sábado, 14 de agosto de 2010

A Ditadura da Razão

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

Houve uma época conhecida como medieval em que a filosofia diminuiu e alguns filósofos até deixaram de fazer os questionamentos tradicionais: Quem Somos, De Onde Viemos, Para Onde Vamos.

Nessa época, a principal ocupação dos filósofos era responder a pergunta fundamental que a ciência se propunha: Pra que?

Não bastava conhecer, imaginar, sentir... Era preciso responder a que fim cada objeto, ser vivo, planetas e tudo mais se destinava, para que serviam. Assim, os filósofos medievais passaram a se empenhar para dar respostas às autoridades.

Inserido nesse contexto, houve um homem conhecido como Kepler, nascido em Wurttemberg, atual Alemanha, que dedicou toda a sua vida a astronomia. Para Kepler, Deus não havia colocado os planetas daquele jeito no céu por acaso.

Ele escreveu sua teoria acreditando que Deus era um grande Músico Geômetra e as regularidades matemáticas dos movimentos dos astros podiam ser decifradas de sorte a revelar a melodia que ele fazia os planetas cantarem em coro no Firmamento para o êxtase dos homens.

Johannes Kepler, no final de suas investigações, chegou a representar cada planeta por meio de uma nota musical.

O que Kepler faz em relação aos planetas, outros filósofos e também cientistas fizeram com as plantas, as pedras, os animais, os fenômenos físicos e químicos, perguntando acerca de suas finalidades estéticas, éticas, humanas... Para ter valor precisava ser respondido para que servia e assim, o universo inteiro precisava ter uma compreensão humana.

Como Kepler, em relação aos astros, houve os que tentaram explicar a existência de Deus pela razão e assim por diante. O raciocínio finalista que vem lá dos tempos de Aristóteles estava de volta e para tudo tinha que ter uma explicação e tudo tinha que ter uma função.

Pensam que é diferente hoje? Existem casos que é exatamente assim. Na biologia, por exemplo, você vê um bicho com dentes compridos e na cabeça do biólogo vem a resposta “esse nasceu para ser roedor” e é assim para cada órgão do corpo, o coração serve para isso, o rim para aquilo, os pulmões...

Mas diferente da biologia, nem tudo na vida precisa ser respondido somente pela lógica, pela razão, como se tudo na vida nascesse para ter somente função, finalidade. Isso é assim para os racionalistas, algumas pessoas não estão atrás dessas respostas, pelo menos desse jeito.

Por que isso, para que aquilo. Para alguns, isso já vem lá de criancinha e muitas perguntas continuam sem respostas, nem tudo precisa ter uma explicação racional. Quantas decisões são tomadas pela intuição? Como explicar a intuição pelo raciocínio? De onde tiramos que tudo precisa ter uma resposta? A resposta mais usada na filosofia clínica é não sei.

Parece-me que há séculos vivemos na ditadura da razão. A emoção pode até aparecer de vez em quando, porém comportadamente. A emoção precisa ficar no cabresto e controlada pela razão. Lembro-me de um pai dizendo para seu filho “aqui não é lugar para chorar, deixa para chorar em casa seu frouxo”.

Certo e errado, ser ou não ser. Algumas pessoas que não têm como tópico determinante a razão sofrem com os racionalistas de hoje e o contrário também é verdadeiro.

Não é certo ou errado ser razão ou emoção, o importante para mim é saber que somos diferentes e que a individualidade de cada um precisa ser respeitada.

Lembrei agora dos conselhos dos mais velhos naquele contexto que me criei: “homem não chora”, ou então “agora você já é um homem feito e precisa ser durão”. Quantos agendamentos e quanto sofrimento causado. Pelo menos no meu caso não precisava ser assim.

Lembre-se, isso é assim para mim.

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