terça-feira, 30 de novembro de 2010

Como se chama aquela coisa que se usa na orelha, tem uma fumacinha, e sempre se coloca do avesso?

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Amortagem é o amor magoado porque a moça realizou um aborto. Felirrapagem é a felicidade que escapou mediante uma derrapagem. Calosso é uma impressão de pressão nos ossos, seguida de dor, acompanhada frequentemente de calor.

Se você procurar no Aurélio por amortagem, felirrapagem, calosso, não vai encontrar.Amortagem, por exemplo, ficaria entre amor-próprio e amortalhar, caso existisse.

Mas também não encontraria Nepoti, que é uma caneca com café morno. Papaimãe você sabe o que é? Esta é aparentemente simples, ainda que leve a enganos, e é como uma menina de 16 anos chama por sua mãe.

Acidentes vasculares, traumatismos cranianos, problemas existenciais graves podem ter como características em comum a necessidade de novos termos, por vários motivos: a pessoa pode ter apagado como se diz algo, uma nova vivência pode não encontrar em nossa biblioteca de vocábulos algo pelo qual possa se expressar, a inadequação dos termos e muitas outras razões.

Um dos caminhos que a Filosofia Clínica propõe para isso é a construção, quase sempre por aproximação, de neologismos. Para um oceano de coisas que vivemos as palavras podem ser pobres e acabam arruinando imagens e sons que procuram traduzir.

O homem tem 63 anos, teve um acidente vascular, não lembra como se diz “copo”. Uma opção é pedir a ele para falar o que lhe vier à mente e que pareça ter alguma relação com o que deseja manifestar. Exemplos: opo, zopo, titioto, po, poço. Isso causará problemas adicionais?

Às vezes, sim, mas geralmente traz mais benefícios e dá seguimento a condições antes impedidas de ocorrência. É provável que o stress do esforço de tentar algo e de se frustrar na tentativa encontre nos neologismos um modo confortável; longe do modo usual dos acontecimentos, porém uma alternativa funcional em muitos e muitos casos.

O alcance deste procedimento vai além de casos relacionados a palavras esquecidas ou de termos que desconhecemos e dos quais necessitamos. No consultório podemos utilizar esta ferramenta para experiências de outras naturezas. Exemplo: em um sábado à noite a garota está sozinha em casa, não quer sair e não quer receber pessoas, e também não deseja ficar sozinha... Não encontra uma vivência que resolva este conflito – que para ela é um paradoxo.

O que ela pode fazer? Bem, se ela estudou o tópico Significado, elemento importante no estudo da Filosofia Clínica, pode considerar se não seria o caso de se utilizar dos neologismos existenciais. Ou seja, construir, por aproximação, uma vivência que represente o que se passa, que dê passagem à experiência a ser vivida, ainda que não tenha a ver com o caminho habitual pelo qual as experiências se passam.

Ela então mistura estes elementos e decide tomar um café com biscoitos amanteigados diante do computador conversando calmamente com sua amiga Flávia que mora há seis meses na Suécia. Eis o neologismo existencial que ela encontrou. Não é o que ela procurava, assim como o homem que pedia um “opo” querendo um copo também.

Não pense que em caso de uso de neologismos existenciais a pessoa terá menos, parte do que precisava, uma distorção, uma manobra cuja resultante é um paliativo qualquer. Tenho uma pequena coleção de relatos em consultório de pessoas que obtiveram tanto com estes procedimentos que passaram a utilizar com certa frequência seus neologismos.

Há ainda neologismos complexos, nos quais palavras, como estas que ilustrei, podem se transformar em frases inteiras, em parágrafos, capítulos de uma vida, desde a gramática até períodos de vida.

Um filósofo clínico utiliza estes elementos em consultório após o minucioso estudo da historicidade da pessoa, de sua Estrutura do Pensamento, pois temos casos nos quais é desaconselhável determinados processos clínicos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A vida é um jogo de dados.

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

Na estrutura de pensamento o primeiro tópico é “Como o mundo me parece”.

Não se trata de primeiro por ordem de importância, é apenas uma numeração aleatória, e sua importância é encontrada na exposição do partilhante. Trata-se da descrição fenomenológica do mundo como parece para a pessoa. O que acha e pensa a respeito do mundo que a cerca.

Início da conversa com alguém de lugar qualquer...

A vida é para mim como um jogo de dados. Não há um Deus que me ajuda ou me puna por qualquer coisa que faça ou pense. Muito menos um que me ame. Pois quem ama participa.

Se eu me machuco, não digo que foi Deus quem permitiu para que eu tire um aprendizado maior, ou que está me punindo. Apenas trato de me curar e continuo a vida. Se eu me dou bem em algo, não acredito que foi Deus quem me beneficiou. Muitas pessoas no mundo invocam Deus e continuam sofrendo. Pessoas que precisam muito mais de atenção do que eu.

Tanto as coisas boas ou ruins eu as tomo como parte da vida.

O jogo de dados da vida, não é tão simples como um dado comum. O dado da vida tem mais de seis lados. A vida se multiplica em milhares de possibilidades.

Cada vez que se toma uma decisão, tudo pode acontecer. E o dado da vida não tem como o número mínimo o um. Além do um ele tem, na verdade o zero, quando tudo fica na mesma, e o menos um, que equivale à perda. Este acontece muitas vezes, inevitavelmente.

Pensar que Deus mandou ou permitiu uma situação ruim ou boa e tirar desse fato algo positivo ou algum ensinamento é um modo de agir. Eu ajo aprendendo, sem atribuir nada a Ele.

Se existe, Deus não passa de um Motor Imóvel aristotélico ou o acionador do Big Bang. Tudo o que passa disso é especulação.

Para cada pessoa há uma experiência de Deus, uma definição do que seja essa entidade superior. No entanto, ele não influi em nada. O sol nasce para todos, assim como a chuva. A vida é um jogo de dados, no qual tudo pode acontecer. E mesmo assim há quem atribua a vitória à sorte, e a perda ao azar. Como são ingênuas as pessoas. Não passam de buscadoras de interpretação consoladora.

Diante da vida a melhor coisa é não atribuir nada a Deus. Diante das expectativas, a esperança costuma decepcionar. Mas quem atribui tudo a Deus, sempre quer dar outra explicação para não dar o braço a torcer e aceitar que sua esperança foi em vão. Mas, foi em vão sim.

A melhor atitude na vida é jogar o dado sem esperar por nada. Se vier algo bom, comemoramos. Se os resultados não forem animadores, como não esperávamos por nada, recomeçamos e partimos para outra. A vida é assim. É assim para mim.

Aqui termina uma conversa com alguém de lugar qualquer...

domingo, 28 de novembro de 2010

A diferença em se saber que nada dura para sempre.


Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Tudo que é bom tem sua duração exata,
Tem de se acabar no prazo certo
Se quisermos que perdure para sempre.

Jorge Amado



Houve um tempo em que a cristalização do pensamento engessava as convivências sociais. O reflexo desse comportamento aparecia, muitas vezes, na forma de traição, somatização, profissionais frustrados, vidas monótonas, hipocrisias.

As revoluções ao longo da história trouxeram mais que desenvolvimento tecnológico e novos mercados. Algumas sociedades, com seus princípios de verdade voltados para uma crença de início, meio e fim perderam sua força.

O que parecia ser indissolúvel, rígido e permanente, se mostrou frágil e propenso a mudanças. O para sempre perdeu o sentido num mundo mutante.

Ganhou-se a liberdade de transitar em aquários existenciais próprios ou alheios. Descobrir mais sobre cada um e os outros. Perceber que o fim pode ser o ensaio de um início, e o meio o tempo de experimentações.

As crises pessoais vivenciadas nessa trajetória se oferecem como um guia para possíveis autogenias favorecendo o potencial criador do sujeito envolvido nesse processo. A clínica de qualidade, nestes casos, pode ser uma aliada importante. Significar qualidade de vida.

A suposta falta de resposta pode motivar a estrutura a se reinventar. Criar, descobrir submodos, principalmente na companhia de seu terapeuta. Momentos únicos de encontros e reencontros consigo mesmo.

A culpa perdeu sua força para as possibilidades. É tranqüilizante perceber que as lágrimas de hoje não serão de desespero por se ouvir a mesma canção, mas pelas experiências dos novos ritmos.

A saída desse labirinto pode sinalizar um caminho distante ou mesmo oposto ao passado que ficou. Valores, pré juízos e convívios podem ficar para trás. A reinvenção das buscas pode surgir.

O que se pensa a seu respeito pode se tornar um trampolim impulsionando papeis existenciais e uma nova concepção de mundo. Buscar uma interseção melhor em uma vida mais expressiva, mais próxima de cada um.

As alegrias também passam. Nenhum estado de espírito é constante. A descoberta do valor e o significado desses momentos fortificam e podem determinar os ritmos e a direção da caminhada.

Mesmo as interseções consideradas inabaláveis mudam. Fortificam-se pelas convivências. Enfraquecem ou rompem onde não mais fazem sentido. Reinventam-se pela força que as une.

Nada dura para sempre. Nem as amarras, nem as alegrias, nem as tristezas. Respeitando o tempo subjetivo o roteiro redigido ao longo do caminho pode ser submetido a rasuras, troca de parágrafos, inclusão de novas idéias contribuindo para um final inesperado.

sábado, 27 de novembro de 2010

Como dizia Roberto Carlos, São tantas emoções...


Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Emoção e sentimento não são sinônimos. Pelo contrário, são processos muito diferentes. O que sentiu ao ver seu filho dar os primeiros passos? Qual foi a emoção? Talvez seja difícil exprimir em palavras.

Emoção pode ser definida como um impulso nervoso que provoca um conjunto de reações psico-fisiológicas. Chorar, tremer, transpirar, vomitar, corar, fugir, sorrir, gritar, desmaiar, coração disparar... Independem da vontade, geralmente são de curta duração e muita intensidade, sendo difícil de esconder, pois apresentam manifestações externas e públicas. Podem jorrar a qualquer momento, sofrendo grande influência dos instintos e da não racionalidade.

Sentimento já é algo mais elaborado; envolve racionalização, livre-arbítrio, espiritualidade, bom senso. É a reação que não entendemos (emoção), sendo integrada ao nosso ser. Uma emoção madura. Diferente das emoções, sentimentos são privados; os outros só ficam sabendo se existir o desejo de partilhá-los. Amor, paz, alegria, medo, tristeza, esperança, orgulho...

Imagine o corpo humano envolvido por uma membrana impermeável. Somente palavras e emoções poderiam penetrar em seu interior e ali sofreriam transformações.

A emoção/palavra que conseguir penetrar no interior do corpo e ser integrada, ou no mínimo percebida e interpretada, transforma-se em sentimento. A emoção que penetrar e não for sentida, será apenas uma emoção, e deixará como lembrança a dramatização ocorrida do lado de fora.

A palavra que não for sentida pode ser intelectualizada sob a forma de pensamento ou também ficar diluída, pelo menos a nível consciente. Assim, teríamos no interior do corpo pensamentos e sentimentos, e do lado de fora, emoções e palavras.

Há um incontável número de coisas que acontecem e são confundidas ora com sentimento, ora com emoção e ora com palavras. Pessoas que não conseguem demonstrar emoções podem ser acusadas de ausência de sentimentos e pessoas muito emotivas podem ser interpretadas como sensíveis. Isto nem sempre é verdadeiro, pode causar constrangimentos afetivos, guerras e até mesmo separações.

O que realmente expressamos para nós mesmos e para o mundo? Emoções? Sentimentos? Palavras?

Comecemos pelas palavras. Por melhor que seja a intenção, dizer não é o mesmo que sentir. Ao dizer, altera-se o que se sente. Só o estar sofrendo diz o que é sofrer. Além disto, com palavras pode-se mentir, dissimular...

