim escrito dificilmente terminará nos tribunais. A aliança de ouro branco apenas simbolizará a preciosidade de uma relação que sonha ultrapassar o tempo e se manter fiel ao que agora sentimos um pelo outro.

Pode parecer bobagem ou caretice, mas é assim que imagino nós dois no futuro. Será que conseguiremos? Quero antecipar a resposta. Algumas coisas me dizem que sim. Tornamo-nos aprendizes um do outro, nossas diferenças ao invés de atrapalhar, transformaram-se em ganhos.

Tornou-se fácil olhar atentamente para ti, respeitar o tempo, questionar a dúvida, dividir os sonhos, incitar o encantamento. Devagar, sutilmente, através do toque fizemos a leitura um do outro e nos traduzimos. Hoje já consigo ler em ti muito daquilo que vai em mim. Sinto que estamos nos tornando cúmplices no desejo e na forma. A nossa forma impar de ser um par.

Em um mundo de incertezas, riscos, descrédito, separações, o fato de juntarmos nossas fichas nesta aposta é um bom começo. Sugiro ter na aposta a primeira cláusula do nosso contrato. Qual a segurança que teremos? Não sei, mas se mantivermos a aliança formada pelo abraço de nossos corpos, a franqueza de nossas conversas e a confiança mútua, nossas chances são grandes. Apesar do trocadilho, o sucesso desta aliança está exclusivamente em nossas mãos.

Mais ainda, além de celebrarmos tátil e emocionalmente este contrato, podemos ser também as testemunhas. Que cada um saiba que terá no outro a validação de seus atos, desejos, inseguranças, alegrias...Já pensou? Seremos testemunhas da vida do outro. E cúmplices também. E amantes, é claro.


* Antes que me perguntem, vou antecipar. Escrevi este artigo na solidão de um quarto de hotel, enquanto pensava nos casamentos fugazes e descartáveis que costumam acontecer em Las Vegas e ao redor do mundo. Coloquei então no papel aquilo que gostaria de dizer, sentir e ouvir no momento de assumir um compromisso de amor, mas achei que não era a hora de publicar.

Guardei o artigo com a convicção de que um dia encontraria a pessoa para a qual aquelas palavras estavam destinadas e a ela entregaria, em primeira mão, a proposta do “nosso compromisso”. Foi uma sábia escolha. Ela diz que preferiu ouvir a ler. Confesso também que foi mais fácil falar que escrever. Quem é ela? Aqui pouco importa. Os símbolos é que são colocados para serem vistos por todos, o compromisso é só entre nós dois.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Nenhuma certeza

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Tudo pode ser ou não ser. Mutação contínua.
Duvidar...Mente aberta ao sempre aprender.
Espanto, surpresa, novidades.

Buscamos certezas como muletas para darmos conta de vivermos com as incertezas.
A experimentação muitas vezes assusta. Romper e renovar pode ameaçar.

Quantas vezes vestimos uma bandeira radical e fundamentalista, ditando certezas para esconder nossas inseguranças e medos?

O que foi hoje pode não ser amanhā.
Para que congelar a vida e encouraçar a alma?

Abertura as incertezas, porta aberta para as novidades de cada instante poderá nos fortalecer.
Controlar, dominar nos protegerá das surpresas que a existência faz acontecer?
Buscamos respostas prontas, regras, normas, leis.... Porque e para que?

Copiamos pensamentos e nos iludimos com mil palavras. Maluquice.O que é certo ou errado?
Onde fica a nossa singularidade e nossas experiências?
Temos desejos e vontades, nenhuma certeza. Faltas que esperam ser preenchidas. Vida.

As certezas estagnam a vida, fecham em copas as possibilidades infinitas. Colocam nos museus em molduras eternas um instante congelado do existir.

Viver. Experimentar. Sentir. Percepcionar. Pensar.... Agora. Tempo sem nenhuma certeza. Que venha o que tem que vir.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Carta de Nova Veneza/SC


Aos 26, 27 e 28 de novembro do ano de 2010, reuniram-se no Instituto Sagrada Família filósofos Clínicos de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul para o IX Encontro Sul Catarinense de Filosofia Clínica, com a temática “Filosofia Clínica na Prática”.

