domingo, 18 de julho de 2010

INVESTIR NA INCERTEZA

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Poetas gostam de falar de amor. São grandes amantes, flertam, escrevem lindas poesias, mas quase nunca permanecem casados. A maioria dos mestres espirituais que transcenderam são solteiros e castos, não trabalham e vivem de auxílios financeiros. Grandes filósofos também não fogem à regra e terminam seus dias solitários.

Apesar de todos esforços, não me considero grande poeta, guru, filósofo ou amante. Isto não impede minha eterna busca, curiosidade e aprendizagem, mesmo que à duras penas, das nuances do amor. Com os devidos cuidados, para não ser condenado à solidão amorosa por pensar demais, vou me aventurar a discutir o assunto iniciando pelas bordas, muito embora exista a versão de que em matéria de amor o segredo é envolver-se por inteiro, não deixando espaço para um relacionamento morno.

O fato de pensar o amor seria um obstáculo para a convivência entre amantes? O velho ditame popular “Quem pensa muito, não casa” faz sentido? Amar, casar e conviver precisam andar juntos?

Jiddu Krishnamurti, filósofo e místico indiano, dizia ser mais fácil amar Deus do que um ser humano. Conviver é muito mais difícil do que amar um ser divino; conviver é mais prosa do que poesia, é mais troca do que oração. Nosso companheiro(a) come, dorme, fala, chora, protesta, abraça, tem nome, sobrenome, CPF, carteira de identidade... Tem pele, cheiro, gosto. Relaciona-se.

Relacionamentos envolvem riscos. O amor assim como outros sentimentos, é pouco previsível, confuso e difícil de domesticar. Envolve incertezas e faz parte do amor ser refém do destino. Pode ser atemorizante, perigoso e extremamente doloroso, mas também envolve desejo, excitação, podendo ser sensorialmente encantador. Esta alternância agridoce promove uma ambivalência entre fugir e cair de amor. Amar exige coragem.

Comprometer-se a amar alguém por longo prazo é uma aposta alta. Amor é um processo e não um simples substantivo. Deveria sempre ser utilizado na forma verbal, ou seja, amar, pois isto envolve ação, movimento, envolvimento. Sentimentos entram pela porta da frente e muitas vezes saem pelos fundos sem ao menos avisar. A insegurança é a única certeza.

Tanto o amor como a bolsa de ações são investimentos de risco. Bons acionistas informam-se todas as manhãs sobre o mercado de capitais, fazem cálculos, consultam especialistas e decidem se compram ou vendem ações. Não existe promessa de lealdade a longo prazo, e assim, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, vão administrando os riscos inerentes do investimento.

Nem sempre ganham, mas sabem que a médio e longo prazo, é um bom negócio e continuam apostando. Investir em ações não é um jogo de azar, exige envolvimento, experiência, estudo, ousadia e um pouquinho de sorte.

Com o amor é um pouco mais complicado, pois a administração do risco não está restrita somente a um investidor que decide o momento de comprar ou vender ações. O parceiro também tem o poder de manter ou passar adiante o amor, investindo ou descartando o compromisso.

A relação é bilateral, baseada em sentimentos, envolve pessoas que a cada dia se transformam e as estatísticas demonstram probabilidades de fracasso.

Como fazer um pacto para a vida inteira nestas condições? O amor atual ainda corresponderá daqui a 20 ou 30 anos quando os amantes se tornarem pessoas diferentes? Eis o desafio: apostar no amor ou desistir dele.

Amar, além de ser um sentimento, é uma construção que envolve dois amantes. Dia a dia, hora a hora acreditando que vai dar certo e trabalhando para adaptá-lo, reorientá-lo e transformá-lo naquilo que os dois conseguirem fazer juntos, com defeitos e qualidades, ganhos e perdas, mas uma relação única, singular e irreproduzível que está valendo a pena.

Dois amantes que se transformam também em sócios, parceiros e cúmplices, e apostam todas suas fichas no desafio contra a incerteza do amor eterno. Um compromisso silencioso que precisa ser muito mais compreendido do que verbalizado.

Escrever, pensar e cantar o amor é muito bonito, mas não é o suficiente. Construir e oferecer amor exige humildade, ousadia e coragem. Amar é para poucos. Falar de amor é consolo para muitos.

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