Emoções podem demonstrar sentimentos, mas como saber se aquelas lágrimas são a via de saída de um sentimento ou apenas o processo de entrada para o interior do corpo?

Nem sempre sentimos o que queríamos sentir ou o que os outros esperavam que sentíssemos. Agarramo-nos então a padrões sentimentais pré-estabelecidos (despedida-choro, falecimento-tristeza) que nos deixam confusos, isolados, sem palavras ou emoções, e às vezes, alienados da realidade.

Como as emoções, sentimentos também fogem de nosso controle, com a diferença de que não são fugazes, ficam no interior de nossos corpos remoendo, marcando, lembrando.

Amor é sentimento; paixão é emoção. Na paixão estamos presos, somos ruidosos, ansiosos, ciumentos, febris, egoístas, inseguros. O amor liberta, desprende, traz paz. Ao contrário do que muitos pensam, amor não mata; a paixão é que pode matar.

Alegria é um sentimento, euforia e gargalhadas são emoções. Medo é um sentimento, pânico e desespero são emoções. Raiva é um sentimento, ódio é uma emoção.

Emoções são instintivas. Palavras podem ser racionais demais. Sentimentos podem ser o ponto de equilíbrio.

Palavras não controlam desequilíbrio emocional, não funcionam na irracionalidade. Sentimentos têm esta força. Amparam, acodem e podem até transformar mágoa em alegria, pavor em coragem e ódio em amor.

No clamor das emoções e das palavras se fazem as guerras, no discernimento dos sentimentos é que se busca a paz.

Como encontrar e acessar os sentimentos? Fácil! Estão no mesmo lugar desde que nascemos. Sentimentos são internos. Estão lá dentro de nossos corpos, esperando para crescer e amadurecer.

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
entre a verdadeira e a errada

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar

Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Agradecer e agir

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Quando olhamos para a realidade do mundo, a realidade da maioria, ficamos perplexos. Assustados com tamanho desamor. Com a imensa pobreza, A desigualdade. A exploração. O preconceito. O desrespeito. Mil transgressões.

A realidade tem seu bem e seu mal. Dialética da vida. Dialética desigual. Pendendo para o mal. Pessimismo? Ou análise racional? Basta-nos ver as pirâmides estatísticas. A verdadeira realidade se apresenta sem disfarce. Está ai para quem não quer fugir e se alienar.

Temos também muito o que agradecer. A beleza e riqueza natural. A inteligência humana. O desenvolvimento tecnológico. A arte e a poesia. O amor e a compaixão. O milagre do agora viver. A amizade se ter.

O problema dos acomodados tem um nome: Zona de Conforto. Conforto que cega e nos torna impotentes. Acomodação passiva. O resto é que se dane. Egoísmo. Desinteresse. Sei lá que nome dar ao desamor. Mais fácil sentar e assistir pela TV. E o mundo que se exploda!

Ser saudosista e romanticamente lembrar do “meu bom tempo” pode consolar por instantes. Tornar-se intelectual ou político sofista poderá dar lucros. Como papagaios podemos tagarelar... Imitar... E achar que tudo poderá mudar. Será? Belas teorias que não saem do papel, dos jornais e dos livros. Conhecimento não vivido, não poderá ser conhecimento perdido?

Encarar a realidade. Agir em prol coletivo. Trabalhar com determinação por um mundo mais sustentável. Compreender o presente como ele é. Enfrentar a existência de frente, poderá parecer uma difícil tarefa. Mas é possível. Possível e necessário.

Agradecer o bem e agir contra o mal. Sair da Zona de Conforto e enfrentar os desafios solidariamente. Sair do romantismo frustrante e encarar a realidade. Tudo com poesia e ternura de quem se faz consciente e pertencente. Respeitando a singularidade na ação e no viver.

Não dá para fingir que ao lado de belos condomínios, crianças comem as sobras do lixo. Que a educação serve ao sistema dominante e elitista se esquecendo da maioria. Que os presídios estão cheios de humanos criados pelo nosso descaso. Que o planeta morre pelo descuido dos inteligentes terráqueos descompromissados com a vida. Não dá para fingir e fugir.

Fácil cruzar os braços diante a miséria, a drogadição, a corrupção, a alienação, a miséria, a destruição, as guerras... Fácil achar que não tem nada com a gente, que é coisa distante de nós. Fácil não se envolver ou ficar sobre os muros. Fácil apenas criticar e imaginar soluções nas mesas de bares.

Agir. Estar junto. Participar. Cooperar. Sair da Zona de Conforto. Solidarizar. Criar reflexão na própria casa sobre as questões emergentes. Trabalhar a si mesmo na conscientização do porque estar na alienação e no ter preguiça de agir no mundo.

Não queremos ser Madre Tereza de Calcutá, nem Gandhi, mas podemos a nossa volta agir. Cada um a seu modo. Nas coisas simples do dia a dia. Não silenciando diante os abusos e injustiças. Sendo criativos e participativos.

Há muito o que agradecer. Mas muito o que agir. Ou saímos da Zona de Conforto ou continuamos fingindo que estamos a viver. Somos livres.

Mas que liberdade é essa que visa só o próprio umbigo. Bom lembrar que tudo que temos tem um operário trabalhando. Tudo traz o suor de muitos.

Essa reflexão pode não ser muito agradável. Preferimos as belas palavras. Palavras sedutoras. Urge se pensar e agir na vida. Ou não seremos Humanos por inteiro.
Queridos leitores:

Começa hoje em Nova Veneza/SC, o IX Encontro sul brasileiro de Filosofia Clínica.

Uma promoção do Instituto sul catarinense de Filosofia Clínica, com sede em Criciúma/SC.

O convite oficial e a programação completa pode ser acessada em: www.filosofiaclinicasc.com.br

Coordenação.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Limitação e possibilidade

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

"Com as grandes obras, os sentimentos profundos significam sempre mais do que têm consciência de dizer." (Albert Camus)

Não se trata de inconsciente. O assunto aqui é o reconhecimento da limitação humana. Camus postula que o mundo é um absurdo. Este se dá com a incompatibilidade da razão em querer compreender a ordem e o todo do mundo, com o mundo e sua impossibilidade de ser completamente abarcado pela razão.

Um filósofo clínico compartilha da limitação com que o filósofo do absurdo postula. Mas, essa concordância é referente à pessoa humana. Dado que esta não pode ser totalmente abarcada pela razão.

O partilhante é um mundo a ser desvelado. Não mais em sua totalidade, mas no que for possível para auxiliá-la em sua existência.

Há ausência de verdade absoluta, talvez uma das afirmativas mais polêmicas da Filosofia Clínica. Há representação singular do mundo, mesmo que à primeira vista tente-se buscar um ponto de vista no âmbito coletivo.

Ir fundo no que o partilhante tem a dizer é um caminho árduo. Permitir-se deixar, mesmo que temporariamente, as próprias representações com seus devidos valores, é um esforço que precisa de muita prática. A proposta da clínica filosófica é encontrar existencialmente o outro e buscar auxiliá-lo em seus conflitos.

No entanto, não somente nas grandes obras, mas, também, na individualidade as diversas formas de expressão “significam sempre mais do que têm consciência de dizer”. O próprio partilhante busca ajuda por não estar ciente de sua estrutura de pensamento e de seus respectivos conflitos.

O filósofo clínico, tal como um leitor dos grandes clássicos, deve aprender a observar nas entrelinhas do que é expresso. Ler a integralidade do que está exposto. Em seguida, buscar o dito no não dito. Enraizar em pontos não explorados. Encontrar conflitos apresentados no assunto imediato, no assunto último.

Deve saber, portanto, que o apresentado pelo partilhante é sempre maior. Igualmente é sua vivência. Mas, ao apreender o máximo possível do partilhante, o filósofo adquire a possibilidade de compreender sua linguagem. E, ao compreendê-la, falar a sua língua, busca expressar algo próximo de sua representação de mundo.

Reconhecendo a limitação de se chegar ao universo existencial do outro, o filósofo clínico pode trabalhar na possibilidade do que lhe é oferecido na partilha.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Além do contexto

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Como dizer o que minha boca cala!
Um caminho entre flores imagino
Olhos a triscar horizontes
Um riacho ao longe canta entre pedras
Lágrimas secas em mais um sol poente

Uma estrela aparece, iluminando uma grinalda de hera
Sobre tua cabeça paira a alegria dos bons dias
Em teus sonhos brincas
Fantasias inexatas da paixão pela vida

Seja entre saltos de amarelinha
Livre a correr pelos campos
Deixe se levar ao acaso
In-certeza de encontros

Um lume faísca em teu sono tranqüilo
Teu coração bate lá e cá
Uma borboleta pousa em tua janela
Desperta o sol te traz mais um dia!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A FILOSOFIA CLÍNICA PARA NÃO-FILÓSOFOS CLÍNICOS*

Gustavo Bertoche
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ


O que é a Filosofia Clínica?

A resposta geralmente adotada pelos filósofos clínicos é: “a Filosofia Clínica é a filosofia acadêmica aplicada à terapia”.

Esta resposta é boa. E não é.

É uma boa resposta porque é exatamente isso que a Filosofia Clínica faz: aplica a filosofia da tradição ocidental, a filosofia acadêmica, à terapia.

Por outro lado, é uma resposta abrangente demais. Afinal, o conjunto da “filosofia acadêmica” tem uma quantidade muito grande de elementos, que podem ser tão diferentes entre si quanto podem ser diferentes variadas espécies de, digamos, frutas.

Por essa razão, a afirmação de que “a Filosofia Clínica é a filosofia acadêmica aplicada à terapia” é inútil. Aos olhos do leigo – e mesmo de muitos estudiosos – a filosofia é um emaranhado de teorias contraditórias, quando não bizarras; parece que qualquer coisa pode ser filosofia, e que filosofia pode ser qualquer coisa.

Mas isso não é verdade. A filosofia tem um fio condutor muito claro. Para explicar isso, vou fazer uma analogia com as frutas.

Há frutas de todos os tipos: mais doces, mais azedas, até mais amargas. Há frutas grandes, pequenas, suculentas, mais secas. Há frutas com casca grossa e fina, com sementes enormes ou minúsculas.

Todas as frutas têm, todavia, algo em comum: são os recipientes nutritivos das sementes usados pelas espécies para atrair os animais, que os levam para longe – o que faz com que suas sementes sejam espalhadas pelo mundo.

Por isso, não há frutas sem sementes. Se não tiver semente, não cumpre a função de fazer nascer um novo pé de fruta, e não pode ter nascido, visto que um exemplar de uma espécie frutífera necessariamente foi uma semente dentro de uma fruta antes de nascer como planta.

Do mesmo modo que as frutas, há filosofias de todos os tipos.

E como o conjunto das frutas pode ser definido por ter sementes, o que remete à finalidade de fazer nascer novos exemplares da espécie, da mesma forma o conjunto da filosofia pode ser definido pelo seu método e pela sua finalidade.

O método da filosofia é racional argumentativo. A filosofia ocidental, que é a filosofia acadêmica, nasce com a especificidade de exigir de seus participantes a concordância com regras racionais de argumentação, para que todos os indivíduos racionais, que concordam com as mesmas regras, possam acompanhar a argumentação e contribuir para que se possa chegar mais próximo ao objetivo.

Mas qual o objetivo da argumentação na filosofia? Qual a finalidade última de toda a discussão entre os filósofos?

Toda filosofia tem, em última instância, a finalidade de ser um instrumento para que o ser humano investigue o sentido da existência.

