domingo, 17 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXIX*


"Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária."

"Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra."

"Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem."

"A metade do poema sobressalta-me sempre um grande desamparo,tudo me abandona, não há nada a meu lado, nem sequer esses olhos que por detrás contemplam o que escrevo, não há atrás nem adiante, a pena se rebela, não há começo nem fim, tampouco muro que saltar, é uma esplanada deserta o poema, o dito não está dito, o não dito é indizível, torres, terraços devastados, babilônias, um mar de sal negro, um reino cego,
Não, deter-me, calar, fechar os olhos até que brote de minhas pálpebras
uma espiga, um repuxo de sóis, e o alfabeto ondule longamente sob o vento do sonho e a maré suba em onda e a onda rompa o dique, esperar até que o papel se cubra de astros e seja o poema um bosque de palavras enlaçadas,
Não, não tenho nada a dizer; ninguém tem nada a dizer, nada nem ninguém exceto o sangue, nada senão este ir e vir do sangue, este escrever sobre o já escrito e repetir a mesma palavra na metade do poema, sílabas de tempo, letras rotas, gotas de tinta, sangue que vai e vem e não diz nada e me leva consigo."


*Octavio Paz

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