quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônica para os que morrem de amor

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Se por ventura, um dia desses, encontrar a minha professora de literatura da sétima série na rua, chamarei para uma conversa bastante séria. Onde já se viu tamanha irresponsabilidade: ensinar o romantismo de maneira tão empolgada a adolescentes, que estão formando seu ideal de amor...

Aprendemos que é bonito sofrer, entregar a alma ao outro, até morrer pelo outro, no melhor estilo Augusto dos Anjos. E aí se formam pessoas como eu, defasadas pelo menos 200 anos no modo de se relacionar.

Brincadeiras e exageros à parte, o assunto é da maior relevância. Assim como não recebemos manual de como viver quando nascemos, também não somos educados para a vida emocional e tanto menos afetiva/amorosa. Pode ser problema da minha geração, que não dispunha de tantas ferramentas e profissionais para análises e tratamentos, mas talvez não seja.

E como desconfio que nos últimos dois mil anos a humanidade não tenha dado tão grandes passos rumo a uma melhor consciência de si, de vida e de mundo, as gerações atuais devem estar tão maduras (ou imaturas) quanto a minha e as anteriores. Nesse sentido, desconfio que as mudanças foram somente, ou muito mais, externas, afetando estruturas familiares, a duração dos relacionamentos e os argumentos que aproximam e separam duas pessoas, mas não necessariamente a capacidade que temos de amar e sermos amados.

O que fazer? Minha mais nova conclusão é de que romantismo tem limite. Mais precisamente: os poemas e cartas de amor, a inspiração para programas a dois, a sensação de que tudo é maravilhosamente lindo. Porque, na prática, é preciso exercitar sobremaneira outras virtudes, como paciência, capacidade de compreensão e expressão, no melhor estilo ‘realismo diplomático’. E aqui talvez esteja a chave para compreensão de que o romantismo literatura, quando transpassado para o cotidiano, se transforma em romantismo ingênuo. Ou seja, algo nada a ver em plena era 2000!

Agora são novos tempos, de amores fluidos, de muito beijo na boca e pouco envolvimento, de encontros relâmpagos, de cada um na sua, aproveitando quantidade e qualidade tanto quanto possível... Sexo, sexo, e apenas sexo. Certo? Hummm. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Amar, sim, com envolvimento, entrega, mas também plena preservação de tudo que temos de individual e apenas nosso...

Sim, esta é uma crônica para os que morrem de amor – ou melhor, para os que morriam de amor!

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