sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Filosofia Clínica e Cinema

Márcio José de Andrade
Filósofo Clínico
Campinas/SP


“O que caracteriza o cinema não é apenas o modo pelo qual o homem se apresenta ao aparelho, é também a maneira pela qual, graças a esse aparelho, ele representa para si o mundo que o rodeia”.
Walter Benjamim


O USO DO CINEMA COMO RECURSO DIDÁTICO

AO ENSINO DA FILOSOFIA CLÍNICA
Ao nos propormos ensinar Filosofia Clínica como terapêutica deparamo-nos com uma dificuldade que é: - Como “mostrar” a FC entre a teoria e a prática durante o processo de aprendizagem? Como transpor fatores fenomenológicos para epistemológicos?

A questão a ser desenvolvida é a visualização das etapas a percorrer dentro de um delinear histórico. Os caminhos que foram percorridos pelo indivíduo até o alcance de um determinado submodo, como chegou a um tópico e qual o percurso que o descreveu.

A CAVERNA DE PLATÃO

Se pensarmos o cinema em uma de suas características como sendo reprodutora chegaremos a um modelo suposto do que seja o real. A Caverna de Platão pode ser vista como uma primeira idéia de representação dos modos de como funciona a proposta de utilização de filmes no ensino da FC.

O que é a parede da caverna senão uma grande tela onde é projetada a imagem da real figura que passa pela abertura, onde uma fogueira (luz) fornece a claridade para o que ocorre do lado de dentro, o que vejo pode ser determinado pelo meu ângulo de visão e a projeção que faço dentro de minha historicidade.

E o que temos projetado na parede? A princípio, o tópico 1: “Como o mundo parece (fenomenologicamente)”, como é a visão de mundo, seja do diretor, seja do roteirista. Não somos cinéfilos para ficarmos analisando qual a mensagem que o diretor quis nos transmitir, se o plano estava correto, quais foram os erros e acertos nas seqüências das cenas, estes procedimentos cabem a um outro momento, aqui nos interessa: as personagens, a fala, a postura, as interseções, os tópicos proeminentes, os submodos utilizados...

ESCOLHA DO FILME

A escolha do filme se dá de uma forma subjetiva, pela identificação de tópico para um ilustrar o dado descrito. A visão que se propõe tem um direcionamento, num primeiro momento pela afetação e num segundo pelos fatores que compõe o conceito que se quer mostrar. Quanto mais claro estiver o tópico mais facilmente ele poderá ser observado pelo estudante.

CRITÉRIO DE ESCOLHA:

Nos motivamos inicialmente para esta possibilidade pelos indicativos que encontramos nos livros Propedêutica do Lúcio – 1º Edição (que tem em suas últimas páginas, uma relação de filmes) e no Compêndio da Nichele, que faz uma relação de filmes ligados aos tópicos e submodos. Posteriormente em filmes que fomos recendo indicações, e assistindo, para o que viemos a formatar como um Curso de Extensão.

QUAL A IMPORTÂNCIA DE SE TER UMA LISTA:

Estando em constante estudo de aperfeiçoamento e ao apresentar um filme, nós, formadores, professores, já devemos tê-lo visto várias vezes, analisado-o minuciosamente, identificando passo a passo, os movimentos estruturais dos personagens, pois, quando apresentamos o filme para a formação de um conceito, buscamos alertar sobre a cena que representaria a função tópica na terapêutica, construindo um campo visual para a ação que se procede naquele momento.

NECESSIDADE DE CENTRAR O TEMA:

Quando apresento um filme à turma, e peço que seus sentidos estejam voltados para tais e tais tópicos, é porque sei que o direcionamento possibilita um ângulo de visão com tentativa de alcance do conceito.

OS FILMES SÃO MULTI CÊNICOS E MULTI TEMÁTICOS:

Eles são ricos em cenas. Etapas. Representam um grande mosaico de cenas que irá se costurando no que é denominado enredo. E, são poli temáticas, pois em um mesmo filme pode estar se tratando de vários assuntos inerentes à história que nos é contada. Por isso podemos demonstrar a diversidade de comportamento dos personagens que compõe um mesmo contexto com resultantes diferenciadas, mesmo que inseridos no mesmo campo cultural.

AGENDAR O TEMA DE ANTEMÃO:

Apresentar o filme que será visto na próxima aula proporciona a turma condições de enriquecer as relações conceituais que se quer mostrar, uma vez que, a fenomenologia que se descrevem a todos constrói uma rica descrição de dados observados inter-relacional. A visão de como o mundo me parece se expande ao ritmo do mundo imaginário de cada componente. De certo, sem perder as bases que estamos tentando construir.

