sábado, 4 de setembro de 2010

O instante aprendiz*


"Todas as coisas são de tal natureza que, quanto mais abundante é a dose de loucura que encerram, tanto maior é o bem que proporcionam aos mortais."
Erasmo de Rotterdam


Ao esboçar apontamentos sobre uma lógica da loucura, um viés de absurdidade se desvela em estilhaços de múltiplas faces. Fronteira onde a normalidade se reconhece nos seus paradoxos.

Uma das características da expressividade delirante é ensimesmar-se em desacordo com o mundo ao seu redor. Cria dialetos de difícil acesso, para proteger versões de maior intimidade.

O papel da Filosofia Clínica na interseção com a crise imediata, também é apresentação indeterminada num processo caracterizado pelo exagero da manifestação partilhante.

Um não-saber veicula provisórias verdades no compartilhar desconstrutivo das sessões. Representações existenciais difusas se alternam em narrativas no tempo da pessoa. A linguagem da loucura se constitui em um conjunto de convivências estapafúrdias.

O ponto de partida é a extraordinária língua da pessoa estruturada nalguma forma caótica.

Ernst Cassirer refere:

"Há coisas que, em virtude de sua sutileza e sua infinita variedade, desafiam toda tentativa de análise lógica. E, se existe no mundo qualquer coisa que devamos tratar da segunda maneira, é a mente do homem. O que caracteriza o homem é a riqueza e sutileza, a variedade e a versatilidade de sua natureza."

Os rastros da diferença podem deixar pistas nos termos agendados, na incompletude discursiva ou desestrutura pessoal.

O Filósofo Clínico se faz aprendiz, na interseção com as lógicas do extraordinário. Sente, ouve e percebe as inéditas formas de conversação, por onde a pessoa exibe contextos ainda irreconhecíveis.

Mais que um caminho de regresso às anterioridades, também possível, trata-se de uma iniciação no mundo partilhante. Investigar reflexivo e compartilhado das descontinuidades, rupturas e esteticidades entrevistas na busca de algum conforto existencial.

No início da clínica trata-se de fazer imersão na condição dessemelhante do sujeito e conhecê-lo em versão própria. Preliminarmente, se tem um interesse na expressividade e desdobramentos desses álibis da crise. Não se oferece conselhos, fórmulas prontas ou alguma leitura dos clássicos.

Na estrutura de pensamento refugiada em si mesma, a confusão pode embrenhar-se em episódios distantes da objetividade social. Um misto de assombro criativo alterna formas nas inconfidências da surpresa narrativa. Fundamentação prática para uma epistemologia da loucura.

Tzvetan Todorov assim se manifesta: "O fantástico leva, pois, uma vida cheia de perigos, e pode se desvanecer a qualquer instante. Ele antes parece se localizar no limite de dois gêneros, o maravilhoso e o estranho, do que ser um gênero autônomo."

As sínteses dos sobressaltos nem sempre são favoráveis à fluência dos convívios. Um discurso imprevisível amplia intermédios de excesso e aparente sem rumo.

Os manuscritos refeitos com as lógicas do delírio possuem característica plural. No devir instável um adorno de escassa nitidez insinua conjecturas de longo alcance.

O papel existencial cuidador aprecia decifrar esses subúrbios e margens improváveis por onde a pessoa desloca-se em seu singular desassossego. Nesse sentido, o cotidiano do Filósofo Clínico se apresenta como um interlocutor de raridades.

Roteiro de início sem-fim entremeios de razão e desrazão. As alegorias podem constituir uma linguagem incrível. Ao ser terapeuta restam as variadas traduções, na parcialidade das buscas para acessar o extraordinário desconcerto dessa formas de existir.

O ser dissonante desaloja verdades de sentido único. Atualiza, de forma estapafúrdia, uma crítica reflexiva sobre o aspecto bem acabado dos convívios normais. Quando não está alheia ãs coisas ao seu redor - a loucura - aprecia medir forças com sua fonte de inspiração: a normalidade.

Um viver clandestino mostra engenhosidade em um corpo que não lhe pertence com exclusividade. O viés pessoal delirante reanima-se na dessemelhança com os artifícios da realidade fingida.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico
Coordena a Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança e Secretaria Municipal de Saúde Mental em Juiz de Fora e São João del Rei/MG, respectivamente.

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