quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Bem-vindo, Kairós

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

De todos os deuses, há um que desperta em mim uma curiosidade especial. É Kairós, o deus da oportunidade. Ele tem asas nos pés e cabelo longo somente na parte frontal da cabeça. A mensagem, embora simbólica, é muito objetiva: se você quiser agarrar uma oportunidade, que seja de frente, porque a chance pode ser única, rápida e rara.

Quando pensamos em oportunidade, a tendência é buscarmos na lembrança ou nas expectativas algo de grandes proporções. Entendemos como oportunidade algo gigante, capaz de empreender extraordinárias mudanças na nossa vida. É uma super promoção em se tratando de trabalho, é um grande amor em se tratando de vida afetiva.

Outra tendência é imaginarmos que oportunidade é um presente que nos é dado pelo destino, independente de nossas ações. Algo que vem de fora, como se fôssemos sorteados pela grande roda da vida para recebermos aquele benefício.

Particularmente, sou um tanto cética quanto à benevolência e generosidade do acaso. Por que, entre as seis bilhões de pessoas que habitam o planeta Terra, seria justamente eu a escolhida por um deus para receber a grande e amada salve salve oportunidade?

Também acredito que, se existe um deus para a oportunidade, o mínimo que se espera é que ele trabalhe. E muito, garantindo satisfação tanto em termos de quantidade como em qualidade. E foi pensando nisso que, outro dia, fiquei cogitando a possibilidade de inverter a lógica da história. Em vez de esperar o Kairós, fui eu em busca dele.

Comecei a observar o cotidiano em casa, no trabalho, nas rodas sociais. E não é que me surpreendi, positivamente, com a presença constante dele? Kairós é chiclete! Tudo bem que não conquistei um cliente para a empresa a cada esquina, nem saí arrebentando corações. Mas e quem disse que era isso que eu queria, ou precisava?

Encontrei, sim, outras oportunidades. Com amigos, por exemplo, encontrei várias oportunidades de ser gentil, de fazer favores, de espalhar sorrisos... No trabalho, encontrei oportunidades de fazer melhor determinada tarefa, de me desafiar em funções para as quais não me sinto muito hábil...

Se pararmos para pensar, as oportunidades são inúmeras e estão ao nosso lado o tempo todo. Esperando as grandes, acabamos por esquecer das pequenas, que talvez estejam aí simplesmente pra abrir o caminho. É confortante pensar que essas pequenas oportunidades podem funcionar como tochas sinalizadoras para atrair as grandes, que podem vir na forma de ideias, iniciativas e projetos que só estão esperando alguém que as coloquem em prática.

É como se Kairós estivesse de visita na cidade esperando que alguém lhe ofereça acolhida, cuidando de pequenos detalhes/oportunidades para que ele se instale. Quem se habilita?

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