sábado, 30 de julho de 2011

A DIFERENÇA ENTRE ENROLAR E RESOLVER

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Estudo realizado na Universidade de Stanford (EUA) demonstrou que alunos de um professor péssimo, aprenderão em média, durante o ano, o equivalente a meio ano letivo da matéria.

Por outro lado, alunos de um professor excelente, aprenderão durante este mesmo período, o equivalente a um ano e meio da matéria. Isto representa um ano de estudo a mais ou a menos para os estudantes.

Para que este professor ruim alcançasse o mesmo progresso obtido pelo professor excelente, uma das providências seria a redução da turma de alunos pela metade. Em termos econômicos, é importante salientar que professores bons ou ruins custam quase a mesma coisa para a escola, ao passo que a redução de turmas pela metade implica construção de novas salas de aula e contratação do dobro de professores.

Parece uma equação de fácil resolução: a partir deste estudo, apenas professores ótimos serão admitidos na escola. A dificuldade está em identificar uma pessoa com potencial para ser um ótimo professor apenas através de concurso, currículo ou entrevista pessoal.

É preciso colocá-lo em frente ao quadro negro, junto aos alunos e deixá-lo trabalhar por um tempo para só depois avaliá-lo. O julgamento deveria ser realizado após o inicio dos trabalhos e não antes.

Grandes empresas entrevistam mil candidatos para encontrar dez que possuam as habilidades de desempenho pretendidas. Investem tempo e dinheiro avaliando, acompanhando e treinando no ambiente de trabalho. Sabem o valor de um ótimo profissional e pagam boas recompensas para mantê-lo produzindo e superando metas.

Enquanto professores medíocres continuarem a ser efetivados e mantidos em seus cargos unicamente porque foram aprovados em concursos décadas atrás, enquanto a estrutura salarial continuar a ser rígida, remunerando por igual professores com desempenhos diferentes, verbas serão desperdiçadas e o ensino como um todo o grande prejudicado.

Na saúde o quadro não é muito diferente. O médico apresenta seu diploma de especialização e se credencia ao plano de saúde. Nenhum concurso é necessário. A partir deste dia, passa a ser remunerado por um valor tabelado comum a todos os médicos do plano. Experiência, habilidade, resolutividade, empatia, titulação não são levados em consideração.

A avaliação destes quesitos é deixada à cargo dos pacientes, que em tese escolheriam os melhores, deixando vazios os consultórios dos piores. A remuneração diferenciada seria conseqüência da quantidade de consultas atendidas por cada profissional.

Na prática não funciona assim, pois médicos são indutores da demanda e ao mesmo tempo, atendentes. Em outras palavras, médicos indicam o tratamento e depois o realizam, podendo interferir diretamente na lei da procura e da oferta, aumentando ou diminuindo seu faturamento.

Médicos com boa clinica privada colocam na balança a remuneração paga pelo plano de saúde e limitam o número de atendimentos aos segurados, que insatisfeitos protestam seus direitos. Outros profissionais preferem ganhar na quantidade. Atendem consultas num tempo médio de 12 minutos, gerando outro tipo de reclamação.

Diagnósticos equivocados, tratamentos ineficazes, reconsultas em demasia, exames desnecessários, dificuldade na marcação de consultas e cirurgias, gastos exagerados, auditorias, glosas, processos judiciais retratam não apenas deficiências médicas, mas também insatisfação, desconfiança e problemas administrativos.

Dezesseis milhões de analfabetos. Sessenta por cento dos usuários de planos privados de saúde com alguma experiência negativa no último ano. Saúde e educação deveriam ser a base de uma sociedade desenvolvida. Deixar alunos e pacientes sob a tutela de professores, médicos e gestores que batem o cartão ponto e não produzem é uma temeridade.

Vale a pena conferir o que entendia o jurista Rui Barbosa: “tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”.

