segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O mundo dos outros

Hélio Strassburger
Filósofo Clínico


É comum não se dar conta dalgum refúgio amistoso, um lugar agradável para se viver. Em muitos casos só bem depois de ter partido é que se consegue algum vislumbre sobre a arqueologia dos escombros.

O esboço sobre as recorrências do acaso tenta perseguir aquilo que ficou pelo caminho. Até parece querer traduzir rascunhos sobre as recordações da noite.

A aventura criativa da página vazia aponta buscas pelo inusitado aprendiz. A lógica das vontades interditadas não reconhece a luz do dia como única verdade. Os devaneios e as paixões, no entanto, não querem subverter o conforto da vida como ela é. Propõe deixar tudo como está e ser contraponto aos discursos apreciáveis.

O ir e vir por essas poéticas do silêncio revela um andarilho dos contornos. Quase indizível a se oferecer num rumo indefinido. Interação com fenômenos nem sempre traduzíveis pela palavra conhecida. Nesse contato sutil da idéia com a realidade lá fora, muita coisa se refugia noutras possibilidades. Muitas delas tão próximas da alma de brisa leve.

Como intenção proscrita a nomenclatura oficial, as expressividades afins refazem o mundo a margem das ditaduras de sentido único.

Na representação de Eric Landowski: “Visitante por princípio respeitador dos equilíbrios que fundam a especificidade de um lugar ou de um meio estrangeiros, ele rejeita a idéia de os perturbar por sua presença ou sua ação. As paisagens que ele admira, tal como os espaços sociais, secretam cada um, ele o sabe, sua temporalidade própria para quem os sabe ‘ler’.”

Aqui se trata de uma fantasia muito próxima dos fatos que a alimentam. Os projetos fracassados elaboram colagens noutras perspectivas. Apreciam fazer referência ao coringa invisível a se colocar no lugar qualquer de quase tudo.

Os feitos de causa perdida possuem rosto e singularidade, sua contradição essencial prossegue a elaborar inéditos, apesar dos pátios fechados onde foram se desenvolvendo. Elaboram um enredo imprevisível a perseguir a vida que o inspira.

Num contexto repleto de cópias, não é incomum esse abrigo de originalidades surgir como in-sano. Algo para ser tratado e reconvertido ao mundo dos outros. Seus indícios e sinais costumam ser despercebidos pelo olhar bem educado, acostumado a enxergar velhos muros como intransponíveis, querer explicar os sonhos ao invés de vivenciá-los. Sem falar no princípio da autoridade hermenêutica, a fazer referência nas preliminares sobre a melhor versão daquilo por vir.

Para a poética de André Comte-Sponville é assim: “(...) porque o real excede em toda parte o pouco dele que podemos pensar! Mais uma razão para não nos contentarmos com pensar e para aprender a ver, isto é, a se entregar, silenciosamente, à inesgotável simplicidade do devir.”

É possível vislumbrar esse vocabulário nas entrelinhas e à espera de algum flagrante. Ele aprecia se mostrar onde menos se espera. Possui ângulos incríveis para insinuar coincidências. Seu jeito de querer ser também se oferece na indecisão do minuto fugaz.

Nem sempre se pode descrever o viés ainda sem palavra. O socorro da esteticidade talvez possa realizar conversações de ontem com amanhã, sem desmerecer a eternidade agora. Todavia o existir relacionado ao movimento introspectivo, se orienta no vaivém das suas contradições, onde um alimenta o outro em busca de um lugar ao sol.

Mesmo quando o nunca visto se mostre esquisito, é possível elaborar aproximações, diálogos, tratativas. Não permitir um movimento de repúdio por não ter um sentido palpável sob as mãos.

Compartilhar exercícios de tolerância e aprendizado com as realidades delirantes pode, inclusive, garantir algum lugar para o normal de hoje, quando os ventos mudarem a geografia das verdades.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XVII*

"Os dispositivos de produção de subjetividade podem existir em escala de megalópoles assim como em escala dos jogos de linguagem de um indivíduo. Para apreender os recursos íntimos dessa produção - essas rupturas de sentido autofundadoras de existência -, a poesia, atualmente, talvez tenha mais a nos ensinar do que as ciências econômicas, as ciências humanas e a psicanálise reunidas!"

"(...) cabe-nos redescobrir uma forma de ser do ser, antes, depois, aqui e em toda parte, sem ser entretanto idêntico a si mesmo; um ser processual, polifônico, singularizável, de texturas infinitamente complexificáveis, ao sabor das velocidades infinitas que animam suas composições virtuais."

"Uma pessoa que, há semanas, me repetia sempre as mesmas coisas, executa algo na cena da análise que transforma todas as suas coordenadas, suas referências, e engendra novas linhas de possível."

"A existência de estases caósmicas não é absolutamente privilégio da psicopatologia. Encontrar-se-ia sua presença no interior de uma filosofia como a de Pascal ou mesmo de autores os mais racionalistas."

"É evidente que a arte não detém o monopólio da criação, mas ela leva ao ponto extremo uma capacidade de invenção de coordenadas mutantes, e engendramento de qualidades de ser inéditas, jamais vistas, jamais pensadas. O limiar decisivo de constituição desse novo paradigma estético reside na aptidão desses processos de criação para se auto-afirmar como fonte existencial, como máquina auto-poiética."

"O mundo não muda mais de dez em dez anos, mas de ano em ano."

*Félix Guattari

sábado, 29 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XVI*

"Ora, a sabedoria outra coisa não é que essa simplicidade de viver. Se é preciso filosofar, é para redescobrir essa simplicidade."

"Não há pergunta, e é por isso que a resposta é sim: é o próprio mundo. Os mistérios estão em nós, em nós os problemas e as perguntas. O mundo é simples porque é a única resposta às perguntas que ele não se faz: simples como a rosa ou o silêncio."

"A palavra só me interessa quando é o contrário de uma proteção: um risco, uma abertura, uma confissão, uma confidência. Gosto de que falem como quem se despe, não para se mostrar, como crêem os exibicionistas, mas para parar de se esconder."

"A vida verdadeira é quase sempre uma ressurreição."

"Mais solidão também é mais liberdade, possibilidades, imprevisto. Numa grande cidade, ninguém conhece você, e isso diz a verdade da sociedade e do mundo: a indiferença, a justaposição dos egoísmos, o acaso dos encontros, o milagre, às vezes, dos amores..."

"A filosofia é a alvorada sempre recomeçada do pensamento, que não pára de se alçar - brilho pálido da razão! - do fundo de nossos crepúsculos."

* André Comte-Sponville

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Convite especial:

Amanhã tem Mônica Aiub em Juiz de Fora!

Convidamos os colegas, alunos e demais interessados no tema Filosofia Clínica, a prestigiar o lançamento de sua última obra e as conversações sobre Filosofia Clínica e Filosofia da Mente.

O evento acontece das 9hs-12hs e das 14hs-17hs na Livraria Paulus, Av. Rio Branco, 2590 - Centro de Juiz de Fora/MG. Fone: 032.3215-2160.

Um abraço fraterno,

Coordenação
Ao sabor das marés

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Minha intenção é dizer, que não tive a intenção. Com que facilidade se rasgam os bons dias! Tua estratégia de uma pseudosignificação equivocada te condena. Tuas palavras frias vem de tua alma decrepta.

Um dia por mais que tudo se esconda o mar traz a superficie os cadáveres podres, malcheiro em praias paradisíacas.

Urubus fazem ronda e limpeza, tudo volta a brilhar ao sol na intenção de vida nova. Com o tempo ao sabor das marés, aprendemos a distinguir boas ondas que batem em nossa enseada.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Dédalo

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Talvez você nunca ouviu falar nada ou quase nada sobre Dédalo. E se eu colocasse o nome do artigo de Ícaro, tenho a impressão que mais pessoas conheceriam o assunto.

Ícaro é o filho de Dédalo, um artesão famoso, patrono dos técnicos na Grécia Antiga. Dédalo colocou em seu filho Ícaro asas feitas de cera de abelhas e penas de gaivotas para que ele e seu filho pudessem fugir da Ilha de Creta e escapar do labirinto onde estava o Minotauro, aquele metade homem metade touro, e que se alimentava de carne de jovens atenienses.

Dédalo foi o inventor das asas que os libertaram da ilha prisão e ao colocar as asas em seu filho Ícaro alertou, ou melhor, aconselhou “filho, voe moderadamente. Não voe alto se não o sol derreterá a cera e você cairá. Não voe muito baixo se não as ondas do mar o apanharão ou então a umidade pesará suas penas e você não chegará ao destino”.

Dédalo voou moderadamente e chegou ao destino, mas viu seu filho Ícaro em êxtase, deslumbrado com a invenção e quanto mais alto ele voava se exibindo, mais a cera derretia. Resultado, a cera derreteu totalmente e Ícaro caiu no mar.

