quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Uma questão de nome

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Velho. Ultimamente tornou-se feio em muitos lugares dizermos “velho”. Dizer velho, não se diz mais em muitos lugares. Velho é muito antigo, é coisa que está no fim. Velho lembra Idade Média, Chevette, enceradeira, escadaria, tudo velho. Velho é errado dizer.

Porque velho lembra que é velho. Nos aeroportos eles pedem que passem à frente as mulheres com as crianças e os passageiros da “melhor idade”. Melhor Idade não é velho, melhor idade é alguém que está no mundo há mais tempo e que agora usufrui bons restaurantes, livraria Cultura, ponte aérea, gente que já viveu o suficiente para se aposentar e que está na melhor idade agora.

Socialmente, quando de vez em quando trocamos um termo gasto e incômodo por outro adequado a uma renovação qualquer, um dos elementos que podem acompanhar é exatamente a impressão de que o conteúdo também se modificou de alguma forma.

Portador de Deficiência Especial é diferente de ser cego. Cego não vê, em geral usa bengala e labrador, cego é menos do que alguém que seja Portador de Deficiência Especial. Quem é Portador de Deficiência Especial é chique, parece rico, culto, estudou braile, libra, já esteve na Europa para um congresso sobre o assunto. Cego é quem usa óculos escuros e a gente ajuda a atravessar a rua.

Você notou que as empregadas domésticas desapareceram? Agora quem trabalha lavando roupa, limpando o banheiro, lavando as calçadas e eventualmente fazendo a comida é a secretária. “Vou ligar para a minha secretária” – diz minha aluna da pós-graduação e em seguida aciona pelo celular a empregada doméstica que se identifica como a secretária.

Provavelmente, diante desta invasão de nomenclatura, em breve as secretárias serão outra coisa. Talvez assessoras, promotoras de serviços internos, administradoras adjuntas, mas não serão mais secretárias.

Para algumas pessoas o nome é tão importante que aceitam uma função onde ganhem menos, trabalhem um pouco mais, desde que a placa anuncie grande para ver: gerente de assuntos da presidência. O sujeito foi rebaixado a um serviço de protocolos em papelaria, um arquivista da presidência, mas quem é que vai dizer que um gerente de assuntos da presidência faz isso?

Quando alguém se apresenta em uma festinha reservada como Gerente de Assuntos da Presidência da Klabin esta informação será provável e freqüentemente levada em boa conta: o sujeito é alguém nesta vida. Tem uma sala somente dele na Klabin, um carro da companhia, passagens para o Caribe uma vez ao ano, bonificações de final de ano. É alguém.

O nome às vezes diz tanto que a pessoa nem precisa vir, basta mandar o nome, umas flores, um cartão, a combinação em bordô, um mensageiro que saiba soletrar direitinho. Uma sociedade na qual os papéis de presente são importantes, não é raro que o conteúdo seja periférico em muitos casos.

Lembro que Jean Baudrillard, filósofo morto recente, escreveu um livro chamado América. Um livrinho breve, escrito em uma semana ou duas; ele escreveu: “na falta de um sorriso sincero, os americanos têm excelentes dentes”.

No Brasil estas semelhanças podem ser muitas. Na falta de uma boa pele, creme; na falta de conhecimentos, títulos; na ausência de amor, sexo; na falta de educação, autoridade; ao invés de sinceridade, educação; no lugar de fraternidade, regras... e assim indefinidamente sempre.

Este texto pode parecer uma crítica aos nomes, e se for somente isso é uma bobagem. Porque muitas vezes o nome é a própria essência, é tudo o que temos, o naco que restou, a esperança, também a própria fundamentação. No conteúdo, às vezes, está o nome.

As aparências podem ser tão recomendáveis como as essências. Neste sentido, um campo de papoulas de Monet que se pendurou na parede é o jardim que não aconteceu naquele apartamento de quarto e sala; a palavra amor é o passaporte para o carinho; e um sofá comprado em promoção parece neoclássico colocado junto daquele tapete cafona.

Não creio que devemos desfazer do nome. O nome é às vezes só o que existe e às vezes somente o que se precisa mesmo é o nome.

Que ninguém datilografe mais, e que se tecle; que as aeromoças tenham a dignidade das comissárias de bordo; que os bêbados sejam dependentes químicos.

Mudemos os nomes que nos incomodam: controladores de vôo serão a partir de julho cuidadores de movimentos aeroportuários; funcionário público será assistente governamental; ascensoristas serão ascensoristas porque poucos saberão a diferença; e o resto, fica no espaço da pesquisa.

A maior fonte de nomes no momento não é a enciclopédia virtual, é a Polícia Federal. Que tal uns nomes filosóficos para algumas operações? Logos, para uma limpeza na indústria do ensino; Patos, para a área da saúde; Axioma, para o pessoal do segundo escalão etc.

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