domingo, 30 de maio de 2010

As vivências no arrabalde

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Partes significativas da existência ocorrem por elementos laterais, percorrem vários itens periféricos, são tangenciais aos aspectos decisivos. Assim, estabelecem seus caracteres nas imediações das ações centrais.

Muitas vezes isso ocorre quando o caminho para ser economista acaba em técnico em contabilidade, o desejo de morar nas enseadas da praia avança até um condomínio próximo ao mar, o trabalho para ser médico termina na enfermagem.

Ocorre que aos poucos tais fatores laterais podem assumir as funções e a pertinência do que se constitui o cerne da vivência, invertendo os vetores. É assim, por exemplo, que ao se casar com a amiga da mulher que Antonio amava ele encontrou “a mulher maravilhosa” de sua vida.

De diversas maneiras, vivências que acontecem nos arrabaldes são decisivas pelo que se tornam depois, mas também pelo que são e pelos desdobramentos que propiciam. Um exemplo marcante é o papel que o coro desempenha na tragédia de Eurípedes, desde a encenação, a indumentária.

Em vários lugares na malha intelectiva, na intimidade, algumas pessoas descobriram os caminhos indiretos das vivências que ocorrem nos arredores, naqueles caminhos existenciais que são curvos. Ali vivem à margem os processos de vida que para elas às vezes ocupam o centro dos temas.

Pela historicidade da pessoa podemos freqüentemente chegar aos procedimentos que levaram a isso, mas a fluência da vida pode dissolver tudo em um campo somente tornada indistinta a questão.

Não é raro que o assunto deixe de fazer diferença e deixe perder a importância, ainda que se mostre em toda a sua pujança em algumas pessoas. Uma senhora a quem atendi há anos, Aldemanda costumava falar de um tema quando em verdade se referia a outro; tratava da colheita de arroz para contar de sua tristeza e mencionava o plantio para exemplificar suas alegrias.

Nestes aparentes desencontros é que muita gente acaba se encontrando.
Notas iniciais sobre as categorias e a terapêutica filosófica

Prof. MS. Rodrigo Rodrigues Alvim da Silva
Especialista em Filosofia Clínica
Coordenador da Filosofia na Católica em Juiz de Fora/JF


"Os estudos foram a minha salvação; devo agradecer à filosofia
se consegui me levantar da cama, se me curei: a ela devo a vida,
mesmo que esta seja a menor dívida que tenho com ela".
Sêneca


01. A fim de superar todas as pré-condições que incidiram-no em tantos enganos, René Descartes adotou a dúvida hiperbólica como atitude básica do filósofo. Mais do que isto, converteu-a, paradoxalmente, em pré-condição para a sua própria superação, ou melhor, em pré-condição para a certeza, para a construção da ciência calcada na evidência, por ele mesmo traduzida no preceito de “evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção” (destaques nossos). Noutros termos, Descartes adotou o preceito de nada incluir em seus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a seu espírito, que não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.2 Em contrapartida, nos estudos d’As formas elementares da vida religiosa, o autor d’As regras do método sociológico, Émile Durkheim, destacou que “a ciência é fragmentária, incompleta; avança muito lentamente e jamais está concluída; mas a vida não pode esperar” (destaque nosso).3 Se há, pois, para a ciência moderna, muita precipitação nas considerações religiosas, que assim nos conduzem tantas vezes a ilusões e a equívocos, tais concepções religiosas e suas práticas não deixam, por seu turno, de enfatizar a demasiada prevenção que vitima os procedimentos científicos e que assim nos abandona a muitos dos desafios que continuamente a vida nos impõe.Essa nossa condição “trágica”, calcada na própria ontológica “desproporção do homem”, como nos sublinhou Blaise Pascal, reforça a prevenção científica e a precipitação religiosa.4 Onde se encontra o desengano proferido pela ciência, terreno muito mais fértil se oferece à religião, bem como a outras instituições humanas, capazes de nos iludir da segurança que não somos e não temos e, por isso mesmo e assim paradoxalmente, da qual tanto necessitamos.

02. A filosofia se atenta tanto à ciência quanto à religião. Faz-se a si mesma para cada uma, criticando-as. Compromete-se.

* * *

03. Nas academias, hoje comumente insistimos na precisão com que a ciência intervém na natureza... Tal precisão, estendida ao homem, corresponde, contudo, à reclamação deste pela “frieza” e “aridez” com que é tratado pelo cientista: trata-o sem tempo como uma coisa – e coisa qualquer. A antropologia filosófica ratifica este protesto contra tal tendência à reificação da pessoa, à coisificação do sujeito, à objetivação do ser humano.

04. A insistência, no entanto, na compreensão do homem como pessoa é acontecimento historicamente recente: os antigos gregos a desconheciam, os cristãos medievais a sugeriram e os modernos a aprofundaram.

05. Neste sentido, fundamentalmente para os gregos antigos, o homem é alguma coisa dentre as demais coisas que aí estão. Particularmente, pois, as “categorias” das coisas propostas por Aristóteles deveriam incluir o humano. Toda diferença só se firmaria, de modo cabal, na contemporaneidade, quando se percebeu os desafios de se obter o conhecimento das coisas (ciências da natureza) e as dificuldades de se obter semelhante conhecimento sobre o homem (ciências do espírito). Não seria o homem um tabula rasa recipiente das categorias das coisas (proposição aristotélica), mas ele mesmo e antes de tudo estas categorias que se projetariam nas coisas, formando-as como se nos manifestam (proposição kantiana). Contudo, destaca-se que tais categorias de que se tratam (independentemente do seu vetor) são as mesmas. Parece-me que a proposição packteriana nos apresentaria as categorias humanas como absolutamente distintas das que definiriam as coisas, as coisas como que por elas mesmas [os tópicos da “estrutura de pensamento”, em primeira ordem (“categorias propriamente ditas), e os “submodos”, em segunda ordem (pseudo-“categorias”, pois apenas modos de categorias)].

06. Se assim é, afirmar que a proposta da “Filosofia Clínica não trabalha com tipologias, patologias ou terapias previamente estabelecidas”5 pode, por algo mais, não ser uma falsidade completa, mas até aqui seria, no mínimo, uma “meia-verdade”. Há uma prévia compreensão do homem na cosmovisão do filósofo clínico que, no entanto, tem configuração plástica co-determinante pela historicidade de cada homem. “Cada homem” é, certamente, uma singularidade, ou seja, um universo de um só exemplar, mas, não menos certo, “cada homem”, porque também homem, é aquele universo de um universo maior, de um universo que já nos permite recepcioná-lo como homem e não como diferente disso ou como qualquer coisa. Ou não se tem, sinceramente, a expectativa de nele ler algum dos tópicos (um só, que seja!) do que já se possui da “estrutura de pensamento”?

07. Não se encontrar permanentemente atento a isso e, pior, tentar ignorar esse inevitável podem fazer do Filósofo Clínico vítima ingênua do que mais honestamente ele pretende evitar: o preconceito que distorce-nos o outro como verdadeiramente outro. Em nenhum encontro permanece o “eu” puro ou o “outro” puro; do contrário, não houve encontro, não houve “partilhantes”. Pretender a historicidade “bruta” do outro é incidir, por outra porta, na premissa do mau-positivismo de que nenhum sujeito epistêmico (aqui, no caso, o terapeuta profissional) pode se deixar envolver pelo seu objeto (ou melhor, pelo seu “paciente”). Pretender que a historicidade “bruta” se explicite por si mesma ao sujeito epistêmico é incidir, por outra porta mais, na premissa mau-positivista de que pela simples observação tudo se explicita por si só. Caso sejamos então advertidos de que este “esforço” só acontece no início do processo terapêutico da Filosofia Clínica (e que mesmo aí se trata de um “esforço”, visto que tal historicidade “bruta” nunca se dá plenamente), então concluímos que tal processo em sua inteireza admite “categorias” a partir das quais o “trato filosófico” (e não outro) se dá.

* * *

08. Como o pensar e o dizer as coisas como elas são (lógica, gramática e ontologia) se nos revelam a partir de inegáveis classes ou “lugares comuns” para Aristóteles, “expectativamos” pela existência de cada coisa a partir dessas mesmas “categorias” e “tópicos”. Se aqui se observa uma circularidade, esta nunca se resolverá insuspeitamente, pois “Aristóteles deixou-nos uma tábua destas categorias, sem nos dizer [porém] como procedeu para a estabelecer”.6 Contudo, apesar de dominar entre os seus intérpretes uma tábua definitiva destas categorias (as dez que se encontram na parte homônima do Organon), pode-se interpretar, de outro modo, em virtude de diferentes listas apresentadas nos Tópicos e na Physis, que seu número seja indeterminado. Mais do que isto, pode-se, contra a posse de sua sistematização fixa, defender a redutibilidade de umas categorias a outras, em vista de uma sistematização mais dinâmica.

09. Também, na Filosofia Clínica, paira uma nebulosidade sobre a origem dos tópicos da “estrutura de pensamento” e dos “sub-modos” em vigor e, quanto ao seu número, são eles potencialmente abertos a acréscimos. E se o estatuto das categorias aristotélicas se disputa entre o semântico-gramatical, o lógico e o ontológico, seria pacificador atribuir um estatuto antropológico, estranho a Aristóteles, às categorias packterianas. Neste sentido, seria preciso aproximá-las de outro paradigma categorial, a saber, da estética e da analítica transcendentais de Kant, partes principais de sua antropologia.

10. Procurando justificar internamente a transição das formas tempo e espaço da “faculdade da sensibilidade” humana para as categorias ou conceitos da “faculdade do entendimento” humano e da relação mesmo entre estas categorias ou conceitos, Kant tudo reduz a “modos de tempo”, garantindo, assim, uma sistematização que talvez muito pouco importa à clínica filosófica, mas que não pode deixar de interessar às academias de filosofia. De qualquer modo, é exemplar o esforço de Kant para teoricamente nada deixar sem as “mediações” imprescindíveis à inteligibilidade e compreensão do que se vai apresentando. Do ponto de vista prático, somente tal esforço nos possibilita estarmos amplamente cientes do que estamos fazendo e assim responder por estes mesmo atos.

11. Enfim, se a terapêutica filosófica assim se adjetiva em virtude de sua filiação à tradição da filosofia, torna-se indiscutível que seus estudos devam se voltar não apenas a estas duas vertentes paradigmáticas do trato de e a partir de categorias, mas para tantos outros filósofos ainda, como Platão e os neoplatônicos, Boécio, Fichte, Hegel, Schopenhauer, Hermann Cohen, Renouvier, William James, Heinrich Meier, Sanders Peirce, o primeiro Husserl, dentre tantos outros.



Notas:

1 - Palavras introdutórias pronunciadas em “mesa redonda” no I Colóquio de Filosofia Clínica de Juiz de Fora , Minas Gerais, em 10 de novembro de 2007.

2 - DESCARTES, René. Discurso do método. Introdução de Gilles-Gaston Granger, prefácio e notas de Gérard Lebrun, tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 37. (Coleção Os pensadores: Descartes, v. I, p. 1-71).

3 - DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Autrália. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 509.

4 - PASCAL, Blaise. Pensamentos. Tradução de Sérgio Milliet. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988. p. 37-38. (Coleção Os pensadores: Pascal).

5 - Grifos meus. Conferir em folder de divulgação da Filosofia Clínica da AFIC-MG (Associação de Filosofia Clínica de Minas Gerais), segundo semestre de 2007.

6 - BRUN, Jean. Aristóteles. Tradução de Liz da Silva. Lisboa: Dom Quixote, 1986. p. 58. (Coleção mestres do passado, n. 11).
Uma realidade inusitada

Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


"Toda forma de espírito verdadeiramente original cria a forma lingüística que lhe é apropriada".
Ernest Cassirer


O fenômeno ao despontar diante de nós, pode provocar uma sensação de desconforto e pré-juízos, nesses casos, o incômodo fica completo. Diante dele não sabemos como proceder. Desconhecemos sua linguagem e limites.

A sensação de impotência toma conta e o medo, às vezes, fala mais alto. Podemos desistir e deixar de lado a possibilidade de experimentar coisas novas. Por outro lado, ao ultrapassar o primeiro impacto, a vida pode proporcionar experiências cheias de originalidade.

Eu, por exemplo, cresci ouvindo muitas coisas sobre hospitais psiquiátricos: “lugar onde os loucos estão internados, pois são pessoas perigosas e não devem conviver em sociedade, desatinados e gritam o tempo todo, também não conseguem se comunicar. Sua fala é incompreensível e sem nexo. Se irritados, são capazes de agredir e até matar. Sua força é descomunal....”.

Escutava também: “eles não sabem comer direito, fazem as necessidades na cama, sujam as roupas, são descontrolados e só o remédio é capaz de alguma forma de domesticação. Para muitos deles, só resta os tratamentos de choque”.

Diante de tantos agendamentos contrários, pré-juízos e princípios de verdade dos outros, não foi nada fácil entrar num hospital psiquiátrico, como estudante de Filosofia Clínica. Nas minhas idéias complexas, logo imaginava as agressões dos ‘loucos’. Pensava que poderia me sentir mal ao estar frente a frente com eles.

Michel Foucault nos relata o alcance dessas formas de saber-poder em seu livro ‘Microfísica do Poder’: “Sabemos sobre sua doença e sua singularidade coisas suficientes, das quais você nem sequer desconfia, para reconhecer que se trata de uma doença; mas desta doença conhecemos o bastante para saber que você não pode exercer sobre ela e em relação a ela nenhum direito. Sua loucura, nossa ciência permite que a chamemos doença e daí em diante, nós médicos estamos qualificados para intervir e diagnosticar uma loucura que lhe impede de ser um doente como os outros: você será então um doente mental”.