A abertura do evento se deu às 20 horas do dia 26, com a apresentação do encontro pelo Diretor do Instituto Sul Catarinense de Filosofia Clínica, logo após a diretora do Instituto Sagrada Família apresentou a casa aos filósofos. Também participaram do cerimonial de abertura a secretaria de cultura do município de Nova Veneza, com a apresentação do Carnaval de Veneza e a apresentação do município.

Dada a abertura do evento, inicia-se a primeira palestra do encontro com a temática “Filosofia Clínica e Religiosidade”, ministrada por Lúcio Packter, idealizador e criador da Filosofia Clínica.

Na palestra Packter mostrou as possibilidades da formação da religiosidade dentro da historicidade de cada pessoa, abordando possibilidades de religiosidade baseadas na singularidade.

No seguimento dos trabalhos, tivemos o debate coordenado por Mariza Niederauer. À respeito do assunto, estabelecemos as conversações entre o tema Filosofia Clínica e Religiosidade e os conteúdos trazidos pelos questionamentos de cada um dos participantes do encontro. Lembrando que a religiosidade se mostra para cada um de maneira ímpar, levando em conta sua historicidade, abandonando o certo e o errado, o bom e mau. Mas construindo um conceito novo, onde cada indivíduo tem a possibilidade de desenvolver seus conteúdos.

No dia 27, sábado, o palestrante Hélio Strassburger trabalhou o tema “Apontamentos sobre a singularidade e a lógica dos excessos”, trazendo a colaboração do trabalho em hospitais psiquiátricos.

Em sua palestra, o Professor Hélio apresentou a idéia de que temos outros tipos de lógica, ainda distante do que chamamos lógica, ou seja, um raciocínio bem estruturado. Destaca também que o trabalho de um filósofo clínico é um trabalho de imersão, necessita que o terapeuta vá ao mundo do outro com fundamento e método.

Dando seguimento ao tema o debate foi coordenado por Bruno Packter, colocando as questões dos presentes, as possibilidades de trabalho com pessoas ‘desestruturadas’.

No período da tarde abrimos com a palestra de Darcy Nichetti, com a temática Filosofia Clínica nas Empresas, trazendo as colaborações de uma experiência desenvolvida pelo centro de Curitiba, Paraná.

Em suas colocações Darcy aponta para as possibilidades metodológicas da construção de uma ferramenta de consultoria empresarial baseada na Filosofia Clínica. Com base em sua experiência e nas perguntas do grupo, coordenado pela filósofa Nichele, o palestrante mostrou os resultados positivos do trabalho que pode ser feito com a Filosofia Clínica dentro do ambiente organizacional.

No seguimento dos trabalhos a temática da palestra foi Filosofia Clínica e Educação, trabalhada pelas colegas do centro de Chapecó. Os trabalhos ocorreram com o estudo prático da obra de Monica Aiub, Filosofia Clínica e Educação: A atuação do filósofo no cotidiano escolar. Sua proposta é construir, a partir da Filosofia Clínica, ferramentas de apoio no desenvolvimento do processo de ensino aprendizagem e na melhoria das interseções.

O próximo trabalho foi apresentado pelo filósofo clínico Bruno Packter, com o tema Historicidade e Filosofia Clínica. Na exposição e conversações com os colegas a historicidade foi trabalhada como possibilidade no tratamento das interseções. Sendo que, ao conhecer cada indivíduo através da historicidade, o filósofo clínico tem objetividade para trabalhar com os conteúdos envolvidos.

Na noite do dia 27 o palestrante Beto Colombo apresentou e desenvolveu com o grupo o trabalho Filosofia Clínica e Música. Contando a historicidade da música e apresentando os agendamentos advindos da experiência individual ligados à música.