Essa história faz parte da mitologia grega e minha intenção como filósofo clínico é instigar seu raciocínio perguntando: por que fala-se mais de Ícaro do que de Dédalo? Por que se fala tanto da queda e pouco se fala do sucesso de Dédalo que voou moderadamente e chegou são e salvo ao seu destino?

Fala-se muito mais de Ícaro que deixa parecer que a responsabilidade da queda foi atribuída às asas feitas por seu pai, e alguns chegar a por a culpa em seu pai.

Outra linha de pensamento é que algumas pessoas são advertidas pelos mais velhos ou por profissionais experientes a seguirem sua jornada mais devagar, sem se deslumbrar.

Será que há necessidade de voar tão alto? Quantas vezes ouvimos isso dos mais velhos? E muitos de nós acabamos nos afogando no Egeu como Ícaro.

Penso que um grande número de pessoas, principalmente aquelas que estão na corrida do ouro, provavelmente estão se afastando tanto da sua essência, da sua estrutura do pensamento, que dificilmente acharão o caminho de volta sozinhas.

Às vezes me pego correndo, voando veloz e alto e me pergunto, correr tanto para que? Vejo as laranjeiras com seus frutos verdes e de nada adianta eu pedir para eles madurarem mais rápido, eles vão seguir sua jornada e um dia eles estarão prontos, chegarão ao destino...

Ansiedade, stress, estafa, depressão, fobias e outras questões do mundo moderno talvez poderiam ser evitadas apenas seguindo sua jornada natural, como Dédalo, moderadamente, sem euforia, sem êxtase, sem correria...

Estamos correndo tanto para chegar aonde? Você sabe?

Isso é apenas para mim. E para você?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Agendamentos

Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei/MG


Montanha de Minas

Mata virgem

Casarão no pé da montanha

Paredes branco gasto

Janelas azul tempo

Portas de madeira com borrões

Muro de pedras e plantas

Portões de ferro preto

À esquerda

Senzala

Cacos de paredes

Telhado demolido

Degraus de pedra

Colunas de madeira

Argolas de ferro

Lugar de nego fujão

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Eternidade ou infinito?

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Vira e mexe a humanidade se ocupa de algum modismo. Uma das ondas da hora é a gestão do tempo. Nos últimos anos, distribuir adequadamente as atividades durante o dia constitui uma espécie de diferencial competitivo no trabalho e na vida.

É de bom tom que o sujeito tenha tempo para o trabalho, para a família, para os amigos, para o cachorro, para a prática de algum exercício físico, para o cinema, etc, etc, etc...

Existem até consultorias especializadas em ensinar como organizar melhor o tempo. As dicas são diversas. Algumas inclusive bastante óbvias, como prever imprevistos (ótimo isso) e deixar “janelas” de horário entre um compromisso e outro.

Outras são mais exóticas, como realizar reuniões de pé, de forma que o cansaço físico faça o cérebro tomar decisões mais aceleradamente. Tempo é dinheiro, não é mesmo?

Por mais competentes e criativos que os ‘consultores do tempo’ sejam, a ditadura do relógio e do calendário é fato. Ninguém discute que sessenta segundos fazem um minuto, que sessenta minutos fazem uma hora, que 24 horas fazem um dia, que 28/30 ou 31 dias fazem um mês e que 12 meses fazem um ano. A propósito, quantos anos são necessários pra compor uma vida de verdade, que valha a pena?

Calendários, relógios e agendas são sinônimo de rotina e é a partir dela que se planeja bem o tempo. A rotina, aqui, está entendida como método, disciplina, o que endossa o trabalho dos especialistas quando dizem que não importa se são muitas as coisas a serem feitas, porque o dia só tem 24 horas e com um mínimo de organização é possível fazer tudo que é necessário e um pouco mais!

Acho isso lindo. Pessoas disciplinadas, organizadas, com seus dias milimetricamente calculados despertam em mim a mais profunda admiração. Se eu tivesse que funcionar assim, junto com o consultor de tempo teria que contratar um consultor de tédio.

Será que existe algum método de gestão do tempo voltado para pessoas que fazem várias coisas juntas, que trocam o dia pela noite, que não são se enquadram perfeitamente a horários de expediente e que quase surtam quando precisam ficar meia hora aguardando por alguém que está atrasado para a reunião, se esqueceram de levar um livro ou bloquinho e caneta na bolsa?

Como seria bom se o tempo não existisse! Não havendo tempo, e portanto nem como e nem necessidade de mensurá-lo, a palavra stress também deixaria de existir. Nem sensação de perda de tempo haveria! Existiria apenas o ritmo interno de cada ser vivo, de cada atividade. Os ciclos e os períodos de maturação sendo respeitados. Não haveria decisão precipitada. Nem prazos que não fossem cumpridos. Seria isso a eternidade? Ou seria o infinito?

Às vezes parecemos provar da eternidade (ou do infinito?), como se o tempo tivesse parado... Sinto isso quando observo a lua, quando toco violão, quando caminho num mato de acácia ou eucalipto, quando escrevo contos, quando observo um bebê dormindo...

Dessas coisas, que fazem a vida valer a pena, nenhum consultor do tempo se ocupa! E nem precisa. É interno. Está em nós. A propósito: quantos momentos de eternidade (ou de infinito), são necessários para constituir uma vida que vale a pena?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Apontamentos sobre a ótica das lacunas*

“(...) o que se encontra lá onde ninguém o tinha ainda encontrado (...).”
Jacques Derrida


Uma incerta busca para oferecer depoimentos sobre os incríveis momentos na década de 90 me fez acreditar na possibilidade de divulgar, tal qual se apresentavam, os desdobramentos das primeiras sessões. Hoje vejo os eventos de consultório como instantes únicos, irrepetíveis e nem sempre possível de compartilhar.

Naqueles dias pensava em ter um registro das primeiras repercussões: críticas e ressentimentos, inseguranças e temores, esperanças e sonhos. Agora consigo ver melhor as desavenças iniciais como aliadas na legitimação do novo paradigma. Longe de desmerecer o método da filosofia clínica fortaleceram a idéia de paradoxo com aquilo que se buscava superar.

A conversação com amigos e colegas ia mostrando a melhor resposta para o infortúnio das verdades satisfeitas: trabalho, trabalho, trabalho. Não tínhamos tempo para o famigerado debate acadêmico e seus rituais delirantes de fogueira das vaidades. A internação em nossos espaços de atendimento buscava legitimá-los por eles mesmos. A relação de ajuda sustentando a própria relação de ajuda.

Dessa época as atividades no PSF (programa de saúde da família) na Vila Alto Erechim em Porto Alegre, uma comunidade desassistida de 2.500 pessoas. No início tínhamos um barraco velho para atender, quando um entrava outro tinha de sair. O apoio gigantesco das agentes comunitárias, indo de casa em casa e oferecendo filosofia clinica lotou o consultório. Uma atuação clandestina e distante das disputas políticas da prefeitura. Um tempo de desafios e incrível beleza.

Sua continuidade era sustentada pelo sonho de dias melhores e na interseção com a comunidade. Os atendimentos priorizavam a população periférica e abandonada da capital gaúcha. Na clínica particular os desafios não eram menores.

Essa constatação sobre a timidez das palavras para se tentar descrever os eventos da terapia veio depois. Comecei a observar a pobreza dos exemplos quando relatados, os quais desmereciam a atmosfera fantástica dos encontros. Aquele texto de teor preliminar teve sua importância como anúncio, inclusive deixando entrevistas de haver muito mais.

A disposição dos primeiros anos de consultório, a mescla de sentimentos, percepções e desconstruções ajudam a melhorar o ser filósofo clínico. Ainda assim, a interseção aprendiz prossegue como uma incerta arte da reciprocidade. As leituras e releituras dos textos e contextos mostram um velho iniciante na concepção clínica da filosofia.

Na poética de Marcel Proust: “Não compreendia que misteriosa semelhança unia minhas dores aos mistérios solenes que se celebravam nos bosques, no céu e sobre o mar, mas sentia que sua explicação, seu consolo, seu perdão fora proferido, e o fato de a minha inteligência não estar a par do segredo não fazia a menor diferença, já que meu coração o entendia tão bem.”

A elaboração do novo paradigma não vem acontecendo somente com a pesquisa bibliográfica. A ela se associam a matéria-prima das práticas discursivas, consultorias, aulas, clínicas. Inacreditável saber por onde a realidade se emancipa em muitas outras. Um ponto absurdo onde a fenomenologia das sessões acontece.

Na releitura desse fragmento sinto a história como algo diferente, assim como sua autoria. Até mesmo as estéticas da errância possuem historicidade e sentido próprio. Nenhum gesto existe por si só, sua fundamentação reivindica escutas, diálogos e interseções com a fonte de onde partiu. A epistemologia forasteira se insinua por entremeios de uma vidência atemporal.

