domingo, 5 de dezembro de 2010

Despir-se de si

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ


Não fazer do mundo uma extensão de minhas interpretações. Este é um imperativo intrínseco à Filosofia Clinica. Não vamos encontrar isso nos cadernos de estudos nem nas aulas. Isso é um aprendizado da prática.

Compreender a Filosofia Clinica na prática é admirar o mundo, as pessoas, as coisas, as situações, sem querer dar a nossa solução ou interpretação para tudo.

A Filosofia Clinica nos ensina como as pessoas podem nos falar de si mesmas. Sem interpretá-las, nós aprendemos delas sobre elas. Reconhecemos diretamente da fonte. Interpretações são secundárias. Afinal é melhor ler uma obra do que o comentador dela.

Entrar no universo significativo do outro é abandonar, por momentos, meu próprio universo, ainda que em parte. A recíproca de inversão, ato de ir ao mundo significativo do outro, é um exercício nem sempre tão fácil.

As significações são tantas, e algumas podem nos confrontar com valores e modos de viver totalmente opostos aos nossos. Do mesmo modo outro risco pode surgir com a identificação com o mundo do outro, a ponto de chegar a esquecer de continuar aprofundando no que ele diz, e acabar por ficar inversivo, buscando em si e não no partilhante, as respostas para as questões existenciais dele.

A clínica filosófica é um desafio. Não se encontram outros meios para resolver as questões existenciais do outro do que nele mesmo. Não há livros com respostas ou lista de diagnósticos possíveis. Cada partilhante é um caso a ser diagnosticado, sem precedentes.

As seguranças são deixadas de lado. Tira-se a sandália dos pés para adentrar no solo sagrado que é o outro. Não há nada prévio a não ser o fato de o partilhante estar em busca de algum tipo de ajuda, o que também pode não acontecer. A partir daí, tudo é surpresa e novidade.

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