sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A mulher que se divorciou de si mesma

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica

A constituição de 1988 facultou a dissolução do casamento civil após separação judicial por mais de um ano. Mas antes disso, em 1977, já havia uma regulamentação.

Naquela época, nas cidades de porte médio o divórcio era tido com reservas pela maioria e todo o modo como o processo acontecia facilmente descambava para o escândalo.

Hoje, a situação é tão outra que em alguns círculos alguém que fique casado por mais de 10 anos deve estar com algum problema e é necessário que se investigue o que deu errado em tal casamento.

Porém, há outras formas de divórcio. Um deles é o divórcio de si mesmo. Pode acontecer com pessoas que inventaram ou que descobriram que não têm nada a ver com elas mesmas, que não se suportam, e que não vão levar as coisas longe o bastante para terem um fim semelhante ao de Nietzsche, que padeceu de um colapso nas ruas de Turim.

No Hospital de Caridade, na capital catarinense, atendi a uma senhora que procedeu desta maneira. Ela explicou que se abandonou e foi viver as coisas dos outros, as vidas dos outros, o ambiente. Sua atenção agora estava voltada para o mundo e sempre tinha os cuidados para não acabar topando com ela mesma.

“Assim como uma pessoa não vai com a cara de alguém, eu não vou com a minha cara. Aprendi a conviver com isso. Sou psique sem curiosidade por Eros”.

O rosto lhe era um dos pontos pungentes. Sabe aquele quadro de El Greco, Homem com a mão no peito (Museu do Prado, Madri)? Olhe cuidadosamente o rosto e as mãos.

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