O lugar de ruptura com as certezas também se oferece na ocasião distraída de si mesma. A novidade contida na palavra falada possui intencionalidades sem pressa de tradução.

A incrível farmácia da natureza aprecia invisibilidades para se esconder e se mostrar. Seu padrão de esquiva cuida de torná-la inacreditável aos olhos da ciência normal. Em um jeito mundano de ser, esboça seu saber andarilho, compartilhando indícios de uma prática para vislumbrar raridades.

À primeira vista, parecem ser os enganos que melhor se apresentam. As hermenêuticas da convicção são as preferidas das armadilhas do olhar. Talvez os sussurros da inconclusão desvendem a vida extraordinária, cujos sinais se refletem ao seu redor. Quem sabe a fenomenologia das coisas possa encontrar abrigo no vocabulário por inventar.

Essa perspectiva de co-presença dos eventos desconsiderados possui linguagem aforística e de saber imprevisível, aprecia se oferecer no espanto dos relatos incompreendidos. Sua ótica de lacuna revela apontamentos até então irreconhecíveis.

A expressividade assim disposta possui seus próprios rituais na estrutura do dizer. Sem algum viés compartilhável podem ficar uma vida inteira desmerecidos.

O mundo longe das aparências também faz escolhas, um agora de quase tudo segue indecifrável pela lógica das premissas. Num contexto onde nada é muito verdadeiro outros amanhãs se preparam.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

domingo, 23 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XV*

"O indizível gera uma poesia que ameaça continuamente ultrapassar os limites do dizível."

"Eu queria derrubar a fronteira entre a minha vida e literatura o máximo possível."

"O equilíbrio na corda bamba não pode ser realmente ensinado: é algo que se aprende sozinho."

"Como tal, Artaud é uma espécie de poeta das origens, cuja obra descreve os processos de pensamento e sentimento antes do advento da linguagem, antes da possibilidade da fala."

"Trata-se de um artista que pinta da mesma forma que respira. Ele jamais se limitou a criar objetos bonitos, mas procurou, no ato de pintar, tornar a vida possível para si. Por isso, sempre evitou soluções fáceis e, cada vez que descobriu que sua obra se tornava automática, interrompeu completamente o trabalho."**

"(...) a perpétua novidade de sua obra deriva do fato de que pintar não é algo que ele pratique e depois separe de si, mas uma luta necessária para controlar sua própria vida e para se situar no mundo."**

* Paul Auster
** Refletindo sobre a obra de Jean-Paul Riopelle

sábado, 22 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XIV*

"No jardim das Tulherias, esta manhã, o sol adormeceu sucessivamente sobre todos os degraus de pedra, como um adolescente loiro a quem a passagem de uma sombra interrompe imediatamente o sono ligeiro."

"O sol, como um poeta inspirado e fecundo que não desdenha disseminar a beleza nos lugares mais humildes e que até então não pareciam dever fazer parte dos domínios da arte, ainda aquecia a benfazeja energia do esterco, do pátio pavimentado de modo desigual (...)."

"A ambição embriaga mais do que a glória; o desejo floresce, a possessão fenece todas as coisas; é melhor sonhar com sua vida do que vivê-la, ainda que vivê-la seja ainda sonhar com ela (...)."

"Os poetas que criaram as amantes imortais não conheceram mais do que medíocres empregadas de albergues, ao passo que os voluptuosos mais invejados não sabem de modo algum conceber a vida que levam ou, melhor ainda, que os leva."

"A vida é como a namorada. Sonhamos com ela, e amamo-la por sonhar com ela. Não é necessário tentar vivê-la: lançamo-nos, como o menino, na estupidez, não de uma vez só, pois tudo na vida se degrada por nuances insensíveis."

"(...) nosso coração, que tem o sentimento, ou melhor, a ilusão da eternidade de seu amor, sabemos que um dia aquela, de cujo pensamento vivemos, será para nós tão indifeente quanto nso são agora todas as outras que não ela ... Ouviremos seu nome sem uma volúpia dolorosa, veremos sua caligrafia sem tremer, não mudaremos de caminho para vê-la na rua, nós nos encontraremos com ela sem perturbação, nós a possuiremos sem delírio."

"É com uma emoção afetuosa que percorremos o campo obscuro e saudamos os carvalhos plenos de noite, como o lugar solene, como as testemunhas épicas do impulso que nos arrasta e atordoa. Erguendo os olhos em direção ao céu, não podemos reconhecer sem exaltação, no intervalo entre as nuvens ainda emocionadas pela despedida do sol, o reflexo misterioso de nossos pensamentos."

* Marcel Proust

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

À Deriva*

"Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho."
Florbela Espanca


Pensamentos agitados. Nada pára. Tudo é revolto e fora do lugar. Turbulência interna a refletir ansiedades corriqueiras.

Os fantasmas interiores invadem o pensamento sem qualquer aviso prévio. Fazem do intelecto um verdadeiro campo de batalha.

Sua munição costuma ser uma adição dos inconvenientes passados, recolhidos num sobrevôo sobre a historicidade da pessoa envolvida.

Sensação de eternidade vivida em alguns instantes. Queda livre no abismo das idéias complexas. Nessa lacuna, completa solidão. Os devaneios transitam entre o céu e o inferno numa demonstração de força e fraqueza.

Pode-se perceber alguns ruídos desse vendaval. Mãos agitadas, respiração ofegante sinalizando o cansaço de um corpo a lutar. O espaço vai ficando pequeno para a expressividade aprisionada.
Nesses instantes os roteiros vividos passam a ser a realidade.

Quando expressos costumam confundir as subjetividades em interseção. As histórias com seus personagens se mostram distantes do cotidiano.

Ao olhar insipiente, mais um temperamento instável. Os incômodos do não saber se aliviam em fórmulas, frases ou nomenclaturas criadas para encobrir a ignorância sobre o fenômeno.

Esse mergulho no abstrato não significa ser bom ou ruim. O desconhecimento da própria singularidade pode potencializar o mal estar. No entanto, uma boa clínica pode ajudar o sujeito a descobrir suas rotas de fuga ou reinvenção.
No mapeamento da geografia interna as trilhas encontradas supõem saídas desse labirinto.

Em “Alguma prosa” de Fernando Pessoa: “(...) porque ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que fala.”

A mudança de perspectiva pode devolver ao mundo da objetividade aquele que se perdeu no universo ideal. As percepções sensoriais ajudam trazer à memória outras lembranças.

Alterando o dado de semiose, a escrita consegue ser eficiente em alguns casos. Cada termo um limite. Cada frase um esquadro. Cada parágrafo um fim. As palavras traduzem as idéias. Reduzem o alcance da mensagem e seu significado toma dimensões mais próximas de um real compartilhável.

Quando existe insuficiência de signos a pintura pode funcionar como um canal de expressão. As cores com seus movimentos ajudam a descrever as novas linguagens.

A paisagem confinada em um quadro, por exemplo, pode remeter a cheiros, cores, sabores, roteiros e sons norteando a estrutura confusa.

Os pensamentos que outrora incomodavam podem se transformar em suave melodia. As inquietações internas representam, às vezes, uma necessidade natural de aperfeiçoar, embelezar a vida a partir de sua incompletude. A alma, criativa por natureza, rebela-se e se encaminha noutras direções.

*Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O que os outros fazem com nossa saúde

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


A política de saúde pública brasileira ainda não completou cem anos. Antes dos anos 30 quem prestava assistência aos pobres e indigentes eram instituições de caridade e filantrópicas, as famosas “Santa Casas”, ficando sob responsabilidade governamental as eventuais campanhas sanitárias e os asilos para doentes mentais, tuberculosos e leprosos.

A partir de 1930 foi implantada a Previdência Social através de seis institutos que ficaram responsáveis pela assistência médica, aposentadoria e pensões para a maioria das categorias de trabalhadores públicos e privados, bem como para seus familiares.

Mais tarde, em 1966, foram unificados sob o nome de Instituto Nacional de Previdência Social – INPS, trocando o nome para Instituto Nacional de Seguridade Social – INSS em 1990.

Durante as primeiras décadas, o sistema público de saúde funcionou razoavelmente bem, porém a partir dos anos 60 não conseguiu mais atender a demanda. Uma crise social ampla e profunda levou a saúde pública a entrar em decadência. Baixos salários, péssimas condições de trabalho, interferências políticas de toda a ordem, falta de plano de carreira. Desconfio também que foi mais ou menos por esta época que os primeiros segurados começaram a se aposentar e retirar regularmente seus proventos.

