domingo, 17 de outubro de 2010

Ser Filósofo Clínico*

"Então me senti como um observador dos céus. Quando um novo planeta desliza para o seu campo de vista; ou como o resoluto Cortês, quando com olhos de águia, contemplou o Pacífico e todos os seus homens entreolharam-se com um alucinado presságio (...)."
John Keats


O exercício clínico do Filósofo acontece em contextos de imprecisão e descoberta. Inexistem fórmulas prontas, verdades, aconselhamentos, receitas, testes ou orientações pré-determinadas. As dinâmicas de acolhimento e atenção com a vida desdobram-se no mundo como representação da pessoa. Um processo inicial de abertura anuncia a terapia. Ponto de encontro aos desdobramentos do papel existencial cuidador.

A fundamentação teórica é conseqüência aproximada de 2.500 anos de Filosofia. A fundamentação prática descortina-se nos eventos de consultório. Propor uma leitura direta dos clássicos e tentar encontrar ali Filosofia Clínica, pode ser tarefa árdua. Esse trabalho foi feito por outro médico-pensador: Lúcio Packter.

Sua trajetória existencial: idéias, pensamentos, estudos e pesquisas constituem um pré-requisito para saber mais sobre o tema. Seu aparato metodológico situa-se na pós-modernidade da história das terapias.

Talvez a questão de maior destaque sobre a natureza dos atendimentos diga respeito ao que faz de um terapeuta um bom terapeuta. Chama atenção um ingrediente, considerado como defeito por outras abordagens: as carências e fragilidades do clínico. No referencial metodológico da Filosofia Clínica, esse componente pode ser aliado imprescindível ao ser cuidador!

No exercício do papel existencial, esse aspecto, quando bem elaborado, vincula-se poderosamente a uma excepcional manifestação de humanidade. Aptidão que anuncia a natureza das interseções e costuma acompanhar a pessoa bem depois da alta compartilhada. Pode significar força e dedicação incomuns à pluralidade do fenômeno humano.

Algo mais se oferece em nomenclaturas desse papel existencial: acessar intencionalidades entremeios de narrativa, reconhecer o endereço, a forma e o tempo próprio pelo qual as problemáticas se estruturam e identificar venenos e antídotos na generosa farmácia das subjetividades, integra a magia do ser Filósofo Clínico.

Na expressividade do consultório, é possível descobrir nomes, versões e signos aptos à tradução compartilhada desses inéditos. Descortina-se em território próprio ao revisitar o velho álbum das suas recordações.

As considerações narrativas atualizam imagens que pareciam perdidas no tempo. Os refúgios entremeios da linguagem podem desvendar a farmácia onde os remédios se encontram. Há de se reescrever mapas e reconhecer divisas, tratados e limites territoriais da estrutura de pensamento.

A terapia como inspiração, acolhe, tenta qualificar interseção e busca entender os tropeços iniciais, para antever escutas e vislumbrar sons de raridade inadequados às palavras. Em cada pessoa, uma obra aberta persegue-se na impermanência das crises. Dialetos de aparência estrangeira denunciam a realidade contaminada pela fugaz poesia dos delírios.

Os roteiros e significados possuem uma forma peculiar de se dizer. Conversação entrevista na interseção do sujeito com seu cotidiano. Ser Filósofo Clínico é compartilhar silêncios e ressonâncias, sem descuidar das perspectivas do outro. A plasticidade e um planejamento dinâmico (que pode incluir um não-planejamento) referem-se aos instantes onde o terapeuta tenha de refazer, objetivamente, aquilo para o qual estava preparado.

Quando o estudante consegue integrar, de maneira eficaz, sua historicidade e vivências aos estudos, a formação poderá ter um alcance maior. Transitar e dialogar com a estrutura das surpresas, fazer e refazer percursos, acrescentar percepções e não desmerecer intuições, bem assim investigar sua própria estrutura enquanto acolhe e transita por mundos alheios, constitui fatos determinantes a preparação desse médico de almas.

