quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Importa ser?

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Quem você é? Quem sou eu? São nossas histórias e narrativas que vão tecendo nossa identidade.
Para além do que respondemos estão nossos gestos, a maneira como falamos, a nossa roupa e muitos outros detalhes que fazem a diferença, e podem parecer que passam despercebidos, mas estão presentes o tempo todo.

Nosso ser, o meu ser,dizem muito do espaço que ocupamos dentro da sociedade e do nosso lugar na relação com os outros. Pode parecer que somos adivinhos ao tentar dizer"quem é você", apenas nos esquecemos que comunicamos o tempo todo nossa identidade pelos pequenos gestos repetitivos.

Craig Scott nos lembra: "É através da comunicação com os outros que expressamos nosso sentido de vínculo, pertencimento (ou falta dele) em relação às várias coletividades. É também pela comunicação que temos acesso à imagem dessas coletividades, que as identidades podem ser conhecidas por nós, e que as vantagens e desvantagens de se ter uma identidade são reveladas".

Quem penso que sou? Quem você pensa que é? São perguntas que nos embaraçam muitas vezes. Decidir quem somos implica em escolher quais são nossas fronteiras.

Sá Martinho escreve: "você existe em uma história-é o caso de saber por quanto tempo esse seu " eu" de hoje vai durar. Nem sempre se é a mesma pessoa. Quando, em algumas ocasiōes se faz algo pela primeira vez, se descobre capaz de algo novo, imediatamente seu conceito a respeito de si mesmo muda. Em um minuto passado somada às características adquiridas no presente, e, portanto, você é outra pessoa. Mas ainda é a mesma. Paradoxal".

Somos mutáveis. Aprendizes e desaprendizes (se esta palavra não existe, será bom entrar no dicionário, pois a borracha abre a novas possibilidades).

Ah! Estou sentada à sombra da mangueira. Os pássaros cantam sem parar. Pés na grama.
Sou agora um simples animal pensante em comunhão com este amanhecer. O tucano me olha e eu o admiro.

Invejo os pássaros. Lembro do texto, que li ontem, de José Castelo, citando Alberto Manguel: "Escrever é uma forma de silêncio, de não falar, de cortar o vôo das palavras. O escrever, é uma forma de ameaça com o que não se pronuncia em voz alta, com a sombra das letras nos atormentando entre as linhas".

Se me perguntarem agora quem sou eu, responderei que agora não sou, estou. Ser ou não ser pouco me importa neste momento sublime de existir em comunhão.

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