quarta-feira, 30 de junho de 2010

Projeto resgata identidades por meio da cultura do cineclube

Sim: Cinema Paradiso é um dos seus filmes preferidos.

A proposta de levar o cinema “aonde o povo está” foi o que motivou a inscrição do projeto de um cineclube com sede em São Tiago, sua cidade natal, em um programa do Ministério da Cultura, que ambiciona implantar salas de cinema pelo interior do país.

A formação em Filosofia e a especialização em Filosofia Clínica, ambas na UFSJ, deram substrato à paixão pela imagem como elemento de fruição estética e de transformação social, via resgate de identidades culturais. A matrícula recente no Curso de Comunicação viabilizou o desejo de tornar-se uma documentarista glauberiana, daquelas que trabalhariam bem com uma câmera (digital) na mão e uma ideia (aglutinadora) na cabeça (revolucionária).

MARIANA FERNANDES, autora do projeto Cine Mais Cultura de São Tiago, quer resgatar o ritual do cinema, aquele que motiva as pessoas a saírem de casa para assistir a uma história projetada numa tela. Mas, para se habilitar à concorrência nacional que enfrentou, classificando-se em terceiro lugar na disputa estadual, escreveu: “A importância do projeto Cine Mais Cultura para São Tiago e região é a viabilização do acesso democrático da comunidade a recursos e a exibições audiovisuais nacionais e estrangeiros, o que promoverá ações de formação e informação visando à interiorização da cultura e do lazer e a consequente erradicação do alto índice de violência e alcoolismo entre os jovens da região. O projeto também é importante no que se refere ao fortalecimento, por meio do registro audiovisual, de expressões culturais comunitárias enfraquecidas, tais como a Folia de Reis em Mercês de Água Limpa, festas religiosas de Semana Santa e das comunidades quilombolas do povoado de São Pedro da Carapuça e Içara, entre outras.”

Com apoio da Prefeitura Municipal e da Focest, ONG local, o projeto de Mariana terá como sede uma sala de aproximadamente cem lugares, cedida pelo Rotary Clube. O financiamento governamental, com duração de dois anos, se traduz em cursos de capacitação dos proponentes e no repasse de equipamentos de projeção móveis, em formato digital, e de acervo cinematográfico.

Mariana esteve em Belo Horizonte, no final de maio, para o primeiro desses encontros, que contou com a presença de vários cineastas mineiros e de gestores do Ministério da Cultura.

Público:

A estreia do Cine Mais Cultura de São Tiago está agendada para julho. A programação está definida, mas não fechada. Mariana ainda não decidiu qual filme abrirá essa sessão histórica. Por contrato, 60% da sala deve ser ocupada por filmes nacionais que constam da lista de oferta do Mais Cultura, cujos direitos de exibição foram cedidos pelos diretores.

Há uma oferta de intercâmbio com a Cinemateca Francesa que tem feito nossa gestora quebrar a cabeça na montagem da programação. E também os filmes infantis, as animações, os clássicos, os debates, as oficinas, que palestrantes convidar, a itinerância, os relatórios, os registros para seu documentário...

Enfim, Mariana optou por tematizar as sessões dos domingos para assim atender à diversidade de seu público que, em certos lugares, ainda está para ser formado. A programação abre, no primeiro domingo de cada mês, com a Sessão Criança, à qual se seguirá a Sessão Livre, com início logo após o término da missa e exibição de filmes nacionais mais recentes. No segundo domingo, o Túnel do Tempo traz de volta os clássicos, principalmente, para o público da Terceira Idade. À noite, sessão para adultos, com filmes de temática contemporânea.

No terceiro domingo, sessão temática vai apresentar um filme que será debatido com professores ou especialistas no tema. Encerrando o mês, o Cine Itinerante vai percorrer comunidades da região, nas quais vivem pessoas, “nem tão idosas assim”, que nunca viram um filme numa tela de cinema.

A enriquecer essa comovente experiência do cinema comunitário, o Cinema Café com Biscoito vai invadir a Praça da Matriz de São Tiago em alguns domingos especiais, exibindo curtas, animés e documentários para quem estiver passando. De manhã, oficinas estão planejadas para o primeiro e terceiro domingos. Afinal, Mariana vai precisar de assistentes, cenógrafos, produtores, atores...

Publicada em 21/06/2010
Fonte: ASCOM

terça-feira, 29 de junho de 2010

Comentário sobre a poesia: Farpas (Incompletudes)

Andréa Kubota
Filósofa Clínica
São Paulo/SP


Cada ser humano é único, singular. Essa frase expressa um dos pressupostos básicos do qual a filosofia clínica se utiliza para realizar o seu trabalho. Não existem duas pessoas que sejam idênticas em seu modo ser, sentir, pensar, enfim sua estrutura.

O cheiro do café, o gosto do chocolate, a sensação do mar tocando nossos pés, o olhar de quem amamos, o abraço de um amigo, entre tantas outras situações e sensações tocam o íntimo de cada indivíduo de formas diferentes, belas e surpreendentes. O que machuca o meu interior, o que arranha os meus sentimentos, pode ter sabor de mel para você. As minhas farpas, não são as mesmas que as suas. Mas, o que são essas farpas?

Mesmo a filosofia com todo o seu potencial para criar conceitos, compreender e muitas vezes tentar explicar a natureza, o mundo, as pessoas, suas relações e até mesmo o indizível, o transcendente, parece em alguns momentos, não fornecer palavras suficientes que sejam sinais ou símbolos dignos de expressar a grandiosidade e a complexidade de alguns sentimentos. Diante disso, escapam assim como soluço, como se fossem gritos ou até mesmo um chorinho baixo, exaltações desesperadas da alma: poesia, música e arte em geral.

“A voz das chagas..a cor do medo...a dor de não retroceder no tempo...” Como o mundo me parece, emoções, armadilha conceitual, tópicos que compõem essa poesia, mas que conduzem a uma pergunta: o que conhecemos dessa história? Essas farpas poderiam ser de metal, de madeira, de ferro, mas não são, e mesmo assim, parecem pesar e doer muito mais do que se fossem, pois espetam o íntimo desse ser.

São farpas na alma, na mente que agem e influenciam seu modo de ver o mundo, a suas crenças, o que acha de si mesma. Serão essas farpas armadilhas conceituais que a impede ou a limita de agir e ver o mundo de formas diferentes? Em que tempo se encontram essas farpas? Parece que fazem parte de um passado, que é mais presente que o próprio presente, que corrói por dentro e se transforma em um futuro petrificado, dolorido.

Medos, dor, chagas...doenças do espírito. Não sei se conheço a dona dessas farpas, mas como tenho as minhas, sinto que agora volto no tempo e trago comigo de mãos dadas a filosofia e uma máquina do tempo para te resgatar desse passado-presente e te apontar um novo tempo. O que existe por de trás dessas palavras? Sinais de coisas mais sérias, feridas não cicatrizadas.

Ei Kronos, me escute: Pode acordar agora...foi só um pesadelo.
Espiritografia a la Miró

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Viver de espiar, espreitar ciclos de intensidades, o adoecimento que resiste à febre, o bater de queixos que se confunde com um riso louco. Vida por vezes famélica, alimentada insana pelos vestígios do dia, por traços letárgicos do que um corpo quer dizer.

Fazendo germinar do mais íntimo, brotos que arrastam dedos e mãos, riscos deslizantes que o espírito impõe numa constelação, derramando figuras na superfície disponível de agora, entre gélidas madrugadas.


Há um calor de inconformismo, um ar de liberdade, sonho, vida sem freios, como um cão latindo para a lua. Um impulso, uma força que faz inverter figuras, girar entre carnavais, uma réstia de filosofia, pensamentos, ação, entorpecimento, criação suspensa de qualquer controle.


Não há exatidão, mas um gerar impreciso dos cabeludos pincéis molhados, misturado numa vertigem de cores, gestação de uma obra fecundada, inominada até nascer. Signos que acontecem, pássaros, mulheres, asno, um auto-retrato, o que ri e chora. Vinga, transborda, contrai, transforma-se e pede mais para vir-a-ser arte.


Um espírito que transfigura o mundo com linhas, traços interpenetráveis de lonjuras e desespero do que percebe diante dos olhos. Danação entre duas guerras e uma força regente, nebulosas de gestos, do que deseja resistir, encharcado, aquarelas espontâneas surgem do fundo claro, onde tudo escorre. Cabeleira de seda branca, enorme cabeça, silhueta de fera cavalga uma lágrima em forma de alazão, espargindo orvalho, uma arquitetura de sonhos despejados em estranhas geometrias na noite sem luar.


O desacreditado observa seus velhos sapatos constelados por galáxias, tintas, pingos estelares do que saltou em cores de um absurdo infinito universo, onde calça seus pés. Suas patas e corpo deitado numa enseada, onde mãos tateiam uma vez mais a viscosa tinta. Mas levantam fazendo surgir pintalgada litografia de um espírito comediante, que embora sangre, traça, vivifica em telas, esculturas, amores e dores.

Inquieto compositor de experimentações variantes, o solitário que em sua quietude “anti-social” deixou seu berro para que assim ocorra uma nova aurora pulsante, um mosaico que clame El despertar Del dia e acorde o mundo.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Eu, tu, Agna

Gustavo Bertoche
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ

Bem sabes, leitora, que Agna é o fulcro de nossa união, numa intimidade inominavelmente secreta. Agna é em ti o que é ser-para-si em mim; o ser-em-si de Agna é sendo em mim.

Ela fala em mim; grita em mim até seus pulmões explodirem. Suas mãos dizem o que é mágico, e buscam o segredo - mas só o meu segredo.

Cara leitora: não há comunicação. É absolutamente impossível comunicar-se com outra mente. A linguagem é um absurdo.

Quando lês minha obra, lês a ti mesma. Não há o G. escrito, aquele homem com quem tens uma intimidade intelectual despudorada por intermédio de Agna. Há apenas tu, e, para ti, pareço tal como sou. Sou tal como me vês e lês. Porque sabes que sou uma invenção tua.

A impossibilidade da comunicação exige de nós muita criatividade, leitora. O escritor precisa fingir que escrfeve o que alguma doce mulher lerá, e esta finge que entende o que lê - e entende. A comunicação - qualquer comunicação - é uma arte: é a única interpretação completa e absoluta.

Escrevo: ninguém sabe no que penso quando escrevo. Lês: nunca saberei em que pensas. O livro é nossos elo. Ele existe para mim e para ti; ingenuamente, iludimo-nos e achamos que estamos a comunicarmo-nos. Comunicação não há, linda leitora. Há apenas uma aleatória e excitante interpretação, que pode induzir a mensagens infinitas.

Sei Agna. Sabes também. Tímida, arrogante, puta, santa, linda, nojenta, inteligente, estúpida - mas com seios perfeitos e nádegas alvas. Sabes que Agna vive tanto em mim quanto em ti - e que Agna é um vulcão.

Erupções de Agna. Ígnea Agna. Noturn`alma que busca a precisão do infinito! Agna, vamos ao nada! Agna gosta do Baco, gosta do caos, do espírito do vinho. Não gosta da ordem clássica, prefere o caos triste da destruição do ser sob mil olhos!

Teus olhos, ó leitora destruidora de eus! Agna desvanece sob a intersubjetividade. Matemos Agna, de quem exigirei, jurando, que te penetre os poros e, assim, perca a identidade! Que ela assuma as tuas mil identidades, porque ela já tem outras mil que eram minhas! Agna quer mesmo sublimar-se em nossa união, ó leitora assassina de nós!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Copa do Mundo- Por que gostamos?

Rosângela Rossi
Juiz de Fora/MG


Acordei cedo neste domingo final de outono. Céu azul de brigadeiro e ansiedade natural de todos que desejam ver a vitória do time do Brasil garantindo a vaga para as finais.
Vendo a bandeira do Brasil vibrar em cada esquina e o entusiasmo de muitos, mesmo os que não acompanham o futebol no dia a dia, fico a pensar o que nos leva a este entusiasmo verde amarelo e de todos que vibram por suas bandeiras.

Sabemos como filósofos que não existem verdades e que as definições são relativas, mas gostamos de tentar entender o porquê do comportamento humano, ainda mais quando somos psicólogos.