A deficiência do governo fez com que empreendedores vislumbrassem uma oportunidade. Começaram a surgiram hospitais privados visando atender a população agora descoberta pelo estado. Medicinas de grupo, operadoras de planos de saúde e seguradoras também vislumbraram esta oportunidade e passaram a vender assistência médico hospitalar.

Rapidamente os trabalhadores aderiram à proposta acreditando que ao investir uma parte de seus rendimentos no sistema de saúde privado estariam devidamente protegidos. A transferência de uma parte da saúde pública para privada desonerava o governo que tratou de estimular a troca através de benefícios pecuniários.

Em 1998, o IBGE demonstrou que na região metropolitana de São Paulo, quase 45% da população tinha a cobertura de um plano de saúde particular. O Brasil tornou-se o segundo maior mercado de medicina privada do mundo.

Vivíamos uma hiperinflação, os usuários quitavam suas mensalidades, as operadoras de saúde aplicavam o dinheiro e repassavam o pagamento aos hospitais sessenta dias após a apresentação da fatura. O lucro com aplicações no mercado financeiro era maior do que o próprio negócio.

Em 1985 os bancos também resolveram entrar neste mercado e lançaram seus planos de saúde.
Em 1994 surge o Plano Real, controla a inflação e termina com este trem da alegria. Os planos de saúde sofrem o golpe e reagem limitando coberturas contratuais previamente oferecidas, glosando contas médico-hospitalares, aumentando valores das mensalidades. Como o setor não era regulamentado, prestadores de serviço e consumidores foram obrigados à recorrer a justiça para garantir seus direitos.

A desordem era tão grande que se fez necessária a criação um órgão para regular este tipo de atividade. Nasce então, no ano de 2000, a Agência Nacional de Saúde Suplementar- ANS, uma autarquia com a missão de promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde. Mas a solução ainda estava longe, nem sequer havia luz no fim do túnel.

Compradores de serviço alegam que não suportam os altos custos das contas hospitalares. Médicos reclamam da baixa remuneração. Hospitais argumentam que precisam investir em tecnologia de ponta. Tecnologia custa caro. Operadoras lançam planos econômicos com coberturas reduzidas.

Serviços diagnósticos funcionam 24 horas por dia para compensar o investimento em equipamentos. Faltam leitos hospitalares na rede pública e privada. Cirurgias são realizadas nas madrugadas devido à superlotação dos centros cirúrgicos. Procedimentos são suspensos em cima da hora por falta de autorização do plano de saúde. Médicos procurando melhor remuneração se organizam em cooperativas. Governo acusa cooperativas de formação de cartel.

Cria-se a CPMF para obter recursos para a saúde, o dinheiro é desviado. Gestão da saúde pública passa a ser municipalizada. Ambulâncias iniciam a transportar pacientes de uma cidade para outra. Pacientes continuam morrendo na fila de atendimento.

Pensei em finalizar este primeiro artigo do ano com a pergunta: “E agora presidenta Dilma, o que o novo governo vai fazer?”, mas achei que seria uma injustiça muito grande fazer esta cobrança, afinal de contas é uma história de quase cem anos de tentativas, acertos, fracassos, promessas, esquecimentos e a saúde do povo brasileiro ainda está doente. A responsabilidade não é e nem deveria estar apenas nas mãos do governo, seria uma temeridade.

Enquanto governo, seguradoras, hospitais, prestadores de serviço e usuários ficarem preocupados exclusivamente com seus problemas, permaneceremos neste ciclo vicioso onde alguns (poucos) percebem oportunidades e faturam enquanto outros (maioria) adoecem e padecem. Fica uma sugestão para 2011: talvez a solução do problema da saúde esteja na educação, começando pelo povo e terminando no governo, ou vice-versa.

Saúde!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Coragem e ação

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Experienciar.
Viver cada minuto como se fosse o único.
Abrir- se para o vir-a-ser.
Enfrentamento diante os múltiplos desafios.
Tentar.
Permitir-se perder.
Aprender.
Romper obstáculos.
Tremer.
Gozar.
Ser.
... E o medo? O que fazer com ele.
Observar.
Enfrentar.
Desafiar.
Mergulhar fundo nele.
Quer coragem maior?
O medo está ai.
Ou ele lhe engole ou você o devora.
Escolha.
Ser herói ou perdedor.
Ação gera transformação.
Deixe o coração bater.
Use a adrenalina.
Viva.
Afinal, cada dia é um milagre.
Estradas de Minas.

Olympia
São João del Rei/MG


Estrada de terra

Caminhos estreitos

Motoristas ao se avistarem

Diminuem a marcha

Os carros ficam paralelos

Bom dia!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Quem precisa de terapia?

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Exames, como o da Escola Paulista de Medicina, que procuram evidenciar o tipo de patologia mental que acomete o indivíduo, ou quem o avalia, mostram muito a ideologia que tantas vezes - de outra maneira - não se constata.

O que faz alguém precisar de terapia? (Pergunta capciosa que traz em si mesma uma petição de princípio).

Por exemplo: sentir inveja de um conhecido só porque ele tem algo que você gostaria de possuir para, ao ter, confessar que não era nada daquilo, é um indício?

Ou pensar que se é menos do que os outros, mesmo tendo a convicção de que no fundo se é mais, por qualquer motivo, como saber empilhar o lixo divinamente? Claro que, se houver exagero, como querer fotografar o lixo ou querer guardá-lo em local seguro, isso atrairá a desconfiança de algum terapeuta, o que já acarreta risco de patologia iminente.

Contar mentiras e ficar deprimido quando elas são deturpadas é provavelmente patológico. Cabe apenas saber patologia de quem.

Precisa de terapia quem acha que é infeliz enquanto todos são felizes, e ainda alega para isso coisas que todos alegam para si mesmos? Porque pode ser apenas falta de imaginação que, às vezes, passa.

Seria um indício suficiente a suposição de que a vida é quase essa coisa sem graça que se está vivendo? Ou tudo não passará de uma carência etílica qualquer?

Talvez necessite de terapia quem duvida das coisas antes que elas aconteçam, embora possa ser este sintoma confundido com contemporaneidade, o que, em verdade, é a mesma coisa; agora, depois que aconteceram, achar que nem foram tão maravilhosas assim, pode ser doença mental ou conseqüência do mau cinema norte-americano e daqueles superlativos todos.

Por certo há questões de pouca discussão. Assim, assistir coisas como Big Brother e gostar é algo definitivamente psiquiátrico. No melhor dos casos, a pessoa deve ser internada por atentado ao bom-gosto.

Divórcios levam muita gente à terapia.

Mas querer o divórcio de vez em quando, porque a mulher desrespeitou o tempero da massa que a nossa iídiche mame ensinou a ela, geralmente é sinal de elevação de caráter. Também revela espírito crítico. Qualquer juiz judeu aceitará o fato como prova.

Contudo, isso pode acarretar uma patologia, se se acreditar que advogados só existem no divórcio dos outros. Caso de alucinação braba. Costuma levar a psicoses nas quais o sujeito acorda sem a metade do patrimônio.

Trabalho, e mais amiúde a falta dele, são predisponentes ao consultório.

Estar cansado do trabalho que faz e imaginar que os outros estão satisfeitos resulta do stress, mas não tem cura, somente pode ser administrado. E pode piorar, se a pessoa começar a acreditar que os outros estão satisfeitos com o casamento e com a vida que levam.

Financeiramente, há fatores mentalmente favoráveis a uma terapia, como comprar a prazo e viver as dívidas à vista, algo filosoficamente incorreto. Pois é uma das tradições não escritas em Filosofia somente viver a prazo.

... mas olha, para que os indícios acima funcionem com a devida má-fé, ainda faz-se necessário negligenciar os escritos de Foucault sobre a indústria da loucura, como também conjeturar que Machado de Assis não estava brincando em O Alienista. Assim poderemos anular a tendência de que precisa de terapia quem acha que os outros precisam.

Todos nós temos nossas esquisitices, nossas crises, e pouquíssimos ficam comprometidos clinicamente por isso. Assim como existe a indústria do ensino, da moda, da farmácia, existe a indústria da loucura, próspera da farmacologia aos consultórios.

Às vezes, o critério para se saber se o indivíduo precisa de terapia é saber se o terapeuta necessita que ele necessite.

Em muitíssimos casos, um bom vinho com os amigos, um papo longo próximo a uma lareira, os carinhos demorados da mulher amada, um programa de jazz em uma rádio chilena, um choro profundo, coisas assim, vão mais longe, mais fundo e são a própria terapia que poucos consultórios têm.

Talvez a terapia (!?) seja necessária de fato a muito poucos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XIII*

"A loucura é a revolução permanente na vida de uma pessoa."

"Razão e desrazão são ambas maneiras de conhecer. A loucura é uma maneira de conhecer, outro modo de exploração empírica dos mundos tanto 'interior' como 'exterior'. A razão para a exclusão e invalidação da loucura não é puramente médica, nem estritamente social. É, como tentarei demonstrar, política."