Ao chegar no hospital psiquiátrico, pude observar alguns internos nas janelas, por trás das grades e senti ‘um frio na barriga’. Quando ingressei nos corredores, pude perceber as portas trancadas, até chegar à sala de reuniões. Nesse recinto, um pouco mais a vontade, com as enfermeiras, psicólogas, artista plástica e os filósofos clínicos da equipe interdisciplinar, me senti melhor.

Direcionamos-nos ao consultório reservado aos filósofos clínicos, após atravessar outras portas e corredores. Nossa terapia acontece semanalmente, com a ajuda da artista plástica que organiza os atendimentos.

Então veio o primeiro partilhante, e depois outro e mais outro, e depois as mulheres. A cada pessoa que entrava e saía, eu me perguntava: ‘onde estão os loucos, aqueles seres perigosos e ameaçadores que deveria encontrar num hospital psiquiátrico ?’.

Fiquei surpresa ao não encontrar ninguém sujo, cheirando mal, ou violento. Conheci gente diferente, muitas sob efeito de medicação, mas nada parecido com as estórias que ouvia. Histórias inusitadas bem em frente ao meu olhar, variadas e propondo um jeito diferente de enxergar a vida.

Poetas, desenhistas, atores e cantores, expressividades ainda vivas na minha memória. Uma das internas se destacava pela simpatia: ‘a ‘Xuxu’. Uma pessoa encantadora, vaidosa e com apurado senso estético. Chama muito a atenção pela exuberância. Gosta de estar bem vestida, com seus colares, anéis e pulseiras. Também o batom meio lambuzado em seu rosto, chamava a atenção. Os olhos da ‘Xuxu’ não perdiam nada: os mínimos detalhes dos alunos que acompanhavam os atendimentos na sala, os movimentos das mãos, braços e os sons...’

Ao final dos atendimentos saímos do consultório e deixamos o hospital. No caminho de volta, vínhamos conversando sobre as clínicas e nossa participação como observadores. Um misto de espanto, insegurança, alegria e esperança, a partir de agora, fazem parte de nosso ser um pouco mais qualificado por conhecer essas pessoas interessantíssimas: ‘os loucos’.

Na segunda vez, ao retornar ao hospital foi mais fácil. Já conhecia a equipe, já entendia melhor a razão das portas trancadas – eram para dar segurança aos internos, para quem trabalhava e às visitas do hospital – enxergava as pessoas internadas com um novo olhar. Suavizei pré-juízos e me propus a qualificar a interseção com os sujeitos singulares que iam chegando.

Hoje estou mais a vontade para ouvir, conversar e abraçar. Apesar das convivências com o inesperado, percebo singularidades surpreendentes em todo recanto daquele lugar. Ao longo dos atendimentos fui descobrindo que cada interno possui a sua linguagem. Comunica e expressa sua condição humana de um jeito só seu.

Nossa sociedade normalizada refere ser possível apenas discursos bem ordenados. Em outras palavras: somos aceitos pela compreensão que somos capazes de produzir. Já dentro do hospital psiquiátrico, um espaço privilegiado de estudos e aprendizagem, essa lógica se relativiza, dando lugar a outras formas de expressão.

Nesse sentido se direciona a reflexão de Ernst Cassirer: “Toda realidade – tanto a espiritual quanto a física – é, de acordo com a sua essência, uma realidade concreta, individualmente determinada. Por isso, afim de apreendê-la, é preciso que nos libertemos da universalidade falsa, enganosa e “abstrata” da palavra”.

Epistemologias flexíveis ou cristalizadas se apresentam e convidam a passear por suas estranhas realidades. Raciocínios diferentes para expressar idéias que seriam comuns noutras óticas. Encontramos palavras sussurradas, frases incompletas, discursos com lacunas, gestos de aspecto incompreensível, ansiedades, silêncios, lágrimas que tentam dizer algo mais, os sorrisos e gritos silenciados ou não.

Estamos desacostumados a entender e sentir a desestruturação de raciocínio como algo integrante da vida. O fato dos ‘loucos’ não se enquadrarem no sistema das lógicas da normalidade, não quer dizer que são pessoas destituídas de sentido ou razão, apenas diferentes.

O preconceito, a desinformação e os pré-juízos ainda são fortes em nossa aldeiazinha metropolitana e, tudo aquilo que não se enquadra no comportamento consensual, é visto e classificado como alguma forma de loucura.

A Filosofia Clínica no hospital psiquiátrico tem se mostrado eficiente, pelo fato de trabalhar com a singularidade, longe das tipologias. A continuidade dos atendimentos tem proporcionado descobrir que ainda existem pessoas isoladas em seu mundo e sem contatos externos. Ao propor alternativas, talvez se consiga re-significar isso tudo e permitir alguma forma de aproximação e interseção aos atendimentos.

Penso que nossa sociedade venha caminhando no sentido de tentar mudar a realidade dos hospitais psiquiátricos. Ainda vemos nossos internos como loucos, pessoas incapazes e distantes, inadequadas ao convício social no qual estamos inseridos, como o outro do outro.
Simbologia e intuição no processo terapêutico

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Sem marcar hora uma brisa leve me tocou a alma. Movimento intenso, beleza, luz durável de um instante, pérolas de imagens, delírios sutis, algo potente. Era a intuição novamente me sacudindo pelos ombros. (Idalina Krause)


Nas práticas de consultório tem me chamado a atenção o aparecimento de certos sinais simbólicos, conjunções de imagens, que podem se dar tanto em sonhos dos partilhantes como em suas vivências cotidianas. Esses acontecimentos são fenômenos que saltam, têm vida e grande significação, são muito importantes quando analisados dentro das circunstâncias de cada caso e com profundidade.

Quando falo em intuição, ela está relacionada à visão de Spinoza e Bergson. Segundo esses filósofos a intuição proporciona o conhecimento do mundo como um todo concreto inter-relacionado.

Trago dois exemplos de como isso pode ocorrer na prática.

Uma partilhante está tendo um envolvimento com um rapaz, se encontram esporadicamente. “Ficante” é o termo que utilizam atualmente. Só que, nesse “ficar”, há uma desconfiança da parte dela em função dos desaparecimentos súbitos de seu par, e a impossibilidade de contato por telefone, ou seja, ele se torna para ela uma incógnita. Entre escapadelas, sumiços que duram semanas ou meses, acontecem novos encontros, mas as dúvidas continuam no ar.

Dentro desse processo clínico este é apenas um dos pontos que chamam a atenção, há uma dissonância, digamos que um comportamento que faz pensar, principalmente no que tange às ações do rapaz. Há mais incertezas do que firmeza neste relacionamento, algo está camuflado. Isso incomoda a partilhante, ela sente que algo não “fecha”, as coisas não batem. Já havia pensado várias vezes, em colocar um ponto final na relação, devido ao mal-estar subjetivo que essa relação vinha causando.

Mas como a simbologia e a intuição entram nesta história? Num desses encontros esporádicos, quando ele resolve aparecer, se deslocaram para a casa de campo dele. Entre conversas e bate-papos que não dizem muito de sua intimidade, sempre meio-escondida, ocorre um fenômeno. O aparecimento de uma enorme aranha e uma revoada de louva-deuses do nada que invade a casa.

Como terapeuta observando todo o contexto, este fato me chama atenção, os canais intuitivos vibram. Para confirmar minhas suspeitas, faço uma pesquisa para verificar a simbologia destes seres da natureza.

Começando pelo louva-deus: símbolo da rebeldia, infidelidade, perito em camuflagem. Fica parado nas plantas, esperando sua presa como que rezando. Ficam imóveis por longos períodos para não serem, comidos por outros animais. O jeitinho de devoto é só fachada, por trás da aparência há um animal feroz. Patas dianteiras perfeitas para golpear, a tentativa de escapar desta armadilha é inútil.

Algumas fêmeas de louva-deus cortam a cabeça do macho no momento do acasalamento. Se estiverem zangadas devoram o parceiro em seguida. Os grandes olhos do louva-deus o permitem enxergar em todas as direções num ângulo de 180 graus. Desde que nascem caçam, se estiverem com muita fome são capazes de comer seus próprios filhotes que se encontrem ao redor.

Agora as aranhas: aranhas precisam trocar de pele periodicamente, durante o período de crescimento produzem seda, só algumas constroem teias para capturar animais de que se alimentam. Outras usam teias como casas para proteger seus ovos. Todas possuem veneno, mas, são pouco perigosas para os humanos. Alguns tipos de peçonha servem apenas para atordoar a vítima facilitando a tarefa de matá-la. O veneno em muitas simbologias ilustra o “mal” que palavras ferinas ou mentirosas podem causar.

Essa pesquisa - coincidência ou não – pode ser o retrato da relação estabelecida entre os dois em que tracei somente alguns detalhes. É como uma metáfora da natureza, rica em vice-conceitos simbólicos, retrata, se não literalmente, mas com um grau de aproximação muito grande a realidade vivida entre os dois.

Não foi surpresa que depois de termos analisado essa simbologia, novos fatos se configuraram mesclando características entre aranhas e louva-deus. O mistério sobre a vida dele foi desfeito de forma surpreendente. Confirmando que: “O jeitinho de devoto é só fachada, por trás da aparência há um animal feroz”. Essa análise conjunta foi o desfecho de um esquema resolutivo que já apontava para o fim da relação. Intuição, mais simbologia e a confirmação que o mundo é um todo concreto inter-relacionado como afirmavam Bergson e Spinoza.

Outro exemplo para ilustrar agora sobre sonhos, destacando novamente a simbologia, agora relacionada ao conto “A bela e a fera”. Lembrando de que esta partilhante a quem me refiro dá importância e grande significação aos sonhos, dados intuitivos, fabulações, literatura e artes em geral.

Essa partilhante tinha sonhos recorrentes de dois rapazes parecendo príncipes em luta pelo amor e a atenção dela que aparecia em um castelo medieval. Essas imagens vieram com uma riqueza de detalhes vívidos e com grande potencial de significado. Em seu histórico a busca é forte envolvendo axiologia, pré-juízos e emoções na busca de um parceiro “ideal” que mais se aproxime de seus anseios. Mas como chegamos á fábula da “A bela e a fera”?

Depois de vários meses de clínica, desfeito um relacionamento anterior, a partilhante revê ideais e conceitos, cria novos pensamento e ações. Esta partilhante após um tempo em que seguimos trabalhando, encontra a pessoa que considera o “amor da sua vida”. Ganha de presente uma leitura de seu mapa astral, e pelas configurações lá expostas aparece novamente à alusão “A bela e a fera”, entre as conjunções astrais.

Para mim já é um sinal de alerta, que me chega via intuição, duas vezes a “bela e a fera”! Fui pesquisar mais detalhes sobre esta fábula. Encontrei entre as leituras que fiz no livro “Repressão sexual”, de Marilena Chauí, as seguintes passagens sobre esta fábula: “A expressão, muito usada antigamente, “esperar pelo príncipe encantado” ou pela “princesa encantada” não queria dizer apenas a espera por alguém muito bom e belo, mas também a necessidade de aguardar os que estão enfeitiçados porque ainda não chegou a hora do desencantamento”.

Essa passagem reproduz quase que literalmente o momento em que a partilhante se encontrava em seu devir, a transição, o amadurecimento, o novo e “ideal” relacionamento. Possível saída da casa dos pais, afirmação profissional e o reconhecimento de sua própria mutação dentro do novo relacionamento amoroso.

Mais detalhes sobre esse conto segundo Chauí: Bela “retorna ao castelo da Fera, dedica-se a ela e, ao fazê-lo, quebra o encanto, surgindo o belo príncipe com quem viverá. O conto se desenvolve como processo de amadurecimento da heroína e de constituição da imagem masculina através de seus desejos”.

Mostrei o livro e as minhas anotações à partilhante, traçamos considerações, pontuamos fatos, evidenciamos vivências, elaboramos trajetos e a terapia foi belíssima. É bom lembrar que esse procedimento foi parte de uma série de planejamentos clínicos. A partilhante está de alta, concluiu seu curso, abriu novas perspectivas de trabalho e tem um relacionamento muito belo com o seu namorado com quem convive atualmente.

Estas práticas que utilizo, respeitam os dados intuitivos que me chegam, poderia ser uma forma de Informação dirigida simbólica, aproveitando a riqueza das simbologias, explorando significados.

Não custa salientar que não se usa essa prática por achá-la simplesmente interessante. É mais um desdobramento clínico que deve obrigatoriamente estar dentro do contexto do processo, e muito bem elaborado, dentro de um planejamento clínico. Utilizar esses recursos nos processos terapêuticos foi extremamente produtivo, satisfatório e, porque não dizer, educativo e culturalmente prazeroso. Agregamos novos valores, enriquecendo cada um dos encontros, fortalecendo interseções.

Recolher o que o partilhante trás, seus significados íntimos, cuidar destes símbolos, ouvir com atenção, ponderar, estudar, buscar mais informações. Estar atento às nossas intuições e se dedicar ao aperfeiçoamento deste espaço clínico tão rico e vasto de possibilidades também faz parte do nosso trabalho. A intuição, como lembra Bérgson, é uma visão que vive a realidade da duração. “Não se adquire facilmente a intuição; tão habituados estamos ao uso da inteligência que se torna necessária uma viragem íntima violenta, contrária a nossas inclinações naturais, para podermos exercitar a intuição, e só em momentos favoráveis e fugazes somos capazes de o fazer.” (BERGSON, 1968).

