quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O pastor e a irmã desgarrada

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

As representações que cada ser humano constrói coloca em campo, principalmente nas relações interpessoais, lutadores vorazes prontos para impor suas verdades universais.

Há muitos julgadores de plantão, almas banhadas de um ressentimento sem fim, discursos prontos, ditando leis paralíticas, “representoses” baratas, diante de um mundo plural e intenso.

E a “briga” impõe seus traçados, muitas vezes em lugares alegres, descontraídos, de conversa solta, onde a figura casmurra faz morada.

Quase sempre, sem ser convidado, chega de surpresa e destoa pelo tom pastel de suas vestes fechadas, com destaque para a camisa social abotoada até o último botão, na altura do gogó.

Pode ser considerado o triste observador, olhinhos de rato, retinas gelatinosas, mente rica em opiniões, pastor. Desconhecem que o segredo das palavras não está do lado daquele que escuta, não leu Nietzsche, apenas os dogmas bíblicos.

Aliás, tem os mandamentos sempre à mão, aquela com fecho que tem como chaveiro um mini-testamento a balançar. Solução estratégica para caso de emergência, onde não seja possível o acesso rápido, a grande bíblia que está com a capinha preta.

As palavras têm atividade, toda uma genealogia, que pode desmascarar preconceitos e ilusões quando é possível descobrir sua força e o que se exprime nela. Mas os equívocos ocorrem nos adoentados da alma, que se envenenam a si mesmos. Não sabem o que é um filosofar leve. Pesados, arrastam-se, buscando poder, reconhecimento; escravos, não criam novos valores nem relações, somente reproduzem os velhos.

Pude acompanhar recentemente, numa reunião entre amigos, uma cena que me chamou a atenção e causou reações contrárias em função de uma palavra. Foi em um churrasco de fim de semana. Que após comes, bebes, cantorias e sessão de piadas todos já estavam a se despedir.

Foi quando uma amiga nossa pediu para levar um pouco de carne e salsichão para fazer um “rebuceteio” em casa – um prato preparado com lingüiça, alho e cebola fritos, arroz, feijão, com outras sobras em uma frigideira. O mesmo que “mexido”.

A criatura essa casmurra que tentei descrever acima, se levantou de onde estava, abriu o porta-bíblia e colocou na mão desta pessoa um convite de sua igreja. Para um culto, pois diante de tudo o que havia assistido e mais o rebuceteio final, ele achou profeticamente necessário encaminhá-la para a salvação. Pobre irmã desgarrada!

Minha amiga nobremente agradeceu, e sugeriu que a dita igreja no centro da Capital deveria fazer um rebuceteio coletivo entre pastores, crentes, empresários e distribuir nas imediações, pois seria uma boa iniciativa. E saiu sorrindo!

O paulínio ser não dramatizou o conceito, escutou, representou de forma equivocada, julgou e condenou, ignorava a aplicação da palavra, da idéia, impôs sua moral do “bom” sobre o “mau”. Forma viciada que ainda triunfa infelizmente em nossa realidade cotidiana. Onde a representação pensa dominar de maneira clara e distinta toda a realidade. Esquecendo-se, porém, dos dinamismos mutantes que operam no obscuro de cada conceito, revelando suas forças e dramática leveza.

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