sábado, 11 de setembro de 2010

Quando evitar um problema significa resolver

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Há questões na vida construídas de tal forma que a abordagem direta se torna inviável.

Exemplo: a pessoa perdeu alguém que ama e tratar diretamente desta perda é insuportável para a pessoa. Não existe um modo direto e óbvio de tocar no assunto com ela.

No consultório esta manifestação aparece de vez em quando. Assim como alguém que danificou a pele e não suporta um toque direto sobre ela, há quem tenha se magoado na malha intelectiva de tal modo que não pode mais falar ou pensar sobre o que houve.

Em Filosofia Clínica estudamos caminhos para a consideração deste fenômeno. Pesquisamos desde a natureza até os encaminhamentos do assunto. Verificamos se de fato é necessário lidar com isso, se não é o caso de deixarmos de lado; verificamos se não é somente um sintoma de alguém anterior que merece maior consideração. Damos atenção aos conteúdos da historicidade de vida da pessoa até o aparecimento do problema. Trabalhamos diversos itens importantes.

Um dos modos que habitualmente costumam ser suaves no encaminhamento de questões contundentes que flagelam a alma diz respeito a abandonar o assunto e não se ocupar mais dele.

Exemplo: no caso da perda de alguém que se ama, não tratar mais deste assunto, não fazer qualquer menção a ele. Ocorre que muitas questões precedem a este posicionamento no consultório: saber se este abandono da questão não agravará o problema, entender se abandonar o assunto não é parte sintomática da questão, conhecer as premissas, avaliar as consequências.

O abandono de uma questão dolorosa com a qual não podemos lidar diretamente não se refere às questões que pedem apenas por tal ação para poderem se encaminhar naturalmente segundo um desfecho próprio. Aqui estamos tratando de um recurso que será imediatamente seguido de outro, profundo e essencial ao tema.

Como o filósofo clínico pesquisou detalhadamente a historicidade da pessoa, ele provavelmente descortinou diversos elementos atrelados à perda da pessoa amada, elementos estes que podem ser tangidos e articulados sem que se toque diretamente no fato da perda da pessoa amada, algo insuportável.

O filósofo então transita por estes elementos laterais, subjacentes, mas ligados ao cerne da questão, e estuda quais desenvolvimentos podem acarretar a modificação da questão em bases mais condizentes com o modo de ser da pessoa, com sua estruturação, com sua historicidade.

Em resumo, quais ações nos tecidos periféricos, mas relacionados ao núcleo da questão, uma vez instauradas promoveriam uma reacomodação nas raízes do tema tratado, a perda de uma pessoa amada, algo insuportável para a pessoa?

Teria sido uma ação semelhante a que Platão tomou quando da morte de Sócrates? Viajou, estudou, trabalhou questões outras até retornar para Atenas e retomar seu trabalho e o assunto.

É assim que no consultório, muitas vezes, a pessoa a quem atendemos inicia um curso de artesanato, sai para uma viagem de estudos para a Malásia, reforma seu apartamento, toma medidas e atitudes que em nada parecem ter relação com os problemas urgentes, e, no entanto, imediatamente, mostram capacidade para lidar com algo que até então era um entrave em suas vidas.

Há muitos caminhos, em geral, para a atividade em consultório. Abandonar a questão e trabalhar os elementos periféricos constitui um destes caminhos.

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