terça-feira, 12 de abril de 2011

Qualidade dos encontros

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


O mundo em que vivemos é um convite explícito para encontros e conexões, seja de forma mais profunda ou superficial, pessoalmente ou por via eletrônica. Todos os dias, esbarramos, encostamos, tocamos e até nos fundimos com outras pessoas. São vozes, rostos, peles, maneiras de pensar e sentir, também de ver a existência, que de alguma forma acabam por integrar o nosso jeito de ser e estar no mundo.

A qualidade das interseções é definida por vários fatores, entre eles a natureza de cada um, sua história, intenção, os objetivos e também o contexto.... Maior ou menor grau de intimidade ou de troca intelectual é estabelecido pelo quanto nos sentimos à vontade com a outra pessoa, o quanto confiamos nela, o quanto nos dispomos à exposição...

Com o passar do tempo, vamos ficando mais ‘espertos’, com a percepção mais refinada, na avaliação daqueles com quem temos contato. Com alguns nos sentimos à vontade, aconchegados, com aquela sensação belíssima de bem-estar. Na presença de outros, é frio, espinhento, invasivo... Também existem interseções que se alternam entre gostosas ou frustrantes, além daquelas que não sabemos definir se são efetivamente boas ou más, ou se esta é uma definição que conquiste tamanho alcance.

É possível escolher?

Pequeno universo que somos em um mundo de aproximadamente sete bilhões de outros universos pessoais da espécie humana, se o indivíduo não puder escolher quem entra, fica ou sai de sua vida, o que lhe resta? Em alguns ambientes, esse grau de escolha é menor. Exemplo disso é o trabalho. Em outros, é bem maior... E o melhor exemplo é nossa vida afetiva.

Mas mesmo quando não é larga a possibilidade de escolha de quem se relaciona conosco, ainda assim podemos escolher o grau e a intensidade do encontro. Um colega de trabalho pode ou não ser também amigo... E de qualquer forma, mesmo que fôssemos o último ser humano a habitar o planeta Terra, ainda assim teríamos um vasto universo de exploração, que é nossa própria intimidade.

Resta, portanto, muito! Pensamentos, sentimentos, impulsos... São tão ricas e variadas as possibilidades de composições, a partir de fatores internos e externos, que se nos detêssemos apenas a observá-las teríamos serviço para um vida inteira e talvez não chegássemos a uma conclusão definitiva. E talvez nisso resida toda beleza da vida, em sua capacidade de surpreender, multiplicar, reformular, recriar, re-significar, ou até mesmo de consolidar, decantar e petrificar.

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