O que nos leva a vibrar com 24 homens num campo correndo atrás de uma bola? A competição? A arte de vencer? A inteligência motora dos jogadores? A adrenalina de torcer? A liberação das repressões? Ou tudo isto no festejar o estar em conjunto em sintonia com um grupo?

Somos seres sociais, mesmo que gostemos de ficar sozinhos. A força do grupo nos acolhe trazendo uma vibração que não sabemos definir, mas que nos faz sentir mais potentes. A unidade no verso da vida cria harmonia e nos faz mover em sintonia. Somos gregários desde o começo dos tempos. Sempre estivemos em tribos e bandos, lutando pela sobrevivência. Instinto?

A copa nos convida, isto não tem como duvidar, a torcermos juntos. Fazer festa no antes e depois, pondo para fora nossos medos diários e nos mostrando que somos fortes e potentes. Cada jogador vitorioso mexe com nosso desejo de ser tão fortes como caçadores a sobreviver na selva de um mundo tão ameaçador. A inteligência motora dos atletas encanta a todos, mesmo que intelectuais, que acreditam que o corpo é prisão, como pensava nosso querido Sócrates.

Na Grécia, em Olímpia, vi que a arte dos heróis era essencial e aos deuses entregavam suas vitórias. Lá os altares continuam a lembrar o quanto o homem desejava mostrar sua capacidade física. O corpo são dava a alma mais liberdade de se expressar. Trazemos este arquétipo em nosso inconsciente coletivo. Não só de consciente vive o homem, mesmo que saibamos que é pela consciência que temos mais condições de vencer os desafios. Diante a ameaça física a força corporal dos guerreiros era considerada primordial. Os jogos trazem esta memória e nos faz torcer pelos guerreiros em nosso nome.

No camp, corpo e mentes correm juntos. Os jogadores representam o desejo da vitória e da sobrevivência de todos. Criticamos, de longe fantasiamos que faríamos melhor. Colocamos-nos no lugar do treinador e temos palpites de onipotência e nosso saber poder fica ativado. Dunga que diga. Pensamos que seríamos melhor que ele. A imprensa o detona. Ele é colocado na cruz a todo instante. Se o time ganha, ainda não deu o melhor que poderia. Se perder, a raiva e decepção coletiva os matam em crítica. Perder nunca! Afinal somos heróis! Herói nunca perde!

Não importa o porquê e para que, importa o como vencer. Ninguém quer perder. Ninguém quer morrer. Diante a Copa, nosso lado guerreiro vem à tona. Gritamos para os deuses que, enquanto humanos, temos a capacidade de lutar pela vida. E lutaremos até perdemos o fôlego ou perdemos o jogo. Sabemos também de nossa fragilidade. Diante a perda sofremos e choramos. Afinal, “somos humanos, demasiadamente humanos” sempre a espera de um grito de libertação: Gooooolllllllllllllllllllll .
Que vença nosso verde amarelo! Assim seja!
Linguagem e singularidade

Mariana Flores
Filósofa Clínica
Rio de Janeiro/RJ


A noção de linguagem que Wittgenstein apresenta nas suas Investigações Filosóficas, cuja concepção é a de que o significado das palavras depende de seu uso na linguagem, em Filosofia Clínica se traduz como um dos princípios dos cuidados de que deve ter o filósofo clínico ao exercer-se como terapeuta e cuidador nas acolhidas existenciais a que se dispõe, e que, adversamente às técnicas tradicionais da psiquiatria ou das psicologias tradicionais - que não fazem senão hermenêutica sobre o discurso ou expressividade do indivíduo – permitirá guardar o sentido mais original da palavra no contexto discursivo do sujeito, ou seja, respeitando ou limitando-se a entendê-lo somente a partir e à medida de uma singularidade existencial que, sendo singularidade, permite-se acessar a todo um vocabulário muito próprio, recheado de significados singulares para cada termo da linguagem como semiose.

Aquilo a que chamou “jogos de linguagem” refere-se, segundo o próprio Wittgenstein, aos vários usos das palavras e ao conjunto da linguagem e das atividades com as quais estão ligadas.1 , sendo a própria linguagem a representação de uma forma de vida.
Este modo de conceber a linguagem como representação de uma forma de vida inspira e permite à Filosofia Clínica ressignificá-la como semiose, isto é, via de expressão, comunicação e abertura do indivíduo para o mundo: seu modo de ser e mostrar-se.

Uma terapia é também uma comunicação, um intercâmbio de mensagens, que permite tornar comum, através da linguagem, um espaço-instante de vivência. A filosofia enquanto clínica, ou enquanto cuidado, propõe que o ser terapeuta disponibilize-se a tratar, no sentido de cuidar, as questões e dores existenciais daquele que o procura para delas partilhar.

É um encontro de duas singularidades em dialética, na qual só haverá de fato dialética se houver antes a interseção que permita qualquer que seja a comunicação, seja ela verbal ou silenciosa. A linguagem através da qual o ser se expressa e comunica consigo mesmo e com o mundo será sempre singular e ninguém além daquele que a utiliza, ou seja, o próprio sujeito partilhante, poderá desvendar seus dados de semiose.

Sendo assim, partindo do princípio de que a linguagem é de cada um, unicamente, e singular ao próprio sujeito, a filosofia clínica ocupa-se por considerar como linguagem cada gesto semiótico presente no manifestar-se do indivíduo.
Então, em Filosofia clinica, não há que se adequar a linguagem semiótica do sujeito a um predeterminado padrão de comunicação; mas sua tarefa será a de investigar qual(is) linguagem(s) o partilhante utiliza para se expressar. Não há um ou dois tipos de linguagem, mas uma multiplicidade deles.

Linguagem é toda comunicação por sinais. As palavras, as letras, a própria fala (como sinal sonoro), e também as cores, a música, expressões artísticas, os símbolos, são todos sinais. Sinais de singularidades existenciais que se manifestam na imensidão de seus mundos quase sempre compartilhados.

E neste compartilhar de vivências, o partilhante desnuda uma estrutura de pensamento que é seu próprio ”estar sendo” no mundo, arriscando-se às transformações possíveis no decorrer de uma autogenia. Quiçá numa confusão de cores e sons, gestos e olhares, traduzem-se significados e sentidos muitas vezes não-ditos. A linguagem se diz também no silêncio proferido.

O filósofo clínico deve estar atento aos sinais mínimos de cada linguagem, cuidando de não esquecer que a linguagem por si própria sofre mutações, movimentando-se nas autogenias do sujeito. Wittgenstein nos lembra que nossa linguagem pode ser considerada como uma velha cidade: uma rede de ruelas e praças, casas novas e velhas, e casas construídas em diferentes épocas; e isto tudo cercado por uma quantidade de novos subúrbios com suas retas e regulares e com casas uniformes.

Assim, através de vice-conceitos, ele nos ajuda a entender que a linguagem, bem assim o próprio ser, sofre transformações, demolindo e reconstruindo-se no decorrer de uma existência a cada instante pronunciada.

Não há espaço, segundo o modo de pensar o sujeito em filosofia clínica, para determinações lingüísticas ou pré-conceitos acerca do que diz – ou cala – o partilhante. O discurso não tem valor senão contextualizado nas circunstâncias daquele que o profere, manifestando respectivos valores e sentidos.

Eis, no entanto, uma dificuldade: livrar a linguagem singular de cada um das amarras do senso comum, já que a ele fora dada a tarefa de ditar regras de uso e significações das palavras, normatizando “formas de falar”. Mas há uma pluralidade desses modos de dizer que quase sempre são nulificados. Pois, segundo o próprio Wittgenstein, o que nos confunde é a uniformidade da aparência das palavras, quando estas nos são ditas, ou quando com elas nos defrontamos na escrita e na imprensa. Pois seu emprego não nos é tão claro. E especialmente não o é quando filosofamos, justamente porque se há que se falar em natureza ou essência do exercício filosófico, este se traduzirá na busca pela Verdade.

Mas em clínica, a verdade sempre será subjetiva, e a linguagem própria de cada um servirá como sua guarda.

A abertura concedida ao sujeito pela filosofia clínica –sendo ele próprio um ser “em aberto’, que se transforma – e o respeito à verdade subjetiva de cada singularidade em existência não deixará espaço para a hermenêutica – a não ser a do próprio sujeito - que, interpretando, tende à distorção e desvio do sentido mais originário ( a verdade) da linguagem de cada um.

Daí que nenhuma forma de dizer, que poderá desdobrar-se em olhares, a linguagem do corpo, palavras, a linguagem verbal, cores e música, a linguagem artística, deverá ser ignorada: porque representar uma linguagem significa representar-se uma forma de vida.



1. WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas, pg. 16. Col. OS PENSADORES, vol. XLVI. 1ª. Edição, 1975. Abril Cultural.

2. Idem. Pg. 19.

3. O sentido de dialética aqui se refere ao movimento do construir, desconstruir, reconstruir presentes na atividade terapêutico-filosófica.

4. COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Martins Fontes, 1ª. Edição, 2003.

5. WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas, pg.19, col. OS PENSADORES, 1ª. Edição, 1975.

6. Idem.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Adeus Saramago

Rosângela Rossi
Juiz de Fora/MG


Que parta da mesma forma que viveu: Autenticamente.
Que deixe em cada um de nós o desejo de escrever sem ponto, nos convidando a respirar do nosso jeito.
“O homem é um homem como todos os homens, sonha” nos diz
Saramago simplesmente na sua forma complexa e profunda de comunicar as angústias do humano.

A cegueira falada nos seus ensaios nos faz aprender a ver o que tanto tentamos fugir.
Chegou sua hora do seu fim.
Seu ceticismo convida a viver a realidade como ela é. Amou e se encantou, quando muitos ao entrar nos sessenta param de apaixonar. Escreveu seus livros depois dos cinquenta denunciando e resistindo corajosamente.

Usou as palavras certas e incertas e fez delas um dizer rasgante.

Sua narrativa por vezes de humor satírico e cheias de fantasias nos encanta e assusta no sempre.
Colecionador de palavras teceu filosofias do cotidiano:
“Para temperamentos nostálgicos, em geral quebradiços, pouco flexíveis, viver sozinho é um duríssimo castigo”.
“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais”.
“Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras”.
.“É preciso variar, se não tivermos cuidado a vida torna-se rapidamente previsível, monótona, uma seca”.
“Ser-se homem não deveria significar nunca impedimento a proceder como cavalheiro”

Como poeta ,sintetizou a existência, como por exemplo no seu poema:

Espaço Curvo e Finito
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

Do Evangelho segundo Jesus Cristo, Homem duplicado, Jangada de Pedra, Todos os nomes... a muitos outros livros, vamos dançando ou navegando em suas narrativas que tocam nossa alma e nos faz pensar e duvidar.

Será que hoje ele morreu ou se eternizou no nosso coração? Pouco importa, pois ele é e sempre será Saramago, mago das palavras e da humanidade. Adeus! Boa viagem!

sábado, 19 de junho de 2010

Um texto absurdo*


Quando eu morrer, meu chalé cairá comigo, para dar lugar a mais um edifício de apartamentos.

Chico Buarque
Leite Derramado



Imaginava um rascunho nalgum ponto entre as fronteiras do dizível. Ensaio onde realidade e ficção pudessem repaginar suas diferenças. Espécie de contragolpe na lucidez arrebatadora, a persistir naquilo que se busca esquecer. Tratativas com um quase na subjetividade por onde o dicionário ultrapassa suas origens.

Talvez desenhar a ponte ideal onde os termos do raciocínio bem estruturado pudessem conviver com as contraditórias miragens. Como uma dança fugaz para acordar a racionalidade a cegar o próprio olhar.

Nessa percepção de consciência alterada, os fenômenos seriam reconhecidos por seu apelido. Por esses monólogos sobre a ilusão da realidade e a realidade da ilusão, restaria o viés especulativo de um fim sem começo.

Roupagens estranhas a vagar pela inesperada versão, onde tudo iria parecer inacessível ou fora de lugar. Conexão as ruas pouco antes de ter um nome conhecido. Suas margens e contornos de ótica distorcida atribuem provisórias verdades.

