segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Filosofia Clinica e Medicina

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Quando uma pessoa apresenta determinado sintoma (dor abdominal, tontura, enxaqueca, febre, etc), geralmente é submetida a uma investigação composta de história clínica, exame físico e, quando necessário, exames laboratoriais. Em determinadas situações, nada de concreto é encontrado, a não ser a queixa do paciente. Prossegue-se então na busca de alguma patologia, passando-se a uma nova etapa: realização de exames mais sofisticados(ressonância magnética, cintilografia, endoscopia, cateterismo cardíaco, etc).

Duas situações podem se apresentar após investigações exaustivas: encontra-se a causa da sintomatologia apresentada e parte-se para o tratamento, ou os exames continuam dentro da normalidade ou levemente alterados sem apresentarem relação direta com as queixas do paciente.

O que fazer nestas situações? Alguns médicos partem para uma nova bateria de exames ainda mais sofisticados, outros passam a tratar paliativamente o sintoma e, em determinadas ocasiões, o paciente cansado de tantos exames, procura outro médico ou até mesmo abandona o processo de investigação e tratamento, resignando-se a conviver com seu problema/queixa. Do ponto de vista estritamente físico, o diagnóstico deste paciente é de normalidade, assim sendo, eventualmente encaminha-se o mesmo para um tratamento psicológico, com suspeita de somatização.

A evolução da medicina, através da ampliação do conhecimento e do avanço tecnológico, permitiu que fossem captadas imagens do interior do corpo humano com facilidade e nitidez nunca dantes imaginadas. Assim, uma ressonância magnética cerebral, aliada a um eletroencefalograma e, quem sabe, um exame de liquor, podem dar muito mais acuidade e segurança a um diagnóstico do que a coleta da história clínica e testes neurológicos realizados pelo médico em seu consultório.

A situação que se coloca aos médicos de nossa sociedade tecnológica é a cobrança de diagnósticos com rapidez e precisão, atendimento de muitos pacientes em uma jornada de trabalho para garantia de sua sobrevivência e comprovação documentada do atendimento, visando proteção contra possíveis ações judiciais por erro médico.

Muito embora seja enfatizado inúmeras vezes na formação de um médico que a história clinica e o exame físico são soberanos aos exames laboratoriais complementares, submetido a estas pressões, às vezes fica mais fácil ao médico, realizar um rápido exame clínico e solicitar de imediato os exames complementares, talvez descuidando um pouco ou até mesmo comprometendo a relação médico-paciente em troca de uma agilidade, segurança e precisão tecnológicas.

De qualquer maneira, vemos que o diagnóstico de saúde física geralmente é firmado quando um paciente assintomático, após a realização da história clínica e exame físico, não apresenta padrões alterados da normalidade nos exames realizados. Mesmo com a evolução da medicina, que deixou de ser apenas curativa para se preocupar também em prevenir doenças, os exames clínicos e laboratoriais é que determinarão se o paciente encontra-se saudável ou com doença.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1948, já definiu o que é saúde: “Estado de total bem estar físico, mental e social, e não somente a ausência de doença ou enfermidade”.

Por esta definição, três entre quatro pessoas estariam “doentes”, ou não gozariam de saúde.A medicina, nos seus primórdios, provavelmente não tinha condições de reconhecer e tratar os transtornos mentais. Os pacientes desajustados socialmente, popularmente conhecidos como “loucos”, eram trancafiados em locais que mais tarde passaram a se chamar sanatórios, isolando-os do convívio social e familiar.

Mais tarde, surgiu a especialidade que se dedicaria ao estudo e tratamento dos problemas da mente: a psiquiatria, que, sendo um ramo da medicina, passou a ter uma nomenclatura específica para cada desordem ou transtorno mental apresentado pelo paciente. Estas entidades estão catalogadas no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – Fourth Edition (DSM-IV), publicado pela American Psychiatric Association em 1994 e revisado em 2000.

Em psiquiatria, se eventualmente um paciente não for enquadrado em nenhuma categoria da DSM-IV, talvez receba o rótulo de normalidade mental e social. Segundo a OMS, este título atinge 25% das pessoas.

Estariam os 75% restantes das pessoas com desajustes mentais e sociais? Quais os exames para a detecção de bem estar mental e social? O que fazer?A experiência de consultório tem demonstrado aos médicos das mais variadas especialidades, principalmente na área de ginecologia e obstetrícia, que um grande número de pacientes vai ao consultório por um determinado sintoma, mas termina falando e se queixando de seus relacionamentos e problemas conjugais, obrigando muitas vezes os médicos a atuarem em uma área para a qual não foram treinados especificamente.

