sábado, 23 de outubro de 2010

O Fim das Certezas

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis – RJ


Heráclito com o devir, Platão com sua dialética, Aristóteles com potência e ato, Kant com os limites da razão, Kierkegaard com a angústia, Husserl com as críticas às certezas das ciências contemporâneas, e tantos outros pensadores, dos quais esses são apenas de caráter ilustrativo, mostram o limite e as incertezas diante da busca de dar um caráter absoluto ao saber humano.

Filosofia é busca pelo saber. O que há de mais comum no universo filosófico é o reconhecimento de que não se está dando a certeza absoluta para suas buscas. Não há frustração por isso. Aqui a humanidade mostra uma de suas realidades mais originais, o reconhecimento da limitação.

Albert Camus postula que diante do mundo, o homem vive o sentimento de absurdo quando reconhece que sua razão não pode abarcá-lo. Heidegger apresenta a angústia diante da limitação humana com a morte, como passo necessário para existir autenticamente. Sartre apresenta a falta de determinação ou destino e a angústia diante da liberdade humana para construir-se.

Nos cadernos de formação em Filosofia Clínica uma das palavras mais comuns é “Não sei!”. E a questão que fica é “Como em um curso o próprio estruturador da área estudada afirma não saber?”, e a resposta é que a Filosofia Clínica é, antes de tudo, Filosofia.

O método é apresentado. O aluno aprende o que são basicamente as categorias, a estrutura de pensamento e os submodos. Mas, como se darão as nuanças do trabalho clínico na prática e como agir diante disso é o que não se sabe.

Quando na academia o conteúdo é passado, é como se a certeza, a sabedoria, ali estivesse presente. Não há espaço para dúvida. Aliás, a certeza tende a se dar pela quantidade de informação decorada para a avaliação.

Como Lúcio denuncia nos cadernos, os originais geralmente não são lidos durante a graduação. O conteúdo é assimilado a partir de comentadores, de manuais de história ou introdução a filosofia. O aluno universitário tende a terminar o curso com uma formação baseada em manuais de filósofos. E, às vezes, acredita que sabe muito sobre o filosofar.

Dizem algumas sabedorias orientais que o melhor da busca não é a chegada, mas o caminho que se faz. O processo do pensamento é o que faz da filosofia um exercício de edificação humana; um caminhar para o reconhecimento do que Nietszchte chama de “humano, demasiadamente humano”.

A Filosofia Clínica vivencia esse processo diante da interseção com o partilhante. Depois de várias consultas a única certeza quanto aos resultados é, previamente: “Não sei!”.
O fim das certezas é o início da investigação filosófica.

A Filosofia Clínica, enquanto filosofia, é o abandono das certezas e o início da busca pela melhor qualidade possível de interseção para uma maior aproximação das questões do partilhante.
Somente aproximando ao máximo da Estrutura de Pensamento do partilhante, é que se torna possível uma ação do filósofo para buscar uma melhor resolução dos conflitos existenciais apresentados.

A limitação em reconhecer todos dos detalhes do partilhante, é completamente normal. Não se aspira a ter uma formula definitiva ou inteiramente eficaz na resolução dos problemas apresentados. Há apenas a finalidade de auxiliar o partilhante, mediante as ferramentas oriundas de 2500 anos de tradição filosófica, da melhor forma possível.

E os resultados obtidos são únicos. Tentar descrevê-los antecipadamente é uma ilusão. O que se sabe previamente a respeito do fim de um acompanhamento clínico, um filósofo clínico poderá claramente informar: Não sei!

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