terça-feira, 3 de maio de 2011

NÃO SOU NEM QUERO SER O SEU DONO

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


História contada por um amigo. Ao chegar ao bar da moda, uma mulher logo chamou sua atenção. Aproximou-se, pediu licença para sentar ao lado dela e iniciaram uma animada conversa. Passados alguns minutos, surge um homem bastante irritado e lhe pede para se afastar, pois aquela mulher era “dele”.

Sem demonstrar nervosismo, meu amigo pediu desculpas argumentando que a mulher não havia lhe dito que tinha dono, mas gostaria de saber onde fora comprada, o preço pago, quantos anos de garantia... Acredite se quiser.

Contei essa história para ilustrar o sentimento de posse que, em maior ou menor intensidade, costuma aparecer nos relacionamentos. Será que o fato de carinhosamente se chamarem de meu amor, minha querida, meu namorado, minha esposa, meu fofo, vai lentamente incutindo a sensação de que “o outro é meu”?

Depois de um tempo juntos, o esperado é que amantes conquistem reciprocamente o amor um do outro. Até aqui tudo perfeito. É muito bom conquistar o coração do amado(a) e sentir-se depositário único deste amor. O problema começa quando o casal passa a guardar este amor como um troféu em algum lugar do imaginário, se esquece de lustrá-lo e confunde o amor construído com o sentimento de posse.

A vida vai acontecendo até que de repente uma situação qualquer de afastamento ou desatenção do amado(a) dá o sinal de alerta: aquele amor que se imaginava tão tranquilo, não está se comportando assim na pratica. A falsa sensação de segurança veiculada através da posse imaginária começa a cair por terra e no intuito de proteger sua “propriedade”, alguns machucam e outros saem feridos. Certas pessoas ficam tão perdidas, que para elas parece certo fazer tudo errado.

No filme "Encaixotando Helena", um renomado cirurgião cria um acidente para que a vítima, por quem era obcecado, seja levada para sua casa. Cada vez que pensa na possibilidade dela ir embora, vai mutilando-a até deixá-la presa, sem os membros, dentro de um caixote.

Não pensava mais no amor, na beleza, nos momentos felizes; sua vida resumiu-se a alimentá-la, prendê-la e ter a sua posse. Esta história extrema mostra como o sentimento de posse é destrutivo e não condiz com o relacionamento amoroso. A partir do momento em que se apossou da amada, esta perdeu o sentido de viver e passou a definhar, perder brilho, murchar.

É preciso reconhecer uma legitimidade no temor da perda de quem se ama, e, até certo ponto, da proteção e manutenção daquilo que nos é importante. Agir como dono da vida do outro pode ser tentador para quem ama, mas pode ser fatal num relacionamento. Será assim tão difícil conciliar amar com não se sentir um pouco proprietário ou propriedade do outro?

Um escritor, um pintor, quando consegue fixar numa página ou num quadro a essência do seu sentimento, perpetua aquele momento. O amor, a dor, a raiva tornam-se visíveis, palpáveis, tangíveis e passam a pertencer ao acervo do artista, que abre mão desta posse para que a obra seja apreciada, valorizada, reconhecida. É assim que ambos crescem e ganham o mundo.

Fernando Pessoa em seu “Livro do Desassossego” já dizia: “quando se trata de amor, possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência”. Na medida em que os amantes conseguem sentir o prazer de estar juntos, trocar afetos, desejarem-se, o casal se pertence e não existe mais necessidade de ninguém ser proprietário de ninguém.

Quando esta essência de amor inexiste, é pura perda de tempo tentar se apropriar do outro. Possuir é perder. Possuir é prender. Libertar é amar. A verdadeira felicidade de um casal provém do sentimento de ter sem jamais precisar possuir, ou como dizia Dalai Lama: “Dê a quem você ama asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar”.

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