quinta-feira, 31 de março de 2011

VOCÊS SÃO RIDÍCULOS*

"Em qualquer tipo de civilização, cada costume, objeto material, idéia ou crença, satisfaz alguma função vital"
B. Malinowski
Antropólogo polonês.

Vou tentar validar esta proposta analisando o casamento. Será que alguns costumes realmente foram criados visando contemplar a função do acasalamento? A virgindade pode servir de exemplo.

Na antiguidade não existia a pílula anticoncepcional, as mulheres mal conheciam seu corpo, não sabiam o que era orgasmo e o resultado de uma noite de sexo tinha grandes chances de terminar em gravidez. A mulher que sonhasse em ter seu príncipe encantado, deveria se manter virgem para evitar filhos indesejados antes do casamento.

Além disso, os homens eram educados para ter uma mulher em casa e quantas quisessem na rua, enquanto as meninas deveriam casar virgens e se manter fiéis e obedientes aos maridos. Quando alguma jovem experimentava transgredir estas regras era expulsa de casa, rotulada de vadia e provavelmente não encontraria marido. Resultado prático e funcional: mulher decente só fazia sexo depois de casar e no mais das vezes, com a função de procriação.

Como os maridos teriam certeza da paternidade dos filhos se naquela época não existiam exames deste tipo? Simples, casavam com uma mulher virgem e a mantinham em casa, sempre grávida, cuidando da prole.

Outro exemplo, o casamento religioso. Desde a época romana, o casamento era visto como uma forma de transmissão sobre propriedades e bens, incluindo nestes “bens” as mulheres, que muitas vezes eram prometidas para os futuros sogros e maridos antes mesmo de nascerem.

Como os contratos envolviam patrimônio (muito mais importante que amor na época) e eram estabelecidos para fortalecer as famílias e durar para sempre, a igreja foi requisitada para abençoar a união e regulamentar os contratos. As exigências eram a pureza familiar, a indissolubilidade do casal e a procriação. Resultado prático e funcional: casamento virou um sacramento, seu rompimento um pecado, propriedades e bens assegurados.

Enquanto as funções vitais de procriação e manutenção patrimonial eram satisfeitas, outras, consideradas menos importantes ou desconhecidas, foram sendo enterradas, tendo como consequencias submissão, infelicidade, depressão, adultério, brigas, assassinatos, suicídios, filhos ilegítimos e outras tantas manifestações de insatisfação com a falsa moralidade imposta por este tipo de casamento.

É claro que em algum momento haveria uma reação. Assim como filhos únicos costumam compensar sua solidão formando famílias numerosas, pais que tiveram infâncias sofridas e pobres exageram nos presentes e regalias para os filhos, cada geração procura corrigir as atitudes e crenças que lhe foram impostas, a seu ver injustamente, por seus antepassados.

Durante séculos a força, o poder e o medo reprimiram estas reações, mas a partir dos anos 60 cada filho passou a desafiar os pais ou educadores de uma maneira diferente, tentando modificar o mundo à sua volta.

Algumas reações foram tímidas, outras superdimensionadas. Justificadas ou descabidas, exitosas ou fracassadas, geraram tumultos, protestos, prisões, greves, excomunhão, dissolução de famílias, crimes. Enfim, as funções vitais passaram a mostrar todas as suas faces.

Sexo não só para procriação, mas também por prazer e por amor, separação e divórcio quando o matrimônio não mais funcionar, virgindade por opção e não por imposição, contratos desvinculando patrimônio dos relacionamentos, casamento não mais como pré-requisito para viver juntos ou ter filhos, casais homossexuais, aborto, afastamento e até negação da religião, reprodução assistida em laboratório, testes de paternidade, vários “casamentos” ao longo da vida ou concomitantes.

Algumas reações são fáceis de explicar e até mesmo de prever, outras ainda precisarão de tempo para mostrar ao que vieram. Alguém sabe explicar o que significa, que sinal de protesto ou qual função vital representa “ficar” com 10 ou 15 garotos ou garotas na mesma noite? O que a geração anterior fez ou está fazendo para tamanha compensação? Ah, ia esquecendo de um ditado importante que há séculos pais escutam de seus filhos: “Vocês não me entendem”, “Vocês não sabem nada”, “Vocês são ridículos”!

*Ildo Meyer
Médico e Filósofo clínico
Porto Alegre/RS

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