quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Muitos passos em falso são dados ficando-se parado*

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre


Depois que os seres humanos conseguiram ficar eretos e andar sobre duas pernas, o mundo passou a ser visto de outra forma. No inicio, em sinal de respeito, os homens curvavam-se somente para os Deuses, que os protegiam. Mais tarde passaram a se curvar também para tiranos, que se julgando semi-deuses, impunham o respeito e a veneração pela força.

O tempo foi passando e novas alterações posturais surgiram. Músculos, ossos, articulações tiveram que se adaptar à evolução do intelecto. Os homens inventaram a cadeira e então sentaram. Depois veio a roda e passaram a andar sentados. Confortavelmente em uma poltrona, hoje pode-se voar, conversar via internet e até mesmo governar. O homem busca constantemente seu bem estar e uma melhor qualidade de vida.

O habitat humano, sendo essencialmente social, vai exigir relacionamentos, que podem variar da completa rigidez à total flexibilidade. Endurecidos ou flácidos também ficam os músculos, quando reagem à determinadas exigências sociais.

Nossos ancestrais foram forçados a se curvar para tiranos anti-éticos. Hoje, nossa coluna curva-se ao ver desigualdade, corrupção, impunidade, injustiça. Curva-se mais ainda com resignação, impotência, alienação. O corpo vai absorvendo as pressões sociais, os músculos vão retraindo e surgem as escolioses, deformidades, artroses e dores na coluna.

Postura e ética tem tudo a ver. Ética é uma postura de vida que pode moldar a postura corporal, mas em contra-partida, a postura fisica também pode sugerir a visão de mundo de um indivíduo. Rígida em princípios e valores e flexível na forma de analisar e sentir o outro, a ética pode ser metafóricamente comparada a um músculo.

Quando um princípio ético é forçado a ser relaxado, corpo e mente são afetados e passam a gastar mais energia. A pele, que é a nossa primeira roupagem e barreira para o exterior fica tensa, os músculos se contraem e a harmonia postural se desequilibra.

Da mesma forma, quando uma relação se torna rigida, seja com o próprio indivíduo em primeiro plano ou mais adiante com os outros, o sistema imunológico afrouxa as defesas do organismo, facilitando o surgimento de doenças.

Ética relaxada, músculos contraídos. Relacionamento rígido, imunidade frouxa. Crônica ou agudamente, ocorre uma transferência de atitudes ou da falta delas para dentro do organismo e a partir daí, músculos se contraem ou relaxam, hormônios são liberados ou reprimidos. Vale lembrar que o coração também é um músculo. Curvar-se para as exigências sociais, sentir dor, contrair doenças vale a pena? É válido utilizar, mesmo que inconscientemente o corpo como escudo ou reflexo do sofrimento da alma?

Um corpo encouraçado, inflexível, sem oxigênio circulante, não deixa o cérebro pensar, estabelecendo então um ciclo vicioso. O conforto fisico também afeta a capacidade de analisar, sentir, julgar e de ser ético.

Cada ser humano é único em seu corpo e forma de pensar e agir. Não existe corpo nem postura perfeitas. O caminho e o modo de andar são escolhas individuais, porém muitos passos em falso são dados ficando-se parado.

*Artigo escrito com colaboração de Luciana Fioravanti - fisioterapeuta, morfoanalista.

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