sexta-feira, 25 de março de 2011

DAR SENTIDO AO ACORDAR

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Você não dormiu direito. Pode ter sido insônia, um filho doente, uma festa que se prolongou ou um projeto a ser finalizado. O fato é que seu corpo não descansou, o sono não foi reparador e você tem um compromisso agendado. Qual sua estratégia para pular da cama cedo pela manhã e ir trabalhar, estudar ou cuidar da saúde praticando exercícios? O bom e velho despertador ainda é um dos métodos mais utilizados, mas infelizmente é muito primitivo.
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Você já deve ter tido a experiência desagradável de estar deitado, tentando ainda desesperadamente recuperar o sono e de repente aquele susto. Um barulho tão incômodo invadindo seus ouvidos que a freqüência cardíaca aumenta, a respiração fica ofegante e o corpo molhado de suor. Envolto por tal perturbação você instintivamente levanta e desliga aquele som. O dia já iniciou, o calendário mudou, porém você ainda não teve o tempo necessário para sair do ontem.

Mais do que isto, você realmente acordou ou simplesmente tomou um susto que o tirou da cama? Muitas vezes as pessoas se vestem, tomam café e partem para suas jornadas como sonâmbulos, fazendo obrigações automaticamente. Saem da cama às seis horas da manhã, passam o dia dormindo e só vão acordar mesmo lá pelas seis da tarde.

Na tentativa de amenizar o estresse do despertar artificial foram surgindo invenções: rádio relógios musicais, travesseiros programados para iniciarem vibrações suaves, condicionadores de ar que modificam a temperatura ambiente, lâmpadas que aumentam a claridade. Aparelhos que promovem a estimulação dos órgãos dos sentidos, modificando aguda ou lentamente condições ambientais, perturbando o sono e forçando sua interrupção de uma maneira menos danosa ao organismo.
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Seriam estas técnicas realmente menos nocivas ou apenas uma maneira mais agradável de estimular os sentidos, sendo o verdadeiro problema o despertar artificial? Seja como for, parece que uma coisa está clara: se quisermos interromper o sono de alguém, teremos que apelar para as sensações.

A palavra acordar tem sua origem em “cordatus”, que significa juízo aguçado, razão em pleno funcionamento e o termo despertar deriva do espanhol “espertar”, avivar, tornar-se esperto.

Interromper forçadamente o sono e levantar para realizar tarefas é diferente de acordar. O indivíduo vai acordar somente quando estiver pronto para isto. Em relação aos sentimentos e comportamentos não é diferente. Podem transcorrer anos e até mesmo toda uma existência e as emoções permanecerem adormecidas. Uma interpretação poética para acordar pode ser “dar cor para”, ou seja, sair do piloto automático e agir com o coração.

Um homem pode ficar todos os dias saindo da cama para trabalhar às seis horas da manhã e acordar realmente só aos sessenta anos de idade, quando descobre que esteve o tempo todo na profissão errada. Estar de olhos abertos, caminhando, conversando, trabalhando não significa estar desperto. Pode ter sido uma vida absolutamente sem cor, cinzenta e sonolenta.
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Os órgãos dos sentidos são indicadores, marcadores dos sentimentos e emoções que habitam nosso ser. Se ficarem restritos ao corpo físico, perderão uma de suas preciosas funções. Seremos mais zumbis do que despertos. O verdadeiro despertador é a consciência de que vale a pena acordar. Que a vida tem emoções, surpresas, cheiros, gostos e amores esperando para serem coloridos.
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Dormir é bom, importante e saudável; permite relaxar, repousar e sonhar. Acordar e abrir os olhos para a realidade pode até ser doloroso, mas estar presente no momento, ficar em pé fazendo pleno uso do corpo, coração e mente é viver concretamente o sonho

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