Valorizar o capital humano pode ser o ponto de partida e um ótimo negócio para todos. Privilegiar os mais eficientes pode fazer toda a diferença. A diferença entre enrolar e resolver.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Ferimentos

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS

Sem porto seguro
navego águas
turbulentas encostas
sacode corpo nú

massageia espírito
dolorido sopro
quentes palavras
borbulhantes poções
aquecem entranhas

inspiração possível
criação metamorfoseante
colo treme frenesi
caixa possuída
inquietação fantasma

fantasias fome
febres fendas
frágil fidelidade
filosofias fugidias
fisionomias

finos fazeres
fios fachadas
fora faiscado
falso fascínio

fomentado
fosfóricamente
fazendo ficar
flores ferimentos

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Caros amigos !

No dia 29 de julho, sexta-feira estarei participando do Festival de Inverno "Circuito Zero Grau," com a palestra "Caminhos Estéticos, 12+ 1.

O trabalho pretende colocar em diálogo/confronto o pensamento de Deleuze e Guattari sobre a Arte, com os conceitos e trabalhos de 12 artistas,de várias áreas estéticas.

Entre os artistas, em sua maioria, de Juiz de Fora, estão César Brandão, Walter Sebastião, Petrillo, Arnaldo Batista e mais 9????

Meu objetivo é apoiar e participar dessas atividades artísticas promovida por estes jovens que buscam oferecer a cidade alternativas culturais e possibilitam momentos de reflexão e diversão para um mundo melhor e feliz.

Vá, leve um amigo e divulgue!

Um forte e belo abraço,

Neysa Campos
Médica e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Super-heróis do cotidiano

Sandra Veroneze
Jornalista e Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS

Se você só vê gente viva e já acha que está de bom tamanho; se o mais próximo que chegou de um gnomo ou fada foi através de desenhos animados; e se até considera viagem astral uma ideia bem bolada, mas prefere apreciá-la em relatos alheios, esta crônica é pra você. Pra você que, assim como eu, também é uma pessoa comum. Ou seja: nunca viu espírito, não tem o dom da clarividência, não faz ideia de como se hipnotiza alguém e também não consegue ir muito além do ascendente nas interpretações de mapa astral.

Somos pessoas comuns, com nossas limitações, mas também com potencialidades e é sobre elas que quero falar. Muito embora não consigamos acessar esses níveis mais sutis da existência, nós, seres humanos comuns, também temos poderes. Super poderes, pra falar a verdade! Cito quatro, primordialmente: autoconhecimento, autogoverno, auto-superação e auto-esquecimento.

Autoconhecimento é olhar com honestidade e franqueza pra si mesmo, analisando virtudes e qualidades, mas também fragilidades, defeitos, manias... Nada fácil, não é mesmo? Uma análise de fato realista de si exige poderes incríveis dos seres humanos.

Autogoverno é, a partir da consciência dos próprios defeitos, a cada dia que passa aumentar o controle sobre eles. Ou seja: reconhecer e conviver bem com as fragilidades da nossa personalidade, não deixando que elas prejudiquem nosso dia-a-dia. Exemplos práticos: preguiça e timidez.

A autossuperação, com base no auto-conhecimento e disposição para o auto-governo, é a cada dia procurar fazer mais e melhor. Utilizando o exemplo da preguiça: não apenas levantar logo que o despertador toca, como levantar uma hora mais cedo pra caminhar e estabelecer uma rotina de prática esportiva. Utilizando o exemplo da timidez: não deixar de contribuir com uma discussão em sala de aula, com medo de se expor... São esforços que exigem muita força, muita vontade, muito poder!

Por último, auto-esquecimento, compreendido aqui não como uma vida desperdiçada em função dos outros, mas sim um tempo da vida dedicado para os outros. Os outros, neste caso, são as pessoas mais necessitadas, escolhidas e atendidas com desprendimento e desapego. O auto-esquecimento faz com que as pessoas se sintam mais comprometidas e responsáveis pelo entorno e menos ligadas à satisfação dos próprios caprichos.