Como exercício de grupo os filósofos elaboraram a Estrutura de Pensamento da música Ando Devagar de Almir Sater e Renato Teixeira.

Na manhã de domingo, dia 28, os colegas iniciaram a manhã com uma caminhada para conhecer as belezas de Nova Veneza, visitando as casas de pedra, um dos pontos turísticos da região.

No retorno ao Instituto Sagrada Família os colegas apresentaram os centros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com suas peculiaridades e desafios.

Para fechar o IX Encontro Sul Brasileiro de Filosofia Clínica Lúcio Packter apresenta o tema Filosofia Clínica: a situação atual no Brasil e no mundo. Em sua fala Packter apresentou um pouco da história da Filosofia Clínica desde sua origem até os dias atuais.

A cada encontro os filósofos se reúnem para trocar experiências e renovar os ânimos num trabalho ético e construído através do outro. No IX Encontro Sul Brasileiro não foi diferente, os filósofos foram acolhidos na busca da construção de uma interseção fundada no interesse comum pela Filosofia Clínica.

Nesses encontros os colegas tem a oportunidade de se colocar de maneira singular, apresentando suas tristezas e alegrias do trabalho de filósofo clínico.

Nas palavras de cada um dos palestrantes tivemos a oportunidade de aprender um pouco mais sobre filosofia clínica. fomos advertidos sobre os erros que se pode cometer quando falta a fundamentação teórica e o retorno às bases. Também nos advertiram de que é necessário cuidar dos cuidadores.

Para oportunizar além dos momentos de reflexão baseados nos estudos e experiências individuais o encontro teve momentos de descontração. Onde puderam cantar, dançar, conversar e conhecer colegas de outros lugares do país.

Assim como os filósofos de outrora, nos reunimos, debatemos e crescemos no conhecimento da Filosofia Clínica. Assim como Platão no Banquete e outros filósofos favoráveis à uma boa reflexão e diversão, nos reunimos, refletimos e bebemos a Filosofia.

Nova Veneza/SC, 28 de novembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Instantes

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Não existe mais depois...
Só agoras!!!
Cronos
Tempos
Instante
Já.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Como se chama aquela coisa que se usa na orelha, tem uma fumacinha, e sempre se coloca do avesso?

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Amortagem é o amor magoado porque a moça realizou um aborto. Felirrapagem é a felicidade que escapou mediante uma derrapagem. Calosso é uma impressão de pressão nos ossos, seguida de dor, acompanhada frequentemente de calor.

Se você procurar no Aurélio por amortagem, felirrapagem, calosso, não vai encontrar.Amortagem, por exemplo, ficaria entre amor-próprio e amortalhar, caso existisse.

Mas também não encontraria Nepoti, que é uma caneca com café morno. Papaimãe você sabe o que é? Esta é aparentemente simples, ainda que leve a enganos, e é como uma menina de 16 anos chama por sua mãe.

Acidentes vasculares, traumatismos cranianos, problemas existenciais graves podem ter como características em comum a necessidade de novos termos, por vários motivos: a pessoa pode ter apagado como se diz algo, uma nova vivência pode não encontrar em nossa biblioteca de vocábulos algo pelo qual possa se expressar, a inadequação dos termos e muitas outras razões.

Um dos caminhos que a Filosofia Clínica propõe para isso é a construção, quase sempre por aproximação, de neologismos. Para um oceano de coisas que vivemos as palavras podem ser pobres e acabam arruinando imagens e sons que procuram traduzir.

O homem tem 63 anos, teve um acidente vascular, não lembra como se diz “copo”. Uma opção é pedir a ele para falar o que lhe vier à mente e que pareça ter alguma relação com o que deseja manifestar. Exemplos: opo, zopo, titioto, po, poço. Isso causará problemas adicionais?

Às vezes, sim, mas geralmente traz mais benefícios e dá seguimento a condições antes impedidas de ocorrência. É provável que o stress do esforço de tentar algo e de se frustrar na tentativa encontre nos neologismos um modo confortável; longe do modo usual dos acontecimentos, porém uma alternativa funcional em muitos e muitos casos.

