terça-feira, 19 de abril de 2011

Princípio da humildade

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


O que sei a respeito do partilhante numa consulta? Nada. Como poderei ajudá-lo? Não sei. Quanto tempo levará a clínica? Impossível concluir até que aconteça. O que posso definir a respeito do partilhante então? Nada.

A grande incógnita não necessariamente significa impossibilidade de ação. Também não faz do filósofo clínico um inútil. A partir da abertura ao outro propiciado pelas instruções da Filosofia Clínica, o terapeuta torna-se um estudioso do partilhante e acaba aprendendo mais do que ensinando.

O mistério do ser humano é sempre um desvelar do que sempre se vela. Sabemos muito pouco do muito que não sabemos. A incompreensibilidade da totalidade do que nos aparece é o reconhecimento de que estamos diante de alguém digno de imenso respeito.

Quando os trabalhos iniciam no consultório, pouco se sabe. Quando termina, o pouco tornou-se, muitas vezes, suficiente para ajudar o partilhante no caminho para o livre cursar de sua existência. Sua estrutura de pensamento chegou a uma estruturação que permitiu um alívio de conflitos.

A duração do resultado é incerta. Não há como matematizar os resultados quando se trata de pessoa. A subjetividade é tão imperscrutável quanto é a individualidade ante a totalidade da humanidade. Sempre sabe-se pouco.

Mesmo diante da limitação de reconhecer o sujeito em sua totalidade e profundidade, o filósofo clínico alça-se rumo ao outro numa “recíproca de inversão” tentando olhar o outro com seu modo de enxergá-lo.

A cada passo em direção ao outro, o filósofo clínico reconhece mais caminho para aprofundar. Aprofundando, mais profundidade aparece. Além da limitação de reconhecer o que é e como pensa o outro, ainda tem a “autogenia” que torna o partilhante sempre outro a cada encontro.

Algo fica disso tudo. O que Aristóteles denominou essência, talvez seja o que fica mesmo diante de tanta mudança e nos faz reconhecer o outro apesar de tantas modificações. E é essa essência que o filósofo clínico, que antes de tudo é filósofo, encontra. Uma essência que “re-vela-se” a cada desvelar. Velando e desvelando o filósofo aprende a reconhecer pontos de apoio a fim de trabalhar as questões de seu partilhante.

Trabalho interminável se a meta fosse a busca pelo fundamento absoluto daquele que se apresenta aos cuidados do filósofo clínico. O que acontece de fato é a aproximação e a delimitação de questões que são trabalhadas a partir dos submodos.

Jamais se intenta uma resolução absoluta. Talvez a única verdade absoluta seja que tudo é movimento e incerteza. Resolvendo o que é possível ao filósofo clinico em conformação com o partilhante, o conforto, o bem estar subjetivo, o encontro de um caminho, uma nova perspectiva são vislumbradas.

Deixa o partilhante o acompanhamento com sua autonomia de pensamento estabelecida. Às vezes, nada disso acontece e o partilhante nem sequer lembra do filósofo que o acompanhou. Essas são as possibilidades vividas pelo filosofo clínico no exercício de ser cuidador e reconhecedor de sua limitação, humilde.

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