Quem conseguir, todos os dias, exercitar um pouquinho desses quatro poderes estará sem dúvida fazendo do seu cotidiano uma aventura. Uma batalha e tanto, capaz de combater a rotina e o stress de forma divertida e ainda contribuir pra evolução de consciência no mundo...

Pensou que só ver gente viva era coisa pouca?

terça-feira, 26 de julho de 2011

Lugar das palavras

Rosângela Rossi
Filósofa Clínica e Psicoterapeuta
Juiz de Fora/MG


Falo na primeira pessoa,
Do que sinto e penso.
O mundo não é representação minha?

Pode parecer um paradoxo:
Gosto das palavras escritas,
Amo a comunicação na rádio e na sala de aula,
Porém, aprecio mais o silenciar.

No ser terapeuta adoro escutar.
Nos encontros preferiria apenas tocar.
Tocar as mãos em comunhão.

Olhar no profundo de cada olhar.
Abraçar e sentir o coração pulsar.
Aquietar e silenciar juntos
Deixando apenas a alma se comunicar.

Caminhar lado a lado sem nada dizer,
Apenas sentir junto.
Por que e para que falar?

Descobri, que muitas vezes, falei por ansiedade,
Quando na verdade queria calar.
Hoje,permito-me ser eu mesma,
No amar de dentro para fora,
Sem palavras, com a alma tranquila
Em festa, no simplesmente compartilhar.

O lugar das palavras surgem mais potente,
Quando, como agora, sozinha estou.

Ou frente a um grupo de pessoas ávidas
Em ensinar e aprendar em troca mútua.
Como seria bom dar aulas sem palavras...

Cada um aprendendo a descobrir no silenciar
As mensagens que viriam da alma.

Neste instante, aqui quieta, medito.
As palavras vão brotando como grama.
E me sinto em paz com meu silêncio,

Que traz a tagarelice como lótus,
Do fundo cristalino do nosso,
Não apenas meu,
Campo Unificado de Consciência.

Respiro fundo e agradeço o poder
Silenciar e comunicar no tempo certo.
É possível!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Rotina

Beto Colombo
Filósofo Clínico e Empresário
Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

Há pouco tempo, em nossa região, estávamos em um calor escaldante. Em Criciúma, a temperatura chegou a 40°C, realmente quente. Quem pode, de um jeito ou de outro, buscou se refrescar em nossas praias e lagoas, abundantes por aqui. Que bênção!

Debaixo daquele sol todo, mesmo que por um instante, pensamos que em breve chegará o outono, depois o inverno e em seguida a primavera.

Ainda que no tempo Kairós, da antiga Grécia, chegou o outono com suas cores, seus frutos e sua temperatura amena, agradabilíssima. Mesmo aqui, ainda que por um instante, pensamos no inverno, na primavera e no verão.

Implacavelmente o inverno surge fazendo-nos sentir na pele seu frio. A gente se recolhe, se aproxima uns dos outros, as árvores param de crescer. Comidas quentes, roupas pesadas. Pode ser até na passant, encontramos uma fenda no tempo para pensar que em breve estaremos na primavera, no quente verão e no ameno outono.

E ela chegou e logo se denunciou. As cores embelezam os jardins, as ruas, praças e matas. É primavera. A estação das cores, amores e tons. Mesmo ali, envolta a tantos cheiros agradáveis exalados das cores indizíveis das flores, pensamos que em breve estaremos no verão quente, no outono agradável e seco e no inverno frio.

Enfim, depois de 13 luas, exatamente 13 luas, não 12 meses, o ciclo se fez. A vida girou, a cidade se movimentou, fizemos história. E tudo no seu tempo, na sua hora, na temperatura ideal, nas cores do acaso... Tudo perfeito!