Roland Barthes poetiza os desatinos da escrita: “o sentido nunca é simples, e as letras que compõem uma palavra (...) buscam em nosso espírito, incessantemente, sua liberdade, a liberdade de significar outra coisa.”

Mesmo quando se atrapalha aponta contradições à estrutura do dizer, parece tentar descrever o momento onde a exceção inaugura novas regras. O presente multiplica os estranhos sons de travessia.

Uma fenomenologia da linguagem se atreve a relatar eventos extraordinários. Ao fora de si onde nada deveria surgir, a coincidência-intuitiva esparrama deixas para elucidação. Como a luva na parede a acenar pra mão que se foi.

Esse vocabulário celebra o encanto primitivo de uma porta entreaberta. Condição para certezas e dúvidas se encontrarem num closet de difícil acesso, onde as palavras se experimentam, um pouco antes do autor, na sala ao lado, realizar suas escolhas.

Nesse exercício a transbordar buscas dalgum sentido, a interseção com os esconderijos da vontade multiplica verdades. Em Jorge Luis Borges, encontra-se um frágil ponto de apoio: “Hladik preconizava o verso porque ele impede que os espectadores se esqueçam da irrealidade, que é a condição da arte.”

Um parêntese onde a manifestação narrativa contida no texto, convidasse a decifrar a matéria-prima por entre os dedos de quem escreve. A representação expressiva em devaneios de preparação anunciaria a fragilidade das convicções. Uma simbologia ritual prepara oferendas ao ilegível da voz.

No laboratório difuso da especulação sem lei, os relatos a con-fundir o velho e o novo pluralizam o discurso. As transcrições apreciam algo mais as hermenêuticas da releitura. Mesmo o ponto que se quer final desdobra-se noutras interrogações.

A natureza improvável dessas epistemologias elabora arquiteturas onde ser e não-ser se conjugam imediatamente. Nesse território sagrado às lógicas do exagero, convivem também as dialéticas do equilíbrio. Um lugar onde o impensável seduz o conceito no qual irá sobreviver.

Interessante notar a eficácia da quimera, como precursora das mensagens de maior alcance. Seu recado parece atravessar a história, como parte de um segredo bem guardado, para ser reconhecido nalguma faceta inesperada.

Friedrich Nietzsche: “Aquilo para que encontramos palavras é o que já perdeu o uso em nossos corações. Há sempre um tipo de desprezo no ato de falar.” O intérprete da natureza compõe partes de uma realidade a se perder de vista. Ela sugere algo novo a cada espiada pelos vãos do barraco perdido no meio de nada.

Por esses apontamentos de prefácio sem direção, antecipa a inocência do desacordo entre os originais e as derivações. Mesmo depois da revisão, trata de deixar indícios do que teria sido se continuasse esboço.

À investigação pretérita o que aparece é um imenso contraste, num território a preservar gestos sem amanhã. A absurdidade então, se faz neblina ao olhar de quem procura certezas duradouras. Na incompletude da palavra transgressora, as regras de uma só direção se espalham com a estética das ventanias. Dissipação de alguma duração na descontinuidade a querer ficar.

Menção a insinuar originais no convívio de um agora. Sua lógica insensata e de aspecto delirante evoca utopias esquecidas. Quem sabe o imprevisível refaça conjecturas aos futuros entendimentos. Ao aproximar o espanto inicial com a natureza de sua descrença, a redação sem nexo desencontra-se para ser mensagem. Seu equilíbrio frágil tropeça na vertigem surpreendente dos vislumbres.

Clarice Lispector a desvendar Clarices: “O principal a que eu quero chegar é surpreender-me a mim mesma com o que escrevo. Ser tomada de assalto: estremecer diante do que nunca foi dito por mim.”

Ainda assim, a atração irresistível da página em branco acena uma liberdade que deixa de existir após o primeiro traço. Contraponto das escolhas a delimitar as grades ao seu redor. Frase, parágrafo, ponto e vírgula serviriam para conter, nalgum ponto eficaz da sintaxe, o desvario conceitual a querer significar. Ao fazer referências ao passado, a hermenêutica oferece outras possibilidades à mesma pessoa.

A aventura de viver acontece aquém-além das molduras da eficácia narrativa. Nos roteiros é possível perceber o deslize para transpor a língua dos consensos.

Ao desenhar refúgios entrelinhas de saber excessivo, um velho conhecido se faz estrangeiro à natureza que muda para se manter. Na interrogação das incertezas o silêncio oferece novas versões na transgressão da palavra.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

sexta-feira, 18 de junho de 2010

AGNA, PROSTITUTA DIALÉTICA

Gustavo Bertoche
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ


Agna é como qualquer prostituta, mas não é - pois Agna é só em mim, mesmo quando é nos outros. Agna tem por mim paixão. A prostituição de Agna não sou eu que pago, mas tu.

Então, só me resta cantar o amor que sinto por Agna e pelas nádegas brancas alvas, castas, puras, pias, santas, impolutas e inatingíveis de minha paixão. E pelos seios, e pelo dorso dela, que é macio e rosado, e pelas suas mãos, que só alcançam o que é segredo. Suas orelhas só ouvem o que é segredo. Sua boca só grita segredos. Mas o que mais gosto é quando Agna cospe em minha boca, e fala dentro de minha boca obscenidades. Grita na minha garganta, até meus pulmões ficarem surdos.

Cheia de sangue, assim Agna é; e plena de licores, macios e amargos. Seus humores são, no entanto, quase transparentes - quiçá transparentes mesmo - e, sublime, mastiga-me como se mastigasse uma ostra. Mas sou eu que saboreio sua essência - você não. Eu saboreio Agna porque somos iguais: sua essência é minha essência.

Mata-me, vagabunda de mim! Deixa eu te matar! Agna gosta de sua natureza dialética, mas eu detesto. Só gosto quando Agna me oferece sensualidades e erotismos. Aí, eu me transformo nela e passo a aceitá-la alegremente, como se fosse uma ninfa.

Afinal, Agna é musa. Musas não mentem nunca; mentem sempre.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O que vem a ser Filosofia Clínica?

Sônia Prazeres
Filósofa Clínica
São Paulo/SP


Gerando polêmica no meio acadêmico ou entre as psicoterapias ela surge como uma alternativa imbuída de respeito ao ser humano em seus questionamentos e necessidades.

As questões existências que a vida moderna oferece, surgem avolumadas a cada dia e nem sempre podemos contar com um amigo que nos ouça. As pessoas estão envolvidas em problemas tantos que ao ouvir já se lhes apresenta a necessidade de também serem ouvidas e assim, a cada dia aumenta a importância de partilharmos nossas questões com quem nos possa ajudar a caminhar.

Envolvidos em nossas dificuldades, encontramos sempre uma sociedade disposta a muito julgar e condenar atitudes em nós e no outro, antes mesmo de saber dos nossos sofrimentos e necessidades.
Criada por Lúcio Packter, um filósofo gaúcho em 1997, que incomodado com as questões que tocam o ser humano, tratou de exercer um árduo trabalho nessa direção: ajuda ao outro. Packter se inspirou na filosofia prática para então, conceber um instrumental adequado à realidade brasileira.

Não se trata de um aconselhamento, mas da utilização de estudos da filosofia acadêmica para contribuir nas questões existenciais, com vistas a ajudar o partilhante (como é chamado quem procura este trabalho) a encontrar suas soluções.

Sua diferença e sua proposta tão interessante estão no fato de não trabalhar com tipologias, teorias prévias ou conceitos de normalidade, conceito esse que muito se relaciona com a época e o lugar onde vive uma pessoa. A Filosofia Clínica chega propondo um retorno a proposta da filosofia como em sua origem.

É um retorno à função de pensar a vida e o outro; de conhecer conhecendo-se. Sua divisa é “ajuda ao outro” e o instrumental organizado para esse propósito, deu ao filósofo clínico condições de ajudar sem interferir na liberdade desse ser que, como cada humano, é diferente. Deu condições ao terapeuta de caminhar ao lado oferecendo uma abertura que permita a quem o procura, vislumbrar seus próprios caminhos por conhecer melhor a si mesmo e em consequência, entender melhor o seu entorno.

As ações do partilhante nunca serão direcionadas e não é permitido ao terapeuta criar uma relação de dependência que venha a gerar nele uma necessidade de ajuda para toda a vida. O intuito é dar a perceber ao partilhante a possibilidade de autonomia perante as questões existenciais que lhe possam surgir.

Importante dizer que nesse tipo de terapia ninguém vai ficar discutindo textos filosóficos (exceto se houver interesse do partilhante). Esses textos servem de base ao trabalho do terapeuta, mas o assunto girará em torno das questões trazidas e dentro da linguagem e compreensão de cada um.

A Filosofia Clínica respeita ao outro e ao seu universo e procura ajudar o ser humano diante de suas necessidades e dentro de suas possibilidades.
DICA DE UM JOVEM FILÓSOFO PARA SE RESISTIR À TENTAÇÃO DE SER SANTO

Will Goya
Filósofo Clínico
Brasília/DF


Vamos admitir: não somos mais do que nos fizemos com nossas próprias escolhas, quase sempre substituindo o esforço da esperança pelo seu inverso, acostumando-nos a tomar por verdadeiro que já somos o que ainda esperamos realizar. Como sempre houve muitas pequeninas e importantes coisas para serem feitas na concretização dos nossos sonhos, todo aquele que espera nunca alcança.

Há quem diga ter fé sem nunca haver sentido esperança. A primeira é uma certeza absoluta, uma consciência quite consigo mesma, que se satisfez com alegria em haver entregue tudo de si, permitindo suportar todo sacrifício do mundo, pois já se encontra confiante que Deus lhe aceitou no reino dos céus. Ter fé em Deus, na concepção cristã, não significa crer que Ele nos livrará das dores e desafios. Nunca poupou nenhum santo.

Ao contrário, ter fé é aceitar de bom grado a cruz dos próprios pecados ou erros e perdoar-se responsavelmente, assumindo as conseqüências com a cabeça erguida e doçura no olhar. Como se vê, a exemplo maior de Cristo, a fé não salva nem recompensa neste mundo. Mais ainda, após receber na face a malícia, a traição, a violência e a crueldade dos maus, perdoá-los. Desde sempre, onde há tantas injustiças, a única escolha é a de como sofrer.

O amor retira as queixas inúteis e se oferta com alegria. Quem tem fé não pede solução, desfaz os problemas humanos sob a vontade do mais alto. Entrega-se e corajosamente agradece, pois tudo o que lhe vem antes da morte é antecipação do céu, degrau por degrau. Nada mais difícil nem mais poderosamente simples.

A esperança é digna dos homens comuns e tem por sinônimo a lucidez da liberdade de escolha e a coragem da escolha da liberdade. Sim... são coisas bem distintas, como sabia o filósofo Erich Fromm.

Com resumo, desde que o indivíduo esteja de posse de uma mínima capacidade de raciocinar, 1. todo homem é livre para escolher, em sua inevitável liberdade natural de pensar. 2. E, considerando os maus caminhos e os vícios que já não conseguimos facilmente nos desprender, apesar dos esforços, todavia podemos nos livrar de muitos estados de dependência que nos aprisionam. Liberdade negativa, que pode ser entendida como uma “liberdade de”. 3. Por fim, quem bem mereceu livrar-se do mal e do peso de seu passado está “livre para” progredir, conquistando fronteiras ainda desconhecidas em sua intimidade e inovando a vida com os acréscimos do bem. Vive então uma profunda liberdade de avanço. Mais que selecionar alternativas, antes, tal liberdade cumpre saber criá-las. Entendido isso, o homem que não se cria é cria dos outros.

Em se tratando de caráter, o homem não se torna livre, nasce livre e se torna escravo de suas más escolhas. Mas ao exercitar os músculos morais da esperança pode ainda se libertar de suas próprias paixões e, vencendo a si mesmo, renascer melhor ou nascer completamente para o propósito a que veio. E se tiver fé poderá vencer o mundo que o oprime, pois aquele que não teme a morte é invencível por definição. Quem vence a matéria deixa o corpo por testemunha. Na fé, o poder de mover montanhas só pertence àqueles que já não têm mais o desejo desse poder.