Não o sentido da vida, não o sentido da morte, não o sentido da liberdade, ou da sociedade, ou de qualquer outro conceito.

Mas o sentido da existência. Do ser humano? Do mundo? Do universo? Do Cosmos? De Deus? Sim, desde que colocado na seguinte perspectiva: a filosofia é a procura, realizada por um ser que existe, que está onde existe, pelo sentido da existência de si e do sentido da existência de onde existe.

A pergunta fundamental de qualquer filosofia, a interrogação que está por trás de todos os livros de todas as escolas de todos os tempos da filosofia, é: “por que existe, quando poderia não existir?”, “por que há, quando poderia não haver?”, “por que é, quando poderia não ser?”.

Os instrumentos variam; mas a pergunta fundamental é essa, mesmo para as escolas que defendem que a pergunta não tem sentido.

Então a Filosofia Clínica é uma terapia voltada para a busca pelo sentido?

Não e sim.

A Filosofia Clínica não é uma terapia que considera que todos tenham que encontrar, subjetivamente, O Sentido para a existência.

Da mesma forma que para algumas linhas filosóficas a pergunta pela busca pelo Sentido tem significado, e para outras linhas filosóficas a busca pelo Sentido não tem o menor significado e é uma pergunta absurda, há pessoas para as quais faz sentido buscar um Sentido e para outras não faz sentido buscar um Sentido.

Seria uma violência a tentativa de enxertar uma busca pelo Sentido em alguém que considera essa busca absurda. O enxerto de um elemento potencialmente poderoso assim na estrutura existencial de alguém que considera esse elemento absurdo seria catastrófica – causaria uma desestruturação indizível.

Contudo, sob outro aspecto, a Filosofia Clínica é uma terapia que busca o sentido do ser – caso o sentido do ser seja traduzido como a representação formal do conjunto de elementos significativos da estrutura existencial da pessoa, aquilo a que os filósofos clínicos chamam a “Estrutura de Pensamento” do indivíduo.

A filosofia acadêmica fornece aos filósofos clínicos os instrumentos (pela lógica, pela fenomenologia, pela analítica da linguagem) para a construção da Estrutura de Pensamento formal da pessoa. E aí se pode dizer que o filósofo clínico que produziu a Estrutura de Pensamento de alguém tem o mapa formal do sentido de sua existência.

Portanto, nesta acepção, a Filosofia Clínica é uma terapia voltada para a busca pelo sentido, ou seja, pelo sentido da existência subjetiva da pessoa que com o filósofo clínico partilha seu mundo. Mas esse sentido da existência subjetiva da pessoa pode não ter (assim como, evidentemente, pode ter) o caráter de uma busca pelo Sentido da Existência.

Isso porque cada pessoa é diferente da outra. Cada uma tem uma Estrutura de Pensamento única no mundo. Cada pessoa tem uma combinação exclusiva de elementos, que variam não apenas quanto aos diferentes tipos, mas também em relação à importância, à ordem, à circunstância e às relações de cada elemento com cada um dos outros elementos da Estrutura de Pensamento.

Por essa razão, não é possível considerar que existe um modelo de “normalidade” à qual todas as pessoas ditas “anormais” devem se conformar. Se existisse um modelo de “normalidade”, em que ele seria baseado? Na “normalidade” do criador da teoria terapêutica? Essa hipótese é evidentemente absurda, visto que não há no mundo duas pessoas que compartilhem uma mesma estrutura existencial – e a tentativa de aplicar indiscriminadamente elementos de uma estrutura de uma pessoa, pela força da persuasão, da insistência ou de recursos mais sutis, na estrutura de outra pessoa pode causar graves conflitos existenciais.

Portanto, não há “normal” e “patológico” na Filosofia Clínica. A Estrutura de Pensamento formal de uma pessoa é compreendida pelo filósofo clínico como um mapa que indica os pontos de sustentação e de tensão, de conforto e de explosão, de harmonia e de conflito entre os elementos que fazem parte da estrutura existencial da pessoa. E não há mapa “certo” ou “errado”, pois nem toda tensão, explosão e conflito é ruim na estrutura de pensamento – podem mesmo ser elementos sustentadores para algumas pessoas, elementos que não podem ser tocados sob risco de desmoronamento de toda a existência.

Se não há mapa “certo” nem “errado”, qual o papel do filósofo clínico?

O filósofo clínico não sabe responder essa pergunta até o início do processo da terapia. Isso porque cada pessoa tem uma diferente motivação ao se encaminhar para ela. E muitas vezes a motivação inicial que leva a pessoa à terapia não é a motivação última, que vai sendo descoberta no processo.

O filósofo clínico usa seus instrumentos para ajudar a pessoa a resolver o que a leva à terapia.

E como o processo da terapia ocorre?

A primeira tarefa do filósofo clínico é a formação da “Estrutura de Pensamento” formal da pessoa. Isso começa com a narração da história da pessoa pelas próprias palavras da pessoa. Esse processo pode levar algum tempo, pois é importante, por dois motivos, que a pessoa conte como vê a sua história.

O primeiro motivo é que o filósofo clínico precisa conhecer como a pessoa relata suas circunstâncias históricas, para que possa compreender os pontos de referência da Estrutura de Pensamento. Aqui, o filósofo clínico usa a Fenomenologia.

O segundo motivo é que o filósofo clínico precisa entender como a pessoa utiliza sua linguagem, pois a linguagem revela o modo como os elementos da Estrutura de Pensamento relacionam-se entre si. Aqui, o filósofo clínico usa a Analítica da Liguagem.

E depois que o filósofo clínico conseguiu produzir uma Estrutura de Pensamento formal da pessoa?

Ele vai saber exatamente o que são, onde estão, como estão relacionados, os pontos que levaram a pessoa ao desconforto existencial que a fez procurar a terapia.

Mas não basta dizer isso à pessoa. Afinal, é possível mesmo que a pessoa já saiba disso. Ou que não faça diferença nenhuma para a pessoa saber ou não, pois não saberia o que fazer com esse conhecimento.

Depois que o filósofo clínico produzir a Estrutura de Pensamento formal da pessoa, terá conhecido um conjunto de armas que ela muitas vezes nem sabe que tem, ou não sabe como usar eficientemente.

Essas armas são os modos como a pessoa lida da forma mais eficiente com seus problemas.

Muitas vezes a pessoa aprendeu, por qualquer razão, que o jeito certo de lidar com um determinado problema é de tal e tal maneira – maneira que, eventualmente, não corresponde à sua Estrutura de Pensamento, e que, por alguma razão que a pessoa não consegue explicar, sempre dá errado com ela.

A pessoa pode nunca ter aprendido – e, na verdade, quase nunca aprendeu – a usar os modos próprios à sua Estrutura de Pensamento particular para lidar com os problemas com que se depara. A pessoa pode nunca ter aprendido a usar as suas armas mais poderosas, que são exclusivas dela, e que, por isso, provavelmente ninguém a ensinou a usar.

Justamente as armas que o filósofo clínico identificou na Estrutura de Pensamento.

Por essa razão, o filósofo clínico pode ensinar os modos mais eficientes que a pessoa tem para lidar com seus problemas. E cada pessoa tem modos diferentes para lidar com dificuldades que são próprias só dela, o que faz com que cada processo terapêutico seja completamente diferente de todos os outros.

Cada processo é diferente, assim como o estudo de cada filosofia acadêmica é diferente. Cada filósofo estudado pela tradição acadêmica coloca questões e problemas diferentes, usa métodos diferentes e chega a conclusões diferentes. O trabalho do estudioso de filosofia é saber como colocar com propriedade essas questões e problemas, saber usar os métodos específicos a cada filósofo estudado e compreender o alcance de suas conclusões – cada filósofo com sua especificidade, sua originalidade, sua diferença.

Não é diferente do que a Filosofia Clínica faz com as pessoas que buscam a terapia. O filósofo clínico vê cada pessoa como se visse um filósofo importante a ser estudado.

Ele estuda essa pessoa com cuidado e atenção para que o mapa de elementos da existência dessa pessoa seja bem constituído. Nesse mapa, ficam evidentes os modos como a pessoa pode resolver melhor os seus problemas, para que o filósofo clínico possa ensinar a pessoa a usar as suas próprias armas – em outras palavras, para que o filósofo clínico possa ensinar a filosofia da pessoa a ela mesma.

* Este texto foi preparado para uma apresentação para leigos a respeito da Filosofia Clínica. Por esta razão, foram evitados termos técnicos da FC, que seriam ambíguos ou incompreensíveis se utilizados sem a devida tradução (que, no contexto, seria cansativa e desnecessária).
Convite:

Acontece no próximo final de semana em Nova Veneza/SC o IX Encontro Sulbrasileiro de Filosofia Clínica. Uma programação belíssima e sob a responsabilidade do Instituto Sulcatarinense de Filosofia Clínica, com sede em Criciúma/SC.

Uma oportunidade singular para se saber mais sobre o tema e conhecer os estudos e práticas da área.

Inscrição e programação completa no site: www.filosofiaclinicasc.com.br

Sejam bem vindos!

Coordenação

sábado, 20 de novembro de 2010

Música

Sônia C. Prazeres
Filósofa Clínica
São Paulo/SP

Confusos devaneios e uma pauta
Traçam caligrafia com a chuva fina
Vão rabiscando na neblina densa
As notas delicadas de uma melodia.

E aquela música que não toco
Desenha-se no ar aos olhos tontos
Como do olhar, espelho irrefletido
A pauta linda dos teus encantos.

Guardo silêncio e ele desmerece
Trazendo a música de outro tempo
Resta um dilúvio que me entorpece
Insiste a melodia e o desalento

E aquele peito que não toco
As luzes do olhar que eu mais queria
Fazem miragem d’água no deserto
Nas horas que ainda acenam alegria.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

De volta ao corpo

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

E a vida continua....depois de múltiplas perdas.
Lendo as Confissões de Agostinho e refletindo com o grupo de psicofilosofia e bioenergia sobre a questão do mal e do lugar do corpo na filosofia, na teologia, na psicologia, enfim, na vida, surgem várias questões.

Qual o lugar do corpo na vida contemporânea, que apesar de falar tanto dele, o continua negando?
Merleau-Ponty com " A fenomenologia da percepção" nos convida a pensar o corpo de uma forma diferente do que se pensava até então. (Se é que se pode pensar o corpo!)

Pensar o corpo próprio, como ele diria pode ser recolocar a essência na existência, na relação corpo-próprio-mundo.
Enquanto para Agostnho o corpo é negado, para Merleau-Ponty o corpo é o fenômeno primordial., como experiência vivida no agora do existir.

" Eu sou não um "ser vivo" ou mesmo um "homem" ou mesmo "uma consciência", com todos os caracteres que a zoologia, a anatomia social ou a psicologia indutiva reconhecem a esses produtos da natureza ou da história - eu sou a fonte absoluta; minha experiência nāo provém de meus antecedentes, de meu ambiente físico e social, ela caminha em direçäo a eles e os sustenta, pois eu sou quem faz ser para mim (e portanto ser no único sentido que a palavra possa ter para mim) essa tradição que escolho retomar, ou este horizonte cuja distância em relaçāo a mim desmoronaria, visto que ela nāo lhe pertence como uma propriedade, se eu não estivesse lá para percorrê-la com o olhar". Merleaux-Ponty

" Buscar a essência do mundo não é buscar aquilo que é em idéia (...) é buscar aquilo que de fato é para nós antes de qualquer tematização". Continua o autor.
Então, corpo negado...ou corpo em processo...?
Importa sim meu corpo que agora pensa, fala, percepciona,relaciona....Meu corpo aqui parte do mundo.