O alcance deste procedimento vai além de casos relacionados a palavras esquecidas ou de termos que desconhecemos e dos quais necessitamos. No consultório podemos utilizar esta ferramenta para experiências de outras naturezas. Exemplo: em um sábado à noite a garota está sozinha em casa, não quer sair e não quer receber pessoas, e também não deseja ficar sozinha... Não encontra uma vivência que resolva este conflito – que para ela é um paradoxo.

O que ela pode fazer? Bem, se ela estudou o tópico Significado, elemento importante no estudo da Filosofia Clínica, pode considerar se não seria o caso de se utilizar dos neologismos existenciais. Ou seja, construir, por aproximação, uma vivência que represente o que se passa, que dê passagem à experiência a ser vivida, ainda que não tenha a ver com o caminho habitual pelo qual as experiências se passam.

Ela então mistura estes elementos e decide tomar um café com biscoitos amanteigados diante do computador conversando calmamente com sua amiga Flávia que mora há seis meses na Suécia. Eis o neologismo existencial que ela encontrou. Não é o que ela procurava, assim como o homem que pedia um “opo” querendo um copo também.

Não pense que em caso de uso de neologismos existenciais a pessoa terá menos, parte do que precisava, uma distorção, uma manobra cuja resultante é um paliativo qualquer. Tenho uma pequena coleção de relatos em consultório de pessoas que obtiveram tanto com estes procedimentos que passaram a utilizar com certa frequência seus neologismos.

Há ainda neologismos complexos, nos quais palavras, como estas que ilustrei, podem se transformar em frases inteiras, em parágrafos, capítulos de uma vida, desde a gramática até períodos de vida.

Um filósofo clínico utiliza estes elementos em consultório após o minucioso estudo da historicidade da pessoa, de sua Estrutura do Pensamento, pois temos casos nos quais é desaconselhável determinados processos clínicos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A vida é um jogo de dados.

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

Na estrutura de pensamento o primeiro tópico é “Como o mundo me parece”.

Não se trata de primeiro por ordem de importância, é apenas uma numeração aleatória, e sua importância é encontrada na exposição do partilhante. Trata-se da descrição fenomenológica do mundo como parece para a pessoa. O que acha e pensa a respeito do mundo que a cerca.

Início da conversa com alguém de lugar qualquer...

A vida é para mim como um jogo de dados. Não há um Deus que me ajuda ou me puna por qualquer coisa que faça ou pense. Muito menos um que me ame. Pois quem ama participa.

Se eu me machuco, não digo que foi Deus quem permitiu para que eu tire um aprendizado maior, ou que está me punindo. Apenas trato de me curar e continuo a vida. Se eu me dou bem em algo, não acredito que foi Deus quem me beneficiou. Muitas pessoas no mundo invocam Deus e continuam sofrendo. Pessoas que precisam muito mais de atenção do que eu.

Tanto as coisas boas ou ruins eu as tomo como parte da vida.

O jogo de dados da vida, não é tão simples como um dado comum. O dado da vida tem mais de seis lados. A vida se multiplica em milhares de possibilidades.

Cada vez que se toma uma decisão, tudo pode acontecer. E o dado da vida não tem como o número mínimo o um. Além do um ele tem, na verdade o zero, quando tudo fica na mesma, e o menos um, que equivale à perda. Este acontece muitas vezes, inevitavelmente.

Pensar que Deus mandou ou permitiu uma situação ruim ou boa e tirar desse fato algo positivo ou algum ensinamento é um modo de agir. Eu ajo aprendendo, sem atribuir nada a Ele.

Se existe, Deus não passa de um Motor Imóvel aristotélico ou o acionador do Big Bang. Tudo o que passa disso é especulação.

