quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Amigo da sabedoria, amigo do partilhante.

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

“[...] a relação filósofo-partilhante é uma relação essencialmente de amizade. Cabe ao filósofo ter os cuidados de somente aceitar como partilhante alguém que em sua existência ocuparia de certo modo um tal lugar, reservado à amizade.” (Lúcio Packter, Caderno A, p. 4-5).


Há 2500 anos foram denominados filósofos os que buscavam compreender o mundo, o homem, a vida, a existência, o ser, o todo, e tantas outras questões comuns à investigação humana. Mas, estes não foram considerados os “sábios”. Sábio, em sentido lato, é aquele compreendido como quem conhece, quem está a par do necessário a ser conhecido.

Filósofo é o “amigo da sabedoria”. Ser amigo é admirar, conviver, pensar, gostar, mas não abarcá-lo em sua totalidade. Portanto, o filósofo é aquele que tem ciência de sua limitação em relação ao objeto de sua busca e que, mesmo assim, se lança na pesquisa.

Lúcio Packter postula uma atitude do filósofo clínico em relação ao partilhante como uma amizade. É claro que o caráter profissional não deve ser deixado de lado. Não se trata de uma amizade tal qual se dá com nossos amigos íntimos escolhidos – se é que amizade é fruto de alguma escolha deliberada. O que o pensador da Filosofia Clínica parece pedir é uma atitude filosófica diante da pessoa que o busca no consultório.

Se o filósofo não tivesse interesse em sua busca, o anseio pelo saber não se daria e nenhum progresso seria possível. Do mesmo modo o filósofo clínico, se não tiver um interesse em conhecer o partilhante, jamais conseguirá estabelecer uma recíproca de inversão suficiente para compreender o que lhe é apresentado.

Deste modo, tanto o filósofo quanto o filósofo clínico devem estabelecer a mesma postura diante do que está buscando: o primeiro diante da compreensão de algo que lhe afeta, e o segundo diante do partilhante. Em ambos, o que buscam jamais será totalmente desvelado.

Tantos séculos de pensamento mostram um devir constante, mudança de modos de pensar e do que é pensado. Não há certo nem errado, há pensamento e o que é se desvelando de acordo com o pensador.

O filósofo clínico não apresentará postura diferente. Diante do partilhante não há verdade a ser descoberta. O trabalho de “amizade” consiste em receber o que lhe é apresentado. O partilhante e seu desvelar. Não se propõe a pretensão de compreendê-lo em sua totalidade.

Apreende-se o máximo do relato e dos diversos modos de expressão do partilhante. Suas angústias aparecerão. Algo dos conflitos da estrutura de pensamento é encontrado. O filósofo utiliza seu aprendizado para encontrar o melhor modo possível para aliviar esses conflitos na EP do partilhante. Este vai embora agradecido. Houve uma relação de amizade, no sentido filosófico.

Tanto o filósofo quanto o filósofo clínico somente chegarão ao desvelar do que lhe foi apresentado. Nem se adquire a sabedoria do que buscava, nem o diagnóstico completo do que é o partilhante.

A beleza da vida talvez se suceda aí. Não há certezas, somente aproximações. E estas são suficientes para que o processo reinicie a cada novo desafio na clínica e na vida. Tudo é novo o tempo todo. Inclusive na amizade.

Há, portanto, o amigo da sabedoria e não sábio; amigo do partilhante e não seu sabedor.

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