Corpo que pode romper com imagens forjadas por um sistema que o transformou em simples objeto de uso, controle, exploração, ilusão... Corpo que pode e sabe envelhecer. Corpo que pode ter sua própria forma. Corpo que pode amar e odiar sem culpa.

Corpo livre para ser e não ser conforme sua própria natureza, sem os "tem que" imposto pela mídia. Corpo vivo que não tem definições, nem explicações. Nem demoníaco, nem anjo, apenas o corpo presença no existir e ser sem mais delongas. Que goza e chora. Que nasce e morre. Corpo meu, seu nosso, amém!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Amou uma vez e não separou mais

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

Depois de oito casamentos frustrados no currículo, a moça se entregou. Aceitou a sugestão de uma sábia amiga de que talvez na posição horizontal descobrisse as razões de tantas separações. Sim, na horizontal de um divã.

Ainda que suas experiências anteriores na investigação do inconsciente não tenham sido lá estas coisas, venceu a resistência e marcou hora com um renomado analista. Afinal, se as poucas terapias anteriores e todo investimento em cartomantes não tinham surtido efeito, então a aposta agora seria ainda mais alta, procuraria o ‘melhor’.

No dia marcado chegou quinze minutos antes do horário. Precisava observar com cuidado os detalhes do consultório. Sentou na antessala. Cruzou as pernas. Descruzou. Tornou a cruzar, e se percebeu ansiosa quando teve que conter a perna esquerda que balançava feito pêndulo no ar. Bobagem, pensou.

De que adianta tentar fazer gênero, se em questão de tempo aquele analista vai me decifrar inteiramente, feito raio-x. O pensamento aumentou a ansiedade. Pensou levantar, pegar a bolsa e alçar voo pela janela mesmo. Mas não. Lembrou a si mesma que era adulta, tentando então o autocontrole. Respirou fundo e mentalmente contou: um, dois, um, dois, um, dois...

O pensamento foi interrompido pelo som da maçaneta. Quando o terapeuta abriu a porta, não se conteve, foi involuntário espichar o olhar para dentro. O divã era perfeito, de veludo na cor fúcsia, com um encosto para a cabeça revestido por couro alemão com costuras duplas. Entrou apressada no consultório, e antes mesmo de apertar a mão do analista já estava deitada no divã.

Ao olhar para cima, a melhor das visões: bem sobre sua cabeça, suspenso por cabos de aço, pendia estrategicamente um belíssimo lustre de Murano. Não teve dúvidas. Era o cenário ideal para conhecer as razões insondáveis de seus fracassos afetivos. O analista? Ah pouco importava, seria um mago com visão de raio-X ou bola de cristal que lhe daria a receita mágica para solução de problemas.

Passados alguns meses de terapia, entendeu que não existia truque, nem magia e que a ânsia de tanto apostar em casamentos tinha lá suas razões mais profundas. E que sabê-las, algumas vezes, causava-lhe dor.

Certa vez, em uma consulta dolorida, dispersou o pensamento olhando para o lustre pendente sobre o divã. Primeiro achou-o parecido com aquele que teria despencado sobre a cabeça do segundo ou terceiro marido, e que foi razão da separação.

Em seguida fez uma associação. Cada vez que as constatações em consulta lhe causavam dor era como se o psiquiatra tivesse soltado o lustre sobre sua cabeça, dando uma pancada certeira em seus paradigmas.

Condescendente consigo, adequou seu discurso à sobrevivência na selva dos desencontros amorosos. Casamento passou a ser uma instituição falida, homens, em última análise, eram todos iguais e nenhum seria capaz de cumprir o estatuto do matrimônio idealizado por ela. Tinha um discurso moderno, sentia-se plena e socialmente ajustada.

A partir disso, andou pelo mundo, experimentou, observou, estudou, garimpou ideias, questionou, em síntese: viveu. O tempo passou e quando viu já passava dos 30 e alguns anos. Foi aqui que percebeu trazer na ponta da língua uma gamofobia [aversão a casamento] escancarada, engrossando o coro dos descasados que afirmavam: Partilhar de novo? Só se for essa fobia.

Não se sabe como, talvez pelos perfeitos acasos da vida, mas um belo dia um homem também gamofóbico cruzou seu caminho. Como ela, falava sobre as vantagens da liberdade, do descompromisso, do ir e vir sem fronteiras sem se fixar a ninguém, mas que dançar com ela tinha sido muito bom.

Cruzaram-se novamente e outra vez, e outras tantas. Ele comentava sobre sua ideologia política, das seriedades da vida, mas que ouvir as bobagens dela era uma forma de diversão. Argumentava sobre responsabilidades, direitos e deveres sociais, cidadania e tal, mas que as ideias dela tiravam a carga cinza das obrigações. Falava de suas viagens mundo afora, das inúmeras mulheres que teve, mas que transar com ela tinha todos os fundamentos da conjunção carnal.

Contava da experiência com o budismo, do tempo no templo, sublimando as falas e trocas alheias, mas que depois de ouvi-la, as conversas do par tornaram-se a verdadeira meditação. Reverenciava a individualidade, os limites intransponíveis de cada um, as horas que não deveriam ser estabelecidas, mas saber dela a todo instante já era um hábito difícil de controlar.

E a cada fala dele, ela retrucava com novas teses sobre sanidade, individualidade, inteligência emocional, repetição de comportamentos, novos padrões de relacionamento. E com o tempo o único consenso que não mais conseguiram chegar foi sobre gamofobia, pois já formavam um par.

Não o par que ela sonhara em seus casamentos anteriores, ou aquele descompromissado que discutia teorias gamofóbicas, sequer o outro que o terapeuta sugeriu nas entrelinhas, mas o par que era a soma de tudo isto e tantos outros aquilos de suas trajetórias individuais. Na verdade, eram dois pares de olhos que já haviam enxergado as dores do coração, e que finalmente o amor fez fixar.

Estão juntos. E sempre que ela se apropria da felicidade do amor, ri quando lembra que alguns créditos vão para um lustre de Murano sobre um divã.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Amigos, colegas e demais interessados,

www.cultura.mg.gov.br

Hoje é o último dia para se inscrever na Oficina de Audiovisual em São Tiago/MG. Confira no site acima, da Secretaria Estadual de Cultura, maiores informações.

Att.
Mariana Fernandes
Filósofa Clínica
Coordenadora do Cineclube AudiovisUAI
São Tiago/MG
Nayla

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Nayla é uma mulher de 31 anos, bonita desde que a adolescência passou. Tem um filho de 5 anos que mistura as letras quando discutem com ele e um marido que é um grande amigo. Nayla é feliz com seu marido, seu filho e com seu relacionamento íntimo fora do casamento com um homem bem mais velho. Nayla, conforme todos que a conhecem, é boa mãe, boa esposa, boa amiga. Um dos primeiros nomes quando se faz uma daquelas listinhas de convidados.

O que traz alguém como Nayla ao meu consultório? Ela descobriu que o homem mais velho com quem ela convive intimamente fora do casamento a traiu com outra mulher, uma desconhecida que ela pesquisou em bolsos, contatos de chamadas não atendidas, MSN e tardes de espreita em frente ao apartamento do homem. A queixa de Nayla é que não se pode mais confiar em ninguém, o mundo perdeu o rumo dos valores, os sentimentos são agora escambo.

Nayla casou para ter uma família. Nunca procurou por qualquer coisa fora do casamento que lembrasse um relacionamento íntimo, aconteceu apenas. É como se o compromisso do casamento, a trajetória que percorreu existencialmente no casamento tivesse como consequência necessária a passagem por uma vivência aparentemente paradoxal.

O casamento, se existe um culpado, a levou a isso. O relacionamento afetivo de Nayla fora do casamento a tornava alguém melhor, melhor mãe, melhor esposa, melhor amiga, melhor Nayla em si mesma e para todos.

Pesquisando as questões internas em Nayla e sua organização existencial, algo se tornou aparente: um casamento para ela envolveria um terceiro, um relacionamento íntimo com um segundo homem.

Muitos aprendem que coisas como um casamento, uma família, uma amizade, uma atividade têm linhas exatas nos quadrantes de demarcação, espaços iluminados que apontam limites, riscos e marcas no ar e nas paredes, portas e chaves para afirmar o que está em um lado de dentro e em um lado outro qualquer.

Muitos aprendem que estas coisas não funcionam assim e não sabem disso até que finalmente constroem uma família, um trabalho, uma vida. Então descobrem.

Nayla não vai para o inferno, não vai para o céu e não existe um lugar para ela. Este lugar que não existe para ela é o espaço que se cria entre espaços e que desafia a alma que tenta se comportar como se fosse uma coisa. No caso dela, foi isso o que aconteceu.
Bom Dia!

Convidamos para o Happy Hour Filosófico Clínico.

O evento acontece no próximo dia 18/11/10 às 18h e 30min no Instituto Packter em Porto Alegre/RS: Cel. Lucas de Oliveira, n. 1937/303 - Bairro Petrópolis.

O tema: Apontamentos sobre Estrutura de Pensamento

Coordenação: Filósofas Clínicas Isolda Menezes e Vera Leandro.

Convidada: Filósofa Clínica Ana Cristina da Conceição

Inscrições: 3330-6634 ou institutopackter@terra.com.br

Contamos com sua presença.
Atenciosamente,

Assessoria do Instituto Packter

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O feitiço da palavra*

"Linguagem viva, como acentuam os lingüistas,
é aquela na qual você ainda pode cometer erros.
Linguagem perfeita é a que está morta. Nem se modifica, nem hesita. (...)
Tudo se desmonta constantemente e volta a se reagrupar."

Jean-Claude Carrière


A expressão do existir constitui-se pelos caminhos às origens do ser. Lugar onde os segredos se oferecem nas entrelinhas de um sacrilégio a desvendar escolhas. Violação da expectativa em preparação à escuta das originalidades.

Uma hermenêutica dessas singularidades localiza-se em si mesma. Investigação da vontade estruturada nas representações da palavra. Deliberadamente, o esforço epistemológico procura entender essas manifestações a partir das equivocidades do próprio olhar. Espécie distorcida de interação, onde a pessoa constitui-se em reflexo das alteradas percepções.

Schopenhauer elabora tal desmedida: "(...) eis por que o gênio vê tudo acima de qualquer medida, vê em toda parte o extremo, e justamente por isso seu comportamento incorre no extremo: ele não acerta na medida correta, falta-lhe placidez, e suas ações, pontuadas por extravagâncias, se assemelham à loucura."

O compartilhar pode ser um caminho ao esboço das conjecturas. Descortinar-se dos enigmas em tímido aparecimento. Lugar para compreender os signos por entre o caos aparente das intencionalidades. Momentos de diálogo entre a solução e suas interrogações.

Universos pessoais costumam escolher a literalidade ou o hermetismo das simbologias para revelar íntimas divergências. As narrativas podem revelar incógnitas contidas na estrutura das palavras. Contextos não manipulados das pessoais traduções costumam preservar as melhores versões. Ponto de partida ao entendimento da alma em desdobramentos de projeto.

Trata-se de encontrar caminhos de desbloqueio entre os espessos muros a separar idéias de suas cotidianas possibilidades. Encontros com a voz própria do dizer-se por essas lógicas da descontinuidade.

Um cuidado cerimonial deve ser concedido para com as instâncias da singularidade do outro. Interseções com mundos em (re)significação através dos ensaios do dizer. Busca dos entendimentos em sentidos de (re)significar-se. Por esses provisórios instantes a vida se elabora. Afirma-se em direção aos (re)equilíbrios.

Aspectos de uma ficção podem ordenar-se às percepções do falar. Incomunicáveis delírios em processo de objetivação. Linguagem das recordações mais íntimas. Autonomia da vontade em exercício nos códigos de acesso às lonjuras da alma. Magia do dizer-se na relação cúmplice dos encontros.