Para cada pessoa há uma experiência de Deus, uma definição do que seja essa entidade superior. No entanto, ele não influi em nada. O sol nasce para todos, assim como a chuva. A vida é um jogo de dados, no qual tudo pode acontecer. E mesmo assim há quem atribua a vitória à sorte, e a perda ao azar. Como são ingênuas as pessoas. Não passam de buscadoras de interpretação consoladora.

Diante da vida a melhor coisa é não atribuir nada a Deus. Diante das expectativas, a esperança costuma decepcionar. Mas quem atribui tudo a Deus, sempre quer dar outra explicação para não dar o braço a torcer e aceitar que sua esperança foi em vão. Mas, foi em vão sim.

A melhor atitude na vida é jogar o dado sem esperar por nada. Se vier algo bom, comemoramos. Se os resultados não forem animadores, como não esperávamos por nada, recomeçamos e partimos para outra. A vida é assim. É assim para mim.

Aqui termina uma conversa com alguém de lugar qualquer...

domingo, 28 de novembro de 2010

A diferença em se saber que nada dura para sempre.


Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Tudo que é bom tem sua duração exata,
Tem de se acabar no prazo certo
Se quisermos que perdure para sempre.

Jorge Amado



Houve um tempo em que a cristalização do pensamento engessava as convivências sociais. O reflexo desse comportamento aparecia, muitas vezes, na forma de traição, somatização, profissionais frustrados, vidas monótonas, hipocrisias.

As revoluções ao longo da história trouxeram mais que desenvolvimento tecnológico e novos mercados. Algumas sociedades, com seus princípios de verdade voltados para uma crença de início, meio e fim perderam sua força.

O que parecia ser indissolúvel, rígido e permanente, se mostrou frágil e propenso a mudanças. O para sempre perdeu o sentido num mundo mutante.

Ganhou-se a liberdade de transitar em aquários existenciais próprios ou alheios. Descobrir mais sobre cada um e os outros. Perceber que o fim pode ser o ensaio de um início, e o meio o tempo de experimentações.

As crises pessoais vivenciadas nessa trajetória se oferecem como um guia para possíveis autogenias favorecendo o potencial criador do sujeito envolvido nesse processo. A clínica de qualidade, nestes casos, pode ser uma aliada importante. Significar qualidade de vida.

A suposta falta de resposta pode motivar a estrutura a se reinventar. Criar, descobrir submodos, principalmente na companhia de seu terapeuta. Momentos únicos de encontros e reencontros consigo mesmo.

A culpa perdeu sua força para as possibilidades. É tranqüilizante perceber que as lágrimas de hoje não serão de desespero por se ouvir a mesma canção, mas pelas experiências dos novos ritmos.

A saída desse labirinto pode sinalizar um caminho distante ou mesmo oposto ao passado que ficou. Valores, pré juízos e convívios podem ficar para trás. A reinvenção das buscas pode surgir.

O que se pensa a seu respeito pode se tornar um trampolim impulsionando papeis existenciais e uma nova concepção de mundo. Buscar uma interseção melhor em uma vida mais expressiva, mais próxima de cada um.

As alegrias também passam. Nenhum estado de espírito é constante. A descoberta do valor e o significado desses momentos fortificam e podem determinar os ritmos e a direção da caminhada.

Mesmo as interseções consideradas inabaláveis mudam. Fortificam-se pelas convivências. Enfraquecem ou rompem onde não mais fazem sentido. Reinventam-se pela força que as une.

Nada dura para sempre. Nem as amarras, nem as alegrias, nem as tristezas. Respeitando o tempo subjetivo o roteiro redigido ao longo do caminho pode ser submetido a rasuras, troca de parágrafos, inclusão de novas idéias contribuindo para um final inesperado.

sábado, 27 de novembro de 2010

Como dizia Roberto Carlos, São tantas emoções...


Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Emoção e sentimento não são sinônimos. Pelo contrário, são processos muito diferentes. O que sentiu ao ver seu filho dar os primeiros passos? Qual foi a emoção? Talvez seja difícil exprimir em palavras.