Viver o espaço clínico, com amor, paixão vivenciando esta duração fugaz proporciona uma qualificação inigualável. O exercício terapêutico potencializa quem já possui de forma latente o dado intuitivo. Com o tempo, ele se torna um instrumento fascinante dentro do processo que vibra de forma alegre na busca da compreensão da alma humana. Mas Spinoza sabiamente alerta em uma de suas citações famosas: “Tenho evitado cuidadosamente rir-me dos atos humanos, ou desprezá-los; o que tenho feito é tratar de compreendê-los”. Acredito também no dito popular: tudo vale à pena se a alma não é pequena. Intuição e simbologia são acessos mais diretos à vida íntima de cada partilhante, corpo e alma numa mesma vibração.



Referência bibliográfica:

BERGSON, Henri. A filosofia contemporânea ocidental. Trad. Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Herder, 1968.

____________. Matéria e memória. Trad. Paulo Neves. São Paulo. Martins Fontes, 1999.

CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual. São Paulo. Editora Brasiliense, 1984.

RIZK, Hadi. Compreender Spinoza. Trad. Jaime A. Clasen. Petrópolis. Editora Vozes, 2006.

SPINOZA, Benedictus. Ética. Trad. Tomaz Tadeu. Autêntica Editora. Belo Horizonte, 2007.

sábado, 29 de maio de 2010

Universos paralelos

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Relato pela ida à Casa de Saúde Esperança, Juiz de Fora/MG.


Uma prévia preparação talvez fosse aconselhável.... mas não houve nenhuma. Na verdade, tentei não pensar muito a respeito enquanto a paisagem se transformava a minha volta. Apenas a sensação indefinida confirmava que estava a caminho de um momento tantas vezes insinuado.

Não sei se por conta do torpor ainda presente no coração em função de tantos acontecimentos nos últimos tempos, a mente e até o coração se recusava a qualquer tipo de empolgação. Foi uma alegria a viagem e o próprio encontro na rodoviária, a curiosidade pelos contornos de uma cidade há tanto tempo somente na lembrança e um inesperado almoço compartilhado. Mas ainda sentia meu ser um tanto ausente.

A expectativa foi aumentando na medida em que o ônibus em direção à Casa de Saúde Esperança dela se aproximava, tal como o “frio na barriga”. O que esperar? Quais seriam os partilhantes do dia? E o pessoal que conduzia a casa, qual seria a recepção?

Mais uma vez, tentei afastar os pensamentos e me concentrar na paisagem ao redor, aliás, muito gratificante, pois as montanhas que se desenhavam à frente lembravam-me o quão distante estava do meu habitat natural e a razão da minha presença ali. Apenas o calor se assemelhava e esta não foi uma grata surpresa.

A recepção na Casa de Saúde Esperança, entretanto, não poderia ter sido melhor. Como foram amáveis e naturais todas aquelas pessoas tão envolvidas com o seu trabalho e tão cientes do papel que representavam.

O carinho e a admiração para com o meu querido tutor também não deixavam dúvidas do quanto a Filosofia Clínica está sendo respeitada nesse inusitado local. Confesso que realmente relaxei nesse instante. Bem, pensei, o que quer que esteja para se configurar, o apoio de todos era irrestrito. Mas o grande momento ainda não acontecera e eu não sei se estava verdadeiramente preparada para o que me aguardava.

Apesar do calor, da sala impessoal, das condições nada ideais de acolhimento, do cansaço pela viagem e por certa ansiedade a cada entrada, a atmosfera era de afeto, como se um grande abraço (o mesmo com o qual o partilhante era recebido) se perpetuasse e invadisse a todos nós. Éramos sempre quatro na sala, pois uma outra filósofa clínica me acompanhou na observação dos trabalhos e sua presença foi muito amiga. Acho que me lembrava o quanto estávamos sendo cúmplices destes momentos tão íntimos e que não havia dúvidas de que estamos comprometidos com algo maior que nós mesmos.

Foi um verdadeiro desfile, com direito a tapete vermelho, de estruturas de pensamento que se apresentava como uma surpresa atrás da outra. Desde estruturas coerentes e raciocínios altamente estruturados a outras com termos quase ausentes; algumas expressividades pareciam prestes a explodir em uma esteticidade bruta cujas conseqüências só poderiam ser avaliadas posteriormente. Mas também pude presenciar demonstrações de uma interseção construída com carinho e pautada numa confiança extrema.

Emoções, deslocamentos longos e um festival de semioses, com a música, o desenho, a fala que acontecia através de afeto presente e direcionado, foram alguns destaques. Mas talvez o maior destaque dentre todos seja a constante busca em ser considerado “normal”, ou seja, sair do local, onde apesar de ser claramente observado por tantos com adequado, pelo bom tratamento, não representa o objetivo final.

A liberdade, esse conceito humano tão caro e que, às vezes, parece ser quase inerente à nossa espécie, pontuava boa parte das falas. Talvez muitos de nós ainda não compreendamos que a almejada liberdade pode estar em qualquer lugar, em qualquer momento, mesmo ali atrás dos portões abertos da Casa de Saúde Esperança.

As amarras são internas, e a busca por “estar em casa”, por “voltar ao meu lugar”, por “estar com a minha família” seja a mesma que realizamos aqui fora, a cada dia. Aqueles que estão em paz que se manifestem em nosso socorro, pois muitas vezes as posições físicas, tantas vezes alternadas durante as sessões, entre filósofo clínico e partilhante, não possam ser igualmente realizadas no papel de cuidadores.

Também nós, os que temos autorização para ir e vir, precisamos fortemente desses confrontos para nos dar conta do quanto somos humanos, do quanto somos tão frágeis a ponto de perceber que há um limiar muito estreito que nos separa desse universo, paralelo sim, mas presente e assustadoramente possível.

Acho que posso resumir a partir do que me foi dito da fala de uma outra aluna: “havia afirmado sair dali com a alma lavada”, de que não sei se a minha alma se sentiu assim, lavada, pois ainda precisava digerir tudo o que presenciara, mas certamente me senti redimida. Estava chocada, mas uma energia saltava pelos poros.

É fascinante perceber a estrutura dessas lógicas inusitadas e, ao mesmo tempo, dimensionar a vida tal como ela se apresenta: com suas infinitas diversidades ativas e seus universos paralelos, que coexistem com a nossa absurda normalidade.

A dúvida permanece: quem de nós deve ser confinado? Que poder é esse que nos permite isolar pessoas só porque suas realidades estão momentaneamente alteradas? Quantos de nós não nos alteramos a cada momento, no exercício mesmo de nosso papel existencial, e nos confrontamos com nossos pesadelos diários?

Mas há que se lembrar que é importante ser cuidado, que este talvez seja este o supremo exercício da humanidade, o de ajudarmos uns aos outros e, dessa forma, torna-se imperioso, para os que se habilitam e possuem alguma claridade, iluminar a eventual sombra de nossos contemporâneos partilhantes.

Obrigada pela experiência, pelo chamado, pelo crédito.

Espero que outros encontros aconteçam.

Essa caminhada é mais bonita com a sua mão amiga.
Tempo

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Um pouco antes seria dia, um pouco depois seria ao entardecer, e se escolhesse o momento não seria a hora. Então pensou em deixar para depois, mas percebeu que isso acabaria sendo nunca. Achou que poderia talvez ser imediatamente. E o que era imediatamente? Porque agora não podia ser e imediatamente não é quase agora?

Assim, Pedro se perguntou se algo poderia ser de tal forma que não coubesse em tempo algum. Existiria algo que somente pudesse se pronunciar e ser se não fosse colocado em qualquer parte do tempo? Tipo essas coisas que falam como a eternidade, o infinito, a dízima periódica; parecem coisas que passam pelo tempo, mas que não estão nele.

Pedro vivia um dilema. Achava que suas questões não podiam ser colocadas na ordem usual do tempo, não tinham como ser definidas a partir de ontem, hoje, amanhã, pois isso modificaria radicalmente tudo e ele ficaria apenas com outro problema, não mais o problema original. O problema original não cabia em qualquer modalidade do tempo, não tinha como se relacionar com ponteiros, relógios, prazos.

Quando disseram a Pedro que ele estava para enlouquecer com esta bobagem toda, que no fundo estava apenas fugindo de alguma coisa que o ameaçava, Pedro usou um exemplo. Ele disse que quando amava, quando em sua vida estava apaixonado por alguém, isso se tornava incompatível com os horários, os relógios todos, os períodos e com qualquer coisa que lembrasse prazos. Disse que, para ele, o amor espalhava, encurtava, quebrava e juntava o tempo de tal forma que nem tempo o tempo mais era.

Houve então um outono no qual Pedro desapareceu. A polícia, os amigos, o imposto de renda, todos o procuraram, porém ele não era mais achado em parte alguma. Isso porque ao amanhecer, com a névoa fresquinha da noite e algumas estrelas no céu, Pedro havia de descomposto em nuvens, em brisas, em outono. Pedro se misturava aos montes que contornam as estradas, para todas as partes, mais ou menos como se diz do que se torna para sempre.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

No intervalo lucidez louca

Rosangela Rossi
Juiz de Fora/MG

Não sou Clarice mas sinto desejo de expressar o que corre em minha alma sem virgulas e pontos finais num pensar que vai acontecendo sem censura na loucura de ser quem sou no perder e me achar no meio destas escutas do meu ser terapeuta mulher amante amiga mãe múltiplas de mim que dissolvem e se unem no tagarelar e silenciar sorrir chorar deixando sair dioniso com suas bacantes homenageando afrodite nos pés de mercúrio em direção a jupiter me embriagando de palavras em poesia me encantando com o tudo e o nada sentindo o caos no cosmos infinito fazendo intervalos no respirar não precisando seguir normas nem ser perfeita comer pipoca sem culpa de ser feliz barulho de ambulância lá fora na espera de meu pai que parte e ainda dorme em paz sabendo nada do depois mais fiando que existe algo indefinido na certeza deus no meio de muitas dúvidas fazendo as pazes com as máquinas e convivendo nos intervalos com distantes virtuais que se tornam presentes e me aquecem como este café quente nesta tarde intervalo entre um partilhante paciente que amo e nos esperamos entre dores e sofrimentos em busca de fazer a alma mas toca o sino e ponho fim a este sem fim de mimcaos cósmico de lucidez louca de tudo e nada ser presente na mente que desmente e esvazia no meditar no nada do tempo entre o tempo de karos no relogio da vida acontecente desassossego de fernando pessoa em mim em mares a navegar brasileiro no respirar enquanto paro no deserto de mim encontrar mar amar de mim no nós que afina no fino eixo de encontrar o mundo do outro sair de mim e se render ao nós de nossos laços composição em comunhão sem me perder em meio ao todo mundo em torno do qual tudo se faz em sedução e falta no desejo que se solta e escraviza consumindo ilusões na grande perdição da vida
Ernest Cassirer e a Filosofia Clínica

Prof. Dr. Peter Büttner
Universidade Federal do Mato Grosso
Associação de Filosofia Clínica do Mato Grosso
Cuiabá/MT



ERNEST CASSIRER E A FILOSOFIA CLÍNICA

1- Quem é Ernest Cassirer?

2- Algumas características da Filosofia de Cassirer

3- Afinidades da Obra de Cassirer com a Filosofia Clínica

1- QUEM É ERNEST CASSIRER ?

É muito estranho o fato que a Filosofia de Ernest Cassirer é tão pouco conhecida e estudada no Brasil. Talvez seja justamente sua excelência, sua qualidade inerente e sua exclusividade que a condenam à relativa ineficácia e ao desconhecimento. Esta exclusividade consiste na abertura de Cassirer para as mais diversas evoluções do pensamento do passado e da atualidade, seja no campo da cultura, seja na área das ciências, interpretando-o em confronto com a filosofia.

Cassirer nasceu em 1874 na cidade alemã de Breslau, hoje pertencente à Polônia, (sendo chamada de Wroclaw). Doutorou-se em 1906 e foi professor de Filosofia na Universidade de Hamburgo de 1919 a 1933. Com os filósofos Cohen e Natorp se tornou um dos mais importantes pensadores da Escola de Marburg, a qual superou, enriquecendo com sentido histórico e cultural a maneira formal e logicista da visão de mundo.

Por ser Judeu, tinha de emigrar da Alemanha Nazista em 1933. Ficando algum tempo na Inglaterra (Oxfort) e na Suécia (Göteborg) e estabelecendo-se nos Estados Unidos (Harvard e Yale), onde morreu em 1945 na cidade de Princeton.

Nos Estados Unidos foi instigado a traduzir suas obras para o Inglês, mas reconhecendo a insuficiência de tempo, resumiu o principal de suas teorias, enriquecidas, porem, pela evolução de seu pensamento, em sua obra Essay on Man, que foi editada no Brasil com o mesmo título Ensaio sobre o Homem pela Martins Fontes e com o título Antropologia Filosófica pela Mestre Jô.

Mais do que por dados pessoais da vida de Cassirer, quero apresentá-lo aqui pelo seu pensamento filosófico e suas iniciativas inovadoras.