"Para tratar a loucura não há outra arma senão a da nossa própria loucura. As qualificações profissionais fazem das suas próprias pretensões um absurdo imediato."

"O futuro da loucura é o seu fim, a sua transformação numa criatividade universal que é o lugar perdido donde veio em primeiro lugar."

"Não psiquiatria significa que o comportamento profundamente perturbador, incompreensível e 'louco' deve ser contido, incorporado na sociedade global e nela disseminado como uma fonte subversiva de criatividade, espontaneidade, não 'doença'."

"O sonho é a anti-psicanálise. A sua interpretação é a sua morte, e a nossa."

"A violência da psiquiatria só pode ser compreendida com base no seu dogma fundamental: se não compreende o que outro ser humano está a fazer, 'diagnostique-o!'"

"O novo fator revolucionário é que as pessoas começam a fazer amor em vez de se limitarem a foder para procriar para os patrões. O orgasmo é uma loucura contagiosa e boa."

* David Cooper

sábado, 15 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XII*


"A primeira verdade é que o mundo é como parece, e entretanto não é. Não é tão sólido e real como nossa percepção foi levada a crer, mas também não é uma miragem. O mundo é uma ilusão, como tem sido dito; ele é real por um lado, e irreal por outro. Preste muita atenção nisso, pois isso deve ser compreendido, e não simplesmente aceito. Nós percebemos. Isto é um fato concreto. Mas o que percebemos não é um fato concreto, porque aprendemos o que perceber."

"É um dever do nagual procurar sempre maneiras melhores de explicar. O tempo muda todas as coisas, e cada novo nagual deve incorporar novas palavras, novas idéias, para descrever sua visão."

"O que acontece às pessoas cujo ponto de aglutinação perde a rigidez ? - Se não são guerreiros, pensam que estão perdendo a razão - disse ele sorrindo. - Exatamente como você pensou que estava ficando louco em certa ocasião. Quando são guerreiros, sabem que ficarão loucos, mas esperam pacientemente. Veja você, ser saudável e lúcido significa que o ponto de aglutinação é imóvel. Quando ele muda, o fato significa, literalmente, que a pessoa está perturbada."

"Dom Juan havia-me repetido que os guerreiros vivem com a morte ao lado, e do conhecimento de que a morte está com eles retiram a coragem para enfrentar qualquer coisa. Ele dissera que o pior que nos pode acontecer é termos que morrer, e já que esse de qualquer modo é nosso destino inalterável, somos livres; aqueles que perderam tudo, nada mais têm a temer."

*Carlos Castaneda

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quantos anos você tem?

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Então eu pergunto. Quantos anos você tem? E a resposta provavelmente será calculada baseada na data de nascimento. Eu nasci em 63, logo tenho 47 anos.

E racionalmente quantos anos você tem? Não podemos nos enganar e achar que nossa idade depende só do dinamismo físico, ignorar nosso intelecto. Algumas pessoas quando tem razão atropelam as outras, passam em cima, estraçalham emocionalmente o outro. Já vi muitos motoristas bater de frente por estar na preferencial.

E emocionalmente quantos anos você tem? Conheço o filho de um grande amigo que tem idade cronológica de 23 anos que é seu grande conselheiro nas suas relações amorosas.

E se eu perguntar ainda sobre a idade de seus pré-juízos, ou seja, verdades de coisas que não vivemos ou não podemos provar, porém são nossas verdades. Qual idade você responderá? Ah! A avó de minha mãe já dizia “homem nenhum presta”, ou seja, no tópico pré-juízos essa pessoa já tem idade de 150 anos.

Há um filme que eu gosto muito e recomendo, chama-se Uma Lição de Amor, de 2001. O filme trata de uma história onde o Sam Dawson dá abrigo para uma mulher sem teto e eles se envolvem, ela engravida e no hospital abandona Sam e a filha. O problema é que Sam, no tópico raciocínio, tem idade de sete anos, mas cria sua filha Lucy.

Com o tempo, a menina ultrapassa a idade de raciocínio do pai e o Ministério Público e a assistência social decidem que é hora de a menina ir para um orfanato para ser adotada. E no processo de defesa de Sam, muito bem feito pela advogada, fica clara a idade emocional de Sam e surpreendentemente a idade racional.

Alguns homens e algumas mulheres bem sucedidos em suas carreiras profissionais têm seus raciocínios bem estruturados, mas emocionalmente não passam de uma criança de 12 anos. Isso vale também para o raciocínio e para os pré-juízos.

A boa notícia é que não há nada de errado ter idades diferentes em cada tópico e às vezes é isso que dá o molho numa relação como na música de Bob Dilam Just Like a Woman (Como uma Mulher). A música fala que ela faz amor como uma mulher, mas se despedaça como uma garotinha e é isso que ele mais gosta nela, é o que mantém aquela misteriosa relação.

A idade que temos em cada um dos tópicos é decorrência de uma história de vida e tem uma função dentro dela.

Se isso não está atrapalhando nossas relações não há necessidade de mexer. Agora, se trabalharmos isso vai nos transformar em melhores maridos, melhores esposas, melhores profissionais, então procure ajuda, há profissionais preparados para isso. Não tente forçar a barra, isso pode causar feridas profundas.

No filme Uma Lição de Amor, Lucy, a filha, admirava tanto seu pai que resolveu também ficar com idade racional de sete anos e isso passou a atrapalhar sua vida, na escola, com amigos...

Na literatura temos alguns escritores que viam o mundo com olhos de crianças de 10, 12 anos. Monteiro Lobato, Fernando Pessoa e muitos outros e nem por isso deixaram de ter seu espaço no planeta. Pelo contrário, foi exatamente isso que os transformou em grandes escritores.

E você, quantos anos tem?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Queridos colegas,

Convidamos para as atividades com a Filósofa Clínica Mônica Aiub:

O evento acontece em Juiz de Fora/MG no dia 29 de janeiro de 2011 (sábado) com a seguinte
programação:

Manhã:
9h as 12h - Café Filosofico: "O que é Filosofia Clínica ?"

Lançamento da obra:

Como Ler a Filosofia Clínica - Prática da autonomia do pensamento.

Tarde:
14h as 17h - Palestra: Filosofia da mente e psicoterapias.

Investimento:
R$ 25,00 (vinte e cinco reais)

Local: Livraria Paulus. Av. Rio Branco, 2590 - centro - Juiz de Fora/MG. Fone: 032.3215-2160

Inscrições e informações: Carla: 032.3235-9794 Neysa: 32.3218-1826 ou neysa@powerline.com.br

Contamos com a presença de todos e solicitamos aos
interessados que a inscrição seja feita o mais rápido
possível.

Muito grato.

Coordenação.

Visitas na madrugada

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Ó Valquíria serva de Odin! Suspeito que seja tua armadura reluzente que vejo cavalgando nas escuras madrugadas insones.

O que desejas?

Anunciar minha vitória ou chorar minha morte!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Queridos amigos, colegas, alunos e professores,

Bem-vindos!

Comunicamos que nas próximas quartas-feiras, dias 19 e 26 de janeiro de 2011, as 17 horas, a professora Mariza Niederauer estará a disposição dos interessados na nova turma de formação em Filosofia Clínica, no Instituto Packter. Nesta oportunidade será apresentada uma visão panorâmica da Filosofia Clínica, do curso e abrir-se-á um espaço para o esclarecimento de dúvidas.

Informamos que o inicio desta turma acontecerá na primeira quarta-feira de março, dia 02, no horário das 15 às 18 horas.

Confirmação de presença através do e-mail: marizaz@terra.com.br ou pelo cél:51.9686-6221 com a professora Mariza.

Agradecemos e contamos com sua presença.

Atenciosamente
Aninha
Assessoria do Instituto Packter
Uma análise do filme: "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças"

Carlos Edu Bernardes
Filósofo Clínico
Goiânia/GO


Este filme é, a meu ver, o retrato do que deveria ser, na atualidade, o relacionamento de um homem e uma mulher, no eterno imbróglio de se darem bem.

Acredito que a película veio para ajudar a desbancar Romeus e Julietas, Cinderelas, Love Histories e Gatas Borralheiras dos seus pedestais: perversidades impostas a várias gerações no autoritarismo de amores exigentes e inflexíveis, que, a guisa de ideais, arrebentaram incontáveis relacionamentos e impulsionaram a indústria dos antidepressivos, da literatura da tragédia amorosa humana e dos divãs encharcados de lágrimas – para não falar nos suicídios bem reais.

Neste filme não temos panos-de-fundo políticos ou aristocráticos, como os Capulletos e Montechios sentados nos seus tronos de comando para a prevalência das suas vaidades.