PASSAGENS/PERSONAGENS FUNDAMENTAIS À AULA:

Passear pela construção histórica de cada personagem não retira do analisando em relação ao analisado os preceitos éticos para tal fundamentação. Muito pelo contrário, mostramos a singularidade e plasticidade que compõe cada indivíduo, reforçando sempre que possível o papel de quem está a partilhar nesta relação. Respeito às formas e simbologia e o que diferencia a caminhada em conjunto.

FORMAS DE APRESENTAR O FILME:

Os objetivos e os conceitos a serem desenvolvidos podem solicitar trechos de tamanhos diversos, conforme a apresentação a ser realizada, observamos a transposição das imagens de 3 maneiras:

a) Fotogramas. Trabalha-se com cenas fixas onde se encontra o tema abordado e textos que identifique o que se vai trabalhar. Uma sugestão é trabalhar com um fotograma que anteceda a cena abordada e com outro posterior à cena, possibilitando, assim, um vislumbre do movimento realizado.

b) Trechos do filme. É um processo através do qual se busca centrar o foco no tema, fragmenta-se o filme, possibilitando ver, especificamente, o desenrolar de um movimento existencial.

c) Projeção contínua. Neste processo, busca-se ter o filme como uma historicidade relatada, que nos possibilita um leque de opções de tópicos e submodos, e um exercício livre, guardada as devidas proporções, do identificar uma estrutura de pensamento e seu movimento.

TEMAS TRANSVERSAIS:

Podem ser trabalhados durante a aula como exercício filosófico, não clínico, por ex. velhice, liberdade, morte, ética, etc.

FILMES JÁ UTILIZADOS COM AS TURMAS E OS TEMAS TRABALHADOS - PATCH ADAMS:

Após tentar o suicídio, Hunter Adams (Robin Williams) voluntariamente se interna em um sanatório. Ao auxiliar outros internos, descobre que deseja ser médico, para poder ajudar as pessoas. Um primeiro embate ideológico e ético se dá dentro deste sanatório, onde os internos não existem, enquanto seres humanos, ao olhos da instituição.

Deste modo, Patch sai da instituição e entra na faculdade de medicina. Seus métodos poucos convencionais causam inicialmente espanto e repulsa, mas aos poucos vai conquistando aliados, e inimigos, como o reitor, que quer arrumar um motivo para expulsá-lo, apesar de ser o primeiro da turma. É através deste filme que nos servirá para tratar do temas “O que é a Filosofia Clínica”, “O que a Filosofia Clínica propõe” e “A Ética que a sustenta”.

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA CLÍNICA:

Para esta introdução ao exercício do apresentar a Filosofia Clínica através do cinema é imprescindível ter o conteúdo muito bem fundamentado para poder desenvolver os três temas iniciais abordados. O Filme “Patch Adams” aborda, conforme a leitura, o que queremos enquanto postura com o outro, o relacionar-se com quem nos procura, entre outros temas a serem desenvolvidos.

1) O que é Filosofia Clínica.

2) O que propõe a Filosofia Clínica.

3) A ética que a sustenta.

ENCONTRANDO FORRESTER:

Após uma aposta com seus amigos, Jamal Wallace (Robert Brown) se vê obrigado a invadir o apartamento do Senhor Janela, que mais tarde vem a saber ser William Forrester (Sean Connery), um talentoso e recluso escritor com quem virá a desenvolver uma profunda amizade. Jamal um jovem adolescente que ganha uma bolsa de estudos em uma escola de elite de Manhattan, devido ao seu desempenho nos testes de seu antigo colégio no Bronx e também por jogar muito bem basquete.

Percebendo talento para a escrita em Jamal, Forrester procura incentivá-lo para seguir este caminho, ambos terminam recebendo algumas boas lições de vida. Neste filme trabalhamos com Interseção, Historicidade, uma apresentação ao que seriam as Categorias, e a primeira Categoria Assunto (imediato e último).

INTERSEÇÃO, HISTORICIDADE, ASSUNTO IMEDIATO E ASSUNTO ÚLTIMO:

1) Interseção: Tudo em clínica é a resultante da qualidade da Interseção entre o filósofo e a pessoa. É importante fundamentar que na Filosofia Clínica o filósofo clínico e o partilhante estão em interseção, sempre! No sentido que não há significação em um apenas quando tomado separadamente.

2) Historicidade: Trata-se, aqui, da linha histórica-existencial da pessoa que procura o filósofo clínico. Ela é elaborada de forma cronológica e sem saltos lógicos, onde a pessoa relata sua vida, suas percepções. É onde o filósofo clínico colhe os dados para a aplicação em clínica.