Antropologia Filosófica, para Cassirer, não é apenas uma disciplina de currículo escolar, mas é uma filosofia da consciência e da busca de significados, tendo em conta que a consciência e a busca de significados já sempre e em todos os casos se manifestam em determinadas formas concretas da vivência humana. Neste contexto sua Antropologia é ao mesmo tempo Filosofia da Cultura com o objetivo de orientação dos seres humanos, fazendo jus à posterior afirmação de Richard Rorty em seu livro O Espelho da Natureza, que o principal que hoje em dia precisamos em termos de filosofia é uma Filosofia da Cultura.

Considerando a filosofia de Cassirer como Filosofia da Cultura, não se pode entender este termo como uma filosofia entre outras, pois, ela é um empenho do pensar que abarca todas as competências humanas da compreensão do mundo. Ela é uma meta-orientação, uma orientação sobre a orientação. Toda filosofia de Cassirer tem como principal objetivo a orientação humana, alertando, não obstante, que nenhuma visão do ser humano pode ser rígida, limitada e definitivamente deter-minada.

O próprio Cassirer, que muitas vezes se manifestou criticamente contra a Filosofia da Vida do século XX, proclamou um tipo peculiar de filosofia da vida, pelo fato de partir da vida humana como vida da cultura, sem deixar de lado a profundidade epistemológica e o contexto histórico. Esta vida cultural, porém, já está sempre sob o princípio de formação simbólica e não deixa nenhuma possibilidade de voltar ao estado pré-racional ou, como é chamado também, puro e primitivo (original).

Cassirer trata principalmente mito e religião, linguagem e arte, ciência e técnica como formas simbólicas. Importante é entender, que os humanos, construindo qualquer conhecimento, criam também forçosamente um símbolo representativo de acordo com a forma simbólica (mito, arte, ciência etc.) em que situam seu pensa-mento. Existem recíprocas relações funcionais entre estas formas simbólicas. Não podem ser tratados, porém, no presente contexto.

O que nos pode preocupar é o conceito de verdade. Não haveria perigo de ocorrer sua relativização na passagem de uma forma simbólica à outra? Cassirer reconheceu este problema e o procura solucionar assim: a reivindicação da verdade, que aparece em determinado lugar da formação simbólica, deve ter por base a total inter-relação estrutural da formação simbólica. Isto supõe um posicionamento que se toma no processo da formação simbólica, sob cujo aspecto o conceito de verdade pode ser formulado e trabalhado. Às vezes parece que Cassirer vê este posiciona-mento na ciência do jeito como ele a trata no 3° volume da Filosofia das Formas Simbólicas. Mais provável, e mais justificável pelos textos, é que ele atribui esta tarefa à filosofia.

Mas, que tipo de filosofia Cassirer tem em mente? Evidentemente esta filosofia é para ele uma ciência racional de reflexão que se serve instrumentalmente das mais diversas ciências particulares, sem deixar-se estabelecer definitivamente como disciplina. Momentos éticos têm neste conceito de filosofia um papel decisivo. No 2° ponto veremos mais detalhes desta filosofia que, sem dúvida, permite caminhos diferenciados para sua compreensão.

Em 1988, no Congresso sobre Cassirer na Universidade (10) de Paris, com a presença dos mais renomeados filósofos franceses e de outras partes da Europa, Cassirer foi unanimemente declarado o maior historiador da Filosofia no século XX.

Foi realçado que não se limitou, contudo, apenas à História da Filosofia:

· A Filosofia Transcendental recebe com ele uma forma nova: o questionamento não se concentra mais apenas no conhecimento científico-filosófico, mas também no campo muito mais amplo da compreensão de significados.

· Cassirer tenta uma reconstrução da filosofia sistemática (que entende como visão unilateral do mundo) com meios novos (mas não anda o caminho radical de Wittgenstein e Heidegger).

· Cassirer situou a Filosofia de Kant no contexto histórico das Ciências do Espírito (Humanas) da Renascença até Hegel,

· confrontou a Filosofia com os mais recentes métodos e resultados das Ciências da Natureza e da Cultura.

· As mais novas e revolucionárias teorias, tais como a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica encontram nele um interprete de profundidade.

· Com psicólogos e cientistas da arte estava em freqüente intercambio de idéias.

· As teorias da Fenomenologia Husserliana e da Hermenêutica Existencial de Heidegger, surgindo no século XX, sabia apreciar e julgar,

· tanto como a Filosofia do Circulo de Viena.

· Ao mesmo tempo, Cassirer sempre tentou tornar compreensível o significado original da filosofia na forma da antiga filosofia grega.

· Foi um dos primeiros no século XX que reconheceu a necessidade de uma Filosofia da Linguagem.

· Redescobriu a importância do pensar mítico para a orientação espiritual e intelectual do ser humano, sem desprezo da racionalidade.

· Criou com sua Filosofia das Formas Simbólicas uma nova teoria filosófica e uma nova compreensão do ser humano.

· Embora que negou a possibilidade de um sistema filosófico,

· Tanto como a durabilidade da Metafísica,

· Considera a perspectiva sistemática da filosofia indispensável, a fim de proporcionar significado e consistência ao problema da orientação e formação humanas, seja a das ciências, seja a da assim chamada vida natural.

· Seu teorema das formas simbólicas pode ser entendido diretamente como estrutura básica dessa orientação e formação, dado que considera energias espirituais concretas do ser humano que necessariamente se manifestam em formas mentais evidentes e dado que nem o espiritualmente formado pode existir separado de manifestações concretas (símbolos), nem a realidade concreta pode ser apreendida isolada do processo de assimilação mental e antes desta. [De certa maneira Cassirer antecipa com isso a Semiose de Morris (Foudations of the Theory of Signs, 1938, II, 2 e Signs, Language and Behavior, 1946, I, 2) onde fala em comportamento gestual (por sinais e signos)].

· Em sua visão: conhecimento é o processo contínuo de transformar a realidade circundante em símbolos que representam esta adequadamente.


2- ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DA FILOSOFIA DE CASSIRER

Filosofia das Formas Simbólicas não é apenas o título da obra em três volumes de Cassirer (1923/25/29). É, sobretudo, o nome de uma nova concepção da filosofia, a qual como escopo já se encontra nas obras anteriores de Cassirer, mas apenas desde 1923 alcança forma expressa.

O característico dessa nova concepção é que ela ao mesmo tempo é epistemológica e cultural-filosófica. Não nega o racional, mas este nasce e se desenvolve pelo potencial humano da construção de significados em todas as atividades humanas.

Portanto, a construção do mundo, no sentido filosófico, é considerada por Cassirer como simbólica, defendendo que apenas razão é um termo muito pouco adequado para abranger as formas da vida cultural do homem em toda sua riqueza e diversidade. Estas, principalmente, são mito e religião, linguagem e arte, ciência e história. Todas estas formas são simbólicas. Portanto, em lugar de definir o ser humano simplesmente como animal racional, Cassirer o caracteriza mais especifica-mente como animal simbólico, designando sua diferença peculiar e compreendendo adequadamente o caminho aberto ao homem: a cultura e a civilização.

Cassirer vê, então, as formas simbólicas como estradas diferentes que condu-zem ao mesmo centro. “Todas as obras humanas surgem em particulares condições históricas, culturais e sociológicas. Mas jamais poderíamos compreender estas condições especiais se não fôssemos capazes de apreender os princípios estruturais gerais que se encontram na base dessas obras, pois, o problema do sentido precede o problema do desenvolvimento histórico.” (Antrop., 1977, 117)

Forma simbólica é toda energia mental pela qual um significado espiritual é incorporado a um signo sensível. (WW, 175) Quanto mais uma forma simbólica em sua especificidade permite a compreensão do mundo, tanto mais plena ela é. Uma teoria da compreensão de significados deve preceder a teoria do conhecimento.

No entanto, “Não podemos querer medir a profundidade de um ramo especial da cultura humana sem a precedência de uma análise descritiva. A visão estrutural da cultura deve preceder à meramente histórica.” (Antrop., 1977, 118) Para Cassirer, esta análise descritiva exige categorias fundamentais da descrição, específicas para cada forma simbólica da cultura, que podem ser encontradas estudando e analisando os diferentes modos e possibilidades de cada forma simbólica.

Cassirer, não obstante, defende que a filosofia não pode contentar-se em analisar apenas as formas individuais da cultura humana. Ela busca um todo organizado, uma visão sintética universal e interrelacionada, que inclui todas as formas individuais que, contudo, se apresentam muitas vezes conflitantes. O pensamento científico contradiz e suprime o pensamento mítico. A religião se vê na necessidade de defender a pureza do próprio ideal contra as fantasias extravagantes do mito ou da arte e, assim, a unidade e harmonia da cultura parecem constantemente frustradas pelo curso real dos acontecimentos.

Cassirer insiste na distensão de nossa visão para diversas direções da atividade humana, afirmando que “A cultura humana, indubitavelmente, está dividida em várias atividades, que seguem linhas diferentes e perseguem diferentes objetivos.” (Antrop., 1977, 119)

Para Cassirer todas as formas simbólicas buscam “categorias” definidas, pelas quais os fenômenos da religião, da arte, da linguagem serão trazidos a uma ordem sistemática. Sem esta síntese prévia, realizada pelas próprias ciências, a filosofia não teria ponto de partida e nem poderia parar aqui.

Uma síntese filosófica, contudo, não significa um denominador comum ou uma unidade de efeitos, mas uma unidade de ação; não uma unidade de produtos, mas uma unidade de processo criador em que todas as formas cooperam para um fim comum e demonstram um caráter universal e, sobretudo, a unidade de uma função geral, pela qual todas estas criações se demonstram unidas.

Como se pode entender esta função geral? Para Cassirer esta função geral é a função base do ser humano de criar sinais, símbolos e significados para tudo com que ele se defronta em sua situação circunstancial a fim de assimilá-lo para seu universo pessoal, para construir seu mundo significativo.

O significado de alguma coisa, de um fenômeno, fato ou comportamento, porém, não é uma coisa física e visível, mas uma construção mental que, para ser expressa e comunicada, precisa de símbolos. Sem estes os humanos não têm meio para determinar, expressar e comunicar os conhecimentos, princípios estruturais, valores e sentidos que estão construindo com base em suas experiências, pensa-mentos e sentimentos.

E mais: A verdade das coisas não reside numa descrição teórica ou numa explanação das coisas; consiste antes na “visão simpática” com relacionamentos e afinidades das coisas e fenômenos. Os pontos de vista das formas simbólicas podem-se contrastar, mas sem conflito ou contradição, pois se movem em planos inteira-mente diferentes. A interpretação conceitual da ciência, p. ex., não impossibilita a interpretação da arte. Cada qual tem sua perspectiva própria e, por assim dizer, seu próprio ângulo de refração.

Cassirer recorre à psicologia da percepção sensorial ensinando-nos que, sem o uso de ambos os olhos, sem uma visão binocular, não haveria consciência da terceira dimensão do espaço. Assim, diz ele, a profundidade da experiência humana depende de sermos capazes de variar nossos modos de ver, de alterar nossas visões da realidade. De acordo com o nosso interesse pelas razões teóricas ou pelos efeitos práticos das coisas, pensamos nelas como causas ou como meios. Além do mais, cada forma simbólica tem sua própria modalidade de construir o mundo. A arte, p. ex., se caracteriza por visualizar e não apenas por conceituar ou utilizar as coisas, dando-nos uma imagem mais rica, mais vivida e colorida da realidade e uma visão mais profunda em sua estrutura formal.

Cassirer chega à conclusão: dado que é característico da natureza humana não se limitar a uma única maneira específica de abordar a realidade, mas poder escolher seu ponto de vista e, assim, passar de um aspecto das coisas para outro, também as categorias são mutáveis e são diferentes nas diversas formas simbólicas. Considera, também, a filosofia sistemática muito unilateral para uma visão adequada do mundo, defendendo que um realismo estreito demais não atinge o sentido da realidade. A filosofia deve apreender o todo das formas simbólicas, de cuja consideração nasce o conceito de uma em si articulada realidade e, por força desta, sujeito e objeto, eu e mundo se distinguem e se confrontam em determinada forma, estabelecendo a cada indivíduo seu determinado lugar nesta totalidade.

3- AFINIDADES DA OBRA DE CASSIRER COM A FILOSOFIA CLÍNICA

Cassirer, evidentemente, não conhecia a Filosofia Clínica, mas, sem dúvida, muitas partes de seu pensamento demonstram afinidade com esta. Isto não vem por acaso.

Os filósofos Merleau-Ponty e Arão Gurwitsch realçaram muitas vezes a expressividade simbólica na obra de Cassirer. Ambos foram influenciados pela Psicologia da Forma ou Gestaltismo. Cassirer e Gurwitsch conheciam o Gestaltismo pelo seu principal representante, Kurt Goldstein, que era primo de Cassirer.

Interessante é que Gurwitsch e Cassirer acompanharam, nos anos XX, na clínica de Goldstein em Francfurto, o trabalho deste com portadores de afasia (afasia é o enfraquecimento ou perda quase total do poder de captação e por vezes de expressão de palavras como símbolos de pensamentos, em virtude de lesões em alguns centros cerebrais e não devido a defeito no mecanismo auditivo ou fonador).

Cassirer viu no trabalho de Goldstein uma ilustração e confirmação de sua própria concepção do papel constitutivo da função simbólica. O que Goldstein chamava de comportamento concreto corresponde à compreensão de significados em Cassirer e o que caracterizou como categorial à função da representação e significação. Cassirer chamou seu capitulo sobre a Patologia da Consciência Simbólica, orientado por Goldstein, uma comprovação negativa de sua teoria simbólica. Olhando o caminho inverso, podemos perguntar: a teoria simbólica seria, então, uma contribuição para a clínica da afasia e, de maneira mais geral, para a Filosofia Clínica?