Quando olho para a natureza e a vejo assim, simples e irretocável, penso naquelas vezes em que insistimos em dizer que nossa vida é uma rotina, que é tudo a mesma coisa. Não é! Basta olhar para o céu, para as árvores, para a temperatura, para as cores, para os jardins. Basta olha para as praias, lagoas, estradas e rodovias.

Tudo passa. E que bom que tudo passa. Enquanto isso, vamos vivendo cada dia, cada momento, cada instante e saboreando suas cores, sabores, temperaturas. Afinal de contas, está frio? Logo ali na frente vai ficar quente!

É assim como o mundo me parece hoje.

E você, o que pensa sobre rotina?

domingo, 24 de julho de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LVI*

"Na sua famosa obra 'As metamorfoses', Ovídio narra histórias onde homens, mulheres, deuses, animais, plantas, minerais, rios, lagos, estrelas, etc., mudam de sexo, gênero, natureza, espécie, forma, contudo sempre guardando algum sinal do estado anterior."

"Entre um self fixo e imutável, por detrás das aparências, e uma plasticidade total, procuro captar o jogo da permanência e da mudança."

"Uma das principais características das sociedades complexas - a coexistência de diferentes estilos de vida e visões de mundo."

"Todas as noções de normalidade e desvio tem um caráter eminentemente instável e dinâmico."

"O trânsito entre os diferentes mundos, planos e províncias é possível, justamente, graças à natureza simbólica da construção social da realidade."

"(...)Quando se fala em ajustamento, sabemos quen é altamente problemático pensarmos tendo apenas um sistema como referência, desde que, por definição, os indivíduos transitam entre mundos e esferas diferenciados, cujas relações não só não são lineares como não são regulares, aproximando-se, em sua extrema complexidade, de modelos caóticos."

*Gilberto Velho
Antropólogo brasileiro

sábado, 23 de julho de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LV*

"O mundo tem razão, sisudo pensa,
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta - um pobre louco
Que leva os dias a sonhar - insano
Amante de utopias e virtudes
E, num tempo sem Deus, ainda crente ?"

"A poesia é de certo uma loucura,
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito do cérebro...Que doudos!
É um grande favor, é muita esmola

Dizer-lhes bravo! à inspiração divina,
E, quando tremem de miséria e fome,
dar-lhes um leito no hospital dos loucos
Quando é gelada a fronte sonhadora,
Por que há de o vivo que despreza rimas
Cansar os braços arrastando um morto,
Ou pagar os salários do coveiro?"

"Meu leito juvenil, da minha vida
És a página d'oiro. Em teu asilo
Eu sonho-me poeta, e sou ditoso,
E a mente errante devaneia em mundos
Que esmalta a fantasia! Oh! quantas vezes
Do levante no sol entre odaliscas
Momentos não passei que valem vidas!
Quanta música ouvi que me encantava!
Quantas virgens amei!(...)"

*Álvares de Azevedo
Poemas malditos
1831-1852

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Algumas considerações sobre Espacialidade na Clínica Filosófica.

Bruno Packter
Filósofo Clínico
Florianópolis-SC


A Espacialidade refere-se à localização existencial da pessoa. Na Filosofia Clínica, nem sempre através do corpo encontraremos a pessoa. Não é documento de local, de onde a pessoa está. A localização existencial da pessoa muitas vezes é um ponto móvel, se desenha em movimento.

Recíproca de Inversão na Filosofia Clínica é ir ao mundo existencial da outra pessoa. Ao mover para o mundo da outra pessoa levamos parte do nosso mundo conosco. Recíproca de Inversão diz respeito a muitos fenômenos ligados ao ir. Mas não está relacionado diretamente a um ato de bondade, de condescendência.

