segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Quem precisa de terapia?

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Exames, como o da Escola Paulista de Medicina, que procuram evidenciar o tipo de patologia mental que acomete o indivíduo, ou quem o avalia, mostram muito a ideologia que tantas vezes - de outra maneira - não se constata.

O que faz alguém precisar de terapia? (Pergunta capciosa que traz em si mesma uma petição de princípio).

Por exemplo: sentir inveja de um conhecido só porque ele tem algo que você gostaria de possuir para, ao ter, confessar que não era nada daquilo, é um indício?

Ou pensar que se é menos do que os outros, mesmo tendo a convicção de que no fundo se é mais, por qualquer motivo, como saber empilhar o lixo divinamente? Claro que, se houver exagero, como querer fotografar o lixo ou querer guardá-lo em local seguro, isso atrairá a desconfiança de algum terapeuta, o que já acarreta risco de patologia iminente.

Contar mentiras e ficar deprimido quando elas são deturpadas é provavelmente patológico. Cabe apenas saber patologia de quem.

Precisa de terapia quem acha que é infeliz enquanto todos são felizes, e ainda alega para isso coisas que todos alegam para si mesmos? Porque pode ser apenas falta de imaginação que, às vezes, passa.

Seria um indício suficiente a suposição de que a vida é quase essa coisa sem graça que se está vivendo? Ou tudo não passará de uma carência etílica qualquer?

Talvez necessite de terapia quem duvida das coisas antes que elas aconteçam, embora possa ser este sintoma confundido com contemporaneidade, o que, em verdade, é a mesma coisa; agora, depois que aconteceram, achar que nem foram tão maravilhosas assim, pode ser doença mental ou conseqüência do mau cinema norte-americano e daqueles superlativos todos.

Por certo há questões de pouca discussão. Assim, assistir coisas como Big Brother e gostar é algo definitivamente psiquiátrico. No melhor dos casos, a pessoa deve ser internada por atentado ao bom-gosto.

Divórcios levam muita gente à terapia.

Mas querer o divórcio de vez em quando, porque a mulher desrespeitou o tempero da massa que a nossa iídiche mame ensinou a ela, geralmente é sinal de elevação de caráter. Também revela espírito crítico. Qualquer juiz judeu aceitará o fato como prova.

Contudo, isso pode acarretar uma patologia, se se acreditar que advogados só existem no divórcio dos outros. Caso de alucinação braba. Costuma levar a psicoses nas quais o sujeito acorda sem a metade do patrimônio.

Trabalho, e mais amiúde a falta dele, são predisponentes ao consultório.

Estar cansado do trabalho que faz e imaginar que os outros estão satisfeitos resulta do stress, mas não tem cura, somente pode ser administrado. E pode piorar, se a pessoa começar a acreditar que os outros estão satisfeitos com o casamento e com a vida que levam.

Financeiramente, há fatores mentalmente favoráveis a uma terapia, como comprar a prazo e viver as dívidas à vista, algo filosoficamente incorreto. Pois é uma das tradições não escritas em Filosofia somente viver a prazo.

... mas olha, para que os indícios acima funcionem com a devida má-fé, ainda faz-se necessário negligenciar os escritos de Foucault sobre a indústria da loucura, como também conjeturar que Machado de Assis não estava brincando em O Alienista. Assim poderemos anular a tendência de que precisa de terapia quem acha que os outros precisam.

Todos nós temos nossas esquisitices, nossas crises, e pouquíssimos ficam comprometidos clinicamente por isso. Assim como existe a indústria do ensino, da moda, da farmácia, existe a indústria da loucura, próspera da farmacologia aos consultórios.

Às vezes, o critério para se saber se o indivíduo precisa de terapia é saber se o terapeuta necessita que ele necessite.

Em muitíssimos casos, um bom vinho com os amigos, um papo longo próximo a uma lareira, os carinhos demorados da mulher amada, um programa de jazz em uma rádio chilena, um choro profundo, coisas assim, vão mais longe, mais fundo e são a própria terapia que poucos consultórios têm.

Talvez a terapia (!?) seja necessária de fato a muito poucos.

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