Mais do que em suas publicações fica evidente em suas obras póstumas que Cassirer de fato partiu de uma doutrina gestáltica na qual homem, mundo e símbolo já sempre estão vistos como uma totalidade em inter-relação. Sobre isso se apóia sua teoria de busca de significado (mais do que a busca de conhecimento). Muitos interpretes de Cassirer não perceberam quão perto a Filosofia das Formas Simbólicas se aproximou àquilo que Cassirer chama de Filosofia da Vida. Para ele: A vida sobressai da esfera da existência apenas natural: ela se transforma e aperfeiçoa à forma da mente (PSF, I, 51) Filosofia da Vida, para Cassirer, é a viravolta da filosofia moderna rumo à vida imediatamente ativa (PSF, I, 48 s). Aspectos da Filosofia das Formas Simbólicas demonstram uma coincidência com a Filosofia da Vida, p. ex.: o princípio da compreensão expressiva, simbólica, como base de toda a compreensão do mundo e com esta a temática do mito como forma de vida pré-científica, e neste contexto a temática do corpo e, finalmente, o uso do próprio conceito de vida.

É importante compreender que, para Cassirer, as formas simbólicas nascem da vida concreta, mas, todavia a transcendem. O simbólico transcende a vida no sentido de um valor “transpessoal” (PSF, III, 472 s). Este transpessoal é essencial para a Filosofia de Vida de Cassirer, pois, a essência da personalidade, para ele, consiste na capacidade de viver em direção ao futuro e até mesmo para um tempo em que não estaremos vivos, tanto quanto de participar do passado em que não mais podemos viver. Ambas as dimensões de tempo são incluídos na personalidade e a constroem junto com a realidade presente.

A personalidade se fundamenta, portanto, sobre algo transpessoal: sobre a linguagem, sobre o simbólico. Cassirer recorre à idéia de Humboldt de que o homem possui uma individualidade singular com base em sua linguagem transpessoal, de que a linguagem lhe abre o passado e o futuro e que esta propriamente gera comunidade. Em Davos Cassirer definiu isto assim: Cada um fala a sua linguagem e é impensável que a linguagem de um seja transferida para a linguagem de outrem (KPM, 264 s). Ao contrário das mônadas de Leibniz, as quais refletem o mundo do seu lugar “sem janelas”, a nossa identidade se constrói apenas por meio da linguagem transpessoal e social. Esta visão básica da Filosofia das Formas Simbólicas tem um aspecto ético. A problemática da ética, portanto é, para Cassirer, uma questão da linguagem, pois, sem a capacidade de ter um ponto de vista sobre a própria vida, não poderíamos ponderar objetivamente nem decisões que se referem a outros, nem exigências éticas transindividuais e transnacionais.

Cassirer reflete em seu estudo “Axel Hägerström” (1939) sobre a problemática da formação da vontade e chega à exigência necessária da maior unidade da vontade em vista dos conflitos e de sua solução. Ele vê esta exigência ligada ao conceito dos direitos humanos e do conceito inerente do ser humano – na humanidade. A idéia dos direitos humanos só tem sentido, quando existe algo como “humanitas” (correspondente à paideia), algo que se realiza em todo ser humano. Este algo é para Cassirer o potencial humano que ele caracteriza com o conceito do animal simbólico capaz de construir significados, competência em virtude da qual o homem é homem, não pelos seus princípios individuais, mas pelos essenciais da espécie.

Vimos, então, que Cassirer defende que a pura cultura da razão não pode fundamentar o valor mais alto da humanidade. Necessitamos de mais outras potencialidades para sermos verdadeiramente humanos, inclusive para manter a racionalidade em seus limites.

Se colocarmos a felicidade como meta suprema das aspirações humanas, a cultura já está julgada. Mesmo assim, Cassirer justifica a cultura, dando-lhe uma outra escala de valores: o valor verdadeiro não está nos bens que o homem recebe da natureza, mas no seu próprio pensar e agir e naquilo que ele faz de si por meio deste pensar e agir. Isto significa que a meta da cultura não é a realização da felicidade na Terra, mas a realização da liberdade, da autonomia autêntica, a qual não significa o domínio técnico do homem sobre a natureza, mas o domínio moral sobre si mesmo. (Logik,104)

È possível realizar esta meta, questiona Cassirer, é possível que o ser humano pode encontrar na cultura e por meio dela o alcance da plenitude de sua natureza inteligível pelo desenvolvimento mais pleno possível de seu potencial, mesmo que não consiga a satisfação de todos os seus desejos? A resposta para Cassirer é a seguinte: Isto apenas será possível se ele ultrapassar o limite de sua individualida-de, se conseguir alargar seu próprio Eu ao todo da humanidade. Dado que nesta tentativa existe um momento que ameaça a espontaneidade, em lugar de exaltá-la e aumentá-la, o ser humano sente este seu limite dolorosamente. Doar-se pode ser como um parto doloroso que traz vida e felicidade. Para Cassirer o comunicar-se e doar-se exige certos processos em comum entre as pessoas, mas não uma mera igualdade de produtos e define: um sujeito não se torna cognoscível e compreensível por outro ficando igual a este, mas colocando-se em relação ativa com ele.

Cultura, portanto, para Cassirer não é um simples acontecer, mas um fazer de todo ser humano que sempre de novo deva começar e agir, embora que nunca tenha certeza de sua meta; o que construiu sempre está ameaçado de destruição. Ela está diretamente ligada à problematicidade humana da qual nenhum humano pode escapar. Cassirer vê uma solução otimista do problema apoiada sobre o princípio de toda a comunicação espiritual:

Não é a obra da criação cultural, em cuja existência se solidifica o processo criativo, a meta perseguida, mas o Tu, o outro sujeito, aquele que recebe a obra para relacioná-la a sua própria vida.

A obra da cultura é, assim, a ponte que leva de um pólo-Eu a outro pólo-Eu. O processo vital da cultura consiste, portanto, na inesgotável criação de símbolos, de mediações e pontos de passagem de um Eu ao outro, ao Tu.

Embora que nosso assunto é a afinidade da obra de Cassirer com a Filosofia Clínica, creio que alguns dos presentes gostariam ouvir também algo a respeito da afinidade com a Filosofia para Crianças. Vou resumir a minha visão ao máximo:

· A atitude e atividade do pensar crítico-criativo-cuidadoso,

· E com ela a construção razoável de um universo pessoal autônomo com que se pode viver feliz,

· A busca de significados, sentidos e conhecimentos relevantes,

· O encontro do Eu com o Tu.

E agora, qual a afinidade da obra de Cassirer com a Filosofia Clínica?

Apresentei aqui apenas uma pequena parte da enorme obra de Cassirer. São, no entanto, idéias nas quais eu vejo alguma afinidade com a Filosofia Clínica. Obedecendo à metodologia da Filosofia para Crianças deixo, contudo, uma determinação mais específica destas afinidades e eventuais contribuições para a reconstrução em comunidade de investigação ou, então, para uma reflexão individual, dado que nosso tempo disponível aqui não permite grandes investigações comunitárias e interativas.

Espero, não obstante, que a minha exposição foi suficientemente intrigante para servir como instigação a esta reflexão e a conseqüente reconstrução pessoal do exposto, tanto como para a busca de seu significado, sendo esta a única maneira de cada um de vocês torna-la seu próprio conhecimento cheio de valores e sentidos.

Bibliografia:

Cassirer, E. Antropologia Filosófica. São Paulo: Mestre Jô, 1978

Cassirer, E. Philosophie der symbolischen Formen. Darmstadt: WBG, 1977

Cassirer, E. Zur Logik der Kulturwissenschaften. Darmstadt: WBG, 1980

Braun, H-J. Holzhey, H. Orth, E. W. Über Ernst Cassirers Philosophie der symbolischen Formen. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1988

Büttner, P. Der Aufbau der Welt bei Ernst Cassirer – Inauguraldissertation zur Erlangung des Doktorgrades. Innsbruck: Leopold-Franzens-Universität, 1988

Parckter, L. Filosofia Clínica. www.filosofiaclínica.com.br

CD Filosofia Clínica – CD Oficial 2005
PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Quando pensei que nada mais me surpreenderia, minha teoria desabou. Uma amiga muito querida me convidou para um jantar a dois. Conversa tranquila, leve, descontraída. Depois da sobremesa, enquanto saboreávamos um delicioso café, veio a surpresa: ela queria fazer uma “produção independente” e eu tinha sido escolhido para realizar a tarefa e ser seu parceiro. Confesso que nunca, nem em minhas fantasias mais secretas, imaginei ser protagonista deste tipo de projeto, por outro lado, confesso também que fiquei bastante envaidecido com a proposta.

Este tipo de decisão não é fácil. Fiquei paralisado emocionalmente. Não consegui falar, perguntar, raciocinar. Pedi alguns dias para pensar. E não consegui fazer outra coisa. Por qual motivo teria sido eu o escolhido? Beleza, inteligência, saúde, charme, simpatia, humildade, amizade... Deveria eu perguntar quais eram as razões? Faríamos de maneira intensiva ou seria um projeto a ser concluído sem pressa? Conseguiria eu ser um mero figurante, sem envolvimento algum? A amizade se manteria igual?

A confusão foi aumentando, então tentei sair do plano pessoal e pensar apenas do ponto de vista profissional. Quando uma empresa contrata um consultor para uma tarefa temporária importante, esta pessoa consegue ser absolutamente técnica em seu trabalho? Não vibra com os resultados positivos? Depois de concluído o trabalho, faz um acompanhamento, mesmo que não remunerado, como curiosidade a até mesmo como uma espécie de pós vendas de seu serviço? Um jogador de futebol ao ser transferido de clube consegue simplesmente esquecer ou renegar seu passado?

Tentei então pensar em como as empresas escolhem os consultores. Realizam uma pesquisa de mercado e selecionam aqueles que reúnem as melhores condições ou contratam de acordo com o orçamento disponível? Poderia eu sugerir o nome de alguém que pudesse se adaptar melhor às necessidades de minha amiga? No âmbito profissional as respostas não me deixaram satisfeito, as idéias se embaralharam e optei por voltar a pensar no lado sentimental da vida.

Quantas vezes hesitei e não consegui jogar fora aquelas calças velhas, os tênis usados, as conchas recolhidas na praia, as rolhas de vinhos bebidos? De alguma forma me marcaram e não quis me desfazer das lembranças. Cuido do meu carro, de minha casa, da planta no jardim. Se tivesse um gato ou cachorro cuidaria também. Como iria conseguir fazer uma produção independente sem me envolver? Como não acompanhar seu desenvolvimento? Como não ficar imaginando como será o rostinho do bebê? Como doar um órgão para alguém e não se sentir gratificado, não se tornar meio irmão do receptor?

Se a doação fosse anônima, talvez conseguisse fazer algo absolutamente técnico, mas não se tratava de algo impessoal. A receptora tem nome, endereço, CPF, é minha amiga, fez o convite olhando direto no meu olho e me liberou de qualquer compromisso. Sei que muitos pais colocam filhos no mundo e depois somem. Mães também desaparecem. Alguns física, outros emocionalmente. Isto não me serve de consolo, nem como desculpa. Pelo contrário, aumenta ainda mais a responsabilidade de minha decisão.

Depois de muitas horas de indecisão, ficou clara para mim a impossibilidade de aceitar o convite e não me envolver com o projeto. Se aceitasse, iria me jogar de cabeça e ser pai de verdade. Acontece que aprendi na escola e nunca mais esqueci que a coisa mais importante que um pai pode fazer pelo seu filho é amar a mãe dele. O que não era o meu caso, nem o de minha amiga. É a intenção, e não a doação, que faz o doador. Se fosse para doar, gostaria de dar amor e não sêmen.

Amigos são para todas as horas. Na alegria, na tristeza, na riqueza, na pobreza, na saúde, na doença, no restaurante, no desejo, no sonho, na cama, no abraço, na conversa... A produção independente ainda vai acontecer? Não sei. Serei o doador? Provavelmente não. Continuamos amigos? Mais do que nunca. O filho ainda não fizemos, mas as conversas sobre o tema estão sendo ótimas.
Falta-nos tempo

Rosângela Rossi
Juiz de Fora/MG

Quantas coisas passam despercebidas em nossas vidas. Mal olhamos o que nos chega. Passamos os olhos apressados. As superficialidades chamam mais atenção. Estar por inteiro em cada instante e detalhe deixou de ser prioridade.

Faltam-nos tempos para os amigos, no conversar leve sem competição. Não temos mais tempo para um simples telefonema para dizer os quanto os admiramos e saudades sentimos. Fica um vazio na alma e deixamos de lado os afetos gostosos.

Cartas não mais escrevemos. Correspondências de profundos temas ficaram de lado no corre, corre da vida. O diálogo franco e sincero na busca da verdade passou a ser bobagem de intelectuais. Agradecimentos nem mais se escuta.

Imagino Diógenes, lá na Grécia antiga, com sua lamparina acessa durante o dia, dizendo: “Procuro o homem”. Isto significava: procuro o homem que vive segundo a sua mais autêntica essência e sua genuína natureza.

Falta-nos tempo, pois há muito que consumir e assistir na TV... Falta-nos tempo, pois o sagrado deu lugar ao profano, a solidariedade ficou em segundo plano para a competição, a admiração foi trocada pela inveja e muitas virtudes deixaram de ser soberanas.