A expressão “O mundo da outra pessoa é sempre o nosso próprio mundo, pois somente saberemos dele por nós mesmos” acarreta riscos se não for apreciada com profundidade. Ao ir ao mundo da outra pessoa, é razoável que tenhamos parte daquele mundo considerado por nós. Mas não há como reduzir o outro a nós. O correto é afirmar que levamos parte do nosso mundo para lá. Ainda assim, precisamos considerar desde a historicidade até o estudo minucioso da Estrutura do Pensamento de cada pessoa envolvida nesta interseção.

Existencialmente, não há uma recomendação prévia a um filósofo clínico sobre a espacialidade. Os elementos da narrativa e os episódios que ocorrem na clínica encaminharão as demandas em torno da Espacialidade. Saber transitar pela Espacialidade é uma orientação mais segura neste aspecto.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Pausa e Só Pausa

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora-MG


As pausas promovem a beleza da música e de nossa vida.
Saber parar e nada fazer traz a serenidade tão desejada.
Vida sábia de quem se rende ao fluir das acontecências.

Celebrar com quietude os ventos e azuis.
Sem competir, no apenas compartilhar, sentir.
Nosso coração em compaixão meditar e doar.

A grama cresce....a natureza floresce.
Sem nada esperar, a apenas observar.
O prazer é sentido nas mínimas coisas.

Desapegar.
Entregar-se ao amor e ao amar.
Esvaziar.

Como bambu oco, ser flauta,
Por onde a música do cosmos toca.
As pausas amansam e aquietam o coração.

Para que tanto correr?
Para chegar aonde tanta ansiedade?

Que haja tempo livre para estar comigo e consigo.
Que haja tempo sereno para simplesmente feliz ser.
Que venham as angústias existenciais,
Que fazem parte desta jornada aprendiz.

Sem medo, com confiança a pausa traz a paz,
Mesmo que na guerra, mesmo diante aos conflitos.

Parar. Meditar. Nada fazer. Sentir e orar
Amar tudo e todos,
Que o resto é resto no sem fim.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Protocolos sociais

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS


Outro dia acompanhei um debate acalorado sobre as escolhas de duas pessoas, uma relacionada a afetividade e outra a imagem pública. Para fins didáticos, vamos considerar aqui personagens A e B, respectivamente.

Nosso personagem A, feminino, havia saído de um relacionamento homossexual, disposto a encontrar agora o homem de sua vida. O sujeito, conforme as orientações da mãe da moça, deveria ser rico, de boa família, e disposto a dar a sua filha uma vida doméstica de conforto material, filhos saudáveis, viagens e muitos mimos, isentando-a dos dissabores e dificuldades de uma vida profissional.

Nosso personagem B queria trocar o carro por um importado, terminar de pagar o apartamento em um dos melhores bairros da cidade, e assumir um ar mais charmoso, renovando o estilo a partir de suas roupas e corte de cabelo. Para isso, logicamente, contava com a possibilidade de um auxílio da família, especialmente da mãe, que torcia muito para que o filho ‘desse certo’ na cidade grande.

A criticava B: você quer mostrar algo que não é ainda por cima comprometer os bens e os esforços de sua família nessa loucura.

B criticava A: você é interesseira e está mais preocupada em dar alegria pra sua mãe, sem se preocupar se vai ou não fazer feliz a pessoa que casar com você.

Estava bem divertido, mas já começava a cansar, ver os dois se engalfinhando. O que tornava ambos diferentes, em resumo, eram os objetos de seus desejos. Em essência, ambos estavam, de alguma forma, negando suas naturezas, em favor de um personagem.

Peguei meus livros, a bolsa, e fui pra casa. Chega uma idade, na vida do sujeito, que não se tem mais paciência pra meros protocolos sociais, sejam os de aturar companhia desagradável, sejam de se submeter ao desejo e vontade alheia, não importando se e da mãe ou do lugar onde moramos.

domingo, 17 de julho de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LIV*

"Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora..
Que faço do dia, da noite..

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora."