Nada de frases monolíticas, estúpidas mesmo, como “amar é jamais ter que pedir perdão”, ou cavalos puros-sangues ao largo, ou serviçais (indubitáveis escravos) patéticos e afetados dando a própria vida pela felicidade dos patrõezinhos, ou de vestimentas suntuosas de um mundo que só podíamos vislumbrar pela janela da nossa dada mediocridade. O amor não era para qualquer um, 'tava' pensando o quê?

No BRILHO não há nem o príncipe encantado nem a princesa perfeita. Depois de algum tempo de relacionamento eles querem se ver livres um do outro (talvez num dejà-vu das histórias ouvidas sobre a ‘perfeição’ do amor), mas aos poucos se rendem, percebem que o par possível só pode ser o ser humano na sua mais oscilante acepção: fraco, indeciso, terno, bocó, único, forte, titubeante, bruto, sublime, terno, convicto, genial, carente, ridículo, blá, blá, etc., e sem o poder de dominar a verdade pura. Ou seja, 'nóis' na fita, ou, we on the tape.

O BRILHO nos mostra cruamente o quanto é importante o relacionamento entre pessoas que se olham nos olhos desde o início e, interessadas, vislumbram a possibilidade de perscrutar a nudez da outra alma – sem segundas intenções e sem beirar à pieguice, ou mesmo à inocência no seu estado mais manipulável. Sim. E não é necessário ir conhecendo o outro somente após estacionar os Audis-carruagem, despir os Armanis-armaduras, lavar os Chanel e descalçar os Carnellos, de cristal ou não.

Ademais se houver arestas, e há, elas são aparadas sem a anestesia de músicas pasmacentas e sem clichês moralistas. Tudo em ambientes reais onde não se vê assinaturas de grifes ou monumentos famosos, que tentavam comprar o quadro para referendar que o amor prefere lugares detalhadamente estudados. Não. A beleza das cenas insinua-se nos cabelos desgrenhados e mal-tingidos e em barbas por fazer, dentro de um veículo amassado. Ali a única arma de sedução é estar vivo.

O BRILHO revela também o quanto é inútil camuflar. A vida por si não propicia terreno para o advento de ventosas-garras da mentira ou da manipulação antinatural (mais cedo ou mais tarde elas se despregam ou se desmancham. Caso perdurem, penso, já é patológico).

É inócuo tentar apagar o que ficou gravado no coração. Não adianta utilizar despojos e trejeitos de outrem para conquistar um alguém já tocado pelo outrem (mesmo que os aparelhos e utensílios sejam exatamente os originais e o itinerário da 'conquista' milimetricamente igual). Nesses casos o ente prevalece sobre o ser.

Por algo que fica inexplicável, pois inexplicável é, a aceitação mútua passa ainda pelo crivo de ouvir um do outro o quanto se detesta certas peculiaridades e atitudes, certas manias e idéias, mas, ora, sem mais neuroses, eles querem ficar juntos.

O BRILHO é um filme que finalmente nos mostra a possibilidade de sermos aceitos e de podermos viver ao lado de outra pessoa simplesmente porque algo em nós pede. Isso é muito bom. É límpido; é sincero e gerador de lembranças impossíveis de se apagar.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Ciúme e liberdade

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Coração, algema, ciume, prisão liberdade

Quem nunca sentiu aquele aperto no peito e medo de perder um afeto?
Uns dizem que ciúme significa amar, gostar e cuidar. Será?
Outros dizem que ciúme é doença, neurose e precisa ser tratado.

O que penso eu?
Nesses meus quase sessenta anos, trinta como psicoterapeuta e cada vez mais livres de definições e rótulos para o comportamento humano, vou tentar refletir sobre esta emoção muitas vezes avassaladora.

Num mundo que convida cada vez mais a competição e a comparação, a insegurança pode operar trazendo angústia e medo da perda da atenção de quem se ama.

Viver na expectativa, na ansiedade de controle e dominação faz com que o ciúme tome conta.
Por que temos que possuir o outro como se fosse uma coisa, como se fosse objeto de nossos desejos?

Se pararmos um pouco e pensarmos no prazer da liberdade, com certeza respeitaremos o outro que amamos e deixaremos a liberdade vencer a posse do controle que o ciúme traz.

Amar é ver o outro feliz, fazendo o que gosta e como gosta.
Quem verdadeiramente ama liberta, evita controlar e dominar.

Será fácil amar em liberdade?
Quanto mais se tomar consciência que a liberdade é o elemento fundamental para qualquer relação fluir em harmonia, mais o ciúme vai sendo banido.

Não tem complicação, apenas reflexão. Afinal somos inteligentes e capazes de agir conscientemente.
Podemos escolher ser ou não ser.

Pensar, escolher, treinar com vontade determinada e agir assertivamente.
O inconsciente? Quem pensa bem acende a luz da consciência e vence os maiores comportamentos.

Filosofar é preciso, pois quem pensa bem, consegue se libertar das prisões que o ciúme cria.
Que tal sair de si mesmo e acolher o outro livremente. É possível!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

NEM TUDO QUE SE ENXERGA É O QUE SE VÊ

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Muitas técnicas podem ser utilizadas para se tentar mexer com cabeça das pessoas. Psiquiatras, psicólogos, filósofos clínicos seguindo seus conhecimentos utilizam-nas com finalidades terapêuticas. Mas nem sempre a manipulação do pensamento é realizada com esta finalidade.

Publicitários, por exemplo, lançam campanhas na mídia em que aparecem modelos belíssimas com carros de último tipo sempre cercadas de boas companhias e com aparência de extrema alegria e felicidade. Qual o objetivo final? Mostrar as características do automóvel? Provavelmente não.

A idéia é alimentar a ansiedade do público a respeito de seus bens materiais insuficientes, sua aparência desgastada, seu desempenho sexual abaixo das expectativas, etc, porque um consumidor insatisfeito, teoricamente, é mais induzido a comprar.

De maneira semelhante, a imprensa prende nossa atenção com histórias de crimes violentos, desastres naturais, escândalos políticos, acidentes aéreos, seqüestros, realizando uma das estratégias mais antigas e até hoje eficaz, que é a promoção do medo, visando mexer com o imaginário das pessoas.

Se a maioria da população é pobre, não viaja de avião, não sabe votar, qual seria o objetivo de destacar estes fatos em horário nobre na televisão e nos jornais? Qual a conseqüência de ficarmos sendo bombardeados diariamente com estas noticias? Desenvolvimento de medo, ansiedade e revolta em nossas mentes.

A lista de medos que as pessoas carregam é proporcional às informações a que elas tem acesso. Descarregando diáriamente incertezas e medos na população, provavelmente acabe por se desenvolver e justificar uma ansiedade permanente, levando os consumidores a aliviar suas tensões da maneira mais fácil: comprando.

Sempre existe o outro lado. O medo pode fazer com que as pessoas deixem de comprar. Com a desordem e o caos nos aeroportos brasileiros, muitos turistas procuram outras alternativas para suas férias, deixando os aviões de lado.

A cidade do Rio de Janeiro perdeu milhares de turistas em face da criminalidade. É justamente ai, que entra o papel do medo no consumo. Se uma pessoa tem medo de algo, pode lançar mão de duas alternativas: fugir ou enfrentar. Apostando que a maioria da população vai evitar o que lhe causa medo e ansiedade, os publicitários ao desejarem vender viagens terrestres, expõem a crise aérea.

Ao se demonstrar o aumento da criminalidade, fica mais fácil vender planos de segurança, seguros de vida, condomínios fechados, grades para as janelas, fechaduras mais resistentes, passeios e compras em ambientes seguros como shopping centers, e turismo para regiões mais tranqüilas.

Porém de um modo geral, as pessoas ao dedicarem atenção exagerada a certas situações, descuidam-se de perigos verdadeiros e imediatos. Ao nos preocuparmos com o caos aéreo, com o deputado que recebeu propina, com o personagem do reality show, com o jogador de futebol que faltou ao treino, deixamos de ver outras coisas.

Não nos preocupamos com alimentação adequada, deixamos de usar cinto de segurança, convivemos com o aquecimento global, injustiça social, e até mesmo esquecemos de nossas angústias pessoais momentaneamente. Isto pode ser chamado de alienação induzida, e pode ser muito perigoso.

O medo, a curto prazo, não produz mudanças duradouras, mas, apesar da sensação desagradável, a longo prazo pode resultar em ações protetoras. Mas para que isto aconteça, as ameaças devem ser claramente identificadas, a partir de fontes precisas e fidedignas.

A instigação do medo pela mídia, governo, imprensa tem objetivo de nos manter assustados e olhando para um lado, que muitas vezes não é o lado que deveríamos olhar.