Encontrar um refúgio capaz de devolver o Filósofo Clínico ao seu eixo estrutural é imprescindível. Acostumar-se ao espírito aprendiz, num referencial de obra aberta para acolher o outro, suas dúvidas e contradições, no esboço descontinuado para decifrar sua linguagem.

O gerenciamento das atitudes de não-expectativa antes, durante e depois das sessões pode conceder eficácia à investigação preliminar, antes das intervenções mais adequadas à singularidade.

Percorrer em reciprocidade os recantos da subjetividade partilhante, identificando sensações e percepções pode significar uma leitura mais apropriada para compreender suas verdades. A investigação reflexiva na prática clínica descobre a vida para além da trama bem arrumada dos conceitos.

Nos ensaios desconstrutivos do consultório, uma pluralidade de hipóteses, experimentações, simulacros e outros roteiros, desdobram-se na continuidade de um compartilhar. Para bem depois das queixas iniciais, o Filósofo Clínico trabalha para qualificar a circunstância narrativa, por onde os registros históricos se atualizam e ganham sentido na versão muito íntima das singularidades. Contradição com o enredo bem guardado a sugerir outras vivências, no devir imprevisível das vontades.

A interseção entre os integrantes dessa realidade pode inventar conexões de apoio aos ensaios de vida nova. Sob muitos aspectos, o exercício da clínica revela-se como um poderoso aliado aos sonhos por transformar o mundo.

Outro dia escutava um colega dizer: "ser terapeuta em tempos de fartura e bonança é fácil, quero ver quem realmente consegue utilizar o que aprendeu em tempos difíceis". O papel existencial cuidador aparece vinculado às caóticas e decadentes crises das pessoas.

Um aspecto importante, após decifrar a trama conceitual contida na fundamentação teórica e qualificar a fundamentação prática, é buscar diálogos entre as vivências de aprendiz e o quanto essas convivências podem melhorar o estilo do ser terapeuta. Bem assim, não descartar as quedas e tropeços existenciais nos quais se pode encontrar um ponto de apoio à formação continuada.

Uma boa interseção, as descobertas, os riscos e concepções pessoais possuem papel significativo na estrutura dos atendimentos. O terapeuta vai se acostumando a interagir com as adversidades, quase ao mesmo tempo de seus exercícios em território próprio. Com maior intimidade e domínio dos procedimentos adequados à subjetividade em atendimento, é possível descobrir o alcance da medicação.

A etapa desestruturante para autonomia da pessoa aprecia a sedução desses imensos horizontes de incógnita. Até o tempo resignifica sua condição, entremeios de incertezas e dúvidas. Na fala viva dessa incompletude, um referencial de tipo novo supera as anteriores versões. Insinuação para além do texto bem arrumado dos compêndios.

Secretas vontades interagem com pretextos de re-significação. Interseção onde o humano experimenta-se na provisoriedade dos novos papéis. Assim, a clínica se faz laboratório aos experimentos de múltiplas faces.

Talvez uma pergunta sem resposta possa marcar o início sem-fim dessas explorações compartilhadas. Conexão com a natureza difusa das subjetividades. A recuperação da expressividade interdita pelos diagnósticos, se oferece entrelinhas nos espaços de aparente vazio. Aprecia o disfarce de inexistência no refúgio sagrado das abstrações.

Nessas idas e vindas das sessões, o terapeuta oferece partes importantes de si na relação com o outro-partilhante. Ingrediente imprescindível à qualificação dos atendimentos. Assim, também ele pode sentir necessidade de refugiar-se para atualizar sua estrutura.

Estéticas da alteridade relacionam-se com a (quase) indescritível beleza da expressividade dessa metodologia. Ressonância dos encontros para bem depois das altas compartilhadas. Escutas, olhares e intuições desdobram-se na inconclusão das certezas.

No entanto, de qualquer coisa assim, avistam-se territórios de absurdo casual. Acolhida sem julgar ou classificar para essas impossibilidades do contar, também ele a dizer coisas sobre esse outro que o legitima.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico. Professor em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Coordena a Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG, Secretaria Municipal de Saúde Mental e ONG HI-VITA em São João del Rei/MG. Diretor do Instituto Packter em Porto Alegre/RS.

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