Freqüentemente, a ausência de criatividade, da doação amorosa de nós mesmos nos leva a querer roubar dos outros o resultado de seu merecido progresso. É a inveja, sempre acompanhada do sentimento de vingança sobre aqueles que revelam nossa fraqueza quando nos exigem esforço próprio. Os heróis anônimos da sociedade, que lutam para viver o melhor de si mesmos, cada dia um pouquinho mais, tornam-se involuntariamente uma afiada lembrança das dívidas acumuladas que as más consciências carregam consigo.

A auto culpa é, dessa forma, a verdade despida pelas próprias mãos que a trajaram de vergonha, de desonra e de pudor. Como bom seria se pudéssemos nos aliviar da alfaiataria das carências alheias que tanto nos desejam pôr na moda de suas ridículas medidas. Fosse assim conosco, seríamos com os outros também? Há! quão triste é saber que a felicidade vizinha nos incomoda com o peso da nossa ignorância irritada.

Perigo que os fracos de espírito oferecem aos fortes. Aparente paradoxo de Nietszche: a força deve temer a fraqueza. Porém a verdade se revela ainda maior: mau é quem causa temor e bom aquele que não tem nada a temer. Por que não haveríamos de julgar o lobo bom e o cordeiro mau, se entre os animais nenhum é ruim? Os gregos e romanos antigos pensariam assim. Porém, a interpretação judaico-cristã substituiu o valor da força pela astúcia, o orgulho da honra pela culpa, e a moral dos senhores, pela dos escravos.

Quem não soube ser cristão ao ponto de não se curvar ao reino de César, preferindo o auto-sacrifício à submissão, tornando-se para si mesmo a verdade, o caminho e a vida, achou mais conveniente o discipulado da obediência, da vaidade e covardia de se sentir religioso. Foi assim que lenta e profundamente a imitação cristã tomou lugar da iniciativa de Jesus. Quando toda a Europa tornou-se cristã, pareceu mais lógico o Império Romano fazer do cristianismo sua religião oficial. Afinal, foi bem mais fácil governar apontando rijo o dedo de Deus sob os pecados do mundo em cada coração.

Porque a dúvida constante instiga a análise e porque a deficiência é indiscreta, é infinitamente mais cômodo forjar a fé, fingir-se bom e, mentindo para si mesmo, convencer os semelhantes do que lhes é comum: “o inferno são os outros”, como lembrava Sartre. Afinal, é preciso fazer alguma coisa com esse lixo psíquico que se acumula na alma dos que preferem a certeza de que tudo um dia se resolverá sem ao menos guardarem a demorada esperança nos conflitos de viver os problemas cotidianos.

É por isso que não é assunto popular os heróis e santos de nossa época. Hoje em dia não basta ter força de lutar corajosamente e ser herói, é preciso ser “super”, bonito e ainda usar roupas coloridas. Quem hoje pretenda adquirir a estatura de santo, convém fazer um bom curso de marketing e televisão, sobre “a arte de falar em público”, sobre como ser um líder da coletividade de “auto-ajuda” e, é claro! ter muito orgulho de ser humilde. Engana-se quem pense que os grandes homens da antiguidade clássica ou medieval não eram também reconhecidos em sua época, pois o cinismo é uma estrutura social moderna. Naturalmente, o tempo melhora o entendimento.

Fenômenos como essa falsa fé, essa mentira que se assemelha à verdade pela mera força da convicção, é chamada de “má-fé”. O inquilino da fé alheia, que só se convence doutrinando os outros sob o argumento de que a maioria não pode estar errada, é tão mais covarde quanto mais líder e popular. Em tese, deveríamos ser, para cada milagre recebido, os próprios doadores, e não mendigos de preces de reclame e sacerdotes de profissão.

A passividade de se esperar por um milagre alheio, vindo da “sociedade”, de um futuro próximo ou de um deus que não atue através das forças da alma, resultaria num ódio ao trabalho dos que são verdadeiramente heróis em cada gesto de autêntica bondade, o que se revela em antipatia “gratuita” àqueles que são, de alguma forma, alegres e independentes. Seria preciso aqui explicar porque Jesus – que não deu outro sentimento que não o amor, nem outra sabedoria que não o exemplo – foi tão odiado?

O verdadeiro dolo cristão não foi ter posto na cruz o doce rabi da Galiléia, pois em sua época, defronte os seus olhos, não o fizéssemos já seríamos bons. Não, é precisamente o oposto: nosso mal está na hipócrita redenção dos pecados em cada ritual de purificação. Não é estranho que o mal se redima tão facilmente com preces e adorações públicas de louvor e, uma vez aliviada a culpa, recomeçarmos a mesma trilha de onde paramos?

Não há mal em ser mau, conquanto seja esse o nosso verdadeiro tamanho e neste conhecimento resida nossa humildade e nosso desejo de progresso. A fraude consiste e se delata em sentir-se bem, por se crer bom, dizendo-se um pecador, mas com sentimentos de impaciência quando o outro possui as mesmas faltas. Amar o próximo como a si mesmo muitas vezes é perdoar-se, curar as acusações na fonte. Mas nem sempre.

Quem não se perdoa, tudo bem... pode ainda ser legítimo cristão, basta que, por isso, não acuse ninguém. Ora, nem sempre é preciso primeiro se amar para amar os outros. Por que haveria de ser isso uma regra? Os que teimam em fazer da lei de amor uma penalidade a ser cumprida rigorosamente e sem descanso a si próprio, fazem dos sentimentos um grilhão e da ternura um castigo. E não suportando a leveza de um sorriso sincero, deixam cair sobre a face o peso da mentira, mostrando os dentes. Amar o próximo como a si mesmo tem dupla interpretação, e pode facilmente ser compreendido como o mandamento do egoísmo.

Dizendo essas coisas, os filósofos provam o seu valor. Percorrêssemos a história da filosofia, inevitavelmente adiantaríamos séculos de maturidade. Todavia, nunca é demais recomendar o conselho do grande escritor francês André Gide: “Crê nos que buscam a verdade. Duvida dos que a encontraram”. Fossem aqui chamados outros filósofos para a reflexão, continuaríamos em muitas páginas, quem sabe por horas a pensar sobre os dramas da humanidade em sua jornada de espiritualização.

É bastante comum, quando se diz filósofo, alguém perguntar: “qual é o seu filósofo preferido?”, como se tratasse de uma distração, de uma vaidade favorita. No entanto, ler, escrever ou pensar filosofia com honestidade, sem auto-engano, é tão sofrido quanto deixar morrer nossas crenças e ilusões mais queridas, tão aceitas e necessárias como a própria carne. Quem, refletindo, em nada se altera, o que fez realmente com seu tempo além de envelhecer? Mas, a filosofia, igualmente, é tão bela e poderosa que toda mínima lucidez conquistada vale um pouco do direito de renascer melhor, de ser outro para si mesmo a cada nova idéia. Ela nos faz lembrar de quem queremos ser, no bem-aventurado tempo da esperança.

Mal acostumados com um milagre súbito, para o espanto dos olhos, desejamos ver a cura dos cegos, alguém andar sobre as águas, abrir os oceanos e, retirando um coelho branco da cartola, ouvir a multidão aplaudindo. Ah, como é bom ser criança! Viesse o milagre pela filosofia, tudo se resumiria assim: “para ser feliz, pense nos outros”.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Interseções entre Filosofia Clínica e Cinema

Andréa Kubota
Filósofa Clínica
São Paulo/SP


"O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho."
(Orson Welles).
"O cinema é o modo mais direto de entrar em competição com Deus.”
(Federico Fellini).

A arte faz parte da existência humana, se expressando de diferentes formas no mundo e no nosso cotidiano. Diante disso, é possível percebermos que existe uma relação direta da arte com a história da humanidade. Através da arte representamos o nosso mundo, expressamos sentimentos, procuramos dar sentido a realidade que nos cerca e com isso ressignificar os seus conteúdos. A arte possibilita uma existência humana autêntica, pois através dela a linguagem se torna íntíma das nossas paixões.

Desde as grandes reflexões filosóficas do pensador Heidegger, vemos que a linguagem cotidiana ou a linguagem científica não dão conta de todas as dimensões da existência humana. No entanto, a arte é capaz de abranger aquilo que não pode ser enunciado, mas que ainda assim e por isso mesmo, é essencial.

A interseção entre a Filosofia e o cinema, e a arte de forma geral, não somente é possível, como é relevante, tendo em vista que a arte e a filosofia são dois âmbitos da existência humana, que caminham juntamente com a trajetória da humanidade. É possível relacionar a expressão artística (representada pelo cinema) e a necessidade de uma reflexão crítica sobre o mundo, o ser humano e as suas relações (uma das tarefas essenciais da filosofia), possibilitando a todos alguns momentos de contato com a boa arte e com o bom debate, para que possamos relembrar algo de extrema relevância, que é o fato de sermos humanos e não máquinas e que, portanto, precisamos ir além de questões superficiais á que muitas vezes somos conduzidos a nos limitar para viver na nossa presente estrutura social.

Sendo considerada a sétima arte, o cinema, possui uma história recente. Surgiu na passagem do século XIX para o século XX como expressão da técnica e realização do desejo humano de guardar cenas para não perdê-las na memória. Mas apesar de sua ainda breve história, o cinema já nos trouxe muitas possibilidades de encantamento e reflexão.

Um dos conceitos que permeou boa parte das concepções de arte dos clássicos foi o conceito de mimeses. Platão, quando fala de arte, remete-a a sua teoria das idéias, diz que a arte é uma cópia, uma imitação da natureza, e esta é entendida como uma imitação das idéias, desse modo, o conceito de mimeses significa imitação. No entanto, o objeto dessa imitação não é propriamente uma cópia de qualquer coisa na realidade, mas sim, trata-se de uma busca da beleza, ou seja, a Arte nesse sentido deve ser uma imitação do que é belo.

Esta concepção de arte mimética vista em Platão, também se remete a Aristóteles, no entanto, este filósofo se afasta substancialmente no que se refere à teoria das idéias de Platão, e acresce ao conceito de mimeses o caráter de reconfiguração, ou seja, a arte para Aristóteles não somente imita a vida como a reconfigura, lhe dá vida.

A arte é uma constante busca em demonstrar a realidade, em formas de representação diferenciadas. A partir dessa idéia dos antigos, podemos pensar que o verdadeiro cinema nos traz a possibilidade de entrar em contato com a realidade como um espelho, no qual nos olhamos e nos identificamos, e também com o universo do outro, tendo em vista a projeção dos seus próprios sonhos e da suas vivências, entendendo melhor não somente a sua, mas outras realidades. Assim o cinema enquanto arte da vida talvez possa se constituir como um elemento que nos conduza a uma melhor compreensão de nós mesmos e do outro .

O cinema, a partir de sua capacidade mimética, isto é, de atingir os indivíduos com suas diversas formas diversificadas de representar, encenar, narrar histórias, e expor a realidade humana, constrói uma nova maneira de olhar para o mundo e, com isso, estabelece uma forma peculiar de inteligibilidade daquilo que nos cerca.

Façamos então, o belíssimo e humano exercício filosófico de nos aventurarmos pelos diferentes mundos a que nos conduzem os filmes e discutirmos sobre o ser humano e as suas relações.
Filosofia Clínica e Humanismo

Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho

Chefe do Departamento de Filosofia da UFSJ



Resumo: Neste trabalho examinamos em que sentido a Filosofia Clínica pode ser considerada humanista, mostrando o que caracteriza suas concepções sobre o limite e interesse do homem.

Palavras-Chave: Humanismo – Fenomenologia – Liberdade.

Résumé: Dans ce travail, nous examinons dans quel signification la Philosophie Clinique peut être juger humaniste, ayant montré le que caracterize leurs conceptions sur le limite et intérêt de l´homme.

Mots Clés: Humanisme – Phénomènologie – Liberté.