Palavras podem estabelecer vínculos de aproximação ou distanciamento entre as pessoas. No vir-a-ser da terapia costumam aparecer quase no mesmo instante do surgimento das idéias. Dialética dos signos no devir impróprio da voz. Caminho muitas vezes intransponível às singulares decifrações, não fora o dizer-se das sessões. Um relembrar ao espanto em olhares no espelho desajustado da epistemologia.

O poetar reflexivo de Clarice Lispector assim se expressa: "Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras - quais ? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no fundo do poço."

Os discursos costumam trazer muitas informações. Esboço a antecipar formas para a objetivação do ser. Perspectivas em relação com uma só narrativa. Enigmas contidos nos desdobramentos das falas. Feitiço da alma ao encontro daquilo ainda sem meios para se expressar.

Manifestação das obras de arte da existência no processo tênue das conversações. Desdobramentos de vida e morte. Renascimento ao contar-se das historicidades e (re)significações. Utopia para compartilhadas traduções.

Asserções em forma de promessas constituem a pessoa no rascunho das intencionalidades. Preliminares desarticulações podem antecipar rupturas à qualificação existencial. Natureza das primitivas essências em revelação no sujeito.

Linguagem de estranha magia a refletir-se nas escutas, muitas vezes à margem de qualquer escolha. Diálogo absurdo entre a natureza do imaginário e suas buscas na estrutura do dizer.

Derrida ao relembrar Aristóteles, destaca serem os sons emitidos pela voz os símbolos dos estados da alma, e as palavras escritas, os símbolos das palavras emitidas pela voz.

Sussurros de acomodação com essa condição mutante. Encontros com as janelas lacradas pelo desatino de não poder contar-se. Portal à contemplação ativa de si mesmo. Ciência das compartilhadas reflexões.

Indescritíveis energias preferem o esboço tênue das recordações. Códigos para adequar essas dinâmicas da existência. Ensaio das semioses em secretas orações. Discurso sem voz das interioridades. Transformação nos encontros da terapia. Imensidão dessas falas mal ditas.

A alam pode elaborar-se com a percepção das próprias simbologias. Compreensão a natureza humana nos jardins da espécie. Escolhas efetuadas no desacordo das alternativas. As imagens mentais alternam-se no discurso das intencionalidades.

As estéticas da objetivação possuem estranhas articulações em suas origens. Rituais ao entendimento das múltiplas formas às narrativas da vontade. Aproximações com fantasia de aparência distante. Enigmas às escutas apressadas em miragens de superfície.

Mircea Eliade descreve: "a narração de um mito não é sem consequência para aquele que o recita ou para aqueles que o ouvem. Pelo simples fato da narração de um mito, o tempo profano é - pelo menos simbolicamente - abolido: narrador e auditório são projetados num tempo sagrado e mítico."

Nesse sentido se oferece uma dinâmica das falas. Possuem disposição própria em uma lógica nem sempre acessível ao olhar distanciado das singularidades. Estrutura de uma dialética ao não-dizer contido no dizer.

Realizar esse diálogo da anterioridade das idéias, sua formulação como pensamento e a objetividade do compartilhar, mostra-se como um desafio em reconstrução. As dificuldades costumam surgir quando esse caminho encontra-se bloqueado.

Acessar as fontes do conhecer na estrutura da linguagem constitui-se em aproximação para com as transformações. Momentos de relação com os fenômenos em suas desestruturas discursivas. Confissão não declarada pela direção de aparente sem rumo da associação de idéias. Acesso às descoebrtas no próprio ser em aventuras de narrativa.

É na interseção da terapia que a essência da (des)razão pode encontrar-se com seus cotidianos vínculos. Conversação com as utopias em fase de não-ser. Juízos sem juízo ao emancipar-se das falas. Conexão com aspectos indivisíveis da pessoa nos ensaios da terapia. Instância de integração desses conteúdos em seus vínculos de interioridade. Paradoxo da realidade da alma em diversas faces. Exclusão aparente de aspectos da mesma natureza.

A vida insinua-se na alquimia silenciosa das palavras. Expressão dos desejos em múltiplos aspectos. Desígnios de infidelidade ao calar mais íntimo. Característica desses discursos inconclusos da existência.

*Hélio Strassburger. Filósofo Clínico. Professor em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Diretor Geral do Instituto Packter. Coordenador da Filosofia Clínica na Secretaria Municipal de Saúde Mental e ONH HI-VITA em São João del Rei/MG. Coordenador da Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG. Supervisiona a Filosofia Clínica no Museu do Inconsciente no Rio de Janeiro. Acompanha e colabora com a atividade de Filósofos Clínicos em dezenas de ONG`s, PSF`s, residências terapêuticas e hospitais psiquiátricos no Brasil.

domingo, 14 de novembro de 2010

Pulsantes dias

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Co-crio
nova vida
águas do espírito
sedes absurdas
pulsações dilacerantes
renovando peles
fecundos mares
paixões navegantes
diárias vertigens
fruta mordida
olho no horizonte

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Convite!

Amanhã dia 12.11.10 temos o nosso "CAFÉ FILOSÓFICO". O tema deste mês: "Os Desafios da Filosofia Clínica no Mundo Contemporâneo".

O evento acontece na sede da APIFIC: Rua Benjamin Constant, 1662, Centro/Norte próximo ao Instituto Dom Barreto, esquina com a Rua Quintino Bocaiuva em Teresina/PI.

Horário: 19hs.
Mediadora: Filósofa Clínica Florisa Veras

Compareça e convide os amigos.
Informações sobre nossos eventos: www.apific.com.br

Contamos com você.

Até amanhã,

Valdirene Ferreira
Filósofa Clínica
Teresina/PI
Boa Noite!

Ildo Meyer
Médico, Escritor e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

Algumas pessoas acreditam que dormir é uma perda de tempo. “Quando morrer, vou ter tempo de sobra para dormir e descansar”, é um adágio popular que reforça a idéia do desperdício de vida durante o sono. Adeptos desta teoria, costumam orgulhar-se do fato de que três ou quatro horas diárias de sono são suficientes para que recuperem suas energias.

Infelizmente, não é bem assim que as coisas funcionam. Quando o dia nasce, a luz penetra pela retina do seres humanos, estimulando seu metabolismo, e, quando o sol se põe, o metabolismo diminui. A função é manter o corpo em estado de alerta durante a claridade e em repouso na escuridão. A esta alternância entre sono e vigília, 16 horas acordado e oito horas dormindo, chama-se ritmo circadiano, do latim “Circa diem”- cerca de um dia.

Este ciclo é controlado pelo cérebro (hipotálamo) que funciona como um maestro.

Numa orquestra, cada músico sabe tocar seu instrumento, conhece a partitura, mas é o maestro quem vai informar o momento exato em que cada músico deve entrar na sinfonia. Se um instrumento for tocado no momento errado, prejudicará toda a performance. Assim, a medida que o sol vai se pondo no horizonte, o hipotálamo vai diminuindo os níveis do hormônio cortisol (que mantém o corpo alerta), vai baixando a temperatura corporal e inicia a secreção de melatonina (hormônio indutor do sono), para que possamos dormir.

Este é o mecanismo de funcionamento com o qual o homem foi criado para interagir na natureza.

Se ocorrer uma alteração na ordem interna de secreção hormonal, teremos uma dessincronização, com dificuldade para cairmos no sono. Luz, exercícios físicos, drogas, hormônios, podem alterar o ritmo circadiano e promover uma dessincronização.

Desde que o homem inventou a lâmpada, a noite pode artificialmente se transformar em dia, e com o surgimento de casas, janelas, óculos escuros, o dia também pode virar noite. Assim, os horários da natureza de nascer e pôr do sol, acordar e dormir, aumento e diminuição da secreção hormonal passaram a ser modificados pela evolução humana.

A vida moderna se apresenta com trabalhos noturnos, festas na madrugada, academias de ginástica à noite, levando pessoas a não utilizarem seus corpos de acordo com o manual de fabricação: 16 horas acordados durante o dia e 8 horas dormindo à noite.

Qual o problema em se alterar o manual do fabricante em relação ao sono?

O funcionamento normal do Sistema Nervoso depende do ciclo sono-vigília. Durante o sono, o corpo humano funciona de maneira semelhante a um super mercado, que abre suas portas às 8:00 horas e fecha as 24:00 horas. Depois que a loja é fechada ao público, funcionários trabalham durante a noite na limpeza, manutenção, reposição de estoque, para que na manhã seguinte, os clientes encontrem a loja em condições ótimas para realizar suas compras.

Durante o sono, o Sistema Nervoso Autônomo trabalha sem parar na limpeza do organismo humano, retirando radicais livres, produzindo hormônios que são liberados somente durante o sono profundo, etc. É como se ao dormirmos, entregássemos a chave de nosso corpo para um funcionário restaurar o que houvesse sido danificado durante o dia de trabalho.

Imagine-se trancado em uma sala durante oito horas, sem comer, beber, ir ao banheiro, falar, se movimentar e com um mecanismo interno de restauração e limpeza. É isto que acontece nas oito horas noturnas de sono e que está recomendado no manual do fabricante.

Além disto, somente durante o sono profundo, ocorre a secreção do hormônio do crescimento, fundamental na restauração e multiplicação celular. Noites mal dormidas, com sono superficial, não conseguem produzir o hormônio, levando a um envelhecimento precoce.

É no sono profundo (sono REM) que acontecem os sonhos. Durante os sonhos, experiências vividas recentemente são processadas e armazenadas no cérebro. A falta de sono profundo leva à problemas relacionados à déficit de memória para fatos recentes.

Por estas razões, afirma-se que uma hora de sono perdido, jamais poderá ser reposta, ao menos no que se refere à reposição celular e memória, visto que uma soneca de uma ou duas horas durante o dia, visando repor o sono perdido da noite, não chega a alcançar a profundidade necessária para secreção hormonal e sonhos.

De qualquer maneira, a soneca depois do almoço tem sua finalidade: reduzir a fadiga, que também é um efeito colateral de noites mal dormidas. Depois de 24 horas sem dormir, o sistema nervoso já está em fadiga.

Testes de atenção demonstraram resultados semelhantes ao de pessoas que ingeriram três doses de whisky – 10 decigramas/litro de álcool no sangue. O nível alcoólico permitido em alguns países para dirigir veículos varia entre 6-8 decigramas/litro, o que equivale a 19 horas acordado.

Qualquer atividade realizada após dezenove horas de vigília, encontrará o organismo trabalhando dessincronizado do ritmo circadiano associado à fadiga por falta de sono. Ocorre um somatório de fatores contra-producentes: o corpo preparado para dormir, sonolento, fatigado, ineficiente, desatento e com predisposição a causar acidentes.

Conseqüências a curto prazo da dessincronização do ritmo circadiano? Algumas pessoas dormindo acordadas e outras deitadas sem conseguir dormir. Por vezes, a mesma pessoa encontra-se dormindo em pé e acordada ao deitar. Verdadeiros zumbis.

Conseqüências a médio e longo prazo? Envelhecimento precoce, déficit de memória, ansiedade, mau humor, reações emocionais exageradas frente a acontecimentos negativos.

Sabemos que produtos devem ser utilizados de acordo com as instruções contidas em seu manual de funcionamento. A natureza, em sua imensa sabedoria, proveu o funcionamento do homem com o ritmo circadiano de sono e vigília. O homem entretanto, parece ter um certo prazer em desafiar as leis da natureza, mesmo que para isto possa, conscientemente ou não, estar agredindo a si próprio e seus semelhantes.