Às vezes nos mostram algo para que fiquemos focados e preocupados somente com aquilo e não vejamos o resto e outras vezes nos mostram algo para que sejamos manipulados na direção contrária, induzindo-nos ao consumismo e a alienação. Nem sempre o que se enxerga é o que se vê.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XI*

"Ah! Toda a nossa vida anda a quimera/ Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas.../ - Nunca se encontra Aquele que se espera!..."

"E este amor que assim me vai fugindo/ é igual a outro amor que vai surgindo,/ Que há de partir também... nem eu sei quando..."

"Amo as pedras, os astros e o luar/ Que beija as ervas do atalho escuro,/ Amo as águas de anil e o doce olhar/ Dos animais, divinamente puro"

"A mocidade esplêndida, vibrante,/ Ardente, extraordinária, audaciosa,/ Que vê num cardo a folha duma rosa,/ Na gota de água o brilho dum diamante;"

"Ama-me doida, estonteadoramente,/ Ó meu Amor! que o coração da gente/ É tão pequeno... e a vida, água a fugir..."

"Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem/ Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem.../Sou um reflexo... um canto de paisagem/ Ou apenas cenário! Um vaivém..."

"Minh'alma ardente é uma fogueira acessa,/ é um brasido enorme a crepitar!/ Ânsia de procurar sem encontrar/ A chama onde queimar uma incerteza!"

"Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas.../ Enigmáticas campas medievais.../ Jardins de Espanha... catedrais eternas..."

* Florbela Espanca

sábado, 8 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes X*

"Vem, pois, poeta amargo da descrença/ Meu Lara vagabundo/ E co'a taça na mão e o fel nos lábios/ Zombemos do mundo!"

"Sonhou - Amou - Cantou: em loucos versos/ Evaporou a vida absorta em sonhos/ E debalde! ninguém chorou-lhe os prantos/ Que sobre as mortas ilusões já findas/ Pálido derramara."

"Adeus!...é renunciar numa agonia/ A esperança que ainda nos palpita;/ Sentir que os olhos cegam-se, que esfria/ O coração na lágrima maldita!/ Que inteiriçam as mãos, e a alma aflita."

"Em frente do meu leito, em negro quadro/ A minha amante dorme. É uma estampa/ De bela adormecida. A rósea face/ Parece em visos de um amor lascivo/ De fogos vagabundos acender-se..."

"Se é verdade que os homens gozadores,/ Amigos de no vinho ter consolo,/ Foram com Satanás fazer colônia,/ Antes lá que no Céu sofrer os tolos!"

"Amei! amei! no sonho, nas vigílias/ Esse nome gemi que eu adorava!/ Votei amor a tudo quanto é belo!/ Escuta...A rua é queda. A noite escura/ É negra como um túmulo. Durmamos."

"E o mundo? não me entende.Para as turbas/ Eu sou um doudo que se aponto ao dedo./ A glória é essa. P'ra viver um dia/ Troquei o manto de cantor divino/Pelas roupas do insano."

*Álvares de Azevedo

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Espírito aprendiz*

Na verdade, o inacabamento do
Ser ou sua inconclusão é próprio
Da experiência vital. Onde há
Vida há inacabamento.
Paulo Freire

As palavras a seguir procuram traduzir as reflexões compartilhadas no ano de 2010 pelo grupo de estudos de filosofia clínica. Encontros semanais realizados no Instituto Packter em Porto Alegre/RS.

As percepções consideradas pelos participantes seguem em direção a idéia de continuidade. A alma que almeja o saber busca constantemente descobrir e aperfeiçoar talentos.

Diante de novos fenômenos há uma tendência natural de se remeter a conceitos já elaborados na tentativa de compreendê-los. No entanto o entendimento de um novo paradigma se faz pelo caminho dos estudos.

A empolgação inicial desperta curiosidades levando a indagações críticas e reflexivas. O ambiente da sala de aula é um lugar estimulante. Professores e alunos compartilhando idéias, que variam desde curiosidades ingênuas a espantos mais elaborados.

Valorizando a autonomia aprendiz a interseção professor/aluno segue o caminho da singularidade. Alguns elementos se destacam nesse processo: tempo, interesse, assimilação, material disponível, dedicação. Os espaços informais aparecem como prolongamento da sala de aula.

A leitura solitária da literatura específica e de outros autores nos fornece substratos valiosos. Ler, reler, confrontar conceitos, questionar, elaborar juízos. Achados de maior exatidão vão completando os espaços outrora confusos.

O estudo em grupo é uma atividade enriquecedora. A condição informal desses encontros proporciona uma naturalidade para se enraizar e colocar em discussão os entendimentos, dúvidas e posições sobre questões diversas.

Momentos que ensinam a ouvir. O que é importante para mim pode não ser para o outro, e o encontro desses valores enriquece o espírito em construção.

A atividade intelectual não precisa ser cansativa, laboriosa. A leveza de alma é um fator positivo nesse processo. Ela abre as portas para a criatividade tornando o novo cada vez mais interessante e instigante. Aprender se divertindo: assistir filmes, ler bons livros, ouvir música, ir ao teatro, ‘jogar conversa fora’. Momentos de prazer como fonte de sabedoria.

A participação em encontros nacionais ou regionais tem seu valor nesse caminho. Um espaço formal, mas rico em troca de experiências. O convívio social e as novidades apresentadas descortinam horizontes e sinaliza novas possibilidades.

Depois da parte teórica, em filosofia clínica, segue-se o pré-estágio e a supervisão. Primeiros momentos de contato com a prática terapêutica. Tempo de fazer e pensar sobre o fazer.

A titulação não deve significar o fim dos estudos. Por mais conhecimento que se tenha adquirido na jornada constitutiva de um saber, deve-se conservar o espírito aprendiz. Qualificada a interseção, o fenômeno com seus desdobramentos confirmam a importância e necessidade de prosseguimento nessa busca.

Trabalhando com o conceito de singularidade, essa continuidade a favor do crescimento intelectual é capaz de qualificar as intervenções terapêuticas.

A manutenção do papel existencial filósofo clínico, ultrapassa as fronteiras do consultório. Encontra-se na sua dialética existencial, nas interseções e vida intelectual. Sua vizinhança deve ser uma adição de coisas, pessoas, buscas, relações e lugares que proporcionem o bem estar subjetivo.

O conhecimento tem seu valor tanto na formação pessoal como na construção do ser terapeuta. Para a clínica filosófica a formação continuada deve ser um caminho.

* Ademir Porto Alegre; Ana Simioni; Isolda Bacchi Menezes e Ana Cristina da Conceição.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Maestro Resiliente

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Resiliência é a arte de transformar toda energia de um problema, toda energia de um fracasso e dar a volta por cima com uma solução criativa. A resiliência é a forma de como lidar com o fracasso e usar seus defeitos em benefício próprio, ou seja, usar um problema como trampolim para uma solução criativa.

Segundo o Aurélio, resiliência é a propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando acessa a tensão causadora de tal deformação elástica.

Dias desse assisti em nossa cidade Criciúma, um concerto com o pianista e maestro brasileiro João Carlos Martins e nesse dia 8 de dezembro ele esteve de volta. Com seu exemplo, resumo tudo o que quero dizer sobre resiliência.

Vejam só. Em 1970 ele foi jogar futebol e bateu a mão direita numa pedra, passou por cirurgia e por não poder mais usar a mão, resolveu encerrar a carreira. Logo encontrou um novo modo de usar a mão direita e voltou a cena.

Oito anos depois teve LER (Lesão por Esforço Repetitivo) nessa mesma mão. Não se deu por vencido e meses depois estava regendo com a mão esquerda.

Durante um assalto na Bulgária levou um tiro e por oito meses fez tratamento hospitalar para reprogramar o cérebro e voltou a atuar no mesmo ritmo do início da carreira.

Anos depois, teve um tumor e perdeu os movimentos da mão esquerda definitivamente. Não se deu por vencido e aprendeu a reger a orquestra com os olhos. Enquanto se recuperava de lesões, foi treinador e empresário do lutador de boxe Eder Jofre, onde recuperaram o título de campeão mundial.

Essa história confirma uma pesquisa da empresa de consultoria Caliper Humam Strategies, onde distinguem que as pessoas com maior desempenho profissional são as que têm resiliência e otimismo.

Em Filosofia Clínica também estudamos a resiliência e por hora concluo que para algumas pessoas o equilíbrio humano é como a estrutura de um edifício: as fissuras e rachaduras aparecem se a pressão for maior que a resiliência.

Os resilientes desenvolvem a capacidade de recuperar-se e moldar-se a cada obstáculo e desafio, já os não resilientes podem até quebrar, surtar, demoronar diante de situações difíceis. Para cada um é de um jeito e cada um reage diferente mediante a situação vivida.

Algumas pessoas, quando passam por situações difíceis, complicadas, se desmoronam. Outras, quando caem simplesmente sacodem a poeira e dão a volta por cima, como no caso do nosso fabuloso maestro João Carlos Martins. Conheço um caso que quanto maior o acervo de experiências e lições que a vida lhe proporcionou, mais resiliente ela se tornou.