I. Considerações iniciais

Recentemente publicado, o livro Filosofia Clínica, a filosofia no hospital e no consultório (2008) de Lúcio Packter vem precedido de palavras iniciais assinadas por Dayde Packter Zavarize. No texto ela afirma que a Filosofia Clínica é um humanismo. Por que faz tal afirmação? Ela justifica a assertiva dizendo que a Filosofia Clínica é humanista porque não rotula as pessoas com um estigma negativo. Outro motivo que ela aponta é que o filósofo clínico entende cada ser humano como um mundo singular, respeitando-o assim. Nas suas palavras a questão assim se expressa: “cada pessoa tem na clínica filosófica o seu modo de ser no mundo” (p. 7). Dayde Packter Zavarize nos coloca, portanto, o problema de entender se a filosofia clínica é realmente humanista e, se for, de explicitar suas características.

Para tratar o assunto vamos primeiramente indicar quais os sentidos mais comuns atribuídos ao humanismo e, em seguida, discutir a hipótese levantada por Dayde Packter Zavarize. Terminamos o trabalho com considerações finais a título de conclusão.



II. O humanismo como problema

No seu Dicionário de Filosofia, Nicola Abbagnano afirma que humanismo tem usualmente dois significados distintos (1962): “1. o movimento literário e filosófico que teve suas origens na Itália e na segunda metade do século XIV difundiu-se pela Europa (...) e 2. qualquer movimento filosófico que tenha como fundamento a matéria humana ou os limites e interesses do homem” (p. 493). O primeiro significado refere-se à redescoberta da cultura grego-romana durante o Renascimento, depois de muitos séculos de um ambiente cultural marcado pelos dogmas religiosos e poder da Igreja Romana. Neste sentido, humanismo é o movimento historicamente situado entre os séculos XIV e XVII que foi caracterizado pelo florescimento das Artes, Literatura, Filosofia, Ciência moderna e aparecimento dos Estados Nacionais. Este movimento teve seguimento no iluminismo do século XVIII, mas então com outros aspectos e implicações.

O segundo significado destacado por Abbagnano diz ser humanista qualquer teoria que atribui ao homem algo de singular ou especial em relação aos demais seres. Em nosso tempo muitas escolas de pensamento assim procedem. Assim, o significado de humanismo presente na Filosofia Clínica mencionado por Zavarize só pode ser este último, ficando por se esclarecer, se a hipótese for aceitável, quais os limites e interesses singulares que a clínica filosófica reconhece.

Embora a referência inicial deste humanismo seja Protágoras, que Lúcio Packter lembra no início do livro, só o é pela releitura contemporânea feita pela fenomenologia existencial através de autores como Karl Jaspers e Martin Heidegger para os quais o homem é a origem e o limite do discurso sobre o problema da existência. Em um sentido próximo ao dos filósofos alemães mencionados, Jean Paul Sartre no ensaio O existencialismo é um humanismo (1987) aceitou, durante certo tempo, a qualificação de humanista para sua filosofia da existência. No entanto, tanto quanto Jaspers entendeu que é necessário explicar adequadamente o que se entende por humanismo (cf. p. 24).

O segundo significado de humanismo mencionado por Abbagnano acaba se aplicando, em nosso tempo, a diversas teorias que em geral confiam que o homem possa construir, por seus próprios meios, um sentido para sua vida. Trata-se de uma forma de pensar que coloca o homem no centro da reflexão. O humanismo contemporâneo entende também que o homem situa-se historicamente numa cultura, que é o maior valor entre os muitos que existem, entende que ele é capaz de criar normas morais válidas de convivência, que é livre para seguir ou não qualquer crença, que tem na ciência moderna o instrumento de conhecimento do mundo natural, que consegue combinar a procura de uma vida feliz com as exigências da sociedade em que vive. Como se vê, mesmo tomadas em conjunto, são referências muito gerais sobre a vida humana.

Humanismo, na avaliação de Karl Jaspers, significa tratar “cada homem como uma infinitude. Nenhuma concepção científica pode abarcar-lhe em sua totalidade. O homem sempre é mais do que conhece” (p. 109), disse-o em Renovación de la Universidad. Este entendimento explicita-se mais tarde do seguinte modo (1987): “o homem é acessível a si próprio numa dupla mentalidade: enquanto objeto de investigação e enquanto existência de uma liberdade inacessível a qualquer estudo” (p. 59).

Temos, nas palavras de Jaspers, um humanismo de inspiração fenomenológica, a proposta de um homem que é único porque se faz assim. Entendido e estudado como objeto preserva sempre um espaço de liberdade e não pode ser classificado por categorias científicas quando olhado na sua liberdade. O humanismo concebido por Jaspers igualmente pensa os limites do homem, as exigências absolutas de sua vida, respeito a suas crenças, inserção no destino do grupo em que vive e muito mais. Todos estes aspectos fazem parte de sua filosofia da existência.

No filme As invasões bárbaras, o diretor Denys Arcand mostra como o humanismo é apresentado ao grande público. Qual é a história do filme? Ele conta a vida do Professor Rémy Girard que em seu trabalho sempre esteve às voltas com diferentes ideologias como o feminismo, anticolonialismo e o maoísmo. Na velhice o professor está com um câncer terminal. Apesar dos conflitos que teve com seu filho quando ele era jovem, estabeleceu sólidas relações familiares. Na velhice de Rémy, ele e o filho se reconciliaram.

O filho enriquecido com aplicações na bolsa de valores oferece ao pai o conforto que o dinheiro pode comprar naquele momento difícil para ambos. Á volta do professor se cria uma rede de conforto e solidariedade. A vida de Rémy termina com uma injeção de heroína quando nada mais resta a fazer. O filme explora todas as relações entre Rémy e as pessoas a sua volta: filho, nora, enfermeira e sua mulher, retratando o mundo de uma pessoa diante da morte. Os cuidados crescem quanto mais sua vida se arruína.

O filme explora as relações de amizade, respeito, aceitação dos limites, atitudes que marcam os personagens. O filme também mostra como as pessoas entram no mundo do professor, discute a importância de respeitar o outro homem em especial nas ocasiões em que ele enfrenta seus limites. Nestas horas são importantes: o carinho e o esforço de todos. Há algo de humanista nestas atitudes, sugere o filme, o sofrimento aproximou as pessoas.

O filme realça o valor do respeito ao homem que sofre e todos sofrem em algum momento. Este início de milênio é um tempo de mudanças políticas, de acentuada violência urbana, de terrorismo religioso, mudanças nas relações familiares, agudas contradições, aceleradas transformações tecnológicas, entre muitas outras mudanças profundas. Nele se dá pouca atenção aos interesses e dores típicas do homem.

O filme de Denys Arcand chama atenção para o respeito ao indivíduo, como o fez Dayde Packter Zavarize nas palavras de abertura do livro de Lúcio Packter. Eis como o filósofo português Delfim Santos refere-se a esta atitude de carinho e atenção diante do sofrimento num tempo que dá pouca atenção aos limites do homem (1982): “Neste sentimento de insegurança, em que se tornou a atmosfera do homem de hoje, não deixa de ter interesse conhecer as forças invocadas e os apelos do homem na busca de qualquer coisa que o suspenda, o segure e o salve” (p. 497).



III. Características do humanismo da Filosofia Clínica

Entendemos que a hipótese de Dayde Packter Zavarize é pertinente e que há um humanismo na Filosofia Clínica. A hipótese se justifica por que a teoria atribui características específicas à condição humana que orientam a prática clínica. São estas características que indicaremos abaixo.

Comecemos pelo reconhecimento de que cada pessoa é única porque está no mundo de modo diferente de todas as outras. A primeira característica deste humanismo é que o homem é singular. E por que o é? Por que ele é livre, embora sua liberdade seja exercida numa circunstância. A vida como possibilidade aparece na clínica de modo específico. A Filosofia Clínica entende que a singularidade das pessoas nasce pela forma como ela se insere no mundo, pelo modo como organizou sua estrutura de pensamento e passou a lidar com seus problemas.

Esta diferença entre as pessoas é percebida inicialmente nos exames categoriais, diz Lúcio Packter (2008): “Através dos exames categoriais o filósofo saberá o idioma da pessoa, seus hábitos, sua época, a política e os dados sociais da localidade onde viveu, a geografia, o contexto religioso e histórico, entre outros que podem ter importância” (p. 22). Localização existencial é, pois, a aplicação clínica da grande descoberta fenomenológica o homem é uma subjetividade (ou individualidade) situada, isto é, “o homem concebido como existente, não se separa do mundo.

Não é possível tratar o homem e o mundo, ou o velho problema da realidade, separando um do outro” (Carvalho, 2007. p. 16). A localização existencial é a forma da Filosofia Clínica reconhecer que cada homem é uma subjetividade inserida num certo contexto, que ele é membro de uma cultura. Não se pode entender, na Filosofia Clínica, o que o homem é sem considerar a forma singular como ele se insere neste contexto.

Outro aspecto deste humanismo é que o homem não só vive numa circunstância bem definida e histórica, mas que ele próprio é histórico. Histórico significa que apesar de condicionado pelo passado, ele pode mudar o futuro por conta de sua liberdade. Mesmo quando a pessoa não tem consciência do quanto importante é seu passado, o filósofo clínico deve fazer, afirma Lúcio Packter (2008): “o histórico completo da pessoa” (p. 27).

A Filosofia Clínica não diz que o homem é só história, mas que esta condição é fundamental reveladora das estruturas de pensamento e submodos que ele utiliza para resolver seus problemas. O reconhecimento da historicidade como marca da realidade humana foi assim descrita por Karl Jaspers (1993): “No espelho que é a história, enxergamos para além da estreiteza do presente e discernimos padrões. Sem história, perde alento nosso espírito. Se quisermos ignorar nossa história, ela nos surpreenderá à nossa revelia” (p. 33). Desta forma Jaspers nos diz que o passado está sempre conosco. Não estamos condenados a repeti-lo, podemos modificá-lo. No caso da Filosofia clínica superar o passado significa suplantar choques existenciais que se formaram em nosso passado.

Um terceiro aspecto distintivo deste humanismo deriva da singularidade humana. A pessoa é singular não só porque tem uma história particular, tem uma situação única ou porque tem uma carga genética própria. A Filosofia Clínica reconhece que cada pessoa é singular porque é um mundo. Ela se reconhece como sendo única. Nela há uma forma única, diz Lúcio Packter (2008): “de como estão associados todos os seus sentimentos, os seus entendimentos, seus dados éticos e epistemológicos, religiosos e o que mais houver” (p. 32). Ela possui uma vida íntima única. Como lembra Delfim Santos em A nova problemática (1982):



“A pessoa é sempre presença e ser no homem, usando das expressões de Heidegger. As situações criam no homem formas de pensamento de que ele não poderá libertar e que condicionam a forma de vida que cada homem revela e que lhe dá possibilidades e limitações diferentes ou capacidades de compreensão e reação ante as situações que o seu estar-no-mundo encontra” (p. 362).



Lúcio Packter cita Protágoras para explicar esta singularidade da consciência humana. Ele diz (2008): “como cada coisa aparece para mim, assim ela é para mim; como cada aparece para ti, assim ela é para ti” (p. 12). No entanto, o que dizem fenomenólogos e existencialistas sobre a singularidade da alma humana está muito adiante do que afirmou Protágoras, para quem a singularidade da consciência deriva de um conhecimento pautado nos sentidos, que, como sabemos, nem sempre são confiáveis.

E Lúcio não acompanha o filósofo grego, pois Protágoras, o primeiro sofista, defende o mais radical relativismo em Moral, em Política e no Conhecimento. Este relativismo absoluto foi desde o princípio sentido como problemático por quase todos os filósofos, como lembra Valderde com as seguintes palavras (1987): “Denunciando as certezas, duvidando, num realismo pessimista, da possibilidade da Verdade, não foi à toa que os sofistas atraíram tanta ira” (p. 47). De fato, a Filosofia Clínica que respeita a singularidade da consciência dos indivíduos não admite o relativismo absoluto: não dá o direito de matar quem se odeia e se a pessoa o fizer reconhece que ela vai pagar por isto (cf. o que diz Lúcio Packter na p. 17). Também não diz que se possa namorar as mulheres dos amigos sem conseqüências (cf. p. 16).