Vale a pena perder horas de sono que jamais serão recuperadas? Depende. Se estas horas de sono forem trocadas por encontros, emoções, trabalhos, prazeres, atitudes que também se perderão para sempre se não acontecerem naquele momento, deve ser feita uma reflexão. Cada indivíduo deve pesar o valor relativo de uma noite acordada.

Antes perder uma noite de sono do que sonhar acordado ou mesmo dormindo com algo que foi perdido para sempre. Mas antes de escolher, é recomendável uma boa noite de sono para que as idéias fiquem bem claras.

Que possamos nos comportar como a “Bela Adormecida”, que dormia profundamente, mas trocou o sono pelo beijo de um príncipe. Boa noite!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Cineclube AudiovisUAI*

PROGRAMAÇÃO DE NOVEMBRO/2010

Entrada Franca

DOMINGO, dia 14 de novembro de 2010
Local: Rotary Club (Rua Estados Unidos, nº 80, bairro Nações Unidas, São Tiago-MG)

SESSÃO CURTAS personalidades artísticas – às 17 horas

Walter Franco, muito tudo
2000, SP, documentário, 25 min. Direção: Bel Bechara e Sandro Serpa. Documentário sobre a vida do poeta e compositor Walter Franco. (Classificação 14 anos)

Mutantes
1970, SP, experimental, 7 min. Direção: Antônio Carlos da Fontura. Uma brincadeira mutante improvisada por Arnaldo Baptista, Sergio Dias e Rita Lee – Os Mutantes -, num dia único pelas ruas de São Paulo. (Classificação 14 anos)

Leila para sempre Diniz
1976, RJ, documentário, 9 min. Direção: Mariza Leão e Sérgio Rezende. O documentário revela flagrantes da intimidade de Leila Diniz. A atriz, que teve sua carreira tragicamente interrompida por um desastre de avião, exerceu grande influência nas gerações dos anos 1960 e 1970, por sua espontaneidade, irreverência e inquietação criativa. (Classificação 14 anos)

Eh Pagu, eh!
1982, SP, documentário, 15 min. Direção: Ivo Branco. O filme acompanha a trajetória da vida e obra de Patrícia Galvão, a Pagu. Mulher do escritor Oswald de Andrade, participa com ele do Movimento Antropofágico, milita no Partido Comunista e mantém uma vida de ativismo até sua morte em Santos, em 1962, já afastada da política e ligada à cena teatral. (Classificação 14 anos)

DOMINGO, dia 21 de novembro de 2010
Local: Rotary Club

SEMANA DA COSNCIÊNCIA NEGRA - Apresentação da Folia de Reis "Magos do Oriente". Saída do forno às 15h30min

SESSÃO ADULTO semana da consciência negra – às 17 horas

Terra Deu, Terra Come
2010, Brasil, documentário, 88 min. Direção: Rodrigo Siqueira. Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos de idade, comanda como mestre de cerimônias o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, que morreu com 120 anos. O ritual sucede-se no quilombo Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, Minas Gerais. Com uma canequinha esmaltada, ele joga as últimas gotas de cachaça sobre o cadáver já assentado na cova: “O que você queria taí! Nós não bebeu ela não, a sua taí. Vai e não volta pra me atentar por causa disso não. Faz sua viagem em paz”. A atuação de Pedro e seus familiares frente à câmera nos provoca pela sua dramaturgia espontânea, uma auto-mise-en-scène instigante. No filme, não se sabe o que é fato e o que é representação, o que é verdade e o que é um conto, documentário ou ficção, o que é cinema e o que é vida, o que é africano e o que é mineiro, brasileiro.

DOMINGO, dia 28 de novembro de 2010
Local: Rotary Club

SESSÃO CURTAS vidas no subúrbio – às 17 horas

APRESENTAÇÃO DO GRUPO HIP HOP DE SÃO TIAGO.

Logo após:

Pretinho Babylon
2007, RJ, ficção, 17 min. Direção: Cavi Borges e Emílio Domingos. Um rastafári vivendo na grande Babylon. (Classificação 14 anos)

Viver a vida
1991, SP, ficção, 12 min. Direção: Tatá Amaral. Clemson é um Office-boy esperto, acostumado a “economizar” o dinheiro que recebe para fazer suas tarefas mais rapidamente de taxi. Com esses “extras”, pode ir à danceteria, jogar fliperama, comprar tênis. O curta conta o cotidiano desse “boy”, repleto de filas, esperas, trambiques, música e gente. (Classificação 12 anos)

Divina previdência
1983, SP, ficção, 9 min. Direção: Sergio Bianchi. Atribulações na vida de um mendigo ferido, às voltas com funcionários públicos, documentos e prontuários da previdência social. (Classificação 18 anos)

Imensidade
2003, SP, ficção/experimental, 15 min. Direção: Amilcar M. Claro. O curta tem como fio condutor “O navio negreiro”, poema épico abolicionista de Castro Alves. A exemplo de outras obras do período romântico, o poema foi concebido para ser lido em praça pública. Idalina, único personagem ficcional do filme, o faz agora pelas ruas da cidade. (Classificação 16 anos)

Curso de História do Cinema e Linguagem Cinematográfica

Dias 2, 3, 4 e 5 de dezembro no Cineclube AudiovisUAI
Maiores informações através do e-mail cineclubeaudiovisuai@gmail.com

*Projeto Coordenado pela Filósofa Clínica Mariana Fernandes. Uma parceria entre a Secretaria Nacional da Cultura e Prefeitura Municipal de São Tiago/MG.
Importa ser?

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Quem você é? Quem sou eu? São nossas histórias e narrativas que vão tecendo nossa identidade.
Para além do que respondemos estão nossos gestos, a maneira como falamos, a nossa roupa e muitos outros detalhes que fazem a diferença, e podem parecer que passam despercebidos, mas estão presentes o tempo todo.

Nosso ser, o meu ser,dizem muito do espaço que ocupamos dentro da sociedade e do nosso lugar na relação com os outros. Pode parecer que somos adivinhos ao tentar dizer"quem é você", apenas nos esquecemos que comunicamos o tempo todo nossa identidade pelos pequenos gestos repetitivos.

Craig Scott nos lembra: "É através da comunicação com os outros que expressamos nosso sentido de vínculo, pertencimento (ou falta dele) em relação às várias coletividades. É também pela comunicação que temos acesso à imagem dessas coletividades, que as identidades podem ser conhecidas por nós, e que as vantagens e desvantagens de se ter uma identidade são reveladas".

Quem penso que sou? Quem você pensa que é? São perguntas que nos embaraçam muitas vezes. Decidir quem somos implica em escolher quais são nossas fronteiras.

Sá Martinho escreve: "você existe em uma história-é o caso de saber por quanto tempo esse seu " eu" de hoje vai durar. Nem sempre se é a mesma pessoa. Quando, em algumas ocasiōes se faz algo pela primeira vez, se descobre capaz de algo novo, imediatamente seu conceito a respeito de si mesmo muda. Em um minuto passado somada às características adquiridas no presente, e, portanto, você é outra pessoa. Mas ainda é a mesma. Paradoxal".

Somos mutáveis. Aprendizes e desaprendizes (se esta palavra não existe, será bom entrar no dicionário, pois a borracha abre a novas possibilidades).

Ah! Estou sentada à sombra da mangueira. Os pássaros cantam sem parar. Pés na grama.
Sou agora um simples animal pensante em comunhão com este amanhecer. O tucano me olha e eu o admiro.

Invejo os pássaros. Lembro do texto, que li ontem, de José Castelo, citando Alberto Manguel: "Escrever é uma forma de silêncio, de não falar, de cortar o vôo das palavras. O escrever, é uma forma de ameaça com o que não se pronuncia em voz alta, com a sombra das letras nos atormentando entre as linhas".

Se me perguntarem agora quem sou eu, responderei que agora não sou, estou. Ser ou não ser pouco me importa neste momento sublime de existir em comunhão.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Autogenia

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

Mudanças ocorrem devido a diversos fatores. Comumente pessoas resolvem dar novos rumos às suas vidas quando algo em especial acontece. Desilusão amorosa, traição, desemprego repentino, morte de alguém próximo, uma catástrofe, aparecimento de um grande amor, dentre tantos outros motivos, são o estopim final para que uma vida tome novos rumos.

Alguns acontecem da noite para o dia. Em instantes uma pessoa se torna quase irreconhecível. Em outros casos, a pessoa levará anos para mudar. Em outros ainda, passam a vida inteira querendo mudar sem que nada de fato aconteça.

Há casos em que uma pessoa se volte para a religião após a morte de um amigo. A lógica das coisas poderia servir para criticar a nova conduta devido ao fato de algo não ter, de certo ponto de vista, nada a ver com outro. Cogitar a possibilidade de que uma pessoa resolva pensar a própria vida e a postura diante dela depois a morte de outrem pode ser confuso para alguns e claro para outros.

Há situações em que, depois de sofrer vários contratempos devido a alguma conduta que acompanha a pessoa desde que se reconhece por gente, a leve a querer sair dessa situação. Mesmo que o último caso não tenha lhe causado o mal maior em relação aos passados, é o suficiente para que tome uma resolução na vida.

Encontra-se pessoas ainda que passam por vários momentos de angústia. E elencam vários motivos que as mantenham na angústia, sem, no entanto, dar a elas o peso necessário para as considerarem causas da angústia. Mas, em algum momento resolvem que não mais devem sofrer. Que possuem motivos para continuar a vida e elencam uma série de motivos para continuar.

O interessante é que do mesmo modo que fundamentavam as situações da vida para manter na angústia, o fizeram para sustentar uma postura de alegria, sem que estas sejam a causa dessa mudança.

Há casos de pessoas que durante os anos que as levaram até a juventude, mantiveram uma postura socialmente correta. Mas, em algum momento, resolvem dar um novo rumo à vida. Reconhecem que algumas de suas escolhas são consideradas excêntricas, no entanto, resolvem levá-las até o fim. E, a custo de sofrer com a discriminação da sociedade, vivem aquilo que consideram algo que corresponda a sua essência.

Os casos se multiplicam tanto quantas são as pessoas. Aqui para ilustrar foram apresentados alguns casos genéricos, mas correspondentes à realidade. O que se pode ver é a dificuldade de se julgar ou dar um diagnóstico da causa de tais autogenias.

Na maioria dos casos é possível encontrar os vestígios causais de tais mudanças na Estrutura de Pensamento após colher sua historicidade. Em outros casos, talvez nunca se saberá de fato o que ocasionou essas mudanças.

O mistério da vida mais uma vez se manifesta. Os filósofos clínicos continuarão a contemplar essas riquezas da humanidade, seguros de que seu trabalho é fazer com que a existência humana continue a fluir, intervindo quando solicitado por um partilhante.

Ciente, entretanto, de que seu serviço é encontrar no sujeito as ferramentas próprias para sua mudança. E que jamais conseguirá dar conta de compreender as nuanças existenciais num todo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Categoria Tempo na Filosofia Clínica

Marta Claus Magalhães
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG


Estamos sempre estudando as categorias em filosofia clínica. Sabemos quais são e que servem para localizar existencialmente o partilhante. Sabemos que é um estudo entre o tempo subjetivo e o tempo cronológico do partilhante. Sabemos se ele vive o tempo presente, passado, futuro, se usa a voz ativa, passiva e em qual tempo verbal é sua narrativa.

Ao sabermos isso também, se supõe que saberemos avaliar o nosso tempo. Avaliarmos nosso tempo enquanto filósofos clínicos, estudantes, professores, estagiários, enfim, em qualquer situação ou papel existencial que estejamos vivenciando. Mas, e a categoria tempo da filosofia clínica, como avaliá-la?