" Respirar, invisível dom - poesia!
Permutação entre o espaço infinito
e o ser. Pura harmonia
onde em ritmos me habito.

Única onda, onde me assumo
mar, sucessivamente transformado.
De todos os possíveis mares - sumo.
Espaço conquistado.

Quantas dessas estâncias dos espaços
estavam já em mim. E quanta brisa
Como um filho em meus braços.

Me reconhece, ar, nas tuas velhas lavras ..
Outrora casca lisa,
Céu e folhagem das minhas palavras."

*Rainer Maria Rilke

sábado, 16 de julho de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LIII*


"Nos galhos secos de uma vida afora.
Há certo convite lido num subtexto...
Há dialeto enrugados de linguagens.
Estágios de bichos, pedras, vegetais...
Infância gaguejante na liberdade da língua.
Há crianças!
Poetas colorindo fábulas num tom de metamorfose.
Há seres gramaticais que irrompem em certas madrugadeiras...
e isso são homems de galhos secos vida afora!"

"A fala tinge de branco o que a incerteza nos impõe: o silêncio!"

"A solidão me madurou de borboleta...
Estou apto. Já posso discursar com minhas paredes."

"Fui interno durante longos dias... até que me encontrei."

"Aos poucos os dias azuis e brancos...
Ritimam entre os cinzas e negros
(numa lentidão simbólica)...
Assim nasce: o que invariavelmente chamamos de
espera..."


*José Carlos Djandre Rolim

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Futilidade e Preconceito

"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".

Patrícia Rossi
Advogada, Filósofa Clínica
Juiz de Fora - MG

Antes de começar essa reflexão, quero me ater a alguns conceitos. O primeiro deles é de futilidade, ser fútil, que segundo o dicionário, quer dizer: fú.til : adj (lat futile) 1 Leviano, frívolo. 2 Vão, inútil. 3 Que tem pouca ou nenhuma importância. Agora tenhamos o significado de individualidade: sf (individual+dade) 1 O que constitui o indivíduo. 2 Conjunto das qualidades que caracterizam um indivíduo. 3 Filos A parte imperecível e imortal do homem. Distingue-se da personalidade, que perece quando o homem abandona a existência física.

É a partir desses dois conceitos que quero refletir. O que realmente é ser fútil? Essa palavra tem sido usada tanto ultimamente, como forma de preconceito e crítica a diversas pessoas, poder diversos comportamentos que são ou deixam de ser o padrão que a sociedade, leia-se, a "elite que se acha intelectual" permite.

Mas o que realmente é ser fútil afinal de contas? Existe um padrão, ou uma regra de ouro que defina quais são as coisas "inúteis", "levianas", ou de "pouca importância"? Aí que entra a individualidade, ou a singularidade como diz os ensinamentos da Filosofia Clínica.

Porque o que é importante pra você tem que ser importante pra mim? O mundo é tão vasto e cheio de possibilidades infinitas, e cada um tem seus valores e suas escolhas. Delimitar o que deve ser importante pra mim, e que essa mesma coisa seja importante pra você não seria contrário a liberdade, conceito tão comentado não só pela nossa Constituição mas também pela ONU e qualquer outra Constituição desse planeta?

Imagina que mundo chato seria se todos se preocupassem apenas com a economia, ou com a política, e se esquecesse da arte, do teatro, dos esportes, das cores, da vida? É isso que faz a vida ser tão mágica: cada um tem o conhecimento que lhe convém. Afinal, porque todos nós estamos aqui nessa vida, não é pra sermos felizes? E o que deixa cada um feliz é sua escolha livre, não a de qualquer outra pessoa.

E ela tem que ser julgada, ou chamada de fútil por não fazer a escolha de ser astrônomo, ou físico, ou médico, e saber falar sobre todo o acontecimento do mercado financeiro internacional? Não acredito, sinceramente. Acredito sim, em uma vida que cada um respeite o espaço do outro, a importância que o outro dá as coisas dele e o respeito por suas escolhas.