Considera, portanto, que há tipos diferentes de verdade: algumas subjetivas e outras objetivas. Para explicar melhor o que quer dizer Lúcio Packter lembra Arthur Schopenhauer para dizer que a consciência é construída de representações. Fazemos representações, mas elas não esgotam a realidade, afirmava Schopenhauer. O filósofo ajuda Lúcio Packter a escapar do relativismo sofista ao dizer que nem tudo se reduz ao indivíduo, mas Schopenhauer também não serve para o que Lúcio Packter pretende, pois as suas representações se referem ao que Kant denomina fenômeno, deixando espaço para a vontade que é, para ele, o princípio infinito do real.

A representação é aparência ou forma como o mundo aparece para nós, mas isto não significa que cada um seja um mundo singular, pois categorias e fenômenos são compartilhados numa consciência transcendental da qual todos são participantes. Conforme observa Julián Marías, Schopenhauer trabalha com os esquemas kantianos, ou como eles eram entendidos naquela época. Afirma Marías (2004): “As formas deste mundo, que o transformam num mundo de objetos, são o espaço, o tempo e a causalidade, que ordenam e elaboram sensações. As raízes kantianas desta teoria são bem visíveis” (p. 373).

Isto para não entrarmos no essencial de Schopenhauer para quem há um momento no mundo que não apreendemos como fenômeno, mas de forma mais profunda e imediata como vontade de viver. O eu vê o mundo como representação, mas também como vontade, conclui Schopenhauer. O que Lúcio Packter pretende dizer no seu livro é coisa muito diversa de Schopenhauer. Lúcio entende que as pessoas percebem o mundo de forma única, mas que nele há coisas e valores que não são relativos, pois as pessoas vivem numa sociedade que tem verdades que não são subjetivas (cf. p. 63).

Há uma instância social que os objetiva, o mundo natural segue leis que não mudam pela vontade e o mundo social tem regras para serem seguidas. Portanto, toda esta discussão sobre o mundo único e vida compartilhada só faz sentido com os elementos da filosofia contemporânea, ou melhor, da fenomenologia, em especial na aplicação do método fenomenológico à psicologia humana.

Este reconhecimento de que cada um vive o mundo intimamente a seu modo, embora viva num ambiente social que tem regras e leis objetivas é outra característica deste humanismo da Filosofia Clínica. Há verdades dizem os fenomenólogos: subjetivas (ou existenciais) e objetivas (vindas da Ciência, Religião e Filosofia, isto é, da sociedade). É esta a razão pela qual “não pode o filósofo começar a clínica com tipologias ou esteriótipos ou dogmas” (p. 24), o indivíduo é, em certo sentido, uma forma única de perceber e sentir e deve ser compreendido assim.

No entanto, ele é histórico, vive sua liberdade em circunstância, possui uma estrutura de pensamento, usa submodos, etc. aspectos que ele compartilha com todos os outros homens. Apesar da semelhança com as teorias de inspiração fenomenológica a Filosofia Clínica tem suas particularidades. Dito de outro modo (2008): “o fato de se valer de pressupostos fenomenológicos e possuir semelhança com outras teorias sob o mesmo alicerce não significa que a filosofia clínica não tenha uma estrutura só sua” (p. 68).

A Filosofia Clínica tem uma posição específica diante das técnicas que estudam a consciência. Ela espera evitar aqueles erros que os fenomenólogos denunciaram ao dizer que ao tratar a alma com as categorias do mundo físico, o humanismo que veio da ciência entrou em crise e isto, na síntese de Delfim Santos em Humanismo científico porque (1982): “a ciência não deu ao homem o que ele esperava, dando-lhe inesperadamente o que ele não esperava. E o que fazer desse não esperado que, de longe e bruscamente, ultrapassou todas as nossas esperanças?” (p. 497).

Esta é outra característica do humanismo da Filosofia Clínica. Ela entende que a ciência é importante, mas não desvela toda a realidade íntima do homem, em especial sua dimensão de liberdade, como dizem os mais diferentes fenomenólogos como Delfim Santos, Miguel Reale, Ortega y Gasset, Karl Jaspers e tantos outros.

Como combinar a liberdade pessoal com as exigências sociais? A resposta de Lúcio Packter é amarrar o ensimesmar-se (ou solidão) e o alterar-se (ou voltar-se para fora), para usarmos as expressões consagradas por José Ortega y Gasset. Esta dupla realidade de sermos livres e únicos, mas também integrantes do grupo social aparece assim nas palavras de Lúcio Packter (2008): “A solidão nos fará desejar a sociedade e esta nos conduzirá novamente a nós mesmos” (p. 50). Portanto, neste sentido, a posição de Lúcio corresponde exatamente ao que diz Ortega y Gasset ao explicar que a subjetividade contemporânea supera a antiga compreensão do eu formulada no início da modernidade (1961):



“O eu, (...), é intimidade: agora se trata de que saia de si conservando sua intimidade. Não é isto contraditório? (...) o eu é intimidade, é o que está dentro de si, é para si. Contudo, é preciso que, sem perder esta intimidade, o eu encontre um mundo fundamentalmente diverso dele e que saia, fora de si, para esse mundo” (p. 140).



Esta saída de si aparece nas relações intersubjetivas tão estudadas pela psicologia fenomenológica sob a égide da empatia. O humanismo da Filosofia Clínica incorpora mais este aspecto da fenomenologia existencial, o homem se faz na liberdade, ele não nasce pronto, mas a liberdade se vive entre outras pessoas. As escolhas que revelam nossa liberdade são feitas numa circunstância e diante de outros sujeitos que também são livres.

Em outras palavras, a liberdade de cada um nos faz únicos, nós nos escolhemos com nossas escolhas, mas nossas escolhas envolvem outras liberdades. Isto faz com que as relações pessoais sejam “subjetivamente aprazível às pessoas envolvidas” (p. 34) ou o inverso, as relações podem ser sentidas como ruins. Como já resumimos (2005): “No primeiro caso denominamos a interseção de positiva. Quando ocorre o inverso a chamamos de negativa. Existe ainda a interseção confusa, quando as pessoas não sabem dizer qual a experiência estão vivendo” (p. 18-19). A forma como ocorrem as interseções é o modo como a Filosofia Clínica estuda a intersubjetividade.



Considerações finais

Ao referir-se à Filosofia Clínica como humanista, Dayde Packter Zavarize nos obriga a pensar em que sentido ela o é. Parece-me que o fundamental do humanismo presente na Filosofia Clínica seja o reconhecimento da singularidade e liberdade do homem. Uma subjetividade que tem várias instâncias e é vivida num certo meio. A singularidade existencial nos impede de tratar a pessoa como coisa quando ela está no exercício da sua liberdade. Esta pessoa vive conflitos ou choques íntimos por conta de suas escolhas ao longo da vida. Através das categorias ela se localiza no mundo e o percebe do seu jeito.

Outras características do humanismo presentes na Filosofia Clínica acima enumerados são: subjetividade situada numa circunstância, verdades objetivas do mundo social balizando a individualidade, incapacidade da ciência tratar a liberdade humana e tipos diferentes de relacionamento intersubjetivo são características de diversas escolas de fundamentação fenomenológica notadamente do personalismo, existencialismo e culturalismo. Por isto, o humanismo da Filosofia Clínica articula-se em torno de elementos tipicamente humanos reconhecidos pela fenomenologia.

O que explanamos revela que não estamos diante do humanismo renascentista, mas de um humanismo impregnado por outra característica fenomenológica, a historicidade do homem. Ele se escolhe continuamente e muda seu futuro desta forma. Neste sentido, é um humanismo otimista, pois aposta na possibilidade da pessoa romper os choques que a limitam e descobrir o caminho que a fará feliz.



Bibliografia

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 2. ed., São Paulo: Mestre Jou, 1962.

CARVALHO, José Mauricio de. Filosofia Clínica, estudos de fundamentação. São João del-Rei, UFSJ, 2005.

______. O Homem e a Filosofia, pequenas meditações sobre a existência e a cultura. 2. ed., Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007.

______. Estudos de filosofia clínica, uma abordagem fenomenológica. Curitiba: IBPEX, 2008.

JASPERS, Karl. Renovación de la Universidad. In: Balance y Perspectiva. Madrid: Revista do Ocidente, 1953.

______. Iniciação Filosófica. Lisboa: Guimarães, 1987.

______. Introdução ao pensamento filosófico. 9. ed., São Paulo: Cultrix, 1993.

MARÍAS, Julián. História da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

ORTEGA Y GASSET, José. Que é filosofia? Rio de Janeiro: Iberoamericano, 1961.

PACKTER, Lúcio. Filosofia Clínica, a filosofia no hospital e no consultório. São Paulo: All Print, 2008.

SANTOS, Delfim. Humanismo científico. Obras Completas. 2. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1982.

______. A nova problemática. Obras Completas. 2. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1982.

SARTRE, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. 3. ed., São Paulo: Nova Cultural, 1987.

VALVERDE, José Maria. História do pensamento. V. I, São Paulo: Nova Cultural, 1987.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Gardel

J G Moreira
São Paulo/SP


Comprei Gardel,
do pescoço verd'amarelo,
com alguns milhares de cruzeiros.

Gardel era meu.
Verd'amarelo na gaiola,
Gardel cantava em vão.

A garganta de Gardel
era só trinado e solidão.
A minha, rouca,
a do carcereiro torturado.

Gardel no ônibus,
na caixa de sapatos.
Princípios e razão.

Gardel no mato,
Debaixo do meu braço,
meus cuidados de pai e mãe.

Abri a caixa
abri os braços
gardel trinou, hesitou

levantou vôo
ruflou suas asas de anjo
verde e amarelo

sobre as árvores verdes,
Gardel livre.

Quem voava era eu.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A IMPRENSA E A FILOSOFIA CLÍNICA

Will Goya
Filósofo Clínico
Brasília/DF


O papel do jornal é definido pela natureza das fibras nele empregadas. Pode ter várias fontes, substratos e corantes diferentes e serve tanto para escrever quanto para embrulhar coisas. De qualquer forma, num sentido ou noutro, o que o faz tão popular é uma mistura ideal de realidades: é barato, prático e flexível. Mas seu poder de durabilidade não é simples, fácil ou rápido.

Seja como for ou ao quanto pareça ser, à tudo que se chame de óbvio é possível ilusão ou filosofia. O que é a um não é a outro. A ilusão é doce ao diabético, a filosofia é músculo ao trabalho. Ao primeiro importa saber o que ele quer ouvir; ao segundo é preciso ouvir. É sobre isso que gostaria de falar.

Falar ou escrever não é coisa fácil, porque pra fazer sentido tudo deve ter significado ou seria apenas desenho disforme ou não mais que um ruído qualquer do meio ambiente. Filosoficamente, por exemplo, a palavra cachorro se reporta, enquanto representação mental, à memória ou à experiência direta e sensorial que temos desse bicho. Muito bem, mas o que representaria mentalmente uma frase como esta: “a greve dos bancários foi considerada ilegítima pelo Judiciário”?

Que tal esta outra: “o amor lava uma multidão de pecados”. Uma rosa é uma rosa, apesar das muitas provocações dadas pela poesia de Gertrude Stein, porém isso não parece problemático a quase ninguém. Mas o que significa a palavra “amor” ou “justiça”, a fim de que possamos nos entender a respeito? Resposta: não só cada pessoa de uma cidade tem uma idéia sobre, como também há padrões variáveis entre classes econômicas, sexuais, de idade, de época, inteligência, cultura etc. Sobretudo, há mais do que pensamento envolvido, há interpretações emotivas, impulsivas, carregadas de pré-conceitos, meras distrações, valores, instintos etc etc. Nada fácil a tarefa da imprensa de se comunicar com o povo!

Uma escrita pressupõe um leitor, um jornal um público alvo, um programa televisivo da mesma forma. Quem se interessa pelo caderno Mais, da Folha de São Paulo, distingue-se, em tese, do típico leitor dos assuntos policiais. Nunca haverá certezas nem garantias quanto ao entendimento comum. Na verdade, o que se observa é muita surpresa. Algumas análises mostraram que a cantora Kelly Key ao invés de chamar atenção dos adolescentes, como estava pressuposto, causou mais interesse às crianças. Em princípio, Sílvio Santos não creu no sucesso do programa do Ratinho. Para complicar, o poder da imprensa não é neutro, e por isso modela as informações pela força ideológica que ela assume, explícita ou indiretamente.

