domingo, 24 de outubro de 2010

Desejo

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica

Durante seis meses acompanhei Adhelia, uma mulher de quase quarenta anos, quase dois filhos, quase dois casamentos. Ela se definia assim. Ainda que no início ela estivesse confusa quanto a uma gama de fenômenos que lhe habitavam, sua confusão se aprofundou quando chegou à conclusão de que não desejava estar bem em algo, não desejava possuir uma nova casa (como afinal acabou desejando e tendo), não desejava que o filho menor resolvesse o problema com os dentes, não desejava as coisas para de algum modo ter essas coisas.

Adhelia encontrou algo em si mesma que lhe chamou a atenção: ela desejava pelo próprio gosto de desejar.

“Eu gosto de sentir dentro de mim a sensação de querer algo. É estimulante viver em mim quando surge o movimento de desejar. Não interessa o que estou desejando. Interessa somente o desejo. O desejar.” – disse-me ela mais de uma vez, em mais de um modo.

Semelhante a alguém que aprecia ler, mais do que o conteúdo da leitura; semelhante a quem se compraz em ser, mais do que o conteúdo do que o que é, Adhelia era basicamente um ser de desejo.

Ao se interessar por Filosofia, certo dia começou um questionamento que a levou a outros e que ainda hoje tem seus desdobramentos. Ela começou a questionar o que era de fato o desejo. No caso dela, surgia então mais um desejo.

O que é o desejo?

Quando os romanos, que tinham elementos helenísticos em sua engenharia, buscaram fazer as cidades melhor ocupáveis como morada e então construíram uma rede complexa de encanamentos, isso foi um movimento a partir de uma necessidade? O desejo seria uma decorrência de uma necessidade? Desejamos a água porque temos sede?

Ou talvez devemos considerar o desejo como algo nocivo? O desejo pode ser um sintoma de que algo não vai bem, assim como um estado febril indica às vezes um estado infeccioso no organismo. Neste caso, o ascetismo do hinduísmo, por exemplo, seria correto em sua interpretação do desejo como algo que deve ser observado e cuidado? Penso em Diógenes e sua repulsa por desejar coisas matérias.

Desejar não desejar pode ser uma armadilha conceitual. Na qual a pessoa passará a vida tentanto não desejar aquilo que deseja. Ou seja, desejando, de qualquer modo.

O anseio de Descartes, de entender a distinguir o verdadeiro do falso, o que era? Poderia ser somente uma resposta aos conceitos da escolástica medieval? Causa e efeito, algo assim?

O estudo da natureza do desejo não é recente e remonta a textos muito antigos. Podemos recuar até o Antigo Testamento e ali encontraremos ao menos dois mandamentos ligados diretamente à proibição dos desejos. Mas muito antes do escrito sagrado encontramos considerações importantes sobre o assunto.

Em muitos momentos, muitos escritos nos orientam nesta questão.

Alguns filósofos são evidentes em suas considerações sobre o tema. Platão, quando trará da alma, que para ele é anterior ao corpo, descreve sua natureza tripardida. No nível inferior, está a alma sensível, que é habitada por desejos e por paixões. Platão une-se a uma longa tradição que alcança os nossos dias segundo a qual o desejo não goza de boa reputação. Parece existir alguma questão ligada a erros, entraves, dor relacionando os desejos com a existência em geral.

Os mitos estão povoados do elemento desejo. Eles ganharam maior relevância com o adventos das psicologias. Pois a carga natural de desejo recebeu o aporte de outras que anteriormente não conhecíamos. Assim, Freud pensou que em Édipo existe o desejo de superação do pai.

Mas o que é o desejo?

Consideremos Eros, que afinal era o deus grego do desejo, do amor. Na antiga tradição grega, Eros trazia uma força de unificação, uma força ordenadora. Se o temos como apresentado em Hesíodo e em Empédocles, Eros tinha o poder de unir os elementos levando-os do caos ao cosmos. Na prática, uma combinação cujo final era a chegada a um mundo organizado.

O desejo seria, entre outras composições, a tentativa de uma organização entre fatores em conflitos ou entre fatores perdidos em mares infinitos?

Analogamente ao curso de um sinuoso rio que flue entre montanhas, despenhadeiros, planícies, poderíamos seguir a trajetória dos desejos em seus percursos cartesianos, mesmo perdendo parte de suas linhas nas áreas de lagos, intercurso com outros rios, pântanos, baixadas alagadas. Isso nos exibiria a trajetória dos desejos, mas a trajetória de algo não necessariamente nos mostra o que este algo é. Ficamos com a manifestação dos desejos e não com o que eles são. Ou seriam estes caminhos a própria identidade dos desejos?

Se, de outro modo, nos ocupamos do nascimento dos desejos, da fonte de onde partem os rios, segundo nossa analogia, podemos chegar, em muitos casos, à origem deles, o que não quer dizer que chegamos propriamente ao que eles são.