Se não fosse assim, a arte das grandes galerias seriam obsoletas, pois muitos poderiam dizer " pra que serve a arte, o que isso vai fazer você crescer como indivíduo?". Não é um pensamento pequeno esse? A vida não seria a mesma sem a beleza.

E daí se alguem se liga a moda, maquiagem, funk, axé, dinheiro, futebol? isso deixa ela plena e feliz? O que mais importa? Além do mais, gostar dessas coisas não significa que a pessoa é apenas isso. Não limite-as por SEUS conhecimentos, conheça as pessoas antes de qualquer julgamento. A vida é única, e como a impressão digital, cada ser também e único. Cabe a nós saber respeitar suas escolhas.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Mera Coincidência

Beto Colombo
Empresário
Filósofo Clínico
Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma-SC


Aldous Huxley, em sua obra O Admirável Mundo Novo, livro da década de 30, narra um futuro no qual a sociedade é regida por castas e os males, os problemas, dúvidas, inseguranças, quem sabe depressão, stress, tristeza, euforia, hiperativismo seria controlado pelo consumo de uma droga sem efeitos colaterais aparentes, chamada de “soma”. Qualquer semelhança é mera coincidência. Profetizando os nossos tempos?

Em meu artigo de hoje, desejo me ater somente numa parte do livro. Refiro-me a parte onde as crianças eram ensinadas a odiar as belezas da natureza porque as árvores, flores e paisagens nos dão prazer gratuito, e isso, o prazer gratuito, é muito ruim para a economia. Em contrapartida a isso, elas eram ensinadas a amar as coisas artificiais.

Um exemplo? Vamos a ele: “É economicamente prejudicial ter prazer em remar num lago tranquilo”, argumentavam os defensores deste novo sistema. “Precisamos amar os parques aquáticos, aqueles no qual pagamos para nos divertir”, acreditavam eles.

No Admirável Mundo Novo de Huxley não há espaço para admirar cavalos pastando, o economicamente correto é amar as motocicletas, o automóvel, o avião. Deleitar-se com o nascer ou o pôr do sol, o desabrochar da borboleta, o som do bambu crescendo, o cheiro adocicado das flores e a maresia que vem do mar, então, nem pensar. Qualquer semelhança é mera coincidência.

No Admirável Mundo Novo de Huxley não é economicamente correto ter um espaço central na cidade com casas inseridas entre as árvores. Era preciso serem destruídas e construídas altas torres, os rios precisavam ser canalizados para dar espaço a construções, ao comércio. A grama é substituída por lajotas, a vegetação por asfalto.

No Admirável Mundo Novo não há tristeza e, se houver, a droga “soma”, sem efeito colateral aparente, resolve. Afinal não é economicamente correto para a indústria produtora da droga que haja outro tipo de cura se não pelas drogas. Qualquer semelhança é mera coincidência. “E vida de gado, povo marcado, povo feliz”.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre o admirável mundo novo?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

COMER, ANDAR E SORRIR

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre-RS


Durante muito tempo cultivei a fantasia de que um dia, quando estivesse bem velhinho contaria o segredo de minha saúde e jovialidade. Resolvi antecipar a data por vários motivos. 1) Não sei se vou ser um velhinho saudável 2) Meus leitores não merecem ficar privados destes conhecimentos por mais 50 anos 3) Os conceitos mudaram 4) O segredo da existência não consiste apenas em viver bastante, mas em saber para que se vive e poder compartilhar.

Comer a metade, andar o dobro e sorrir o triplo.

Comer a metade – Magros vivem por mais tempo, são considerados mais saudáveis e formam o padrão atual de beleza. Na tentativa de emagrecer, pessoas ficam sem comer por longas horas. Isto não funciona. Jejum prolongado não emagrece, porque a partir de 8 horas sem alimentação, o corpo passa a poupar energia e não consome mais tantas calorias. Além disto, ao invés de utilizar gordura como fonte de energia, o corpo passa a consumir tecidos de mais fácil liberação, como a massa muscular magra, resultando em perda da musculatura e não da gordura.