Falta-nos tempo para pensar e refletir, posto que pensar traz a consciência de qual longe estamos de nós mesmos. Fugimos da dor da verdade preferindo alienar na solidão da maioria.

Faltam-nos, não coisas, que temos em excesso, mas um parar para sermos humanos no compartilhar amorosa e simplesmente.

Falta-nos tempo para ver a natureza em festa, tomar um chá sem pressa e dizer no pé do ouvido do amigo: -Te amo!

domingo, 16 de maio de 2010

Coisas continuadas

Prof. Dr. Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica
Da estrada


Ela dizia que era importante você ter bons amigos e compreendia quando em um sábado à tarde você jogava futebol suíço na quadra de grama. Ela sabia que você só tinha Santo no sobrenome, herdado de sua avó, e que um passado bravo de mulherio e bebidas destiladas acompanhava a cicatriz em seu queixo. Ela tinha isso em certo deleite.

Assim como quando você viajou por dois meses pelos escarpados chãos das encostas das serras; o celular recebia mensagens de incentivos e coisas de Power Point. E ela gostava daquele primo que somente você gostava, um sujeito de difícil trato. E você acreditou que seria para sempre, que ela adoraria viver naquele pequeno apartamento de fundo, sem sol, com você. A imagem que lhe vinha era daquela mulher linda, vestindo a sua camiseta somente, parada diante do horror de sua geladeira aberta com um semi sorriso de condescendência no rosto.

Você acreditou, Fernando, acreditou que Márcia lhe asseguraria isso para sempre, sempre dali para algo melhor, como mais tempo para o futebol e uma geladeira ainda mais sem nada dentro.

Como você ignorou que se tratava de um capítulo entre o se conhecerem e os compromissos de casamento e filhos, sua vida, que estaria perfeita se aquele capítulo durasse para sempre, tornou-se toda ao contrário no capítulo seguinte.

Você e Márcia encontraram-se no capítulo II, que para você seria o final, que para ela seria prefácio ao capítulo III. Você não sabia que estava se casando com a Márcia do capítulo III e ela também não.

Com o divórcio, 5 anos depois, você então encontrou na cantina uma Márcia com outro nome, outra cor, outro sotaque, formada em Economia, uma outra Márcia, e soube que ela estava no capítulo II, mas agora você tinha 55 anos, havia comprado uma motocicleta com um número importante de cilindros, estava desejoso do capítulo III.
A utilização de uma consciência para a alteridade em Filosofia Clínica

Marcelo Osório Costa
Filósofo Clínico
Belo Horizonte/MG

Para que algo se torne compreensível é necessário que se vá ao mundo existencial do outro, seja este quem for. Antes de iniciar como se utiliza a consciência para a alteridade, serão apresentados alguns pontos a serem observados e considerados para que o filósofo clínico possa fazer uma correta análise literal dos dados relatados pela pessoa. Diante da história de vida do partilhante, cabe ao terapeuta despir-se de algumas idéias arbitrárias. É se proteger das revoltas do mar, quando há possibilidade do navio estar à deriva do mar e do vento, sem direção alguma. O terapeuta também deve compreender que existem alguns pensamentos que revelam hábitos que podem ser imperceptíveis a ele. É necessário ao terapeuta, então, andar em direção contrária a essa limitação se quer uma leitura dos dados literalmente colhidos da história de vida do partilhante (pessoa que procura pelos serviços do filósofo clínico). O filósofo clínico[1], por sua vez, deve também orientar a sua intencionalidade para o partilhante e para as suas questões últimas. Gadamer propõe o seguinte: “(...) orientar sua vista ‘às coisas elas mesmas’” (GADAMER, 1997).

Muitos filósofos clínicos se vêem, no processo terapêutico, a quase todo instante suscetíveis aos desvios de suas próprias idéias, possivelmente por este motivo pode não ser possível aproximar de uma só vez a Estrutura de Pensamento[2] da pessoa que procura pelos seus serviços. Essa tarefa, ao que se percebe em clínica, poderá ser alcançada quando se tem a idéia de que a Estrutura de Pensamento é primeira, constante e última, simultaneamente. O filósofo clínico não é um herói que alcança a leitura dos dados literais da Estrutura de Pensamento total e instantaneamente, mas deve compreender que é um processo epistemológico constante. O que importa para o terapeuta é não perder de vista o Assunto Último do partilhante. Segundo Goya, Assunto Último é

(...) quando revela a(s) problemática(s) mais importante(s). Último aqui não tem sentido metafísico, essencial, único, como se não houvesse a possibilidade de outro assunto além. Significa o má ximo de profundidade na análise do problema até o momento. (GOYA, 2008).

Em busca da aproximação da Estrutura de Pensamento do partilhante, e ao manifestar o Assunto Imediato e/ou Último em clínica filosófica, através da historicidade da pessoa, o terapeuta começa a pressupor, ou seja, a dar uma perspectiva clínica do todo da vida da pessoa. Isto significa que no momento que o partilhante relata para o filósofo clínico o seu Assunto Imediato e/ou Último, o terapeuta começará a direcionar o processo clínico. Naturalmente, o sentido histórico e total no processo clínico-filosófico somente se manifestará ao escutar e analisar toda a história do partilhante, e esse sentido se faz a partir da identificação do Assunto Imediato e/ou Último.

Quando o filósofo clínico se dispõe a compreender a história de vida de uma pessoa aproximando-se da Estrutura de Pensamento desta, o terapeuta realiza um projetar. Para compreender aquilo que é relatado pelo partilhante é preciso uma elaboração de um projeto prévio. Este “projeto prévio”, denominado assim por Gadamer, em sua obra Verdade e Método, poderá ser compreendido, em Filosofia Clínica, como a Colheita Categorial, os Exames Categoriais, a montagem da Estrutura de Pensamento e a Autogenia, e a posterior Análise da Estrutura de Pensamento.

O conteúdo obtido através destes procedimentos em Filosofia Clínica deve ser constantemente revisado tendo como base aquilo que vai se manifestando fenomenologicamente no processo terapêutico, tendo como referência a identificação do Assunto Imediato e/ou Último para não comprometer a perspectiva terapêutica. Packter, em seu Caderno B, # 23, propõe que três critérios são necessários para eleger os tópicos, que são eles: Assunto Imediato; Dado Padrão; Dado Atualizado. Desta forma, podemos entender que revisar significa enfatizar a escuta e relacionar as partes relatadas, pelo partilhante, com a totalidade histórica da pessoa, tendo como referência os critérios apontados por Packter.

Na medida em que o filósofo clínico se depara com a história de vida do partilhante é necessário revisar constantemente o projeto prévio, possibilitando, assim, um novo projeto. Assim, relações, tempos, lugares, circunstâncias, emoções, buscas, etc., são possíveis aparecer no decorrer do processo clínico-filosófico, e isto atesta a plasticidade da Estrutura de Pensamento. Desta forma, outros projetos poderão, diante da historicidade da pessoa, ser colocados lado a lado para que se possibilite estabelecer uma unidade de compreensão histórica.

Quando se procura compreender a história de vida do partilhante, possivelmente o terapeuta ficará exposto a equívocos de opiniões prévias. Isto é corroborado quando o filósofo clínico se depara com o próprio relato histórico do partilhante em clínica, ou seja, os pré-juízos não se confirmam naquilo que a pessoa é, por exemplo, os seus significados e seus valores representados pelo partilhante. Desta forma, compreender a história de vida da pessoa se dá a partir da elaboração dos projetos corretos e adequados às coisas do partilhante, e não de outra pessoa. Não se deve esquecer que projetos são antecipações que, a partir disto, podem ser utilizadas como referenciais na aplicação de Submodos.

Como é possível alcançar, então, a compreensão da história de vida do partilhante? Isto se dá quando há uma escuta literal, por parte do filósofo clínico, daquilo que o partilhante relata; algumas intervenções que, em Filosofia Clínica, são chamadas de Agendamentos Mínimos; a utilização de Divisões Gerais e Específicas; os Enraizamentos; Autogenia; e, Análise da Estrutura de Pensamento. Nenhuma compreensão da historicidade da pessoa será possível sem a identificação e a perspectiva clínica em relação ao Assunto Imediato e/ou Último. Pode-se entender, de modo geral, que pode haver incompreensão do histórico de vida da pessoa quando o terapeuta não vai ao mundo existencial do partilhante.

Não é possível haver um direcionamento clínico se o terapeuta não acompanhar atentamente o relato e os dados de semiose que se manifestam através da Estrutura de Pensamento da pessoa. A pouca proximidade do filósofo clínico em relação à pessoa naquilo que ela é no ambiente que ela está, poderá trazer como conseqüência certa desestruturação no partilhante e não alcançar o objetivo da Filosofia Clínica que é a busca da pessoa. Gadamer contribui relatando que “O que se exige é simplesmente a abertura da opinião do outro (...)” (GADAMER, 1997).

Para alcançar a compreensão do outro é necessário que essas exigências sejam vistas como fundamentais e radicais. É claro que existem alguns procedimentos que se farão quando necessários como, por exemplo, os enraizamentos. Um possível equivoco ético, em Filosofia Clínica, pode ser, por exemplo, quando diante de qualquer relato da historicidade de uma pessoa introduzir, por parte do terapeuta, direta e acriticamente os seus próprios hábitos lingüísticos, de conteúdos, significações, representações, axiologias, modelos epistemológicos, etc. É reconhecido como tarefa do filósofo clínico, dentre outras, alcançar, por aproximação, a compreensão do relato histórico existencial da pessoa tendo como ponto de referência as representações de mundo do partilhante. Gadamer, portanto, adverte que:

(...) o que é dito por alguém, em conversação, por carta, em um livro ou seja como for, encontra-se, de princípio, sob a pressuposição de que o que é exposto é sua opinião e não a minha, da qual eu tenho que tomar conhecimento (...) (GADAMER, 1997).

Como, então, compreender a representação do partilhante identificando que existem diferenças entre a representação do terapeuta e do partilhante? Uma hipótese pode ser apresentada quando há um choque entre a forma de representar o mundo, por parte do filósofo clínico, com o relato da história de vida do partilhante e suas representações de mundo. Este choque poderá manifestar certa percepção de um possível ser-diverso do uso das linguagens e suas representações existenciais. Para Deleuze “Deste modo, o registro da diferença se faz na identidade de um conceito indeterminado” (DELEUZE,1988). O mundo existencial do partilhante com suas representações, significados, emoções, axiologias são compreendidas como singulares quando o filósofo clínico se vê e se identifica como outro diferente e diverso do partilhante.

De um modo geral, no processo terapêutico poderá ocorrer que algumas representações, entre filósofo clínico e a pessoa, sejam familiares, usuais e comuns em seus usos e significados, porém, em casos singulares, na representação do partilhante, é necessário o uso de enraizamentos para que se tornem compreensíveis determinados conceitos. Para que as representações, significações, etc., se tornem familiares Packter adverte que “A pessoa é a medida de tudo o que lhe está em relação, medida essa que somente ganha significado com a qualidade da Interseção” (PACKETR, Caderno B, # 27). Assim, a Interseção é um aspecto a ser observado, pois ela determina todo o processo clínico quando não se perde de vista o objetivo da Filosofia Clínica. Packter, no entanto, nos mostra que “Tudo em clínica é a resultante da qualidade da Interseção entre o filósofo e a pessoa” (PACKTER, Caderno A, #11).

O filósofo clínico, ao querer compreender a historicidade da pessoa, não pode entregar-se à casualidade de seus pré-juízos e representações e ignorar aquilo que a própria história de vida do partilhante está manifestando. Assim, o filósofo clínico que quer compreender o mundo existencial do partilhante deve, em princípio, estar disposto a deixar que a própria Estrutura de Pensamento da pessoa diga alguma coisa por si mesma. Por isto que uma consciência formada para a alteridade deve sempre se mostrar receptiva, desde o princípio, para a história de vida do partilhante. Essa receptividade do terapeuta não diz respeito a uma auto-neutralidade e nem um auto-anulamento em relação ao partilhante, mas se deve compreender a existência e aquilo que é meu e do outro na diversidade de representações de mundo.



Referências Bibliográficas:

DELEUZE,Gilles.Diferença e repetição.Rio de Janeiro:Graal,1988.

GADAMER,Hans-Georg.Verdade e Método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica.Petrópolis: Vozes,1997.

GOYA,Will.A Escuta e o silêncio: lições do diálogo na filosofia clínica.Goiânia.Ed.da UCG,2008.

PACKTER, Lúcio.Cadernos de Filosofia Clínica. In: caderno A.Porto Alegre:1995 e 1999.

______.Cadernos de Filosofia Clínica. In: caderno B. Porto Alegre:1995 e 1999.


[1] É inicialmente o estudante de filosofia disposto a compartilhar um caminho incerto com outras pessoas, a atuar filosoficamente em cada endereço desse caminho tal, pois é em cada endereço que sua identidade se modela. Partilhando um período da existência de outro ser, sob a responsabilidade que o nomeou filósofo, sua identidade reside em sua posição dentro da situação vivenciada (PACKTER, Caderno A, # 5).

[2] É o modo como a pessoa está existencialmente no ambiente. (PACKTER, Caderno A, # 16).

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A MENTIRA MAIS CRUEL

Ildo Meyer
Médico
Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

Já imaginaram como seriam as relações se os pensamentos fossem abertos e pudessem ser lidos pelos outros? Provavelmente a convivência se tornaria impraticável. Atração, desejo, amor, fantasia ou suas ausências seriam captadas por telepatia instantaneamente.

