terça-feira, 26 de outubro de 2010

Poetando com Mário Quintana

Márcio José de Andrade
Filósofo Clínico
Campinas/SP


Parafraseando Brecht, há pessoas que passam pelas nossas vidas e são boas, outras são muito boas e outras melhores ainda, mas há inesquecíveis pessoas, tanto que estas não passam, ficam. Assim foi com Mário Quintana.

Já conhecia o poeta de uma publicação feita pelo governo gaúcho, mas não havia ele me despertado o interesse por sua escrita, não naquele momento. Tempos depois, já desperto, recebi uma poesia dele, sobre o amor ter que se dito de forma silenciosa, quase imperceptível...

Fazendo jus ao título do poema, ele me chegou em forma de bilhete, talvez fosse um alerta, ou uma ameaça: “não falo que amo, mas quero que me ames” ou um simples despertar para o outro, neste caso a outra. Que para o azar de quem me presenteava, só hoje, quando escrevo essas palavras é que percebo seu intento, e nessa brincadeira lá se vão uns 15 anos...

BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

E para o azar da moça, que me presenteava, não se restringir só ao tardio percepcionar de intenções, interpretei, erroneamente, que não deveria falar era do amor que vivenciava - e que de certa forma era um amor para ser vivenciado no silêncio dos amantes...

Enquanto isso o poema do Quintana ficava a martelar minha cabeça, não podia amar Claudinha em silêncio! Não queria amar em silêncio! Apesar de minha amada assim querer... O que fazer? Fiz então um poema-resposta ao Mário, que mais do que resposta era uma declaração de amor, bem, pelo menos eu ainda acho que seja, pois não seriam todos os poemas declarações de amor? Nem que no mínimo à escrita?

Uma interseção entre o sentimento e o gesto, e mais, uma forma de materializar esta emoção que busca, através das palavras, se fazer entender?
E pus-me a escrever e declamar

Mar e Rio QuintanaS
Não, não me contento com todos os telhados do mundo
- são tão pequenos -
Muito menos creio incomodar os passarinhos
O amor não cabe em um pingente.

Quero falar aos quatro cantos,
Gritar para todos,
Tudo, expressar

Traduzir minha loucura em alto e bom som

E aí sim, depois,
Meu mar serenado,
Vendo ser a vida breve,
E o amor mais breve ainda,
Viverei intensamente.

E assim vivemos. Alguns passaram, Mário passarinho. E lá se vão cem anos...

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