segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

NEM TUDO QUE SE ENXERGA É O QUE SE VÊ

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Muitas técnicas podem ser utilizadas para se tentar mexer com cabeça das pessoas. Psiquiatras, psicólogos, filósofos clínicos seguindo seus conhecimentos utilizam-nas com finalidades terapêuticas. Mas nem sempre a manipulação do pensamento é realizada com esta finalidade.

Publicitários, por exemplo, lançam campanhas na mídia em que aparecem modelos belíssimas com carros de último tipo sempre cercadas de boas companhias e com aparência de extrema alegria e felicidade. Qual o objetivo final? Mostrar as características do automóvel? Provavelmente não.

A idéia é alimentar a ansiedade do público a respeito de seus bens materiais insuficientes, sua aparência desgastada, seu desempenho sexual abaixo das expectativas, etc, porque um consumidor insatisfeito, teoricamente, é mais induzido a comprar.

De maneira semelhante, a imprensa prende nossa atenção com histórias de crimes violentos, desastres naturais, escândalos políticos, acidentes aéreos, seqüestros, realizando uma das estratégias mais antigas e até hoje eficaz, que é a promoção do medo, visando mexer com o imaginário das pessoas.

Se a maioria da população é pobre, não viaja de avião, não sabe votar, qual seria o objetivo de destacar estes fatos em horário nobre na televisão e nos jornais? Qual a conseqüência de ficarmos sendo bombardeados diariamente com estas noticias? Desenvolvimento de medo, ansiedade e revolta em nossas mentes.

A lista de medos que as pessoas carregam é proporcional às informações a que elas tem acesso. Descarregando diáriamente incertezas e medos na população, provavelmente acabe por se desenvolver e justificar uma ansiedade permanente, levando os consumidores a aliviar suas tensões da maneira mais fácil: comprando.

Sempre existe o outro lado. O medo pode fazer com que as pessoas deixem de comprar. Com a desordem e o caos nos aeroportos brasileiros, muitos turistas procuram outras alternativas para suas férias, deixando os aviões de lado.

A cidade do Rio de Janeiro perdeu milhares de turistas em face da criminalidade. É justamente ai, que entra o papel do medo no consumo. Se uma pessoa tem medo de algo, pode lançar mão de duas alternativas: fugir ou enfrentar. Apostando que a maioria da população vai evitar o que lhe causa medo e ansiedade, os publicitários ao desejarem vender viagens terrestres, expõem a crise aérea.

Ao se demonstrar o aumento da criminalidade, fica mais fácil vender planos de segurança, seguros de vida, condomínios fechados, grades para as janelas, fechaduras mais resistentes, passeios e compras em ambientes seguros como shopping centers, e turismo para regiões mais tranqüilas.

Porém de um modo geral, as pessoas ao dedicarem atenção exagerada a certas situações, descuidam-se de perigos verdadeiros e imediatos. Ao nos preocuparmos com o caos aéreo, com o deputado que recebeu propina, com o personagem do reality show, com o jogador de futebol que faltou ao treino, deixamos de ver outras coisas.

Não nos preocupamos com alimentação adequada, deixamos de usar cinto de segurança, convivemos com o aquecimento global, injustiça social, e até mesmo esquecemos de nossas angústias pessoais momentaneamente. Isto pode ser chamado de alienação induzida, e pode ser muito perigoso.

O medo, a curto prazo, não produz mudanças duradouras, mas, apesar da sensação desagradável, a longo prazo pode resultar em ações protetoras. Mas para que isto aconteça, as ameaças devem ser claramente identificadas, a partir de fontes precisas e fidedignas.

A instigação do medo pela mídia, governo, imprensa tem objetivo de nos manter assustados e olhando para um lado, que muitas vezes não é o lado que deveríamos olhar.

Às vezes nos mostram algo para que fiquemos focados e preocupados somente com aquilo e não vejamos o resto e outras vezes nos mostram algo para que sejamos manipulados na direção contrária, induzindo-nos ao consumismo e a alienação. Nem sempre o que se enxerga é o que se vê.

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