domingo, 10 de outubro de 2010

O Relógio e o Tempo

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

Para os filósofos há duas formas de medir o tempo. Uma delas foi inventada por homens que amam a precisão dos números: matemáticos, astrônomos, cientistas, técnicos. Foram eles que fabricaram ampulhetas, relógios, cronômetros, calendários. E o deus Cronos.

A outra forma foi inventada por homens que sabem que a vida não pode ser medida com calendário e relógios. Para esses, a vida só pode ser marcada com a vida. No livro bíblico Cântico dos Cânticos os amantes marcavam o tempo do amor pelos frutos maduros que pendiam das árvores.

Quando as folhas dos plátanos ficam amarelas, sabemos que chegou o outono. Os ipês rosas e amarelos anunciam o inverno. Às vezes fico a pensar: qual é a magia que informa os ipês, todos eles, em diferentes lugares, que é hora de perder as folhas e florescer? Aqui entra o deus Cairos.

A precisão dos números marca o tempo das máquinas e do dinheiro. Já nesse outro modo de medir, o tempo do amor se marca com o corpo. Aqui o tempo aparece como um fruto que vai sendo comido: é belo, é colorido, é perfumado. O tempo da vida se marca por alegrias e tristezas. Há inícios e há fins.

Platão nos diz que o tempo é uma imagem móvel da eternidade, sendo também imutável e metafísico. O futuro é uma muleta, construído pelos nossos anseios. Passado, presente e futuro é um eterno movimento. Tudo é somente um! Um instante na mente do supremo.

Há um povo denominado de Tuareg, que vive há milhares de anos no deserto e que mantém preservada sua cultura. Numa visita a Paris feita há algum tempo por um membro daquele povo, foi lhe perguntado sobre a questão do tempo, e este respondeu: “Todos os dias, um pouco antes do pôr-do-sol, a temperatura abaixa, mas ainda não chegou o frio os homens e os animais lentamente voltam para o acampamento e seus perfis são recortados em um céu cor de rosa, azul, amarelo e vermelho, verde... É um momento mágico. Entramos todos para cabana e colocamos o chá para ferver, sentamo-nos em silêncio, a ouvir a ebulição... A calma invade a todos nós, e nosso coração bate no ritmo do ruído da fervura... Que paz!”, lembra o nativo. Que acrescenta: “La eles têm o tempo aqui nós temos o relógio.” E ele continua: “Todos os dias de minha vida meu tempo consistia em procurar água. Quando vejo as fontes ornamentais aqui na França, continuo sentindo por dentro uma dor tão intensa...

“Outra coisa que me chocou aqui na Europa foi ver as pessoas correndo pelos aeroportos. No deserto só se corre quando vem uma tempestade de areia, aqui eles correm apenas para apanhar suas malas”. E pra que correm? Será que as malas vão fugir? Será que estão com pressa pra chegar em casa e ver televisão? Será que estão com pressa pra ganhar mais dinheiro? Por que será?

Heráclito, filósofo grego, era fascinado pelo tempo e pelo rio. Contemplava o rio e via que tudo é rio. Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez, as águas serão outras, o primeiro rio não existirá. Para ele, tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo... Assim é a vida, tempo que flui sem parar. Heráclito foi o que disse que “tempo é criança brincando, jogando; da criança o reinado”.

Para nossos dias, o senso comum diz ser o tempo um velho, cada vez mais velho, sobre quem se acumulam os anos que passam e de que a vida foge. Heráclito, ao contrário, diz que o tempo é criança, início permanente, movimento circular, o fim que volta sempre ao início, fonte de juventude eterna, possibilidade de novo começo.

Se o tempo é criança, como diz Heráclito, e da criança o reinado, faço um deslocamento longo: Lá na minha infância, lembro que nós blasfemávamos contra o tempo, hora quando ele demorava a passar na espera do Natal, hora quando queríamos jogar bola e Deus apagava a luz. Era como nós significávamos aqueles momentos quando o sol se punha. Chronos, o deus dos cronômetros, dos segundos, dos centésimos de segundos, no meu tempo de menino, era nosso pior inimigo. Como no dizer de Ruben Alves: “O relógio é o tempo do dever: corpo engaiolado”.

Essa obsessão por aproveitar produtivamente cada minuto livre vem lá dos imigrantes Calvinistas que construíram os Estados Unidos da América. Antes disso, o tempo era medido por tarefas; quem perguntasse a que horas um cidadão voltaria para casa, ouviria a seguinte resposta: “Assim que ele assentar cinco metros de muro”. Foram os protestantes os principais responsáveis pela inversão de tal lógica. O trabalhar passou a ser uma forma de louvar ao Senhor e o tempo ocioso virou ofensa moral, uma heresia. Assim, o tempo deixou de ser medido por tarefas realizadas; as tarefas é que passaram a ser medidas em tempo. A lógica se inverteu.

É desse período a famosa frase de que “tempo é dinheiro”. A partir das ideias que ela veicula, tornamo-nos escravos dessa crença e inundamos nossas vidas com sequências de compromissos com mínimos intervalos.

Tom Hanks, no início do filme O Náufrago, diz que “nascemos e morremos pelo relógio” depois de sua experiência na ilha ele muda sua visão em relação ao tempo. Será que precisamos de uma experiência tão radical para enxergar o mundo de outra forma? Há um dizer no latim “tempus fugit”, ou seja, o tempo foge. Portanto “carpe diem”, aproveite o dia, ou colha o dia como um fruto que amanhã estará podre. Viver ao ritmo de alegrias e tristezas é ser sábio. No latim “Sapio” quer dizer “eu saboreio”. O sábio é um ”saboreador” da vida. A vida não é para ser medida é para ser saboreada, já nos alertavam os antigos latinos.

Algumas vezes devaneio em meus pensamentos sobre essa correria do mundo moderno e me sinto engaiolado e de alguma forma controlado por uma invenção do homem. Já estamos criando até mecanismo para amadurecer mais rápido algumas frutas, engordar mais rápido os animais para serem rapidamente devorados... O que estamos nos tornando? Onde vamos parar?

Finalizo com Mário Quintana quando disse nos altos dos seus quase 80 anos que “se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio”. Ele afirma que “seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas. Ele finaliza: “Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo, pois a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.”

Nesse momento, isso é assim para mim.

Estamos juntos!

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