quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Espelho perdeu Joana

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica
Da estrada


A partir de uma terça-feira, no outono de 2005, Joana acordou com a música do despertador (que ela não gostava, mas nunca trocava), foi para o banho e notou, no Box envidraçado do banheiro, que não via mais a própria imagem refletir.

Durante três meses ela tentou vários espelhos, roupas e chapéus à prova de invisibilidade, chegou a pendurar fotos suas no vidro polido e visitou duas espelharias para saber o que havia de errado com os refletidores.

Quando de fato constatou que sua imagem não retornava de superfícies lisas e polidas, nem mesmo a de um lago, um copo, o chão encerado que fosse, tomou algumas medidas urgentes.

Primeiro, passou a usar os outros para luzir sua imagem. Perguntava freqüentemente o que achavam de seu penteado, de sua roupa, de seu jeito para o dia. O retorno a deixava animada, ainda que às vezes certas roupas dividissem opiniões e a jogassem em confusão. Passou então, mas isso foi acontecendo bem lentamente, a perguntar também aos outros sobre se os sentimentos que tinha estavam adequados.

Afinal, pensou, se sabem opinar sobre a imagem, sobre como se vestir, certamente saberão sobre as emoções que levam às cores, tecidos, cortes. E foi mais ou menos assim que Joana se casou com Deodilson, por indicação. Mais tarde, também por indicação, ela teve dois filhos com ele. O primeiro filho se chamou Reflexo e o segundo filho, Amplexo (não pelo sentido, apenas para combinar).

Joana sabia o que era certo e errado porque lia nos livros de Ética. Não compreendia exatamente o motivo de algo ser certo ou errado, mas conseguia identificar com grande acuidade comportamentos mediante a correção ou impostura.

Joana era feliz, claro, afinal os outros diziam que ela era. Joana era amiga, as pessoas não diziam? E Joana se achava Joana porque todos a chamavam de Joana.

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