terça-feira, 2 de novembro de 2010

Os filhos nossos de cada dia

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ
Primavera/2010


Hoje quero falar de filhos. Mas não importa muito a que filhos me refiro. Filhos podem ser de muitas naturezas. Podem ser tantas coisas... de infinitas e diferentes naturezas.

Quem sabe sejam aqueles sonhos que acalentamos, ou as nossas incertezas que nos perseguem, ou ainda nossas reflexões inusitadas e com um toque bizarro de surrealidade, ou a ocupação que nos consome e nos delicia; podem ser também aqueles que levamos no ventre físico ou do nosso coração.

São muitos os filhos dos partos diários que fazemos e que nos (pré) ocupamos em embalar. Esses partos podem ser fáceis ou podem acontecer mediante fórceps, mas ainda que isolados na condição pessoal de existir, o fato é que parimos um novo dia, a cada dia, a favor ou contra a corrente. Às vezes a existência parece ter uma respiração inexorável.

Dos filhos nascidos da união das sementes, houve um tempo em que os considerei a máxima do papel existencial, o fim último da existência. Não sei se ainda é assim... não que eu tenha mudado de opinião, não é bem isso, mas tenho a sensação de que os incorporo melhor a esse sentido de existência maior. Continuo achando-os uma missão suprema.

Parece-me que seja o lugar onde realmente se exerce melhor os atributos divinos. Digo divinos porque assim me parecem, como se algo transcendente, ao mesmo tempo mágico e simples, como um instinto básico que continuamente se revela.

Ser mãe ou pai não é padecer no paraíso; não é padecer em lugar algum. É um exercício de terapia cotidiano, onde as falsas ideologias não têm vez. Não dá para fazer de conta, não dá para viver eternamente de ilusões.

O que percebo é o quanto eles contribuem como seres independentes, íntegros, com suas singularidades próprias, para a qualidade do ser humano que cada um pretende fazer valer até quando as células tiverem disposição de se renovar. Há uma constatação de responsabilidade enorme, é certo... mas com prazer me dou conta igualmente da reciprocidade na qualificação da vida. Qualificação esta não necessariamente positiva, negativa, mista ou confusa, mas quem sabe múltipla em seus desdobramentos, como interseções que se renovam até mesmo em nossas entranhas.

Dos outros filhos (e cada um os conhece melhor do que ninguém), que se fale na medida do que representam. Na medida ínfima ou suprema da importância, valorativa ou não, que sobrevoa o movimento de cada um.

Cada qual conta a sua história; cada qual se reconhece na genética exposta de sua criação, como se espelhos fossem de nossas almas que, pouco a pouco, tornam-se translúcidas a quem nos dedica atenção.

Nesse sentido somos como que pais de nossos partilhantes, pois estes conosco dividem seus anseios e experiências e se constroem também com o que com eles dividimos. São a escuta dos filhos dos filhos de nossos filhos... em suma, o que realmente importa.

Enfim, nossos filhos podem ser um banquete de fortes emoções acompanhados de olheiras, embaraços e surpresas. Ou podem ter sentido inverso, torto, vazio... Dentro de nossas construções, erguemos verdadeiros monumentos ao inesperado, pelo menos algumas vezes para alguns. Acredito que muitas vezes para nós mesmos.

A tal existência inexorável pode ser um desatino, assim como criar filhos pode resultar num verdadeiro desastre. Mas, e daí? Onde está escrito que engravidar (pelos pensamentos), gerar (pela continuidade) ou dar a luz (pela experimentação) seja lá do que for, nos dá competência para exercer essa mater/pater(nidade)?

Estamos aqui por motivos diversos, cada um ao seu modo, cada modo ao seu jeito, cada jeito a sua realidade, nos moldando plasticamente à vida, exercendo ou não sobre ela algum poder. Nosso primeiro compromisso é com o que acreditamos, com o que nos faz filhos de nossas próprias intenções.

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