segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O feitiço da palavra*

"Linguagem viva, como acentuam os lingüistas,
é aquela na qual você ainda pode cometer erros.
Linguagem perfeita é a que está morta. Nem se modifica, nem hesita. (...)
Tudo se desmonta constantemente e volta a se reagrupar."

Jean-Claude Carrière


A expressão do existir constitui-se pelos caminhos às origens do ser. Lugar onde os segredos se oferecem nas entrelinhas de um sacrilégio a desvendar escolhas. Violação da expectativa em preparação à escuta das originalidades.

Uma hermenêutica dessas singularidades localiza-se em si mesma. Investigação da vontade estruturada nas representações da palavra. Deliberadamente, o esforço epistemológico procura entender essas manifestações a partir das equivocidades do próprio olhar. Espécie distorcida de interação, onde a pessoa constitui-se em reflexo das alteradas percepções.

Schopenhauer elabora tal desmedida: "(...) eis por que o gênio vê tudo acima de qualquer medida, vê em toda parte o extremo, e justamente por isso seu comportamento incorre no extremo: ele não acerta na medida correta, falta-lhe placidez, e suas ações, pontuadas por extravagâncias, se assemelham à loucura."

O compartilhar pode ser um caminho ao esboço das conjecturas. Descortinar-se dos enigmas em tímido aparecimento. Lugar para compreender os signos por entre o caos aparente das intencionalidades. Momentos de diálogo entre a solução e suas interrogações.

Universos pessoais costumam escolher a literalidade ou o hermetismo das simbologias para revelar íntimas divergências. As narrativas podem revelar incógnitas contidas na estrutura das palavras. Contextos não manipulados das pessoais traduções costumam preservar as melhores versões. Ponto de partida ao entendimento da alma em desdobramentos de projeto.

Trata-se de encontrar caminhos de desbloqueio entre os espessos muros a separar idéias de suas cotidianas possibilidades. Encontros com a voz própria do dizer-se por essas lógicas da descontinuidade.

Um cuidado cerimonial deve ser concedido para com as instâncias da singularidade do outro. Interseções com mundos em (re)significação através dos ensaios do dizer. Busca dos entendimentos em sentidos de (re)significar-se. Por esses provisórios instantes a vida se elabora. Afirma-se em direção aos (re)equilíbrios.

Aspectos de uma ficção podem ordenar-se às percepções do falar. Incomunicáveis delírios em processo de objetivação. Linguagem das recordações mais íntimas. Autonomia da vontade em exercício nos códigos de acesso às lonjuras da alma. Magia do dizer-se na relação cúmplice dos encontros.

Palavras podem estabelecer vínculos de aproximação ou distanciamento entre as pessoas. No vir-a-ser da terapia costumam aparecer quase no mesmo instante do surgimento das idéias. Dialética dos signos no devir impróprio da voz. Caminho muitas vezes intransponível às singulares decifrações, não fora o dizer-se das sessões. Um relembrar ao espanto em olhares no espelho desajustado da epistemologia.

O poetar reflexivo de Clarice Lispector assim se expressa: "Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras - quais ? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no fundo do poço."

Os discursos costumam trazer muitas informações. Esboço a antecipar formas para a objetivação do ser. Perspectivas em relação com uma só narrativa. Enigmas contidos nos desdobramentos das falas. Feitiço da alma ao encontro daquilo ainda sem meios para se expressar.

Manifestação das obras de arte da existência no processo tênue das conversações. Desdobramentos de vida e morte. Renascimento ao contar-se das historicidades e (re)significações. Utopia para compartilhadas traduções.

Asserções em forma de promessas constituem a pessoa no rascunho das intencionalidades. Preliminares desarticulações podem antecipar rupturas à qualificação existencial. Natureza das primitivas essências em revelação no sujeito.

Linguagem de estranha magia a refletir-se nas escutas, muitas vezes à margem de qualquer escolha. Diálogo absurdo entre a natureza do imaginário e suas buscas na estrutura do dizer.

Derrida ao relembrar Aristóteles, destaca serem os sons emitidos pela voz os símbolos dos estados da alma, e as palavras escritas, os símbolos das palavras emitidas pela voz.

Sussurros de acomodação com essa condição mutante. Encontros com as janelas lacradas pelo desatino de não poder contar-se. Portal à contemplação ativa de si mesmo. Ciência das compartilhadas reflexões.

Indescritíveis energias preferem o esboço tênue das recordações. Códigos para adequar essas dinâmicas da existência. Ensaio das semioses em secretas orações. Discurso sem voz das interioridades. Transformação nos encontros da terapia. Imensidão dessas falas mal ditas.

A alam pode elaborar-se com a percepção das próprias simbologias. Compreensão a natureza humana nos jardins da espécie. Escolhas efetuadas no desacordo das alternativas. As imagens mentais alternam-se no discurso das intencionalidades.

As estéticas da objetivação possuem estranhas articulações em suas origens. Rituais ao entendimento das múltiplas formas às narrativas da vontade. Aproximações com fantasia de aparência distante. Enigmas às escutas apressadas em miragens de superfície.

Mircea Eliade descreve: "a narração de um mito não é sem consequência para aquele que o recita ou para aqueles que o ouvem. Pelo simples fato da narração de um mito, o tempo profano é - pelo menos simbolicamente - abolido: narrador e auditório são projetados num tempo sagrado e mítico."

Nesse sentido se oferece uma dinâmica das falas. Possuem disposição própria em uma lógica nem sempre acessível ao olhar distanciado das singularidades. Estrutura de uma dialética ao não-dizer contido no dizer.

Realizar esse diálogo da anterioridade das idéias, sua formulação como pensamento e a objetividade do compartilhar, mostra-se como um desafio em reconstrução. As dificuldades costumam surgir quando esse caminho encontra-se bloqueado.

Acessar as fontes do conhecer na estrutura da linguagem constitui-se em aproximação para com as transformações. Momentos de relação com os fenômenos em suas desestruturas discursivas. Confissão não declarada pela direção de aparente sem rumo da associação de idéias. Acesso às descoebrtas no próprio ser em aventuras de narrativa.

É na interseção da terapia que a essência da (des)razão pode encontrar-se com seus cotidianos vínculos. Conversação com as utopias em fase de não-ser. Juízos sem juízo ao emancipar-se das falas. Conexão com aspectos indivisíveis da pessoa nos ensaios da terapia. Instância de integração desses conteúdos em seus vínculos de interioridade. Paradoxo da realidade da alma em diversas faces. Exclusão aparente de aspectos da mesma natureza.

A vida insinua-se na alquimia silenciosa das palavras. Expressão dos desejos em múltiplos aspectos. Desígnios de infidelidade ao calar mais íntimo. Característica desses discursos inconclusos da existência.

*Hélio Strassburger. Filósofo Clínico. Professor em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Diretor Geral do Instituto Packter. Coordenador da Filosofia Clínica na Secretaria Municipal de Saúde Mental e ONH HI-VITA em São João del Rei/MG. Coordenador da Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG. Supervisiona a Filosofia Clínica no Museu do Inconsciente no Rio de Janeiro. Acompanha e colabora com a atividade de Filósofos Clínicos em dezenas de ONG`s, PSF`s, residências terapêuticas e hospitais psiquiátricos no Brasil.

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