sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Na invisibilidade de um triz*

“A vida segura o espelho para a arte, e reproduz ou algum tipo estranho imaginado por um pintor ou por um escultor, ou então concretiza no fato aquilo que havia sido sonhado na ficção.”

Oscar Wilde


Existem refúgios por onde as raridades ensaiam incompletudes. Uma zona distante dos consensos e de onde nada se espera. Discurso das lacunas, falhas e sentidos obsoletos, seu sussurro descreve frestas e faz referência a palavra que escapa. Um quase ao sobressalto criativo desconsiderado. Atiçar especulativo no esboço por um triz de duração imediata.

Na expressividade ainda não cooptada pelos rituais conhecidos, suas deixas, sobras ou deslizes incitam a interrogação para outras verdades. Fonte de matéria-prima às incertezas recém decaídas das convicções. Seu anúncio de nitidez inesperada se oferece na escassez de um porém. Sua irrealidade ainda sem fundamentação não desmerece paradoxos, ao contrário, os fortalece com sua existência sutil.

Um ser de aspecto difuso se oferece ao olhar de escuta não contaminado. Seus caminhos possuem a invisibilidade dos seres livres. A ciência conformada não possui meios para vislumbrar um mundo repleto de extraordinários. Segue a reproduzir justificativas contra suas dobras e contornos. Ao descrever erros e distorções, agracia com títulos e honrarias as melhores cópias. Mesmo assim, as certezas de espelho se agitam, como se fora outro eu mesmo do lado de lá.

Na virada de página os trechos incompreensíveis possuem a chave da interseção com o ângulo desconhecido. Ao olhar assim constituído, as coisas parecem surgir com ênfase conhecível. Sua desenvoltura se anuncia na peregrina busca a se alternar nas ventanias.

Herbert Marcuse em busca de outras verdades: “O pensamento dialético deve tornar presente o que é ausente, porque a maior parte da verdade encontra-se naquilo que está ausente.”

Seus apontamentos deixam vidências numa moldura que aguarda. Sua lucidez de pensar delirante ampara exílios na palavra sem sentido. Os tropeços da estrada servem para deixar rastros, muitas vezes sobreposição aos pergaminhos bem redigidos.

A perplexidade dos novos conteúdos prolifera significados para além da estrutura de onde surgiu. Ao transformá-la nalguma fôrma de saber, destitui sua força subversiva e criadora. A partir de então será tipologia ou especialidade bem arrumada.

Em tempos de preparação e anúncio, a velha janela aponta novidades através das coisas sem sentido. Distorções ao consentimento de uma só realidade. Ao não ter um território único, percorre todos com uma ingenuidade de primeira vez. Sua referência ao ser descontínuo atualiza um caminho por seguir. Quando se trata de recarregar forças, se abriga nalgum ponto de seu vasto universo.

À primeira vista se tem os limites da interseção conhecida. A rasura ou distorção apreciam insinuar outros acessos ao não-lugar. Sinal de alerta aos ângulos de um real improvável. Dialética dos assédios com a existência de onde nada se espera.

Oscila de um ponto a outro num espaço de tempo despreocupado em se mostrar. Nesse sentido recria estruturas significantes e significativas, realiza fissuras entre real e irreal e desconstrói a ilusão de ser a única verdade.

Sua relação com o lugar comum do bom-senso é um contra-senso. Contradição irreverente com a certeza de nada ser nada. Uma brecha para as invenções e descobertas expandir os limites do que deu certo. Momentos de aproximação com a estrutura de um caos em busca de tradução.

Donaldo Schüler poetiza essa percepção: “O homem define-se nas suas muitas relações. Define-se ao se indefinir. Onde procurar o homem se a cada instante quebra grilhões?”.

Seus recantos desmerecidos gostam de se anunciar em vocabulários desconhecidos. Os manuscritos julgados como língua morta, apreciam transgredir a lógica normalizada.

No seu instável equilíbrio os fenômenos rascunham a apresentação que acolhe a razão de toda loucura. Capaz de vislumbrar essa zona desmerecida e condenada à ficção do real, seu visar não pode encarcerar-se nalguma definição. O outro daquilo que se vê se encontra no mesmo e sua eficácia pode ser vista atuando na antítese do que se sabe.

Seus rastros instituem uma instabilidade interpretativa eficaz, ao oferecer uma multiplicidade de sobressaltos ao entendimento tido como verdade única. Sua singularidade se ampara nas entrelinhas dos acordos. Essa espécie incomum em seu jeito híbrido de tornar-se se faz notar pela ausência.

Uma estranha invisibilidade se alterna nos episódios onde sua realidade fugaz persegue a denúncia aos novos territórios. Assim o acaso, as incertezas e a dúvida podem significar a incursão para algo que se encontra onde não se procura. A sensação de estar sobrando anuncia rumores de contra-regra e aponta exceções.

Ernst Cassirer desvenda ao problematizar: “A linguagem encerra um sentido oculto a ela própria, que ela somente pode decifrar por conjecturas, através da imagem e da metáfora”.

Mesmo a singularidade pode se tornar refém dos princípios de verdade. Assim destituída de forças para desbravar, pode assumir as mordaças provisoriamente. A palavra sussurrada pela errância dos poetas transcreve os devaneios da vontade aprisionada.

À vertigem cúmplice das transgressões, raramente é permitido esboçar projetos sem alguma forma de solidão. Sua aptidão de prefácio mal compreendido costuma engendrar inseguranças e medos. Assim, essas habilidades encontram na pluralidade da arte, um acolhimento onde as raridades consigam integrar os ânimos conhecidos com as novas idéias.

As dobras e contornos de um tópico de singularidade podem conter essa realidade multifacetada a se perder nas lonjuras de si mesma. Assim as reminiscências apontam algo mais que um porto seguro e já superado. O espanto aprecia desagregar certezas ao oferecer descobertas e invenções na face calma de um dia qualquer.

Quando você se move com o corpo ou se deixa levar pelo curso do pensamento, o mundo inteiro se desloca ao seu redor. Os lugares por onde o espírito transita e se alimenta, possui estoques generosos de não saber. Suas revisitas evidenciam rastros, um pouco antes de ser narrativa.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

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