sábado, 4 de dezembro de 2010

A ALIANÇA E O COMPROMISSO*

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Antes de colocar esta aliança em tua mão, preciso te contar algumas coisas sobre meu passado e nosso futuro.

A aliança funciona como um símbolo de compromisso do casal, uma representação visível de algo invisível, mas muito real, o nosso amor. O casamento civil também é uma maneira de materializar o compromisso, noivos e testemunhas assinam o documento.

De uma forma ou outra, ambos servem para representar esta relação com o transcendente. E por serem visíveis, concretos, reconhecidos publicamente, por vezes acabam por colocar em segundo plano o que foi a sua origem: o compromisso por amor e para amar.

Mas que compromisso é esse? Vou te dizer o que significa para mim e se concordares, gostaria de poder vestir esta aliança em nossas mãos com a excitação que este momento pede e com a tranquilidade de saber que esta troca está acontecendo contigo. O compromisso é simples, exige apenas dedicação para termos a cada dia, a certeza da escolha de estarmos verdadeiramente juntos.

Para evitar confusões, sugiro que nosso compromisso seja visível e palpável. Faremos um contrato, mas será escrito em braile. Cada vez que nossas mãos se tocarem escreveremos uma palavra; quando meu braço envolver tua cintura será uma frase; acariciar teu pescoço significará um parágrafo. O beijo será nossa assinatura.

Palavras não serão necessárias, gestos e atitudes darão validade ao contrato, que assim escrito dificilmente terminará nos tribunais. A aliança de ouro branco apenas simbolizará a preciosidade de uma relação que sonha ultrapassar o tempo e se manter fiel ao que agora sentimos um pelo outro.

Pode parecer bobagem ou caretice, mas é assim que imagino nós dois no futuro. Será que conseguiremos? Quero antecipar a resposta. Algumas coisas me dizem que sim. Tornamo-nos aprendizes um do outro, nossas diferenças ao invés de atrapalhar, transformaram-se em ganhos.

Tornou-se fácil olhar atentamente para ti, respeitar o tempo, questionar a dúvida, dividir os sonhos, incitar o encantamento. Devagar, sutilmente, através do toque fizemos a leitura um do outro e nos traduzimos. Hoje já consigo ler em ti muito daquilo que vai em mim. Sinto que estamos nos tornando cúmplices no desejo e na forma. A nossa forma impar de ser um par.

Em um mundo de incertezas, riscos, descrédito, separações, o fato de juntarmos nossas fichas nesta aposta é um bom começo. Sugiro ter na aposta a primeira cláusula do nosso contrato. Qual a segurança que teremos? Não sei, mas se mantivermos a aliança formada pelo abraço de nossos corpos, a franqueza de nossas conversas e a confiança mútua, nossas chances são grandes. Apesar do trocadilho, o sucesso desta aliança está exclusivamente em nossas mãos.

Mais ainda, além de celebrarmos tátil e emocionalmente este contrato, podemos ser também as testemunhas. Que cada um saiba que terá no outro a validação de seus atos, desejos, inseguranças, alegrias...Já pensou? Seremos testemunhas da vida do outro. E cúmplices também. E amantes, é claro.


* Antes que me perguntem, vou antecipar. Escrevi este artigo na solidão de um quarto de hotel, enquanto pensava nos casamentos fugazes e descartáveis que costumam acontecer em Las Vegas e ao redor do mundo. Coloquei então no papel aquilo que gostaria de dizer, sentir e ouvir no momento de assumir um compromisso de amor, mas achei que não era a hora de publicar.

Guardei o artigo com a convicção de que um dia encontraria a pessoa para a qual aquelas palavras estavam destinadas e a ela entregaria, em primeira mão, a proposta do “nosso compromisso”. Foi uma sábia escolha. Ela diz que preferiu ouvir a ler. Confesso também que foi mais fácil falar que escrever. Quem é ela? Aqui pouco importa. Os símbolos é que são colocados para serem vistos por todos, o compromisso é só entre nós dois.

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