terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Existências que se tocam

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Há pessoas que não conseguem ser esquecidas.
Por mais que se esforcem não conseguem.

São como diamantes raros, belos e multifacetados que concentram em si o sentido da eternidade na qual interferem e transferem ao outro o dom de possuir algo que não deveria nunca ser explicado.

Há pessoas que seduzem e impregnam o outro como se fluidos fossem, sem permissão, deixando muitas vezes um legado que se aproxima da perplexidade.

Há pessoas que conferem autonomia, poder, reconhecimento pela simples ação da existência, traduzidas pela palavra que se insinua, pela fugaz troca de olhar, pelos sentires intensos.

Pessoas assim existem e isso basta! Não há como explicar.

E para que explicar o que não se entende? Para que entender o que não se explica? Para que formalizar o que o coração não suporta?

Essas pessoas que por serem tão vastas, permanecem um mistério, onde o amor e a admiração muitas vezes se confundem e se fundem em incondicionalidades.

Mas o que é incondicional é o que traz em si a intenção de ser para sempre, pois nem o tempo deveria ser obstáculo ao que não tem regras, ao que é puro e repleto de ternura.

A beleza do que evocam justifica o risco do que se supõem inadequado.

Na verdade, somos andarilhos ávidos por novas compreensões e penetramos o destino sem avaliar o porvir, porque somos ingênuos também e talvez um tanto imprudentes.

A dança de insinuações - que não consegue evitar a batida forte, a respiração suspensa, o desejo que pulsa, forte e repleto de fantasias... para depois se recolher, impotente e obstruído diante da realidade... cruel, porém inevitável – também gera distâncias.

Fica uma dor ao longe, uma dor que não se cansa de doer, porque lá no fundo acreditava em algo maior.

Com o tempo, essa dor vem acompanhada da aceitação e da entrega de si mesma aos registros da memória, onde o coração evita acessar; onde só a razão tenta interceder.

Ele (o coração), avariado e confuso, tem dificuldade em compreender as perdas que se seguem à indiferença. E, por ser coração, às vezes não consegue compreender nada e se recusa ao óbvio.

Os espaços criados agora são saudades, onde diálogos possíveis e que se desdobraram em infinitas possibilidades, agora resultam vazios, carentes de seu mais precioso sentido: aquele que é simplesmente o de ser e compartilhar o que há de mais sublime nas existências que se tocaram. A amizade deveria ser mais forte e não se deixar levar pela surrealidade da nossa pequena humanidade.

Pessoas assim podem até dar adeus, mas não se extinguem jamais.
Não podem ser esquecidas, simplesmente não conseguem.
E permanecem envoltas no maior carinho possível: aquele que não depende do outro para existir.

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