quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Amou uma vez e não separou mais

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

Depois de oito casamentos frustrados no currículo, a moça se entregou. Aceitou a sugestão de uma sábia amiga de que talvez na posição horizontal descobrisse as razões de tantas separações. Sim, na horizontal de um divã.

Ainda que suas experiências anteriores na investigação do inconsciente não tenham sido lá estas coisas, venceu a resistência e marcou hora com um renomado analista. Afinal, se as poucas terapias anteriores e todo investimento em cartomantes não tinham surtido efeito, então a aposta agora seria ainda mais alta, procuraria o ‘melhor’.

No dia marcado chegou quinze minutos antes do horário. Precisava observar com cuidado os detalhes do consultório. Sentou na antessala. Cruzou as pernas. Descruzou. Tornou a cruzar, e se percebeu ansiosa quando teve que conter a perna esquerda que balançava feito pêndulo no ar. Bobagem, pensou.

De que adianta tentar fazer gênero, se em questão de tempo aquele analista vai me decifrar inteiramente, feito raio-x. O pensamento aumentou a ansiedade. Pensou levantar, pegar a bolsa e alçar voo pela janela mesmo. Mas não. Lembrou a si mesma que era adulta, tentando então o autocontrole. Respirou fundo e mentalmente contou: um, dois, um, dois, um, dois...

O pensamento foi interrompido pelo som da maçaneta. Quando o terapeuta abriu a porta, não se conteve, foi involuntário espichar o olhar para dentro. O divã era perfeito, de veludo na cor fúcsia, com um encosto para a cabeça revestido por couro alemão com costuras duplas. Entrou apressada no consultório, e antes mesmo de apertar a mão do analista já estava deitada no divã.

Ao olhar para cima, a melhor das visões: bem sobre sua cabeça, suspenso por cabos de aço, pendia estrategicamente um belíssimo lustre de Murano. Não teve dúvidas. Era o cenário ideal para conhecer as razões insondáveis de seus fracassos afetivos. O analista? Ah pouco importava, seria um mago com visão de raio-X ou bola de cristal que lhe daria a receita mágica para solução de problemas.

Passados alguns meses de terapia, entendeu que não existia truque, nem magia e que a ânsia de tanto apostar em casamentos tinha lá suas razões mais profundas. E que sabê-las, algumas vezes, causava-lhe dor.

Certa vez, em uma consulta dolorida, dispersou o pensamento olhando para o lustre pendente sobre o divã. Primeiro achou-o parecido com aquele que teria despencado sobre a cabeça do segundo ou terceiro marido, e que foi razão da separação.

Em seguida fez uma associação. Cada vez que as constatações em consulta lhe causavam dor era como se o psiquiatra tivesse soltado o lustre sobre sua cabeça, dando uma pancada certeira em seus paradigmas.

Condescendente consigo, adequou seu discurso à sobrevivência na selva dos desencontros amorosos. Casamento passou a ser uma instituição falida, homens, em última análise, eram todos iguais e nenhum seria capaz de cumprir o estatuto do matrimônio idealizado por ela. Tinha um discurso moderno, sentia-se plena e socialmente ajustada.

A partir disso, andou pelo mundo, experimentou, observou, estudou, garimpou ideias, questionou, em síntese: viveu. O tempo passou e quando viu já passava dos 30 e alguns anos. Foi aqui que percebeu trazer na ponta da língua uma gamofobia [aversão a casamento] escancarada, engrossando o coro dos descasados que afirmavam: Partilhar de novo? Só se for essa fobia.

Não se sabe como, talvez pelos perfeitos acasos da vida, mas um belo dia um homem também gamofóbico cruzou seu caminho. Como ela, falava sobre as vantagens da liberdade, do descompromisso, do ir e vir sem fronteiras sem se fixar a ninguém, mas que dançar com ela tinha sido muito bom.

Cruzaram-se novamente e outra vez, e outras tantas. Ele comentava sobre sua ideologia política, das seriedades da vida, mas que ouvir as bobagens dela era uma forma de diversão. Argumentava sobre responsabilidades, direitos e deveres sociais, cidadania e tal, mas que as ideias dela tiravam a carga cinza das obrigações. Falava de suas viagens mundo afora, das inúmeras mulheres que teve, mas que transar com ela tinha todos os fundamentos da conjunção carnal.

Contava da experiência com o budismo, do tempo no templo, sublimando as falas e trocas alheias, mas que depois de ouvi-la, as conversas do par tornaram-se a verdadeira meditação. Reverenciava a individualidade, os limites intransponíveis de cada um, as horas que não deveriam ser estabelecidas, mas saber dela a todo instante já era um hábito difícil de controlar.

E a cada fala dele, ela retrucava com novas teses sobre sanidade, individualidade, inteligência emocional, repetição de comportamentos, novos padrões de relacionamento. E com o tempo o único consenso que não mais conseguiram chegar foi sobre gamofobia, pois já formavam um par.

Não o par que ela sonhara em seus casamentos anteriores, ou aquele descompromissado que discutia teorias gamofóbicas, sequer o outro que o terapeuta sugeriu nas entrelinhas, mas o par que era a soma de tudo isto e tantos outros aquilos de suas trajetórias individuais. Na verdade, eram dois pares de olhos que já haviam enxergado as dores do coração, e que finalmente o amor fez fixar.

Estão juntos. E sempre que ela se apropria da felicidade do amor, ri quando lembra que alguns créditos vão para um lustre de Murano sobre um divã.

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