Raiva, desprezo, falta de admiração e ímpetos de terminar um relacionamento não teriam a possibilidade de dissimulação. Quem sabe assim teríamos um mundo mais honesto, mas estamos preparados para isto?

A resposta é um categórico NÃO. Desde que o homem começou a falar, inventou a mentira romântica. Aquela que é dita dentro de um relacionamento amoroso para agradar ou não magoar o outro. Funciona como uma forma de ilusão, ajudando a formar casais, construir famílias e viver em sociedade. Talvez o nome “mentira romântica” não seja o mais adequado, pois mentira não tem nada de romantismo, mas enfim...

A maioria das pessoas não tem sequer a coragem de discutir os problemas do cotidiano, os sentimentos, as mudanças no desejo e em seu objeto, e não quer encarar de frente a situação. Isto leva parceiros a mentir para que o assunto “nós dois” seja adiado indefinidamente.

Uma mentirinha aqui, outra ali, uma omissão acolá e todos saem mais ou menos felizes. Ninguém ferido mortalmente. Uma solução fácil, rápida e sem muito sofrimento. Será mesmo? A mentira romântica se tornou um mal necessário e até mesmo uma rotina em nossas vidas. Funciona como uma espécie de calmante, formando uma nuvem de fumaça colorida, com efeito sedativo imediato e quase sempre de confusão a longo prazo.

Assim como o álcool, este tipo de mentira também é tolerado em doses pequenas, pois existe um reconhecimento não formal de que nem sempre nossos sentimentos são compatíveis com o modo tradicional de relacionamento e com as regras que nós mesmos criamos. Assim, a falsa moral releva e até perdoa estas “pequenas mentiras”, que passaram a ser usadas quase que sem pensar em suas conseqüências.

Atire a primeira pedra quem nunca falseou com a verdade para não desagradar ao outro. Talvez algumas raras e virtuosas pessoas jamais escondam seus sentimentos, mas para a maioria dos seres humanos, mentir é simplesmente inevitável.

Acontece que não existem mentiras pequenas ou meias mentiras. Neste território insalubre só existem duas possibilidades: verdade ou mentira. E a mentira tem um preço. Não gostaria de entrar no mérito da quebra de confiança ou nas conseqüências das ditas mentiras criminosas, intencionais, premeditadas, do tipo não roubei, não trai, não fui eu...o foco aqui são as mentiras sentimentais, românticas, utilizadas como amortecedores contra a dura verdade. O preço a pagar é a omissão de uma parte dos sentimentos em troca de falsas declarações. Pensar algo e dizer o contrário.

Muitas vezes quando um parceiro pergunta ao outro se esta gordo(a) ou bonito(a), na verdade gostaria de saber se ainda é amado(a), apesar da imagem corporal que esteja apresentando. Se o companheiro tenta agradar e desonestamente responde que está bonito(a), quando o percebe gordo(a) e desengonçado(a), pode estar criando um problema para ambos. Não seria mais correto afirmar: eu te amo, mesmo com esses quilinhos a mais...?

Ao dizer aquilo que não se pensa estamos praticando uma agressão, mas não contra quem recebe, e sim contra quem a pratica. Será que não dói dizer eu te amo, quando o que existe mesmo é dependência econômica, insegurança e medo da solidão? Ou não dizer, quando o sentimento é mais do que evidente?

A traição é contra os próprios sentimentos, contra a honestidade e contra o eu interior, que se tiver um pouco de integridade e consciência vai ter que escutar a voz contrariada dos sentimentos reclamando das palavras ou atos praticados. O grande problema talvez nem seja a mentira propriamente dita, mas os motivos que nos levam a mentir, pois as mentiras mais cruéis são aquelas que dizemos para nós mesmos, em silêncio.
No altar do Amor

Rosângela Rossi
Juiz de Fora/MG


Todos nós ajoelhamos, mais cedo ou mais tarde, neste altar que habita nossa alma.
Pedimos e agradecemos o amor.
Rogamos pelo amar, afinal somos humanos cheios de graça.
Neste altar estão todos os amigos, amantes, filhos e pais, irmãos e netos. Deus em forma de todos os sentimentos.
Ajoelhamos humildemente.
Rendemos infinitamente ao amor que é nossa natureza divina.
Conscientes não mais sentimos carentes, posto que somos feitos desse puro elemento sutil.
Sabedores, que doadores, vamos todos plantando afetos pelos ventos, cheios de anjos em festa.
Os sinos tocam e abrem as janelas.
O sol e as estrelas entram no corpo e na alma.
O mundo vibra, a cada gesto de ternura, gestando novos amores.
Neste altar as bênçãos da vida preenchem os corações amantes.
Rendemo-nos ao TAODEUSUNIVERSOINFINITO
E nossa alma, em comunhão, compartilha o Amém.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Filosofia Clínica em Petrópolis

Estão abertas as inscrições para a nova turma da pós-graduação em Petrópolis/RJ.

Até o terceiro módulo de estudos ainda é possível o ingresso de novos alunos, dependendo das vagas e entrevista com o coordenador do curso.

A próxima aula acontece dia 23/05 (domingo) no CEAC - Centro de Estudos sobre o atual e o cotidiano, rua Visconde de Uruguai, n. 53 - Bairro Valparaíso em Petrópolis/RJ.

Informações e inscrições: 024.9200-5155 - 021.9254-8070 - heliostrassburger@gmail.com.
Filosofia Clínica em Juiz de Fora

Estão abertas as inscrições para a nova turma da pós-graduação em Filosofia Clínica em Juiz de Fora/MG.

As aulas acontecem na Casa de Cultura Murilo Mendes da UFJF, av. Rio Branco, n. 3372 (em frente a Santa Casa). O próximo módulo de estudos será no dia 22/05 (sábado).

Até o terceiro encontro, existindo vagas e de acordo com a entrevista inicial com a coordenação, é possível o ingresso de novos alunos.

Informações e inscrições: heliostrassburger@gmail.com.
Verdade e Verdades na Filosofia Clínica

Rosemary Pedrosa
Filósofa Clínica
Fortaleza/CE

A idéia de desenvolver este tema surgiu da lembrança do meu primeiro encontro com a Filosofia Clínica em aula inaugural, em Janeiro de l998,quando o filósofo clínico Packter distinguindo-a das outras terapias, frisou muito bem esta característica a respeito do que era verdade em Filosofia Clínica. Até então o meu convívio era com uma verdade, universal, absoluta, inabalável, uma verdade que todos alcançariam, desde que fosse em busca dela, e esta era a minha busca incansável na filosofia, uma verdade tão exata, tão precisa e universal quanto os números, justificando a vida, a existência do homem.
A minha trajetória seguia o caminho dos filósofos, buscar a verdade, para mim, aquela possível de nos redimir dos erros, e errar não era minha intenção. Verdade e certeza caminhavam juntas. Ter dúvidas me incomodava terrivelmente, eu precisava da certeza, da verdade. Foi quando estudando os filósofos modernos fiquei diante daquele racionalismo brilhante, competente, seguro, o racionalismo cartesiano, que sabia da dúvida como mero experimento para ir as certezas das coisas. Não me apercebi dos equívocos, do erro de Descartes, de sua paixão pela razão, eu também estava apaixonada, eu tinha uma mente, uma poderosa máquina pensante, possante, que vinha sendo enfraquecida pela quimera da vida sensorial. Descartes falava matematicamente, de forma simples, clara e absurdamente universal quando dizia na Segunda Meditação, que Eu sou a rigor somente uma coisa que pensa(res cogitans ), isto é, sou uma mente ou inteligência ou intelecto ou razão. Descartes procura essa garantia e ela é procurada na própria subjetividade. As Regras para a direção do espírito e o Discurso do Método são os novos guias nessa procura.
E no meio daquela aula, eu surgi e instalei-me no lugar do desamparo, isto é, no lugar onde não há garantia alguma da verdade do outro, da minha. Funda-se uma verdade subjetiva que não pretende eliminar o equívoco, nem pretende uma palavra super-humana. Em Filosofia Clínica, há dois tipos básicos de verdade, a subjetiva e a convencionada. A primeira é aquela que experimentamos, nossas opiniões, nossos conhecimentos, tudo que nos habita, tanto sensorialmente, quanto conceitualmente. E a segunda é aquela consensual, estabelecida em conjunto pelas pessoas. Packter não propõe uma bagunça de conceitos, levantar tal tese foi uma forma de sermos conduzidos ao sentido do ouvir como quem vê aquilo que aparece, que se estende diante de nós. É preciso escutar ouvindo as palavras que o outro diz e é na atitude de escuta que reside a essência do escutar.
O primeiro mês não foi fácil ficar diante do outro sem defender uma verdade de um único lugar a se chegar. Que coisa! Mas passou. As verdades são conceitos habitando milhares de estruturas de pensamentos. Packter foi cuidadoso, fez do filósofo clínico um amigo de escuta seletiva, se ele vai ouvir algo, vai ater-se exclusivamente ao que aparece e deixar-se ser todo ouvidos daquilo que se apresenta. Diz Packter: Essa pessoa não fala do meu ou do seu mundo. É sempre, e de qualquer jeito, o mundo dela, o mundo conforme ela entende e vive.
Segundo o filósofo Garcia-Roza: ser todo ouvidos não é ser ouvidos para tudo.
Para o filósofo clínico a verdade pode muito bem estar no coração, como outras vezes na razão. Quem nos dará o parâmetro dessa verdade é o nosso partilhante.
Que linda verdade nos diz Mário Quintana:Quem ama inventa as coisas a que ama...
Por que a Filosofia Clínica é Filosofia?

Raquel Camargo
Filósofa Clínica
São Paulo - SP

A primeira grande justificativa que poderíamos dar à Filosofia Clínica para ser chamada de Filosofia reside no fato de que todo o trabalho que ela realiza é fundamentado no denso conhecimento produzido em mais de 2500 anos de história da Filosofia: são teorias, conceitos, sistemas filosóficos etc., que, com devidas adaptações, servem-lhe de base e sustentação, desde sua metodologia geral até os procedimentos clínicos mais específicos. Entretanto, não é este o aspecto fundamental que, a meu ver, legitima que a Filosofia Clínica traga, em seu nome, o termo Filosofia. O que faz da Filosofia Clínica Filosofia são, propriamente, as significações mais essenciais que caracterizam fundamentalmente o termo Filosofia e que aqui, na Filosofia Clínica, encontram-se por assim dizer ‘objetivadas’. Dito de outra forma, a Filosofia Clínica é Filosofia porque ela abarca e realiza tudo aquilo que o termo Filosofia traz de mais essencial.

A Filosofia nasceu – e nasce sempre, em cada ser humano capaz de pôr em movimento, por si mesmo, seu próprio pensamento – por um maravilhamento, encantamento, pasmo, estupefação, assombro, enfim, qualquer estado de grande comoção produzido pelo contato do indivíduo humano consigo mesmo, com os outros e com o mundo que o cerca. Diante do fenômeno de si mesmo, do outro e do mundo, o homem, espantando-se com tamanha complexidade, empenha-se em tentar abarcar seus porquês, em compreender suas razões. Podendo escolher entre diversas formas de satisfazer a essa busca, entre elas uma explicação mítico-fantástica às suas indagações de porquês e razões, o homem vale-se, entretanto, de uma reflexão ordenada, rigorosa, sistemática, metódica, lógica e racional, ou seja, o logos. Vale-se de uma reflexão que parte de evidências – e que, invariavelmente, acaba na reconsideração de tais evidências. Em sua aventura de desbravação do conhecimento, o homem logo descobre que por mais que se busquem as razões, sempre haverá elementos ainda a serem conhecidos, quantitativa e qualitativamente. A reflexão filosófica que nasce da tentativa de satisfazer às indagações humanas causadas pela comoção diante da incomensurável complexidade dos fenômenos que se dão ao nosso conhecer é, assim, inesgotável. Desde sua origem no tempo cronológico da história humana, há pouco mais de 2500 anos, e refletindo o caráter infindável do próprio conhecimento que se pode ter do mundo e do humano, tal reflexão nunca findou: deu voltas e voltas, chegou inúmeras vezes aos mesmos pontos de partida, reconsiderando-os sob outros pontos de vista, percorrendo os caminhos sob outras perspectivas...

É deste modo que a atitude ou postura filosófica caracteriza-se por ser incansável, investigativa aos extremos – mas com ordem, método e logicidade – e imparcial. Tendo ciência da complexidade inerente a qualquer fenômeno, e desejando acima de tudo conhecer seu objeto de investigação para além de suas aparências, o mais próximo possível de sua essência, o verdadeiro filósofo observa-o e investiga-o imparcialmente, da maneira a mais neutra possível, sem confundir os conteúdos que lhe são próprios com o conteúdo do objeto que se dá ao seu conhecimento. Isto não quer dizer que o homem, enquanto filósofo, isto é, enquanto assume uma postura estritamente filosófica perante o mundo, deva assemelhar-se a um recipiente absolutamente vazio – visto que tal coisa seria impossível; de qualquer forma, haveria pelo menos ar lá dentro... Por imparcialidade da postura filosófica entende-se que o verdadeiro filósofo não investiga o mundo para aí encontrar a prova da legitimidade de seus pré-juízos; investiga-o para compreendê-lo e abarcar suas razões da maneira a mais próxima possível, para daí então construir juízos de conhecimento que sejam mais adequados, apropriados, verossímeis. Seu conhecimento filosófico acerca do mundo não é a priori, mas a posteriori à sua experiência de investigação.

