terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Eternidade ou infinito?

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Vira e mexe a humanidade se ocupa de algum modismo. Uma das ondas da hora é a gestão do tempo. Nos últimos anos, distribuir adequadamente as atividades durante o dia constitui uma espécie de diferencial competitivo no trabalho e na vida.

É de bom tom que o sujeito tenha tempo para o trabalho, para a família, para os amigos, para o cachorro, para a prática de algum exercício físico, para o cinema, etc, etc, etc...

Existem até consultorias especializadas em ensinar como organizar melhor o tempo. As dicas são diversas. Algumas inclusive bastante óbvias, como prever imprevistos (ótimo isso) e deixar “janelas” de horário entre um compromisso e outro.

Outras são mais exóticas, como realizar reuniões de pé, de forma que o cansaço físico faça o cérebro tomar decisões mais aceleradamente. Tempo é dinheiro, não é mesmo?

Por mais competentes e criativos que os ‘consultores do tempo’ sejam, a ditadura do relógio e do calendário é fato. Ninguém discute que sessenta segundos fazem um minuto, que sessenta minutos fazem uma hora, que 24 horas fazem um dia, que 28/30 ou 31 dias fazem um mês e que 12 meses fazem um ano. A propósito, quantos anos são necessários pra compor uma vida de verdade, que valha a pena?

Calendários, relógios e agendas são sinônimo de rotina e é a partir dela que se planeja bem o tempo. A rotina, aqui, está entendida como método, disciplina, o que endossa o trabalho dos especialistas quando dizem que não importa se são muitas as coisas a serem feitas, porque o dia só tem 24 horas e com um mínimo de organização é possível fazer tudo que é necessário e um pouco mais!

Acho isso lindo. Pessoas disciplinadas, organizadas, com seus dias milimetricamente calculados despertam em mim a mais profunda admiração. Se eu tivesse que funcionar assim, junto com o consultor de tempo teria que contratar um consultor de tédio.

Será que existe algum método de gestão do tempo voltado para pessoas que fazem várias coisas juntas, que trocam o dia pela noite, que não são se enquadram perfeitamente a horários de expediente e que quase surtam quando precisam ficar meia hora aguardando por alguém que está atrasado para a reunião, se esqueceram de levar um livro ou bloquinho e caneta na bolsa?

Como seria bom se o tempo não existisse! Não havendo tempo, e portanto nem como e nem necessidade de mensurá-lo, a palavra stress também deixaria de existir. Nem sensação de perda de tempo haveria! Existiria apenas o ritmo interno de cada ser vivo, de cada atividade. Os ciclos e os períodos de maturação sendo respeitados. Não haveria decisão precipitada. Nem prazos que não fossem cumpridos. Seria isso a eternidade? Ou seria o infinito?

Às vezes parecemos provar da eternidade (ou do infinito?), como se o tempo tivesse parado... Sinto isso quando observo a lua, quando toco violão, quando caminho num mato de acácia ou eucalipto, quando escrevo contos, quando observo um bebê dormindo...

Dessas coisas, que fazem a vida valer a pena, nenhum consultor do tempo se ocupa! E nem precisa. É interno. Está em nós. A propósito: quantos momentos de eternidade (ou de infinito), são necessários para constituir uma vida que vale a pena?

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