3) Categorias: Em geral é qualquer noção que sirva como regra para investigação ou para expressão lingüística em qualquer campo. Para Aristóteles são os modos em que o ser se predica das coisas nas preposições.

Para Kant são os modos pelos quais se manifesta a atividade do intelecto. Para a Filosofia Clínica, são as maneiras de como a pessoa se estruturou existencialmente. Explorando as cinco categorias (Assunto, Circunstância, Lugar, Tempo e Relação), o filósofo forma um conceito bem estruturado do mundo da outra pessoa: uma representação para si mesmo da representação do outro.

3.1) Assunto (imediato e último): Assunto Imediato é o que leva o partilhante a procurar um filósofo clínico. Ele nos informa rapidamente a questão e o jogo comunicativo em curso. Assunto Último é o que realmente está a incomodar o partilhante, e pode ser melhor visualizado após a colheita da historicidade, dos dados divisórios e dos exames categoriais. Pode ou não coincidir com o Assunto Imediato.

BALEIAS DE AGOSTO:

As velhas irmãs Libby (Bette Davis) e Sarah (Lillian Gish) vivem juntas numa casa ampla no rochoso litoral do Maine, onde costumavam passar o verão desde a infância, sempre de olho nas baleias que aparecem em agosto. Agora Libby está cega e Sarah precisa cuidar dela.

Ambas vivem de recordações da família, dos maridos e dos amigos. O sr. Maranov (Vincent Price), um velho nobre russo fugido da Revolução de 1917, passa a visitá-las, mas é rechaçado asperamente por Libby, que teme que ele apenas queira se instalar na casa delas para aproveitar o pouco de dinheiro que ainda possuem. Trabalhamos neste filme as Categorias Tempo e Circunstância.

EXAMES CATEGORIAIS:

1) Tempo: Ela informa como a pessoa relaciona seu código temporal interno em direção ao tempo convencionado na sociedade humana, o tempo que é marcado pelo tic-tac do nosso relógio. Interessa saber qual o relacionamento entre o tempo convencionado (afixado no relógio) e o tempo subjetivo.

2) Circunstância: É o somatório de singularidades que acompanham uma situação. Aqui são levantadas as variáveis pertinentes, próximas e longínquas, tudo o que o clínico julgar necessário para situar a pessoa dentro de um quadro mais nítido, como se de linhas gerais chegassem a uma representação mais minuciosa e precisa.

TOMATES VERDES E FRITOS:

Evelyn Couch (Kathy Bates) é uma dona de casa. Ed (Gailard Sartain), o marido dela. Em uma visita a tia de Ed, em um hospital, esta permite que Evelyn adentre ao quarto. Enquanto ela espera que Ed termine sua visita, Evelyn conhece Ninny Threadgoode (Jessica Tandy), uma gentil senhora de 83 anos, que lhe conta histórias.

Através das semanas ela faz relatos a Evelyn que estão centrados em uma parente, Idgie (Mary Stuart Masterson), que desde criança, em 1920, sempre teve um excelente interseção com o irmão, Buddy (Chris O'Donnell). Quando ele morre atropelado por um trem (o pé ficou preso no trilho), Idgie não consegue conversar com ninguém, exceto com a namorada de Buddy, Ruth Jamison (Mary-Louise Parker). Através destes relatos a Interseção entre Evelyn e Ninny irá se transformando, bem como a própria Evelyn, que em forma de inversão irá se descobrindo. Trabalhamos neste filme as Categorias Relação e Lugar

EXAMES CATEGORIAIS:

1) Relação: O comportar-se de determinada maneira em referência a alguma coisa, segundo Aristóteles. Para efeito de nosso estudo, a relação é a qualidade estabelecida quando da interseção.

2) Lugar: Mensuramos como a pessoa se sente (portanto, suas sensações) e o que pensa (portanto, a representação mental, intelectiva, que criou para si mesma) a propósito do ambiente onde está inserida.

PERFUME DE MULHER:

Frank Slade (Al Pacino), um tenente-coronel cego, viaja para Nova York com Charlie Simms (Chris O'Donnell), um jovem acompanhante imposto pela família. Slade resolve ter um final de semana inesquecível em Nova York antes de se matar. Não conseguindo se livrar do acompanhante, resolve levá-lo e pensa em dispensá-lo assim que chegarem ao seu destino.

Porém, durante a viagem ele começa a se interessar pelos problemas do jovem, procurando auxiliá-lo, sem contudo esquecer de seu intento. Neste filme apresentamos o que é Estrutura de Pensamento e seus três primeiros tópicos: “Como o mundo me parece”, “O que acha de si mesmo” e Sensorial & Abstrato”.