Em meu trabalho como filósofo clínico, identifiquei que algumas vezes esta origem está relacionada a necessidades, como resolver uma questão pendente; a associações de movimentos na malha intelectiva, como quando um prazer sensorial e uma interrogação se associam em uma composição cujo resultado é o aparecimento de um desejo; a diletantismos da existência, como em casos do exercício existencial de fazer algo com a energia disponível, feito uma criança de diante de uma bola inventa de brincar com ela; a um elemento predisponente na estruturação da pessoa, próximo ao que acontece com os dados outros existentes em nós que possibilitam a aparição e o desenvolvimento do sono, da alegria, da poesia, conforme as possibilidades que são vivenciadas permitem tais manifestações.

Mas este breve dicionário de sinônimos filosóficos em forma de possibilidades de fato pode nos levar a entender a natureza dos desejos?

Por que diante de uma visão de um mar suave, por exemplo, advem o desejo de nadar, ao invés da indiferença, do desvio de foco, de uma pergunta ou outra manifestação? Isso é provavelmente oriundo dos fatores determinantes, mais fortes (por assim dizer) na malha intelectiva da pessoa diante dos contextos naquele momento. Provavelmente.

Mas o desejo, o querer, a vontade, o movimento em direção a algo que se vai ocupar, ter, ser, o que é isso?

O desejo é uma característica humana de ocupar espaços existenciais? O desejo é a conseqüência de uma forma de ordenação mental na qual o movimento se dá pela busca, necessidade, procura, expansão, apropriação, associação de elementos mediante um querer? O desejo constitutivo do ser humano como a pele, os ossos? O que é o desejo?

Os manuais e dicionários de Filosofia nos trazem Aristóteles, Descartes, Heidegger ligando a resposta a apetites, à falta, ao ser projetivo que somos. E, nesta pesquisa, perguntei a alguns alunos de Filosofia no curso de formação de Filosofia do Instituto Packter, no qual sou coordenador, sobre o que é o desejo. Também no site SóFilosofia, o tema foi motivo de enquete entre milhares de leitores, estudantes de Filosofia, filósofos, professores de Filosofia.

A maioria das respostas apontou para umas poucas direções: o desejo é uma resposta à necessidade, é um desenvolvimento, é um elemento espiritual para o projeto humano, é o modo como fazemos o movimento do existir (assim como para andar colocamos uma perna diante da outra sucessivamente).

A Filosofia acadêmica segue nos advertindo sobre os cuidados com a vontade, o desejo, o sonho, em Schopenhauer, Lévinas e em outros filósofos.

Provavelmente, temos mais de uma resposta para o que é o desejo e provavelmente mais de uma está correta. Em Filosofia Clínica, ao examinar profundamente a existência de uma pessoa, às vezes a resposta aponta para a natureza do desejo como sendo um movimento natural de conceitos como bolas sobre uma mesa de bilhar que, quando se chocam, acabam afetando uma bola azul que descansava indiferente a um canto da mesa; às vezes, o desejo é a tentativa de suprir uma falta; às vezes, o desejo é a falta; em muitas ocasiões, o desejo é uma inflamação da alma na qual uma associação de pensamentos gerou uma busca; o desejo é muitas vezes também o exercício livre do pensamento, um empreguiçar rumo a algo; o desejo se apresenta várias vezes como renúncia, como possibilidade, como morte, o que não lhe impede de ser outras vezes vida e impossibilidade. E todas essas respostas, as quais poderia ainda agregar mais algumas, estão diretamente relacionadas ao sentido do querer, do ir em direção a, da volição, da vontade de.

Pressupor que devemos combater ou acolher os desejos sem examinar o que são, as funções que exercem, como estão posicionados e como interagem com outros elementos na estrutura do pensamento da pessoa, é indefensável do ponto de vista da Filosofia Clínica. Pregar abertamente a privação ou o incremento dos desejos sem pesquisar a historicidade e a estruturação de cada pessoa é como pregar abertamente a privação ou a exacerbação do uso da visão, da audição, do tato. Para um filósofo que trabalha em clínica isso torna-se grotesco e provavelmente algo a ser submetido a exame minucioso.

A última vez em que encontrei Adhelia foi no verão. Um verão muito quente, mesmo para os padrões do sul. Ela usava um óculos de sol colorido que achei muito engraçado. Ela me disse que tinha escolhido aqueles óculos porque havia encontrado algumas respostas para determinadas questões que há muito lhe incomodavam. Enquanto eu acendia o cachimbo e a olhava em silencio, ela me falou jovialmente:

- Comprei uma pequena máquina que faz pães. Ela tem um manual de instruções. Eu coloco os ingredientes, faço regular o relógio, acompanho tudo pelo pequeno vidro. Em poucos minutos tenho pães integrais, de chocolate, de batata. Tenho uma pequena padaria em casa.

Aparentemente o que Adhelia falava nada tinha a ver com qualquer coisa que fazia parte das consultas anteriores. Ela olhou para algum ponto ao longe e disse:

- ... aqueles ingredientes, farinha, ovos, água, leite, o assar da massa, a própria panificação, não são o pão. Achar que as primeiras coisas têm a ver com a segunda é um novo problema.

E depois de um silêncio, passamos a falar do verão. Os verões no sul ultimamente têm sido rigorosos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário