terça-feira, 9 de novembro de 2010

Autogenia

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

Mudanças ocorrem devido a diversos fatores. Comumente pessoas resolvem dar novos rumos às suas vidas quando algo em especial acontece. Desilusão amorosa, traição, desemprego repentino, morte de alguém próximo, uma catástrofe, aparecimento de um grande amor, dentre tantos outros motivos, são o estopim final para que uma vida tome novos rumos.

Alguns acontecem da noite para o dia. Em instantes uma pessoa se torna quase irreconhecível. Em outros casos, a pessoa levará anos para mudar. Em outros ainda, passam a vida inteira querendo mudar sem que nada de fato aconteça.

Há casos em que uma pessoa se volte para a religião após a morte de um amigo. A lógica das coisas poderia servir para criticar a nova conduta devido ao fato de algo não ter, de certo ponto de vista, nada a ver com outro. Cogitar a possibilidade de que uma pessoa resolva pensar a própria vida e a postura diante dela depois a morte de outrem pode ser confuso para alguns e claro para outros.

Há situações em que, depois de sofrer vários contratempos devido a alguma conduta que acompanha a pessoa desde que se reconhece por gente, a leve a querer sair dessa situação. Mesmo que o último caso não tenha lhe causado o mal maior em relação aos passados, é o suficiente para que tome uma resolução na vida.

Encontra-se pessoas ainda que passam por vários momentos de angústia. E elencam vários motivos que as mantenham na angústia, sem, no entanto, dar a elas o peso necessário para as considerarem causas da angústia. Mas, em algum momento resolvem que não mais devem sofrer. Que possuem motivos para continuar a vida e elencam uma série de motivos para continuar.

O interessante é que do mesmo modo que fundamentavam as situações da vida para manter na angústia, o fizeram para sustentar uma postura de alegria, sem que estas sejam a causa dessa mudança.

Há casos de pessoas que durante os anos que as levaram até a juventude, mantiveram uma postura socialmente correta. Mas, em algum momento, resolvem dar um novo rumo à vida. Reconhecem que algumas de suas escolhas são consideradas excêntricas, no entanto, resolvem levá-las até o fim. E, a custo de sofrer com a discriminação da sociedade, vivem aquilo que consideram algo que corresponda a sua essência.

Os casos se multiplicam tanto quantas são as pessoas. Aqui para ilustrar foram apresentados alguns casos genéricos, mas correspondentes à realidade. O que se pode ver é a dificuldade de se julgar ou dar um diagnóstico da causa de tais autogenias.

Na maioria dos casos é possível encontrar os vestígios causais de tais mudanças na Estrutura de Pensamento após colher sua historicidade. Em outros casos, talvez nunca se saberá de fato o que ocasionou essas mudanças.

O mistério da vida mais uma vez se manifesta. Os filósofos clínicos continuarão a contemplar essas riquezas da humanidade, seguros de que seu trabalho é fazer com que a existência humana continue a fluir, intervindo quando solicitado por um partilhante.

Ciente, entretanto, de que seu serviço é encontrar no sujeito as ferramentas próprias para sua mudança. E que jamais conseguirá dar conta de compreender as nuanças existenciais num todo.

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