ESTRUTURA DE PENSAMENTO:

Estrutura de Pensamento é o jeito existencial da pessoa. Tudo o que você conhece, sente, intui, tudo o que há em você na sua totalidade, isso é a sua Estrutura de Pensamento. A maneira que sua EP usa para vivenciar em forma de ação, comportamento, atuação, isso são os submodos.

1) Tópico 1 – Como o Mundo me Parece: Reportando a Protágoras e Schopenhauer quando, respectivamente, nos lembram que: “o homem é a medida de todas as coisas” e que “o mundo é representação”, deve-se considerar que quem expressa algo está somente manifestando seus limites, seu sistema métrico com o qual faz a mensuração dos dados que se lhe apresentam no mundo onde vive. Aqui, neste tópico, o filósofo colocará, literalmente, o que a pessoa lhe relatou a propósito do meio onde ela vive.

2) Tópico 2 – O que Acha de Si Mesmo: Neste tópico temos o que a pessoa expressa de si mesma. O que ela traduz, imagina, sente, intui, reflete, possui a respeito de si mesma? O que ela expressa de si mesma sobre o que entende ser?

3) Tópico 3 – Sensorial e Abstrato: Sensorial refere-se às sensações, a tudo aquilo que está diretamente ligado aos sentidos, órgãos receptores das sensações, que nos possibilitam o primeiro contato com os objetos de nosso conhecimento. Abstrato refere-se a tudo o que estiver ligado indiretamente aos sentido. Abstração é o processo através do qual os materiais de nosso conhecimento são agrupados, repetidos , comparados, reunidos, dando origem à idéias complexas.

MINHA VIDA DE CACHORRO:

O filme conta a vida de um menino, Ingemar (Anton Glanzlius), então com 12 anos, que está passando por um momento difícil. A mãe, Anki Liden, passa por um agravamento de saúde, sendo Ingemar enviado à casa dos tios, que conhecera nas férias de verão, lugar em que encontrou amor, carinho e compreensão para amenizar a saudade que sente da mãe e de seu irmão mais velho.

Antológicas, são as cenas na qual o garoto busca auxílio emocional nas mazelas da humanidade, em acidentes de carro e no sofrimento da cadelinha Laika em órbita da Terra, para amenizar seu sofrimento. Neste filme trabalhamos os Submodos: “Em direção às idéias complexas”, “Reconstrução” e “Retroação”

SUBMODOS:

Os Submodos são as maneiras como a pessoa vai existencialmente de um momento ao seguinte, eles são os modos como agimos, como usamos o conteúdo que se apresenta à farta em cada tópico da EP. É fundamental ter presente que os submodos são usados em clínica somente após os exames categoriais e a Estrutura de Pensamento apurados.

1) Submodo 4 – Em direção às idéias complexas: Segue as indicações de Hume e Locke, referindo-se a imagens mentais que se seguem a alguma vivência relacionada aos sentidos e/ou que sejam simultâneas a estes. Em Idéias Complexas a pessoa vai associando termos/conceitos, sempre mais, vinculando-os uns aos outros, derivando juízos, ampliando uma rede de pensamentos que a cada instante se afasta dos dados básicos, sensoriais, aqueles oriundos da experiência.

2) Submodo 29 – Reconstrução: Esse instrumento visa abrir um leque maior na malha intelectiva do partilhante, a partir de uma experiência positiva e significativa para ele. É como uma recuperação, re-fabricação, leva-se em conta uma estrutura existente que precisa ser reerguida. Ou seja, não se começa do nada, mas de um ponto de referência.

3) Submodo 24 – Retroação: Há um retrocesso, no sentido de começar do problema até a origem, pode-se fazer uma correlação com a Metafísica Aristotélica, onde busca-se, de forma metodológica uma busca da essência ao ser. Retroação é simplesmente ir de um ponto, por exemplo 10 ao ponto 1.

Bibliografia Sugerida:

AIUB, Monica – Para Entender Filosofia Clínicia – Wak Editora. Rio de Janeiro/RJ. 2005.
_____________ Sensorial e Abstrato. Apafic. São Paulo/SP. 2000.

HACK, Olga Cristina e SILVA, Márcio José Andrade da. Filosofia Clínica e Cinema, in Informação Dirigida, nº 3 . Insituto Packter, Porto Alegre/RS. 2006. (no prelo)

PACKTER, Lúcio – Filosofia Clínica – Propedêutica, 1ª Edição. AGE Editora Porto Alegre/RS.1997
________________ Cadernos. Instituto Packter. Porto Alegre/RS. s/d.

PAULO, Margarida Nichele – Compêndio de Filosofia Clínica, Imprensa Livre. Porto Alegre/RS. 2001.

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