Emoção pode ser definida como um impulso nervoso que provoca um conjunto de reações psico-fisiológicas. Chorar, tremer, transpirar, vomitar, corar, fugir, sorrir, gritar, desmaiar, coração disparar... Independem da vontade, geralmente são de curta duração e muita intensidade, sendo difícil de esconder, pois apresentam manifestações externas e públicas. Podem jorrar a qualquer momento, sofrendo grande influência dos instintos e da não racionalidade.

Sentimento já é algo mais elaborado; envolve racionalização, livre-arbítrio, espiritualidade, bom senso. É a reação que não entendemos (emoção), sendo integrada ao nosso ser. Uma emoção madura. Diferente das emoções, sentimentos são privados; os outros só ficam sabendo se existir o desejo de partilhá-los. Amor, paz, alegria, medo, tristeza, esperança, orgulho...

Imagine o corpo humano envolvido por uma membrana impermeável. Somente palavras e emoções poderiam penetrar em seu interior e ali sofreriam transformações.

A emoção/palavra que conseguir penetrar no interior do corpo e ser integrada, ou no mínimo percebida e interpretada, transforma-se em sentimento. A emoção que penetrar e não for sentida, será apenas uma emoção, e deixará como lembrança a dramatização ocorrida do lado de fora.

A palavra que não for sentida pode ser intelectualizada sob a forma de pensamento ou também ficar diluída, pelo menos a nível consciente. Assim, teríamos no interior do corpo pensamentos e sentimentos, e do lado de fora, emoções e palavras.

Há um incontável número de coisas que acontecem e são confundidas ora com sentimento, ora com emoção e ora com palavras. Pessoas que não conseguem demonstrar emoções podem ser acusadas de ausência de sentimentos e pessoas muito emotivas podem ser interpretadas como sensíveis. Isto nem sempre é verdadeiro, pode causar constrangimentos afetivos, guerras e até mesmo separações.

O que realmente expressamos para nós mesmos e para o mundo? Emoções? Sentimentos? Palavras?

Comecemos pelas palavras. Por melhor que seja a intenção, dizer não é o mesmo que sentir. Ao dizer, altera-se o que se sente. Só o estar sofrendo diz o que é sofrer. Além disto, com palavras pode-se mentir, dissimular...

Emoções podem demonstrar sentimentos, mas como saber se aquelas lágrimas são a via de saída de um sentimento ou apenas o processo de entrada para o interior do corpo?

Nem sempre sentimos o que queríamos sentir ou o que os outros esperavam que sentíssemos. Agarramo-nos então a padrões sentimentais pré-estabelecidos (despedida-choro, falecimento-tristeza) que nos deixam confusos, isolados, sem palavras ou emoções, e às vezes, alienados da realidade.

Como as emoções, sentimentos também fogem de nosso controle, com a diferença de que não são fugazes, ficam no interior de nossos corpos remoendo, marcando, lembrando.

Amor é sentimento; paixão é emoção. Na paixão estamos presos, somos ruidosos, ansiosos, ciumentos, febris, egoístas, inseguros. O amor liberta, desprende, traz paz. Ao contrário do que muitos pensam, amor não mata; a paixão é que pode matar.

Alegria é um sentimento, euforia e gargalhadas são emoções. Medo é um sentimento, pânico e desespero são emoções. Raiva é um sentimento, ódio é uma emoção.

Emoções são instintivas. Palavras podem ser racionais demais. Sentimentos podem ser o ponto de equilíbrio.

Palavras não controlam desequilíbrio emocional, não funcionam na irracionalidade. Sentimentos têm esta força. Amparam, acodem e podem até transformar mágoa em alegria, pavor em coragem e ódio em amor.

No clamor das emoções e das palavras se fazem as guerras, no discernimento dos sentimentos é que se busca a paz.

Como encontrar e acessar os sentimentos? Fácil! Estão no mesmo lugar desde que nascemos. Sentimentos são internos. Estão lá dentro de nossos corpos, esperando para crescer e amadurecer.