É ainda importante voltarmos a atenção para outro aspecto essencial da reflexão filosófica: nela nunca se perde de vista a consideração todo/partes, nunca se deixa de contextualizar as partes num todo e de se pensar sobre as relações entre o todo e as partes, bem como aquelas que se verificam entre as próprias partes. O conhecimento assim produzido é fortemente marcado por um caráter totalizante, rigoroso e racional, mostrando-se como o mais seguro possível quanto à possibilidade de incorrência em erros.

Mas a esta altura um espírito um tanto desavisado e não menos contemporâneo poderia, inquieto, indagar: “E para quê todo esse conhecimento? Para quê todo esse esforço, esse rigor em investigar tão incessantemente as coisas do mundo? A vida urge; por que parar e pensar tanto sobre sua natureza e suas razões?” Não são necessárias grandes e detalhadas explanações para evidenciarmos que hoje tais questões não são nada incomuns; na realidade, a Filosofia quase tem de se ‘desculpar’ por sua postura, sua atitude e mesmo sua essência perante os imediatismos que tanto caracterizam a vida pós-moderna. O que vemos por trás dessas indagações é o preconceito, infelizmente tão difundido, de que a Filosofia não passa de uma mera livre especulação, quase sendo como um mero ‘divertimento metafísico’, cuja vida existiria apenas em meios acadêmicos; algo que, portanto, no que se confere ao âmbito prático, não serviria para nada. De fato, a própria Filosofia não é nada imediatista, muito menos o pretende ser; os resultados de sua reflexão, do conhecimento alcançado por sua atividade, podem demorar consideravelmente ao longo da história a atingir o âmbito prático da vida humana; no entanto, é exatamente esta a instância que a Filosofia põe-se como objetivo. O filósofo busca incessantemente a compreensão do mundo e da humanidade não por uma simples curiosidade, visando a um mero deleite com o conhecimento obtido. Por trás de sua postura determinada, incansável e rigorosa está o desejo de viver mais adequada e apropriadamente, isto é, está o desejo de tirar proveito deste conhecimento para a melhora da vida da humanidade como um todo e no trato com o mundo. De tal modo que, baseados nos resultados da atividade filosófica, ao nosso espírito desavisado e inquieto de há pouco, tão pragmático e tão concentrado na fruição daquilo que o mundo tão breve e urgente tem a lhe oferecer, poderíamos com propriedade responder que, se não fosse a Filosofia, se não fossem indivíduos que assumissem uma postura genuinamente filosófica perante o mundo, ele, espírito tão prático, talvez ainda acreditaria que o sol é que gira em torno da Terra, que os trovões e tempestades seriam a expressão da ira das divindades; deveríamos explicar-lhe que ele próprio, numa acepção mais ampla, indivíduo cidadão de uma sociedade democrática e liberal seria, sem certos conhecimentos produzidos, sistematizados ou fundamentados pela Filosofia, simplesmente inconcebível. E isso somente elencando alguns simples exemplos...

Assim, o ser humano filosofa, antes de tudo, pelo compromisso que tem consigo mesmo, com sua vida, com a vida da humanidade e com o mundo que o cerca. É por isso que, de seu pensamento, da Filosofia, derivam a Ciência, a Ética, a Política etc.. A Filosofia começa no humano visando ao humano. O humano é seu ponto de partida e sua linha de chegada. É seu ponto de partida por ser uma atividade genuinamente e por natureza humana – com efeito, nenhum outro animal experimenta qualquer tipo de consciência e comoção perante si mesmo e o mundo e é tomado por um movimento de busca de suas razões –, e por ser uma reflexão que toma por objeto essencial de investigação o próprio humano, juntamente com o mundo que lhe é circundante e que se lhe dá ao conhecimento. E o humano também configura-se como ‘linha de chegada’ da Filosofia por ser neste âmbito que está sua finalidade, isto é, por visar à (re)construção do próprio humano. O que vemos de ‘mágico’ na Filosofia é que em sua tentativa de compreender o homem e o mundo, de buscar suas razões, ela acaba por também construí-los. Refletindo sobre si mesmo, o homem compreende-se desde seu íntimo até suas circunstâncias, e o que inevitavelmente decorre deste processo é seu encontro com sua autonomia de pensamento e com a liberdade e responsabilidade por sua própria vida, pela construção de si mesmo, da humanidade como um todo e – reconhecendo-se como um agente construtor e transformador – do próprio mundo e da realidade.

Pois bem, e o que a Filosofia Clínica tem a ver com tudo isto? Por que, afinal, ela é Filosofia? Prossigamos por partes.

Vimos que para haver Filosofia é preciso que haja, de um lado, um espírito investigador e, de outro, um objeto a ser investigado. Vimos que a reflexão que atende a essa investigação, que por sua vez nasce de um estado de grande comoção, é séria, rigorosa, lógica, racional, metódica... Que nunca deixa de considerar o todo e as partes, de contextualizar em seu meio o objeto investigado. Vimos também que pela natureza inesgotável do conhecimento que se pode ter deste objeto a investigação é infindável; que por isso mesmo o investigador assume uma postura incansável e imparcial. E, finalmente, enfatizamos o caráter essencial e genuinamente humano do filosofar e sua importância ou mesmo necessidade para a (re)construção do próprio humano, do mundo, da realidade. Agora veremos como tudo isso está fortemente presente na Filosofia Clínica, com a única diferença de que aqui a investigação e a reflexão sobre um objeto são feitas não por um, mas simultânea e conjuntamente por dois pensadores, pelo menos (no caso da clínica individual). Explicarei logo.

O primeiro momento da clínica filosófica dá-se no encontro entre o partilhante que traz suas questões, a serem partilhadas e trabalhadas, as quais constituem aqui, com tudo o que as causa, influencia e envolve, o objeto de investigação, e o filósofo clínico, que o auxiliará nesse processo. Obviamente, o que se vê em clínica freqüentemente não é um estado de comoção, digamos, agradável perante as questões; o partilhante não chega marcado por um maravilhamento, encantamento etc., diante do que está ocorrendo a si mesmo e às suas circunstâncias, mas pode vir marcado por um certo desconforto, descontentamento ou mesmo desespero em relação ao que lhe vem ocorrendo; precisamente um certo estado desagradável que o leva a procurar a clínica, que o leva a procurar um trabalho sério para que possa encarar, conhecer, compreender e resolver suas problemáticas.

Na outra ponta da relação filosófica está, como dissemos, o filósofo clínico. Este disponibilizará ao auxílio de seu partilhante todo o conhecimento que tem da história da Filosofia, todo o conhecimento sistematizado da Filosofia acadêmica, bem como o domínio e a prática de um pensamento inteiramente pautado na reflexão que já caracterizamos em ser ordenada, lógica, rigorosa etc.. Sua postura diante das problemáticas e do relato de seu partilhante será profundamente marcada pela imparcialidade: em seu trato com o partilhante e com o que ele traz não usará, absolutamente, de interpretações, teorias prévias, tipologias, conceitos de patologia ou normalidade etc.. Procurará sempre contextualizar adequadamente todo o conteúdo que lhe for apresentado: qual a circunstância do partilhante, como este lida com o tempo, consigo mesmo e com os outros (informações que retira dos Exames Categoriais); procurará identificar as relações significativas que há entre o todo e suas partes, bem como as de entre as partes (por exemplo no trato com a Estrutura de Pensamento). O filósofo clínico tem plena ciência dos limites que necessariamente se lhe impõem em relação ao conhecimento desse universo único que é o partilhante; porém, unidas sua imparcialidade e o rigor de sua reflexão, além de sua postura determinada e incansável, o conhecimento acerca desse universo configura-se como sendo o mais próximo possível.

Mas o mais interessante que se verifica nessa nova atividade denominada Filosofia Clínica é o fato de que o filosofar não se exerce como atitude exclusiva do profissional chamado filósofo clínico. Na clínica filosófica o próprio partilhante torna-se filósofo de si mesmo. Ele pode, paulatinamente, ir se afastando da condição que o tenha levado à clínica, situação de desconforto ou até desespero que talvez turvava-lhe o pensamento e a clara compreensão das razões de sua problemática, estado este que poderia comprometer o sucesso de boas escolhas, à medida em que vai, gradativamente, tomando parte ativa na reflexão e compreensão de suas dificuldades, tomando a si mesmo, a suas circunstâncias, sua história, como objeto de observação e de uma investigação sincera e bem ordenada. Ou seja, no processo da clínica filosófica, o partilhante aos poucos vai tomando parte ativa no próprio filosofar, não se encerrando como o mero objeto passivo deste. É por esse motivo que na Filosofia Clínica o partilhante não é ‘paciente’; não é considerado como um indivíduo em situação desconfortável, anormal ou simplesmente patológica, ao qual uma teoria prévia e acabada será aplicada. Em outras palavras, em Filosofia Clínica não se menospreza a autonomia de pensamento daquele que a este trabalho terapêutico vem procurar. O filósofo clínico simplesmente o auxilia, sem afrontar violentamente seu universo constituinte, no processo em que ele próprio, partilhante, assumirá sua autonomia, responsabilidade e liberdade de pensamento e de escolha, com a maior clareza e conhecimento possíveis. – É deste modo que a reflexão que marca o processo da clínica filosófica (individual, pelo menos), é posta em movimento por dois pensadores, e não simplesmente dirigida por um profissional terapeuta a um paciente.

O resultado de todo este trabalho – digamos, em parceria – é o beneficiamento ao próprio humano. A Filosofia Clínica é um exercício, como a própria Filosofia, que se origina do e se direciona ao humano. É um exercício pelo qual se refaz o caminho de construção do humano, caminho este que também acaba por reconstruí-lo, transformá-lo. Pensando a si mesmo e à sua circunstância, aos outros de sua relação, ao mundo e à sua realidade, o partilhante encontra-se com a possibilidade de talvez re-construir seu universo inteiro, não apenas no sentido de acompanhar os passos pelos quais ele como um todo veio a ser, mas também no sentido de modificá-lo, aprimorá-lo.

Finalmente, por tudo o que foi exposto até aqui, torna-se clara a legitimidade de a Filosofia Clínica trazer em seu nome o termo Filosofia, não apenas pelo fato de tal trabalho estar inteiramente fundamentado no conhecimento produzido pela Filosofia. – Afinal, atualmente há certas atividades que nasceram da Filosofia e que, contudo, não conservam quase nada do que é marca essencial da postura filosófica, chegando por vezes a negar ou negligenciar seu valor. A Medicina, por exemplo, cuja origem remonta à Filosofia, hoje parece simplesmente ter perdido a capacidade de consideração da relação partes/todo, por estar cada vez mais especializada. A própria Ciência, tal como a concebemos atualmente no Ocidente, em grande parte (não inteiramente, é claro, mas em grande parte), acabou por tornar-se uma indústria de inovações tecnológicas por vezes efêmeras, que não vêm atender a grandes porquês ou a princípios éticos. (Muitas vezes, a Ética é simplesmente deixada de lado...) – A Filosofia Clínica traz o termo Filosofia em seu nome porque ela é, precisa e inteiramente, Filosofia; porque ela faz, propriamente, Filosofia.

Em seu artigo no segundo número da revista Discutindo Filosofia, intitulado “Por quê?”, a professora de Filosofia da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP, Marta Vitória de Alencar, coloca-nos precisamente a questão do aparente ‘lugar perdido’ da Filosofia em meio ao mundo imediatista pós-moderno. Diante do ‘frenesi’ de novidades tecnológicas de tirar o fôlego do indivíduo, a quem se impõe a fruição automática, breve e sem grandes razões de infindáveis inovações e entretenimentos, o paciente filosofar parece ter perdido a própria legitimidade ou justificativa. A autora chama-nos a atenção para a urgência da atitude filosófica nesta sociedade pós-moderna; a urgência de o homem re-assumir uma postura filosófica perante o mundo e a si mesmo, sob pena de, em caso contrário, simplesmente ser tragado pelo consumo infindável de objetos e informações. E à luz deste artigo afirmo que, sem um exercício propriamente filosófico, corremos o risco de sermos como um objeto entre tantos outros, à mercê de condições que nos escapariam totalmente, regidos por uma heteronomia. Correríamos o risco, sem exagerar, de perder um caráter essencialmente humano. Como dizem os autores Giovanni Reale e Dario Antiseri, a Filosofia é tão essencialmente humana, tão genuína e naturalmente humana que, se abdicássemos dela, estaríamos sendo menos humanos. A Filosofia põe o homem como sujeito de si mesmo, da humanidade e do mundo. Como define tão bem a atitude filosófica Marta Vitória de Alencar: “Filosofar é estar no mundo, é ser propriamente humano – um ser ativo, pensante, autor consciente das próprias ações e capaz de transformar a própria realidade.”. Vimos que, por tudo o que foi exposto, a Filosofia Clínica é o espaço em que este filosofar tem seu lugar salvo e garantido; é o espaço em que o indivíduo, que talvez se encontre em dificuldade de resolução de seus questionamentos e problemáticas, dificuldade até mesmo de pensar com clareza por si mesmo, recupera, por si próprio, sua autonomia, faz-se presente e ativo em seu próprio mundo, faz-se agente livre e responsável por seu próprio ser e realidade. Assim, podemos afirmar, ainda também sem exagero, que a Filosofia Clínica não só é, de fato, Filosofia, como talvez seja uma das atividades mais estritamente filosóficas de hoje em dia, realizando as significações mais fundamentais caracterizantes do termo Filosofia.