O tempo e o espaço disponíveis nunca são suficientes, exigindo do jornalista muitos cortes de palavras e, quase sempre, de idéias. Sobretudo, ante a concorrência, é lugar comum a receita de que não há notícia sem má notícia. Qual o valor do jornalismo, com tudo isso? Ao contrário do primeiro abalo, penso que na presença de tamanhos desacertos é possível, diferente de muitos, errar tão pouco, pois existem louváveis exemplos de jornalismo ético, socialmente comprometido e eficiente.

Como se pode concluir, na inteligência humana nada é óbvio. Estranha conclusão dizer que o óbvio não é óbvio e que não bastam palavras comuns para nos comunicarmos. Aliás, de indivíduos para indivíduos e muitas vezes de si para consigo, é preciso criar pontes de linguagem e entendimento. Neste caso, como em tudo, reza a lógica: quanto maior a extensão, menor a profundidade. Conquanto o jornalismo mostra, a filosofia ensina a ver, pelo caminho da revisão. Da imprensa ao grande público, eis uma importante notícia: a filosofia saiu dos limites restritos – embora necessários – das universidades e literaturas acadêmicas para o alcance e o serviço de ajudar as pessoas, mesmo as não-intelectuais, a resolverem ou cuidarem de seus dramas, marcados de sofrimento e muitas vezes das angústias de um problema sem solução. Disso é feito a existência.

Com responsabilidade profissional, seja em consultórios, escolas, hospitais etc, o filósofo clínico vem cuidar do humano, com método rigoroso, valendo-se de toda a história da filosofia para dedicar-se ao sujeito, à pessoa, ao indivíduo que jamais, nem aproximadamente, será como outro igual. O que se pode saber de cada partilhante – nome que recebe aquele que faz a terapia – sabe o filósofo clínico tão somente a partir de sua história pessoal e das circunstâncias que o afetam.

A Filosofia Clínica lida com questões metapsicológicas, isto é, questões que perpassam pela conceituação, definição de angústia, felicidade, sentido da vida, sobre a perda de um filho, a respeito do amor, dos sentimentos, das sensações físicas, das experiências religiosas ou sexuais, entre outras que nunca, repito, nunca poderiam ser respondidas antes da verdade que cada um é e merece ser considerado como um ser singular, cuja resposta – se for possível tê-la – é também única. Logo, não há doutrinas ou caminhos pré-programados, elaborados nalguma teoria filosófica ou nalguma corrente psicológica qualquer.

A Filosofia Clínica, conforme afirma seu sistematizador o filósofo Lúcio Packter, “apresenta sentido somente quando relacionada à pessoa dentro de um exercício de psicoterapia”. E nesse preciso sentido, a filosofia hoje aponta caminhos à sociedade capazes de reconstruir ligações, da teoria ao mundo da vida, do ser humano, de comunicar novas possibilidades de linguagem e entendimento, num tempo em que todos julgam ter razão, mas dificilmente as pessoas se entendem, umas às outras ou à si mesmas.

Os chamados meios de comunicação de massa têm esse importante valor: prestar serviço à coletividade, ao bem comum, não como massa, uma soma abstrata de estatísticas, mas como seres que se constroem e se refazem individualmente em interseção como o mundo que o circunda. Nesse aspecto, acredito, a Filosofia Clínica tem muito a ensinar aos meios de comunicação o entendimento das singularidades, para além dos modelos sociológicos do seu público interessado. Há muito se tenta, em particular na televisão, uma relação terapêutica com o outro, buscando cativá-lo. A filosofia é o caminho, não a “auto-ajuda”. Não basta ouvir ou falar sobre, é preciso saber ouvir.

Assim como o jornal tem o seu papel, na esfera pública, a Filosofia Clínica seu propósito na alma humana, que a história agora registra na imprensa. Que um sirva ao outro seu objetivo maior, para além de tantas diferenças: serem cada qual melhor do que eram antes de iniciarem seu trabalho, o que justificam estas palavras. No que há por se inventar, é preciso unir jornalismo e filosofia, a fotografia a um novo olhar.

O cotidiano sem sabedoria seria apenas rotina e repetição. Acredito que a nascente Filosofia Clínica será de fundo proveito ao jornalismo, descortinando a estrutura de pensamento de cada ser. Afinal, não se pode querer convencer o leitor que ele não pensa individualmente e que o jornal tem sempre razão.

Um bom jornal não é, portanto, o que tem mais palavras, mas o que faz mais sentido; aquele que permanece com o leitor quando este já deixou de ler. Essa é a verdadeira filosofia do jornalismo. Montaigne, que não lia jornais nem assistia TV já dizia: “vejo homens normalmente mais ansiosos para descobrir uma razão para as coisas do que descobrir se as coisas são assim”. Como sempre, a filosofia é atual.
Interseções Poéticas

Interseções entre filosofia e poesia

Sonia Prazeres
Filósofa Clínica
São Paulo/SP


“Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí...
Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!”
Mário Quintana


Como tantas formas de arte, a poesia se apresenta concebendo e entregando expressão, instigando a imaginação e
oferecendo beleza. Tem a singular propriedade de, em se valendo da palavra, tentar traduzir o indizível. Schopenhauer nos diz:
“a poesia traz o conceito e o primeiro objetivo é conduzir do conceito ao intuível, cuja representação deve ser realizada pela
fantasia do ouvinte.”
Alguns apreciadores dela, talvez concordem com ele e esse trecho partido de um filósofo vem em outras palavras partido
de um poeta. Fernando Pessoa de outro modo nos traz: “O poeta é um fingidor; finge tão completamente que chega a fingir que
é dor, a dor que deveras sente. E os que leem o que escreve na dor lida sentem bem, não as duas que ele teve, mas aquela que
ele não tem.”
A palavra acompanha o homem desde a antiguidade, tentando retratar suas necessidades, vontade e sentimentos. Na arte
a palavra une esse expressar a uma sutileza que permite entrever uma beleza sutil, que parece andar escondida pelos cantos do
cotidiano, permeando nossas vidas.

“...O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.”

Adélia Prado

Parece-nos que a expressão artística antes de ser escolhida por alguém, escolhe determinados seres humanos que sentem-se
por ela atraídos e envolvidos num acordo que a ambos beneficia. Assim, envoltos nesse bem estar, entregam-no a quem os visita, a
quem aprecia e assiste e também a quem, encantado, arrisca trilhar seus caminhos.
Em filosofia clínica procuramos ter sempre em mente que o ser humano se caracteriza pela individualidade, pela forma de ser
que em cada um é absolutamente singular.
Este espaço pretende acolher a poesia como a filosofia clínica acolhe o ser humano. Aqui pousarão diferentes formas de ser,
universos interiores que se modificam constantemente e, assim como somos, trarão beleza pela diversidade.
Eu sou eu e minha circunstância e se não salvo a ela não me salvo eu


Márcia Avelino
Filósofa Clínica
São Paulo/SP


A frase de Ortega y Gasset é um dos fundamentos da categoria Circunstância em Filosofia Clínica. Para o filósofo, a circunstância é tão intrínseca à constituição do ser, que este pode ser considerado sua própria circunstancia indissociavelmente. É por meio desta categoria que podemos situar a representação da pessoa conhecendo seu contexto (local onde vive e suas características, seu cotidiano, costumes, etc). observar o contexto em que a pessoa está inserida, nos ajuda a compreender seus significados, valores, e todo o emaranhado de seu constituir.

Exemplificando ludicamente, podemos observar a influência da categoria Circunstância na música de Chico Buarque:
O guri nasceu sem qualquer planejamento, e em circunstâncias que não proviam condições básicas de sobrevivência, tais como alimentação e a identidade.

Torna-se o companheiro da mãe. Estabelece-se entre eles uma forte interseção, (possivelmente uma recíproca em inversão), de modo que um encontra apoio no outro. Naquela circunstancia partilham não apenas a busca por suprir as necessidades de sempre, mas também expectativas, aspirações, sonhos. Por isso sua realização é repleta de significados pertinentes àquele jogo de linguagem.

A mãe orgulha-se do filho, que é mais que um bom filho: ele batalha para realizar os sonhos de outrora de ter, ser, de um “chegar lá” que tem um sentido especial naquele olhar. O filho está nas manchetes de jornal! Isto é importante; é significativo; não importa o teor. O alvoroço não tem motivo e não importa.

O que nos parece claramente indiciar práticas ilícitas, naquele olhar, não há dúvidas de que é trabalho pesado, suado e digno; o trabalho que permite a tão sonhada mudança: graças a ele quem não tinha nem identidade, agora tem até correntes de ouro como agrado.

É um olhar a realidade que só ganha compreensão em seu contexto, isto é, considerando seus pré-juízos, sua busca, suas emoções, em uma circunstancia específica de constituição.

domingo, 13 de junho de 2010

FÉDON- Diálogo sobre a alma e morte de Sócrates- Platão

Rosângela Rossi
Juiz de Fora/MG


Tanto a teoria filosófica quanto o filosofar são importantes para qualificar nossa vida. Acabo de ler Fédon de Platão. Fui lendo bem devagarzinho como quem degusta um bom vinho. Nossa! Como é bom ler os clássicos!

Na obra de Platão os 28 diálogos são obras primas. Eles se passaram na prisão de Sócrates e seus fiéis discípulos exatamente no dia em que ele iria beber sicuta. Sabe-se que Fédon é considerada a obra da maturidade do espírito de Platão.
Fechei o livro e me coloquei a pensar qual foi a importância dele para mim. Conclui que várias foram as reflexões que esta obra me trouxe. Assim registrei alguns pontos só para início de conversa.

Sócrates diz que onde aparece o prazer aparece a dor: “Que coisa desconcertante, parece ser, amigos, aquilo que os homens prazer! Que relação maravilhosa há entre a sua natureza e o que se julga ser seu contrário, a dor!”.
Dialogando com Cebes, Sócrates explica sobre o propósito das poesias e músicas que fez na prisão. “... foi por motivo de certos sonhos, dos quais eu queria tentar saber a significação e também por escrúpulo religioso... Não haverá, realmente, música mais alta que a filosofia e não é isso que eu dedico?”

Sócrates defende a vida depois da morte: ” Se há uma coisa que defenderei com ardor é minha convicção de que vou encontrar-me perto dos deuses, que são chefes excelentes...tenho esperança que depois da morte haja alguma coisa , como diz uma antiga tradição,vale mais par os bons que para os maus”.

Para ele a morte é libertação do pensamento. Diz ele sabiamente: “a posse de riquezas, eis, com efeito, a causa original de todas as guerras, e, se somos levados à procura de bens, é por causa do corpo, escravos submetidos ao seu serviço! E é ainda por causa de tudo isso que nos ocupamos pouco com a filosofia (.,,) teremos que nos separar do corpo e olhar com a alma em si mesma as coisas em si mesmas,. E,então, ao que parece, que nos pertencerá aquilo de que nos dizemos amantes: o pensamento.”

A Símias, Sócrates diz: “ é bem uma verdade que aquele que, no sentido justo do termo, filosofam, se exercitam a morrer, e que a idéia de morte é para eles coisa muito menos temível do que para qualquer pessoa”.

A virtude verdadeira segundo Sócrates é o pensamento: “talvez não haja aqui senão uma moeda que valha, em troca da qual tudo isso deva ser trocado, o pensamento”.
“Um homem que vemos lamentar-se no momento de morrer mostra que não é a sabedoria que ele ama, mas o corpo, não é?” diz Sócrates.

Sobre o esquecimento, ele fala: “no nosso sucessivo renascer, que nascemos sempre com este saber e que sempre conservamos no curso da nossa vida. Saber, com efeito,consiste nisto: depois de haver adquirido o conhecimento de alguma coisa, conservá-lo e não perdê-lo. Desse modo, o que se chama” esquecimento” é o abandono de um conhecimento”.

Só este início dá o que pensar.
No cuidado de si mesmo, as palavras de Sócrates a Críton são de uma beleza e elegância impar: “ Deveis ter , vós, o cuidado de vós mesmos, e de vossa parte,então todas as tarefas serão tarefas feitas por amor”.

