segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O espetáculo da ilusão*

Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Barataria de D. Quixote, onde Sancho é rei (...). A pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare."
Álvares de Azevedo

Pensar a estrutura mutante dos incontáveis disfarces pressupõe riscos de perdição. Achados em sintonia com a natureza expressiva dos encantos. A transcendência no olhar em desconformidade nos princípios de verdade pode desapontar expectativas para ser igual.

Trocadilhos deslizam na superfície escorregadia de ser uma coisa só. No compartilhar das fantasias, contornos de irrealidade fingem outras caricaturas. Os mesmos caminhos; no entanto, sempre outros. Superlativo a integrar giros num caleidoscópio indeciso.

Obscuridade sutil na manifestação em delírios intraduzíveis. Antever próximo no faz-de-conta a refazer artifícios na palavra. As convivências elucidam ou ocultam resquícios na racionalidade divergente. Um saber imaginante reivindica-se em lógicas da inclusão.

Gaston Bachelard reverencia Edgar Quinet ao citar Merlin, o feiticeiro: "Que fazes para aplacar um mar em fúria ? Contenho a minha cólera."

As estruturas do invisível percorrem o sentido único dos êxtases de abracadabra e seus personagens. Ânimos de cogitar favorecem aparições impensadas. Os fantasmas apreciam o olhar indiscreto do descobridor. Através da lente obscurecida pelos dias, levita ao transgredir inexistências. Nesse solo as retóricas das múltiplas verdades tentam descrever o indizível.

Mil e uma noites se alternam em roteiros de rara lucidez. Conexão em fascínios de espanto. Sonhos, pesadelos e suas derivações preparam o terreno fértil ao dom de iludir. Assim sendo, o flerte narrativo revela sua ideologia no jogo de cena com a normalidade. Trata-se de aguardar o melhor instante para surpreender a mensagem entremeios de desatino.

Ao inenarrável prefácio das impossibilidades, surge a multidão dos esquecidos. Direção sem roteiro prévio na retrospectiva com a imprecisão das cores e contornos. Rostos esculpidos pela incompreensão de uma vida inteira.

Fronteira entre o tumulto e a quietude na descontinuidade das inesgotáveis fontes. Intuição ainda irreconhecível a palavra. A ilusão invade o imaginário sonhador e reinventa o mundo inteiro. Atração irresistível em rumores de língua estranha. Na brevidade de um instante, a platéia imaginária convive com seus personagens. Momentos ao roteirista compartilhar ânimos de fantasia numa expressividade inflamada.

Nas alegorias da imprecisão a variedade do desassossego re-faz percursos na correspondência consigo mesma. Precursor das histórias re-significadas ao contar. As dúvidas e incertezas sussurradas na interseção podem reconstruir a impressionante subjetividade inconstante.

Inesperadas intenções desajustam a realidade para recriá-la. Ao descrever inacreditável disso tudo, a estrutura das miragens se alterna em esconder e mostrar. No dizer mágico de Tristan Tzara: "Uma nuvem de rios impetuosos enche a boca árida." Anúncios na interseção com a figurações do estranho. Engana-se quem acredita não ser o dom de iludir uma verdade.

As aparências podem deixar escapar a singularidade dos personagens. Faz-de-conta nas evidências de maior alcance. Nuanças de lógica insana no esboço fascinante de pertencer a algum lugar. O real se acaba na imprecisão de um só sentido. A irrealidade insinua-se nas dobras, desvios e rupturas com os nortes da certeza.

Dados não-verbais ajudam a decifrar os estranhos tons. Nas distorções da ilusão, o sujeito pode desvendar extraordinárias intencionalidades, até então cristalizadas num único jeito de ser.

Em Mircea Eliade: "O pensamento simbólico não é uma área exclusiva da criança, do poeta ou do desequilibrado: ela é consubstancial ao ser humano; precede a linguagem e a razão discursiva."

Milagres irreconhecíveis acontecem em todo lugar o tempo todo. O fato de passarem despercebidos pela veemência das recusas, não significa inexistência. As incríveis verdades possuem muitos nomes. Olhar visionário as precipitar especulativo das abstrações.

A fonte contradsitória possui conexões de longo alcance na 'poiésis' imaginativa a transgredir códigos. Excesso a desdobrar-se em feições e contornos de existir inédito. Íntimos saberes na diversidade das peripécias de contrasenso.

Nas promessas de uma só versão, horizontes se divertem ao desdobrar-se em truques a perder de vista. Translúcido vir a ser em profecias ilusionistas. Enredos na introspeçção de um Dom Quixote, a desvirtuar as regras da razão. Exílio de versão pitoresca, a descrever olhares de renúncia ao mundo conhecido.

Fugaz aparecimento nos espelhos do tempo, por onde amanhã se antecipa no agora sem sentido. As dinâmicas do extraordinário revelam coisas inesperadas. Quase nunca se mostram na objetividade de um ponto de chegada ou partida. Preferem pontos intermédios para esparramar seus rastros. A aptidão de magia, ao possuir características de androginia, seduz incontáveis variantes do masculino-feminino.

Ernest Cassirer desconstrói as pretensões de certeza, ao lembrar: "a magia não precisa apenas acreditar na eficácia do meio de feitiço, mas também naquilo que para nós é apenas um meio, possui a coisa como tal e a apreende imediatamente."

É o sonho que reaparece, ainda quando embaçado pela proximidade das estranhas arquiteturas. Presságios nos ensaios delirantes, por onde as raridades apreciam infiltrar-se. Mescla de convívios nos múltiplos deslocamentos.

Os papéis existenciais também se refugiam nas tipologias. Perspectiva alterada na especulação investigativa das lógicas do absurdo. Zona intermediária entre o nada e tudo de qualquer coisa. Embora se trate de medicação provisória, a magia da interseção insinua algo mais na exceção das vontades. Um despertar às novas miragens, onde a perturbação das certezas seja ponto de partida.

As fábulas da distância e da proximidade seguem impronunciadas na voz estrangeira da própria pessoa. Seu dom de camuflagem constitui a essência do ilusionista. Erudição a reanimar tragédias e comédias em conjecturas de desrazão.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS
Coordenador da Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG e Secretaria Municipal de Saúde Mental em São João del Rei/MG.

Nenhum comentário:

Postar um comentário