sábado, 22 de janeiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XIV*

"No jardim das Tulherias, esta manhã, o sol adormeceu sucessivamente sobre todos os degraus de pedra, como um adolescente loiro a quem a passagem de uma sombra interrompe imediatamente o sono ligeiro."

"O sol, como um poeta inspirado e fecundo que não desdenha disseminar a beleza nos lugares mais humildes e que até então não pareciam dever fazer parte dos domínios da arte, ainda aquecia a benfazeja energia do esterco, do pátio pavimentado de modo desigual (...)."

"A ambição embriaga mais do que a glória; o desejo floresce, a possessão fenece todas as coisas; é melhor sonhar com sua vida do que vivê-la, ainda que vivê-la seja ainda sonhar com ela (...)."

"Os poetas que criaram as amantes imortais não conheceram mais do que medíocres empregadas de albergues, ao passo que os voluptuosos mais invejados não sabem de modo algum conceber a vida que levam ou, melhor ainda, que os leva."

"A vida é como a namorada. Sonhamos com ela, e amamo-la por sonhar com ela. Não é necessário tentar vivê-la: lançamo-nos, como o menino, na estupidez, não de uma vez só, pois tudo na vida se degrada por nuances insensíveis."

"(...) nosso coração, que tem o sentimento, ou melhor, a ilusão da eternidade de seu amor, sabemos que um dia aquela, de cujo pensamento vivemos, será para nós tão indifeente quanto nso são agora todas as outras que não ela ... Ouviremos seu nome sem uma volúpia dolorosa, veremos sua caligrafia sem tremer, não mudaremos de caminho para vê-la na rua, nós nos encontraremos com ela sem perturbação, nós a possuiremos sem delírio."

"É com uma emoção afetuosa que percorremos o campo obscuro e saudamos os carvalhos plenos de noite, como o lugar solene, como as testemunhas épicas do impulso que nos arrasta e atordoa. Erguendo os olhos em direção ao céu, não podemos reconhecer sem exaltação, no intervalo entre as nuvens ainda emocionadas pela despedida do sol, o reflexo misterioso de nossos pensamentos."

* Marcel Proust

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