Médicos que trabalham em Unidades de Tratamento Intensivo atendem pacientes em estado grave, muitas vezes comatosos que aparentemente não se comunicam, outras vezes à beira da morte. Estes médicos relatam suas dificuldades em amparar toda uma gama de familiares e amigos, que podem precisar de apoio nestas horas, pelas mais variadas razões (indisponibilidade de tempo, treinamento insuficiente na área de relações humanas, dificuldades de relacionamento inerentes ao próprio médico, etc.).Outros médicos relatam suas experiências ao comunicar um diagnóstico de câncer.

Alguns pacientes desabam, outros negam, questionam, agridem, têm sua visão obscurecida, outro grupo toma atitudes positivas, apela para a fé, esperança, etc. Cada paciente vai reagir psicologicamente a sua maneira, que pode ser prevista através de um acompanhamento especializado prévio à comunicação do diagnóstico, atenuando ou até mesmo estimulando as reações emocionais que se apresentem.

Nestas e em outras situações é que a filosofia clínica pode ser útil à Medicina e à população em geral. Partindo do princípio que o trabalho de um filósofo clinico é promover o bem estar, auxiliando cada indivíduo a entender, ou pelo menos conviver com seus dilemas existenciais, servindo como um amigo que estará ao seu lado na jornada que se apresenta como difícil, e quem sabe sofrida, já temos um caminho.Não necessariamente um caminho de cura, nem de diagnósticos. Saúde não é apenas um diagnóstico, mas uma postura de bem viver. Não é o corpo que está doente, mas todo o ser.

A preocupação maior no tratamento não é eliminar a doença e sim dar condições ao paciente de expressar suas dores e conviver com seus males existenciais da melhor forma possível.

Com o auxilio de procedimentos clínicos, tais como tradução, retroação, atalho, percepção, roteirizar, informação dirigida, busca, direcionamento ao desfecho, às emoções, etc, planejados para cada situação em particular, o filósofo clinico pode auxiliar um paciente com diagnóstico de tumor cerebral e sua família a enfrentar a doença e suportar o sofrimento, fazer uma pessoa entender o motivo de suas enxaquecas e cansaço, demonstrar à equipe médica que a sintomatologia apresentada pelo paciente pode ser um dado de semiose não verbal (assim como os sonhos podem refletir os problemas da mente, o corpo pode mostrar através dos sintomas, situações conflituosas), identificar um dado de semiose não verbal num paciente comatoso, mostrar a uma pessoa enlutada que o sofrimento com a perda não precisa ser combatido por ser algo desagradável, encorajar ou encontrar uma maneira que torne possível um paciente claustrofóbico realizar uma ressonância magnética, acompanhar um paciente que tentou o suicídio ao sofrer uma desilusão amorosa.

Quando um paciente passa a necessitar doses maiores de insulina para controlar sua diabetes, quando a pressão arterial começa a se elevar, o simples aumento na dose das medicações seria o tratamento ou apenas alivio dos sintomas? Estes desequilíbrios hormonais não poderiam ser resultados de conflitos emocionais?

O tempo exíguo de uma consulta, a perda da qualidade na relação médico-paciente e o treinamento em tratar doenças físicas, fazem com que o médico, mesmo atento aos efeitos emocionais na saúde física, porém sem condições de ir mais fundo por este caminho, possa eventualmente prescrever a estes pacientes um sedativo ou um anti-depressivo como medicação complementar.

Baseados nos ensinamentos filosóficos sobre sofrimento, dor, amor, buscas, preconceitos, liberdade, religiosidade, emoções, etc, surgiu a filosofia clínica, que através de metodologia específica para entendimento da estrutura de pensamento de cada indivíduo, sem rótulos ou preconceitos limitadores, visa contornar justamente estes mal estares e até “desajustes” de vivência social que estão incorporados ao dia a dia moderno.

O filósofo clínico não está autorizado a prescrever medicamentos. Sua função seria recompor no paciente a figura de sua singularidade existencial, vindo a suprir, quem sabe, a lacuna deixada pelos médicos de uma relação mais humana e direcionada aos problemas, por assim dizer, da alma. Um trabalho a ser realizado em parceria com médicos, psiquiatras, assistentes sociais e demais membros de uma equipe multidisciplinar de saúde.

A filosofia clínica surge como uma alternativa a ser somada à medicina, seja na profilaxia de várias doenças, onde o bem estar mental e social podem fazer o indivíduo perceber seu papel existencial e sua função na preservação de sua saúde e dos que o cercam, seja na compreensão por parte da equipe médica, de que o paciente, através de sua representação do mundo, de seu entendimento das coisas, é quem vai dar a medida do que é doença e saúde e do que é normal e anormal. Parafraseando Winnicott : “Ausência de doença pode ser saúde, mas não é vida”.

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