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
entre a verdadeira e a errada

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar

Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Agradecer e agir

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Quando olhamos para a realidade do mundo, a realidade da maioria, ficamos perplexos. Assustados com tamanho desamor. Com a imensa pobreza, A desigualdade. A exploração. O preconceito. O desrespeito. Mil transgressões.

A realidade tem seu bem e seu mal. Dialética da vida. Dialética desigual. Pendendo para o mal. Pessimismo? Ou análise racional? Basta-nos ver as pirâmides estatísticas. A verdadeira realidade se apresenta sem disfarce. Está ai para quem não quer fugir e se alienar.

Temos também muito o que agradecer. A beleza e riqueza natural. A inteligência humana. O desenvolvimento tecnológico. A arte e a poesia. O amor e a compaixão. O milagre do agora viver. A amizade se ter.

O problema dos acomodados tem um nome: Zona de Conforto. Conforto que cega e nos torna impotentes. Acomodação passiva. O resto é que se dane. Egoísmo. Desinteresse. Sei lá que nome dar ao desamor. Mais fácil sentar e assistir pela TV. E o mundo que se exploda!

Ser saudosista e romanticamente lembrar do “meu bom tempo” pode consolar por instantes. Tornar-se intelectual ou político sofista poderá dar lucros. Como papagaios podemos tagarelar... Imitar... E achar que tudo poderá mudar. Será? Belas teorias que não saem do papel, dos jornais e dos livros. Conhecimento não vivido, não poderá ser conhecimento perdido?

Encarar a realidade. Agir em prol coletivo. Trabalhar com determinação por um mundo mais sustentável. Compreender o presente como ele é. Enfrentar a existência de frente, poderá parecer uma difícil tarefa. Mas é possível. Possível e necessário.

Agradecer o bem e agir contra o mal. Sair da Zona de Conforto e enfrentar os desafios solidariamente. Sair do romantismo frustrante e encarar a realidade. Tudo com poesia e ternura de quem se faz consciente e pertencente. Respeitando a singularidade na ação e no viver.

Não dá para fingir que ao lado de belos condomínios, crianças comem as sobras do lixo. Que a educação serve ao sistema dominante e elitista se esquecendo da maioria. Que os presídios estão cheios de humanos criados pelo nosso descaso. Que o planeta morre pelo descuido dos inteligentes terráqueos descompromissados com a vida. Não dá para fingir e fugir.

Fácil cruzar os braços diante a miséria, a drogadição, a corrupção, a alienação, a miséria, a destruição, as guerras... Fácil achar que não tem nada com a gente, que é coisa distante de nós. Fácil não se envolver ou ficar sobre os muros. Fácil apenas criticar e imaginar soluções nas mesas de bares.

Agir. Estar junto. Participar. Cooperar. Sair da Zona de Conforto. Solidarizar. Criar reflexão na própria casa sobre as questões emergentes. Trabalhar a si mesmo na conscientização do porque estar na alienação e no ter preguiça de agir no mundo.

Não queremos ser Madre Tereza de Calcutá, nem Gandhi, mas podemos a nossa volta agir. Cada um a seu modo. Nas coisas simples do dia a dia. Não silenciando diante os abusos e injustiças. Sendo criativos e participativos.

Há muito o que agradecer. Mas muito o que agir. Ou saímos da Zona de Conforto ou continuamos fingindo que estamos a viver. Somos livres.

Mas que liberdade é essa que visa só o próprio umbigo. Bom lembrar que tudo que temos tem um operário trabalhando. Tudo traz o suor de muitos.

Essa reflexão pode não ser muito agradável. Preferimos as belas palavras. Palavras sedutoras. Urge se pensar e agir na vida. Ou não seremos Humanos por inteiro.
Queridos leitores:

Começa hoje em Nova Veneza/SC, o IX Encontro sul brasileiro de Filosofia Clínica.

Uma promoção do Instituto sul catarinense de Filosofia Clínica, com sede em Criciúma/SC.

O convite oficial e a programação completa pode ser acessada em: www.filosofiaclinicasc.com.br

Coordenação.