Tenho observado na sua história de vida que quando as coisas em casa estavam bem, ou seja, ela mantendo um lar em equilíbrio, quando num momento de crise ela estava praticando esporte que gostava, fazendo caminhadas, definindo suas buscas ou projeto de vida e se concentrava neles, quando ria dos seus próprios problemas, quando usou a criatividade para quebrar a rotina, ela superava seus obstáculos e ainda se tornava em uma otimista incurável.

O legal que depois de tantos acontecimentos marcantes na historicidade dela, hoje consegue separar bem seus papéis existenciais. Quem é e o que faz são coisas distintas para ela e não há certo ou errado ter diversos papéis existenciais, muito pelo contrário, nesse caso.

Disse-me ela: “Ultimamente quando caio, lembro da música da Beth Carvalho: levanta, sacode a poeira e dê a volta por cima”. E é assim que ela tem feito. Percebo que para ela tem funcionado como mágica. Lembrando que isso é assim para ela.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Mercado Central SP

Olympia
São João del Rei/MG

Luz
Paredes
Portas
Janelas
Tetos
Chãos
Águas
Sons
Cheiros
Cores
Homens
Movimentos
Universo
Hardware.
Jus!

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Justiça, santa ou diabólica ronda vida... resistente, forte, ingênua, cruel. Efetiva sonhos lateja carnes, movimenta corpos. Carnavalesca existência... dilaceramento, cansaço e volúpia... espírito permeado... novos prazeres magnéticos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Meu coração não quer viver batendo devagar

Jussara Hadadd
Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Meu coração não quer saber de viver batendo devagar. Meu corpo não quer viver em estado de letargia e não suporta o abandono e a secura dos dias que vão passando, áridos e sem vida na distância de um ser amado ou no mínimo compatível com a necessidade humana de compartilhar.

O preço é alto, o tombo é maior ainda, mas eu arriscaria o meu sorriso eterno por gargalhadas descontroladas, por um estado de euforia, por saltos no meu peito e apertos no meu ventre que me fizessem sentir a vida em seu ápice e êxtase, em seus altos e baixos e em profundos apertos e largas expansões do meu plexo solar.

Custaria talvez dias longos de tristeza, de saudade ou de profunda decepção, mas eu ultrapassaria estes dias com gotas de lembrança da loucura que me permiti em nome da mais alta emoção, em nome do meu direito de nutrir minha alma de um colorido fluorescente que só o amor dos loucos pode fazer acontecer.

Passaria o resto dos meus dias entre bandagens. Curaria cada ferida com o elixir dos meus sentidos ainda latentes. Irradiaria do meu ventre toda a energia necessária para um renascimento após ter morrido de tanto amar, contudo não abriria mão de uma tórrida história de amor.

Levantaria voo como uma Fênix renascida das cinzas, mas não me apagaria e jamais prometeria à vida e nem tão pouco a Deus, não cometer outra vez tamanha insanidade. Cometeria sim, quantas vezes fosse necessário, para me sentir viva e membro efetivo de uma colônia divina aqui na terra onde foi determinado que fôssemos felizes em par.

Jamais bradaria ao vento ou a qualquer comunidade deste mundo que sou feliz sozinha e que posso sublimar a qualquer tempo esta necessidade premente de amar. Nenhuma dor de amor poderia apagar este calor que trago no corpo e na alma e fazer de mim um galho seco de árvore pendurado em tronco disfarçado em fortaleza. Nenhuma desilusão, posterior à ilusão que escolhi para viver feliz por alguns dias fará de mim um galho seco de árvore fraco e passível de rancor ou de motivos que me impeçam ressurgir.

Não, nunca me declararei feliz completamente, se de tempos em tempos não puder sentir meu coração arrebentando no peito em consonância com o pulsar das minhas veias diante de todo prazer que me foi permitido sentir quando desci para a terra em um corpo de mulher saudável pela dádiva divina. Jamais negarei minha existência e toda a felicidade que prometi sentir diante de toda benção que recebi ao vir, munida de Inteligência, sentimentos e sentidos.

Serei grata, eternamente grata a cada momento de alegria que me for concebido. A cada um que fizer parte do meu caminho, a cada experiência doce ou dolorosa, a tudo e a todos que me possibilitarem ter a nítida certeza do sentido da minha vida.

Está louca esta mulher? A vida não é somente feita de amor... Não, não é mesmo, tem todo o resto. Mas o resto eu uso para passar os dias até que eu possa amar novamente.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Assim é para mim!

Miguel Ângelo Caruso
Filósofo Clínico
Teresópolis – RJ


Quando é lida essa afirmação, talvez a primeira ideia é de que o texto não deve ter crédito, pois não se valeu de nenhuma autoridade nem de nenhum peso argumentativo que buscasse a universalização do discurso.

No entanto, essa é uma afirmação tão filosófica quanto qualquer outra. A diferença é que na literatura da Filosofia Clínica ela se torna mais explícita pela sua proposta.

Os filósofos ao longo de toda história do pensamento refletiram a partir de sua história pessoal, seu contexto e suas influências. Todas as ideias apresentadas foram originadas de uma subjetividade.

Sabiamente a filósofa Márcia Tiburi, em uma palestra no programa Sempre Um Papo, disse que não sabe se realmente entendeu os filósofos que leu. Não se trata de ironia socrática, mas da sinceridade filosófica.

As obras filosóficas são compreendidas por quem as lê a partir de seu contexto atual. Nunca será possível saber se todas as interpretações do que Aristóteles escreveu, são de fato tal como ele pensou.

Jean-Paul Sartre disse em uma entrevista que um de seus textos mais difundidos, “O existencialismo é um humanismo” foi interpretado de maneira errada. Ou seja, o que ele expôs não foi compreendido como ele queria.

Assim, acredito, são os desdobramentos de todo pensamento filosófico. E mais, em Filosofia Clínica, Lúcio Packter fez questão de que os exames categoriais fossem bem feitos para que a aproximação com o que é exposto pelo partilhante, fosse compreendido pelo filósofo do modo mais próximo possível do significado original.

O próprio Lúcio ao afirmar que “isso é assim para mim”, abre a Filosofia Clínica para posteriores desenvolvimentos. A Filosofia Clínica é exposta de modo a nunca ser dogmática.

É um ramo da filosofia que recebeu diversas significações de seus estudos das mais diversas tradições filosóficas, desde Aristóteles a Wittgenstein. Como Packter afirma em um dos cadernos: talvez os filósofos dos quais foram tiradas as bases teóricas da prática clínica, nunca concordariam.

Assim é a riqueza da Filosofia Clínica! Assim é para mim!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes IX*

"Eu sou uma alma da 'belle époque', quando as mulheres tinham ataque. Tão bonito mulher ter ataque, desmaiar."

"Eu freqüentava a escola pública e, sem nenhum exagero ou dado pitoresco, me apaixonava por todas as professoras."

"Não existe mais a mulher séria. Nem tem sentido. Acho a mulher séria formidável, mas definir uma mulher como séria é até ofensa. Onde se encontra hoje uma mulher fiel ?"

"Se alguém examinar bem o assoalho das minhas peças, vai encontrar todas as respostas, os meus vestígios, a minha visão do mundo, do ser humano, do pecado."

"Acho que o amor não precisa ser realizado. Na nossa vida vale muito o apenas sonhado. O valor está no sonho. Eu diria que esse "apenas sonhado"é mais importante do que o realizado. O sonho não aceita nem respeita os limites. A única maneira de um sujeito ter o sentimento do universo é sonhando, se não só se vê a esquina."

*Nelson Rodrigues.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes VIII*

"Mesmo que não se compartilhem totalmente as afirmações de um sujeito delirante genial, não se pode colonizar o delírio, sobrepondo-lhe uma racionalidade estranha. É necessário deixá-lo falar o mais possível em sua própria língua."

"No decorrer da existência, cada indivíduo experimenta, então, diferentes versões de si mesmo, que incluem trechos não traduzidos na linguagem das camadas seguintes."

"O sujeito delirante é incoerente e absurdo somente em relação ao mundo compartilhado, porque é muito coerente e razoável na ótica do mundo 'substituto'."

"(...) mais do que um defeito ou uma ausência, encontra-se no delírio uma plenitude excessiva, um transbordmaento. Erra-se ou, nesse caso, fica-se 'extravagante' (saindo-se da leira, do sulco), porque não foi devidamente reconhecida uma verdade que, à sua maneira, consegue afirmar-se."

"O delírio é tão perturbador e temido precisamente porque ameaça e coloca, escandalosamente, em discussão o mundo de cada um, com sua presumida obviedade."

* Remo Bodei