É, a filosofia clínica também tem seu tempo subjetivo e cronológico. Eu não sabia, mas descobri que tem. Por isso gostaria de compartilhar isso com vocês e trocar idéias. Tecendo elucubrações sobre a categoria tempo da filosofia clínica poderíamos dizer que esta está atrelada ao tempo do partilhante.

Será? Bom, assim seria rapidinho e isso não é característica da filosofia clínica, é? Não, não é.

Vejamos os procedimentos: assunto imediato, exames categoriais, montagem da EP, autogenia, análise da estrutura, identificação de submodos, planejamento clínico e aplicação de submodos. Gente, isso tudo leva tempo, tempo de relógio, tempo cronológico. Ou seja, a filosofia clínica em si mesma tem seu próprio tempo. Ela, tanto quanto nossos partilhantes e nós mesmos, tem sua singularidade existencial.

Seu tempo cronológico, além de estar em relação ao tempo do filósofo clínico e do partilhante, é um tempo subjetivamente lento. Tem seu tempo de maturação. Para nos tornarmos filósofos clínicos temos que, além de respeitar nosso tempo e o tempo do partilhante, respeitar também o tempo da filosofia clínica.

Ou seja, respeitar o passo a passo da metodologia nos atendimentos, nas orientações, no processo de elaboração do relatório, no processo espera da avaliação, no processo de construção de nosso ser terapeuta. Isso leva tempo.

A cronologia da filosofia clínica não é a do relógio nem a do calendário. É algo mais que o tempo corrente, é a percepção da proposta de ajudar ao outro, a percepção do respeito ao outro como ser humano, a percepção de que é mais que apenas uma profissão, é uma postura de vida. É perceber que seu tempo (o da filosofia clinica) passa e que não temos pressa, pois como filósofos clínicos, sempre em construção, saberemos respeitar seu tempo subjetivo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Homem

Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei/MG

Caminho de terra

Vassoura rabo de burro

Caminho de capistrana

Enxadinha

Caminho pé de moleque

Enxada e vassoura

Caminho no shopping

Cabo de vassoura na ponta bolinha de tênis

Homem com olhos atentos

Busca riscos pretos no chão...

sábado, 6 de novembro de 2010

Um olhar estrangeiro*

A expressividade do ser louco atualiza a interrogação reflexiva à vida conformada e bem ajustada. Buscas pela interseção de cuidado podem constituir elos de compreensão com essas estruturas do indizível. Eventos intraduzíveis à pessoa apreciam esparramar focos desestruturantes por entre deslizes da sua rotina.

Um mundo significativo pode se descortinar na relação do sujeito com ele mesmo e nos encontros com seu Filósofo Clínico. A loucura aprecia desvestir as lógicas do bom senso. Seu mundo como apresentação traz equívocos próprios dos horizontes inéditos. Desarticulam-se com as anterioridades e podem surgir irreconhecíveis.

Multiplicam-se os desdobramentos de paradoxo com a vida, até então, conhecida. Variadas formas de desatino apreciam o abrigo confortável da manifestação artística. Alternativa para rabiscar o impronunciável de sua condição. Ponto de partida a desvendar epistemologias de outras verdades.

Ao olhar do terapeuta da tradição, uma fonte de extraordinária aptidão segue irreconhecível. A semiose cifrada possui estranhas manifestações. Os sentidos desses ensaios da interdição possuem trama significativa e vocabulário próprio. É impreciso investigar na perspectiva delirante, as palavras, sonhos e devaneios.

Um devir inconstante e fora de rota elabora diálogos diferenciados. Entremeios de lógica incrível a pessoa veicula seus exageros.

Ainda assim, uma perspectiva de maior integridade costuma proteger recônditos de ser irreconhecível. As drogas, fantasias, máscaras e desajustes somáticos contribuem com a solenidade dos espetáculos.

A sintaxe desse vocabulário reinventa fronteiras. Na indiscrição dos roteiros, diversifica a arte do sonhar. O agora da utopia é a alma da pessoa em desdobramentos de não-ser. A expressividade da loucura é uma espécie de laboratório aos conteúdos sem vocabulário conhecido. Representações desajustadas podem conter a diversidade figurativa de cada um. As verdades inacreditáveis são provisórias, como o mundo ao seu redor.

Caleidoscópio de impressões, sensações e questionamentos a propor rumos inéditos ao fenômeno da vida. A palavra se mostra estapafúrdia e incompreensível, quase interminável no devir refugiado nas simbologias distantes dos consensos.

A linguagem da loucura existe em lógica própria, ainda quando indecifrável. O espanto a-diagnóstico pode contribuir com o desvendar, até então indizível, desses caminhos por onde a crise se esboça. Em sua concepção mágica do mundo, anuncia ditos de originalidade. Um olhar retrospectivo pode recompor trajetórias, entender motivos e compartilhar re-significações. As extravagâncias do louco descrevem com agilidade e disposição, as raridades irrespondíveis pela anamnese.

No caos precursor a pessoa desvirtua sua anormalidade. Antecipa, muitas vezes na primeira sessão, o rastro das incógnitas ainda sem tradução. Realidade nem sempre dizível, vai mostrando padrões e regularidades no tempo e lugar onde a interseção acontece. Inexplicável a se mostrar na distorção com suas elaborações passadas. Superlativa metamorfose a emancipar-se na desintegração pessoal.

A diversidade também aprecia refúgios entremeios de incompletude. Intimidade dos processos onde o fenômeno da ilusão se realiza. Mundo sem fronteiras a denunciar vastas regiões, até então inexploradas. Um apelo por liberdade é calado na clausura involuntária dos tratamentos distantes da singularidade.

Vestígios de existir diferenciado a constituir uma fonte de aprendizados. Diálogos com a incerteza do instante descrevem rascunhos onde os dialetos se deixam traduzir na linguagem aproximada dos convívios. Aprecia reinventar-se no esboço extraordinário das múltiplas vidências.

À primeira vista, a loucura está sempre do outro lado da interseção. Um 'logos' de harmonia divergente atualiza o passeio pelos arredores de si mesmo. A magia da vontade procura estabelecer elos com a 'arché' constitutiva das versões desencontradas. Conversação com o espetáculo plural, ainda quando os percursos permanecem inauditos.

As poéticas do delírio compartilham seus devaneios, até então contidos na perspectiva inacabada e incomunicável da internação. Assim a pessoa pode se manifestar na transição por seus conflitos e alegrias interiores. Uma trama semiótica contém indícios de ser excepcional. Estranha lucidez onde o irrealizável aprecia se esconder.

No lugar sagrado, onde as paisagens constituem seu início sem-fim, outras possibilidades desenham o surreal e anunciam façanhas incríveis, num ponto distante das sensações objetivas. Os jogos de linguagem tentam descrever a estrutura desses achados.

O louco, mesmo quando tratado pela medicina da tradição, parece querer dizer: "Eu sei que você é incapaz de me entender. Gosto de você mesmo assim, inclusive experimento suas drogas: haldóis e diazepans, choques de indiferença e segregação, até seu medo de contágio eu acho divertido! Sem esquecer da satisfação que tenho ao vê-lo feliz com nossos progressos, em razão de sua medicina. "

Na polifonia de múltiplas texturas a singularidade também se estrutura desordenada e contraditória. As dinâmicas do caos podem ser cúmplices para compartilhar os ditos indecifráveis da pessoa. Prefácio inconcluso dessas feições inesperadas da desconstrução.

Um rosto desfigura-se na ruptura transgressora em desconcerto com as anterioridades. A polivalência dos desatinos inaugura combinações absurdas na multiplicação dos pontos de vista. As traduções da esteticidade podem desvendar um ser impensável, no esboço marginal e de aspecto inviável.

Na modificação do real as assimetrias engendram matérias-primas. A beleza fugidia contida no instante alterna-se em ditos de aparente sem sentido. Na brevidade impulsiva das incompletudes, os pensamentos podem extraviar suas razões. Surpresa em contornos de imprecisão. O mundo fantástico pode ficar inacessível aos consensos. Os monólogos da psiquiatria ideologizada são incapazes de compreender e transitar pela realidade alterada das gramáticas da loucura.

A natureza possui fonte diversificada de sobrepor matizes até então irreconhecíveis. Um saber peregrino estabelece residência temporária em ânimos de ser caótico. Descreve coisas e sensações num vocabulário recém inventado. Os mundos da exceção descontinuam-se nos percursos de imprevisibilidade.

O ser desajustado se traduz em desrazão ao não encontrar meios para significar sua existência. A realidade com seu jeito, também inspira controvérsias. Os recantos desmerecidos procuram continuas com sua influência escondida. Interseção onde as interferências recíprocas descrevem as peripécias, um pouco antes de se adequar nalguma forma de normalidade.

As adições da crise colocam ênfase na emergência surreal de uma epistemologia descontinuada. Espécie de ficção em território próprio. Ímpetos de mudança desdobram-se na indeterminação das autonomias recém descobertas.

A aptidão de modificar a paisagem ao seu redor é uma das expressividades incompreendidas. Só fazem algum sentido, quando encontram um terapeuta inserido em aprendizagem com aspectos exilados de si mesmo. Para os desatinos do acaso e seus padrões fragmentados o futuro pode ser improvável.

Um desdobrar fugaz e irreconhecível ao estar fora de si. Intencionalidades se exercitam nos arcaicos presentes. Ao visar da razão indiferente, o existir difuso se anuncia em lógicas de incompreensão. Polissemia a ultrapassar ontem num hoje sem amanhã.

Os personagens da loucura protegem suas origens de maior intimidade. Circunstância onde a pessoa pode viver sem endereço definido. Referências marginais no excepcional mosaico das conexões de imprecisão aos devaneios.

Ao desvendar a matéria-prima do enlouquecimento, seus contrastes evidenciam coreografias de subversão ao descrever múltiplos estados de alma refugiados ano indizível da linguagem. A loucura permanece poesia maldita na invisibilidade de um (parênteses) existencial.

* Hélio Strassburger
Filósofo Clínico. Diretor Geral do Instituto Packter em Porto Alegre/RS. Coordena a Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG, Secretaria Municipal de Saúde Mental e ONG HI-VITA em São João del Rei/MG. Professor no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Abandono

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Muitas vezes só se percebe a sinceridade das criaturas na hora do sufoco. Elas correm e não é na tua direção!!!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

TE PERDÔO POR TE TRAIRES

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

A lavanderia manchou seu vestido, o computador novo apresentou defeito de fábrica, clonaram seu cartão de crédito, seu candidato não cumpriu as promessas de campanha, o gato do vizinho arranhou seu carro, você foi traido(a) por seu companheiro(a). Calma, não é seu dia de azar, são apenas exemplos para pensar se é fácil perdoar indiscriminadamente ou se algumas situações são mais graves que outras e por este motivo, não merecem perdão.

Seja honesto agora, você ficaria mais feliz se perdoasse, ou se pudesse se vingar para que sentissem a mesma ou ainda mais dor que lhe causaram?

Provavelmente a gênese da maioria das situações que envolvam perdoar ou não, está em promessas descumpridas. Amantes que fazem juras de amor eterno e depois descumprem, produtos e serviços que não correspondem ao anunciado , erros e falhas humanas, etc.

Mal intencionadas ou não, estas promessas descumpridas refletem a imperfeição humana. Não só dos outros, mas nossa também ao nos iludirmos, ao não compreendermos exatamente o que nos dizem, ao nos comportarmos diferente do esperado.

Sendo assim, a culpa pela traição é somente do traidor? Nem sempre. O traidor também pode ser a vítima. A primeira pessoa a se trair é sempre o próprio traidor, pois antes de ferir ao outro, está renegando uma promessa por ele feita. Está primeiramente traindo a si próprio. Outras vezes, a traição é a única ou a última alternativa que restou ao traidor para resolver determinada situação, pois a traição nem sempre é realizada somente por quem realizou o ato, atitudes inspiram atitudes, tanto para o bem, como para o mal.