Antes de tomar a taça de veneno Sócrates fala: “mas é permitido, e é mesmo um dever dirigir uma prece aos deuses pelo feliz êxito desta mudança de residência, deste mundo para o outro. Esta é minha prece: assim seja!”. A seguir: “Ensinaram-me. É com palavras de felicidade que se deve morrer. Sede calmos, vamos! Sede fortes!
Coragem, coragem, coragem. Esta é a maior das lições!
A Epistemologia dos subúrbios

Hélio Strassburger
Filósofo Clínico


“A vida não é senão uma procissão de sombras, e sabe
Deus por que as abraçamos tão avidamente
e as vemos partir com tal angústia,
já que não passam de sombras.”
Virgínia Woolf


A natureza também insinua seus originais na impermanência de um talvez. Instantes onde a conexão propõe a novidade discursiva ao sem rosto das aparências. Assim, para além da mentira civilizada, outras verdades ensaiam inéditas versões.
Nem sempre em busca de tradução, essa característica existencial realça pontos de interseção com universos absurdos. Seu sentido inédito, antes de ser provável, descreve-se na escassez poderosa de um quase. Seu dizer marginal aparece como vontade de transgressão.

Com sua pronuncia irreconhecível a escuta muda, e o momento fugaz dos achados carece a surgir distorcido. Ao ter o anonimato preservado, se distancia das ingerências de ser igual. Sua indeterminação sugere um vocabulário por chegar.

Na crítica de Harold Bloom: “Para que uma leitura (desleitura) seja ela mesma produtora de outros textos, é obrigatório que afirme sua singularidade, sua totalidade, sua verdade.”
Para decifrar os indicativos dessa fonte de desassossego, a reciprocidade é fundamento. O desafogo do discurso incompleto ou a desestruturação de raciocínio, tão íntimos da verdade desamparada, pode transbordar noutros dialetos em direção à vida.

Novos idiomas se multiplicam nos subúrbios da linguagem conhecida. Sua via fronteiriça aparece sem sentido à ótica precursora. O espírito iconoclasta reinventa o mundo a partir de seus excessos.
Texturas de não-ser herói ou vilão fazem referência ao hóspede recém chegado. Na pluralidade das maquiagens é possível entrever a errância descobridora a se indeterminar nos rascunhos.
Albert Camus, para além dos muros absurdos: “Como as grandes obras, os sentimentos profundos significam sempre mais do que têm consciência de dizer.”

A existência da margem aprecia se mostrar na mendicância das estéticas da desilusão. Num mundo onde o aniquilamento e a injustiça se fundamentam na razão, estar-junto e compartilhar se torna impensável. No entanto, as inesperadas confidências atribuem outras possibilidades ao que se declarava satisfeito.

Quando as máscaras rivalizam na pessoa, é comum, durante algum tempo, um embate entre a expressividade e suas vontades. Interseção por onde o contraste animador resignifica as desavenças. Sem ter isso muito claro, a pessoa se objetiva em um ou outro jeito de ser. Nesses casos, a mentira, o logro ou a ambigüidade assumem o papel principal, deixando rastros de adesão ao disfarce atual.

É comum a escolha recair nalgum papel existencial já determinante, embora invisível ao próprio olhar. Momento em que os opostos apreciam se integrar numa só feição. O drama se reapresenta pela carência de um ponto de equilíbrio, onde o agora consiga se legitimar na seqüência provisória dos eventos.

Bronislaw Malinowski ensina: “Se um homem parte numa expedição decidido a provar certas hipóteses e é incapaz de mudar seus pontos de vista constantemente, abandonando-os sem hesitar ante a pressão da evidência, sem dúvida seu trabalho será inútil.”

A ficção engendra o escândalo de um ser híbrido, quase sempre contido pela mordaça da norma. No entanto, mesmo quando restam miragens, surge uma sensação de violação, por essas afinidades insuspeitas.

Nesses ímpetos sem tradução os fragmentos possuem vida própria, um lugar onde as ruínas de si mesmo se transformam em alicerce. A versão clandestina se desdobra e ressurge na maquiagem ideologizada pelos convívios. Ainda assim, a pluralidade dos pontos de fuga, acena novos existires.

Com a rasura das certezas aparece um lugar profano, onde o sujeito alienado transforma sua noção perdida em poesia. Recém chegado de uma terra estranha, possui a estrutura dos milagres. Saber itinerante a multiplicar pressentimentos de amor e liberdade. Ao cogitar sobre a intencionalidade das ventanias, o caráter nômade se vê face a face com o sem rosto das multidões.

Ao irreconhecível da língua, as reticências espalham outras suspeitas. Uma instável travessia pelo absurdo cotidiano, revela um espetáculo a se desdobrar na epistemologia dos subúrbios.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Doença é doença?

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica
Da estrada


O neurologista Oliver Sacks trabalhou diversas vezes com a síndrome de Tourette, manifestação que provoca tiques, trejeitos, um comportamento socialmente grotesco. Assim como em outros estudos, Sacks concluiu que muitas vezes a pessoa precisa de sua doença para ser normal.

Muita gente ficaria sem graça sem suas artrites ou a constipação de final de semana; as enxaquecas, então, costumam acontecer com uma pontualidade surpreendente. Quanta chatice, quanta compota na casa da sogra, quantos programinhas sonolentos a dorzinha de cabeça já poupou¿

Assim como alguns medievais apelavam a uma flagelação de si mesmos com chibatadas e reclusão, o mesmo um câncer pode fazer por nós... matando aos poucos, com garantias de sofrimento e expiação. Mas em outras vezes um câncer será somente um câncer.

Quanta culpa no mundo já não foi abrandada por infecção urinária¿

E, neste sentido, a doença é parte importante da normalidade. Ela resolve problemas, ajuda a viver em épocas difíceis, é didática e, em parte considerável dos casos, talvez não devesse ser debelada a socos farmacológicos.

Vamos tomar como exemplo um acidente vascular; ele pode dar a chance ao indivíduo de sair de uma ardilosa manipulação familiar que o aprisionava, pode fazer com que a pessoa pare para repensar a vida ( uma vez que de outra maneira isso não aconteceria), pode simplesmente trazer coisas como férias ou pode, tão somente, ser um lamentável episódio vascular. Não são raros os que elogiam um acidente vascular como o conselheiro que colocou a vida em dimensões melhores.

O ensinamento é que a doença não é necessariamente um mal, algo abominável a ser caçado com tomografias e antibióticos quando evidencia os primeiros sintomas.

Olha, deveriam existir clínicas especializadas em deixar a pessoa doente: uma amigdalite, um prurido que fosse. Muitas pessoas ficariam felizes e usariam suas comichões para desde faltar ao trabalho até o rompimento de uma relação difícil.

Estar gripado, ter uma diarréia leve de vez em quando, uma febre de inverno, apendicite ou alguma cirurgia corretiva, tudo isso pode ser um modo de ser saudável. Poderia ser uma recomendação do Ministério da Saúde.

É oportuno considerarmos também que muitas vezes o sofrimento ensina apenas a sofrer; para alguns, tarefa inútil.

Não tivesse caído doente, Nietzsche provavelmente teria seguido a enfermagem; Schubert talvez nunca tivesse retomado seu trabalho como preceptor dos Esterházy, que lhe trazia imenso bem, caso não tivesse combalido adoentado; Balzac teria se casado com Éveline Hanska caso já não estivesse seriamente abalado, como contam as boas e as más línguas¿ Foi a endermidade que propiciou a José de Alencar conhecer Londres, Paris e Lisboa em 1876. A lista é longa. Por isso, terminamos com Arthur Rimbaud, exímio freqüentador de listas de doentes famosos, Arthur teve um câncer que o levaria a aceitar a fé católica pelas mãos da freira Isabelle.

Enfim, nos brindes, por favor, não desejemos somente saúde às pessoas, mas alguma doença também.
NÃO ENTENDEU, NÃO SENTIU E NÃO APROVEITOU



Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Acredito que o problema todo esta em pensarmos demais. Falando em pensar, imaginei como seria na época das cavernas. De repente bate uma saudade enorme de ti, daquela nossa época de estudantes, logo que nos conhecemos. Lembrando dos ferormônios explodindo por todos os poros e aproveitando os que ainda restam, sairia a tua procura, como um caçador. Não importariam os perigos que teria de enfrentar, precisava matar o desejo, a saudade, liberar os fluidos, sentir de novo o teu gosto, comer a tua presença.

O motivo pelo qual haviamos nos afastado não importava mais, o desejo seria o mestre. O meu é claro, pois sou um homem das cavernas e tu serias a fiel representante da mulher submissa ancestral.

Mas vamos pensar um pouco mais (apesar de eu continuar afirmando que em certas ocasiões, pensar é o que atrapalha tudo). Faz de conta que como uma mulher ancestral também sentias os mesmos desejos reprimidos, não eras submissa ao teu par e ansiavas por me encontrar em teus sonhos, mas como mãe de uma prole imensa de filhos, ficavas presa a uma caverna. Não havia google para tentar saber da minha existência.

Quando surgi na porta da tua caverna, barbudo, cabeludo, um pouco mais envelhecido, mas ainda com aquele mesmo olhar, jogastes o bebêzinho de meses no chão e te atirastes em meus braços. Beijamo-nos e fizemos amor na porta da caverna. Beijo a beijo, esquecemos do mundo lá fora e fomos recuperando os anos de saudade reprimida.

Sentimento Puro, na versão original.

Gostou? Acho que seria muito legal. Então vamos agora para o futuro.

Cinco milhões de anos se passaram, o homem inventou a palavra e começou a organizar seus pensamentos. Inventou o superego, o MSN, o casamento, a religião. Pensou tão longe que até ousou exprimir sentimentos em palavras. Olha só que loucura, palavras exprimindo sentimentos....deve ser coisa de algum maluco.


Então hoje, quando estou com saudades de ti, com vontade de sentir teu cheiro, toque, gosto e conversa, pego o celular e passo uma mensagem:

- Estou morrendo de saudades.

Em 30 segundos retorna uma resposta:

- Eu também, vamos marcar uma conversa no MSN?

Que facilidade hein, antigamente eu teria que sair caminhando pelas savanas durante dias ou meses até te encontrar e agora em 30 segundos já estou em contato.

Quatro horas conversando via internet. Madrugada adentro como nos velhos tempos em que nos amassávamos pelos cantos escuros. Recordamos felizes as histórias da praia, do carnaval, das escapadas pela janela dos fundos, e ao longo da noite descobrimos que já não somos mais os adolescentes inconsequentes dos anos 70. Descobrimos também, que apesar do tempo, distância, contratempos, discordâncias e experiências que nos afastaram, a afinidade que nos uniu ainda permanece após décadas.

Desliguei o computador e liguei a memória. Lembrei do reveillon em Punta, do frio em Campos do Jordão, do show do Frejat, das sardas, tatuagens, do cheiro de suor na tua nuca, o gosto do teu beijo pela manhã, a mão acariciando minhas costas, cabelos espalhados nos lençóis, virilha depilada, gato arranhando a porta, hino riograndense cantado no banho, pipoca no sofá, velas acesas no quarto, espumante bebido na cozinha, conversa jogada fora, abraço puxando pra dentro, choro na despedida, lágrima salgada...

Começa então a surgir o desejo de um re-encontro pra matar a saudade e conferir como é a nova versão da afinidade e do sentimento. Misturam-se imagens da adolescência com conversas do MSN, confusões do passado com explicações de agora e cada um a seu modo vai fantasiando o re-encontro, criando expectativas, controlando as palavras, segurando o desejo, jogando sedução, estudando a reação do outro, calculando as consequências, tomando coragem, pensando, refletindo, amornando, avançando um pouco, recuando dois poucos, esfriando, consultando o psiquiatra, congelando...

Enquanto uns evoluem no sentido do pensamento, outros permanecem no sentimento puro, e outros ainda não sabem em que lugar estão nem o que estão fazendo de suas vidas. Por estas e por outras é que muitas relações que poderiam ter sido ótimas, se perderam lá no inicio, no meio e chegaram a um fim, não conseguindo nem ser entendidas, nem sentidas e muito menos aproveitadas.

PS - Se fosse fácil, não escreveria este texto; estaria ai embaixo do teu prédio te chamando com um megafone.