Não estou defendendo a traição como solução final de problemas nem pregando a absolvição da mesma, apenas ponderando que a culpa pela traição necessariamente não é apenas do traidor. Chico Buarque de Holanda em um verso célebre já abordava a questão quando cantou “te perdôo por te traíres”.

Nem sempre temos uma parcela da culpa, mas é bom que façamos uma auto-critica antes de sairmos acusando. Colocar-se no lugar do outro , inverter os papéis, pode ser um bom exercício antes de qualquer julgamento precipitado.

Mas o que dizer do assaltante, do estelionatário, do estuprador? Vamos perdoa-los e assim seremos felizes? Não, perdoar não significa aceitar o comportamento que nos prejudicou, nem tampouco a renúncia aos valores violados. Perdoar não significa simplesmente, indulto, desculpa, remissão de pena. Perdoar é uma virtude. Não é somente dizer as palavras “Eu perdôo”, colocar o bandido atrás das grades, ou aceitar o(a) companheiro(a) de volta e esquecer tudo. Para perdoar é necessário paciência, tolerância, compaixão e tempo. Não estamos falando em tempo para esquecer. Perdoar e esquecer são coisas diferentes. Perdoar não é esquecer algo doloroso que aconteceu.

Ficar nutrindo rancor e desejando vingança é como tomar o veneno e esperar que o outro morra Perdoar é a decisão racional de se desvencilhar destes sentimentos nocivos, deixar de gastar energia e sofrer sobre coisas que não se pode mudar e não se tem poder. Liberar a dor, o ressentimento e a raiva que estavam sendo carregados como um fardo e que acabavam por ferir a própria pessoa. Mágoas envelhecidas transparecem no rosto e nos atos, acabando por moldar toda uma existência.

Perdoar é recuperar o poder, pois o que aconteceu deixa de ser relevante e não tem mais influência alguma. Perdoa-se também para manter viva a memória do mal praticado, como um sinal de advertência. Sem o perdão, a memória seria dolorosa, e por vezes insuportável. Pode-se até dizer que o perdão é a superação do passado em benefício do futuro. Resumindo, não se perdoa as pessoas porque isto fará bem a elas, mas porque fará bem a quem perdoou. Deixa-se de ser vítima.

Perdoar não é algo tão simples que possa partir de uma leitura, uma boa educação e uma predisposição por um mundo melhor.

Talvez os seres humanos esqueçam mais do que perdoem. Talvez os seres humanos perdoem a maioria das vezes por fraqueza do que por virtude. Talvez perdoar seja somente para os Deuses. Talvez pela falibilidade humana de uns e pela fraqueza e incapacidade de um perdão sincero de outros , não consigamos atingir a felicidade absoluta. Talvez ainda tenhamos muito que aprender em relação ao perdão, mas o único pecado sem perdão, certamente é pecar contra a esperança.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Blake, Bartók, altos, baixos...

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


William Blake, em The Marriage of Heaven and Hell, de 1790, explica em sua filosofia que temos no mundo os contrários, como o bem e o mal, como a alma e o corpo. O desenvolvimento está desenhado nesta dialética dos contrários e o progresso depende disso.

Em Filosofia Clínica, no consultório, uma das ocupações de um filósofo é esquadrinhar o modo como a pessoa está no mundo quanto a determinadas questões; entre elas, a Filosofia da Mente do indivíduo, que provavelmente é única para cada um.

Próximo ao entendimento de Blake, temos o movimento dos contrastes, das comparações, do ir e vir, das polarizações e outras conformações que usualmente aparecem em consultório pela maneira como cada pessoa estrutura e organiza sua mente.

Béla Bartók é um entre muitos exemplos. O que temos em Contrastes para clarineta, piano e violino, de 1938, aquela busca apurada pela alteridade do som, é parte disso. Também servem como exemplo aquelas dobras vertiginosas no Concerto para violino, pujante.

Podemos considerar que quanto menos colocarmos os tons intermediários, maior será o contraste. Ou será que estes tons que aparecem no meio é que servem de empuxo e carga para acentuar as extremidades?

É possível que prestando atenção a tais elementos se chegue a considerações curiosas sobre a vida, a existência, o mundo. Quem se estruturou existencialmente como Blake e Bartók para vivências do cotidiano, pode observar que muitos estão em uma curiosa faixa da existência.

Neste contexto que denominamos planeta Terra, os querubins, anjos, criaturas sublimes, conseguem transitar, aparentemente, não com a mesma facilidade com que criaturas velhacas, decaídas e podres do inferno também podem.

Se vivêssemos um pouco mais acima, na proximidade das nuvens, talvez as bestas e os imundos não tivessem como chegar e viveríamos apenas a delicadeza do violino de Bartók. Mas se vivêssemos um pouco mais abaixo, teríamos somente o lado da punctura do arco ferindo as quatro cordas do violino. Até o silêncio se pronunciaria em barulhos.

Eis que é então nesta faixa existencial que os indecentes e obscenos passeiam entre os bondosos e sossegados. Quando faltam os tons intermediários, podemos passar tão rapidamente de um elemento a outro que a confusão se instala. É o que pode ocorrer quando a paisagem bucólica é interrompida pelo estopim de uma bomba. Céu e inferno transitando pela mesma faixa.

Mas poderíamos falar em contraste aqui? Ou já estamos diante de uma mescla cuja combinação nos remete ao Impressionismo, a combinações nas quais não temos mais como conceber o contraste, mas sim a combinação? Em Blake, em Bartók, há combinações, há também contrastes.

Temos inúmeras facetas nesta questão, algumas que pedem tratados sobre o tema, pesquisas abertas sobre outros. Um exemplo: contrastes que não levam a sínteses, que não evoluem para além dos próprios contrastes.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Os filhos nossos de cada dia

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ
Primavera/2010


Hoje quero falar de filhos. Mas não importa muito a que filhos me refiro. Filhos podem ser de muitas naturezas. Podem ser tantas coisas... de infinitas e diferentes naturezas.

Quem sabe sejam aqueles sonhos que acalentamos, ou as nossas incertezas que nos perseguem, ou ainda nossas reflexões inusitadas e com um toque bizarro de surrealidade, ou a ocupação que nos consome e nos delicia; podem ser também aqueles que levamos no ventre físico ou do nosso coração.

São muitos os filhos dos partos diários que fazemos e que nos (pré) ocupamos em embalar. Esses partos podem ser fáceis ou podem acontecer mediante fórceps, mas ainda que isolados na condição pessoal de existir, o fato é que parimos um novo dia, a cada dia, a favor ou contra a corrente. Às vezes a existência parece ter uma respiração inexorável.

Dos filhos nascidos da união das sementes, houve um tempo em que os considerei a máxima do papel existencial, o fim último da existência. Não sei se ainda é assim... não que eu tenha mudado de opinião, não é bem isso, mas tenho a sensação de que os incorporo melhor a esse sentido de existência maior. Continuo achando-os uma missão suprema.

Parece-me que seja o lugar onde realmente se exerce melhor os atributos divinos. Digo divinos porque assim me parecem, como se algo transcendente, ao mesmo tempo mágico e simples, como um instinto básico que continuamente se revela.

Ser mãe ou pai não é padecer no paraíso; não é padecer em lugar algum. É um exercício de terapia cotidiano, onde as falsas ideologias não têm vez. Não dá para fazer de conta, não dá para viver eternamente de ilusões.

O que percebo é o quanto eles contribuem como seres independentes, íntegros, com suas singularidades próprias, para a qualidade do ser humano que cada um pretende fazer valer até quando as células tiverem disposição de se renovar. Há uma constatação de responsabilidade enorme, é certo... mas com prazer me dou conta igualmente da reciprocidade na qualificação da vida. Qualificação esta não necessariamente positiva, negativa, mista ou confusa, mas quem sabe múltipla em seus desdobramentos, como interseções que se renovam até mesmo em nossas entranhas.

Dos outros filhos (e cada um os conhece melhor do que ninguém), que se fale na medida do que representam. Na medida ínfima ou suprema da importância, valorativa ou não, que sobrevoa o movimento de cada um.

Cada qual conta a sua história; cada qual se reconhece na genética exposta de sua criação, como se espelhos fossem de nossas almas que, pouco a pouco, tornam-se translúcidas a quem nos dedica atenção.

Nesse sentido somos como que pais de nossos partilhantes, pois estes conosco dividem seus anseios e experiências e se constroem também com o que com eles dividimos. São a escuta dos filhos dos filhos de nossos filhos... em suma, o que realmente importa.

Enfim, nossos filhos podem ser um banquete de fortes emoções acompanhados de olheiras, embaraços e surpresas. Ou podem ter sentido inverso, torto, vazio... Dentro de nossas construções, erguemos verdadeiros monumentos ao inesperado, pelo menos algumas vezes para alguns. Acredito que muitas vezes para nós mesmos.

A tal existência inexorável pode ser um desatino, assim como criar filhos pode resultar num verdadeiro desastre. Mas, e daí? Onde está escrito que engravidar (pelos pensamentos), gerar (pela continuidade) ou dar a luz (pela experimentação) seja lá do que for, nos dá competência para exercer essa mater/pater(nidade)?

Estamos aqui por motivos diversos, cada um ao seu modo, cada modo ao seu jeito, cada jeito a sua realidade, nos moldando plasticamente à vida, exercendo ou não sobre ela algum poder. Nosso primeiro compromisso é com o que acreditamos, com o que nos faz filhos de nossas próprias intenções.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Cada vez mais a Filosofia Clínica

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Cada vez mais a Filosofia Clínica no meu ser terapeuta.

A liberdade de estar por inteiro com o outro a compartilhar as dores e amores.
O outro que chega... O amor que espera... O estar junto e escutar.

Não sei o que virá. Só sei que estou aberta ao compartilhar.
A historicidade vai tecendo a realidade, não importa se sonhada.
O exame categorial , no tempo, no espaço, nas circunstâncias vai traçando contorno de uma compreensão consciente do ser do outro que espera....

Delicadamente a estrututa de pensamento do partilhante se torna nítida.
E os submodos para com ele caminhar vai surgindo naturalmente.
Nesta jornada de compartilhamento eu e o outro vamos nos transformando.
Múltiplas autogenias.

Muitos me perguntam porque mais filosofia que psicologia. Não consigo ver o porque separar e definir espaços. A filosofia sempre foi mãe da psicologia. Mãe e filha não podem andar de mãos dadas em parceria?

Uma coisa muito importante é que a reflexão filosófica pode nos qualificar mais plenamente no ser estar consigo e com o outro mais conscientemente. O encontro com a filosofia pode nos auxiliar a ver a nós mesmos, o outro e o mundo por prismas ainda não pensados.

A Filosofia Clínica organiza, possibilita, abre novas formas de encontrar o outro e com ele caminhar na reconstrução do seu ser existencial de uma forma plena, livre e bela. Interessante que ela me proporcionou uma alegria amorosa maior de ser terapeuta.

Ela me libertou em poder encontrar o outro no jardim, no café, no espaço que a alma pedir. Ela me abriu para sair do consultório e encontrar no meio da vida o partilhante. Ela me permitiu chorar e rir junto sendo eu autenticamente com o outro. Mais que tudo ver a felicidade do outro se transformando e agindo no dia a dia com maior consciência. Os resultados surgem e isto sempre é muito bom.

Ah! Esta talvez seja uma confissão de amor, porém é mais que amor, é gratidão por ter encontrado este caminho de Luz/Consciência.