Uma dieta balanceada envolve um número mínimo e um número máximo de calorias, que devem ser ingeridas ao longo de cinco ou seis refeições diárias. A conta é simples, comer várias vezes por dia em poucas quantidades.

Até aqui tudo bem, o problema é encontrar alimentos saudáveis. Quase todos os alimentos estão artificializados. Agrotóxicos envolvendo frutas e verduras. Animais engordados com hormônios anabolizantes. Refinamento do açúcar, arroz, sal, farinha. Soja transgênica. Alimentos industrializados processados, envasados, congelados, desidratados, pasteurizados, aditivados. Não estamos comendo comida de verdade.

Um terço de todos os tipos de câncer, metade das doenças do coração e todas as formas de diabetes são diretamente relacionadas com a alimentação. Motivo mais que suficiente para acreditar que a fonte da juventude e longevidade está bem perto de você, logo ali, na sua cozinha.

A boa noticia é que descobrimos alimentos que além de nutrir, auxiliam na prevenção de doenças e retardam o envelhecimento. Uma dieta saudável, não é mais aquela que não faz mal à saúde, é preciso conter estes alimentos funcionais.

O tomate, por exemplo, possui em sua constituição o licopeno, substância nutracêutica que auxilia na prevenção do câncer de próstata. Pode-se comer um tomate por dia, uma colher de molho de tomate ou ingerir somente o licopeno. Qualquer maneira funciona. Aveia, azeite de oliva, castanha do Pará, chá verde, vinho tinto, peixes, soja, iogurte natural...

Hipócrates já dizia “Que o alimento seja seu remédio”.

Andar o dobro – Tanto a falta de exercícios, como o excesso, são danosos à saúde.

Corridas longas e exaustivas aumentam o consumo de oxigênio em até 20 vezes. Isto libera radicais livres, moléculas tóxicas que aceleram o envelhecimento. Correr é para poucos. A maioria desiste por problemas cardíacos, articulares, tendinites ou falta de estimulo.

Caminhar é tão eficiente quanto correr para a perda de peso, embora o resultado seja obtido mais lentamente. Em compensação, quase não causa lesões osteoarticulares, é mais segura do ponto de vista cardiovascular e apresenta maior índice de aderência ao exercício. O detalhe é que caminhar por treinamento é diferente de caminhar por lazer. A conta aqui também é simples, caminhe como se estivesse com pressa o dobro de tempo que você planejava correr. Os benefícios serão os mesmos sem adicionar riscos.

Tão ou mais importante que andar é alongar, mas isto é outro segredo. Ande o dobro, mas não basta caminhar, é preciso ser responsável pelas pegadas deixadas.

Sorria o triplo – Historicamente o riso era associado à loucura ou pessoas abobalhadas. Lembram das mulheres japonesas sorrindo timidamente atrás dos leques? Este preconceito mudou. “Sorrir é o melhor remédio” não é uma simples expressão popular. Sorrir é algo muito sério, sorrir é uma terapia sem contra-indicações.

Sorrir estimula o cérebro a liberar endorfina e serotonina, hormônios responsáveis pela sensação de prazer e felicidade. Rir também tem seu lado fitness. Dez minutos de gargalhadas movimentam profundamente o diafragma e os músculos abdominais e podem consumir até 50 calorias.

O sorriso é como um cartão de visitas, abrevia chegadas, prolonga partidas, aproxima, cria elos, torna as pessoas mais bonitas, relaxa, rejuvenesce. O problema é que o stress do dia a dia fez as pessoas esquecerem-se de sorrir, tornando-as sisudas, carrancudas. Quando dão um sorriso é tão artificial quanto a comida que ingerem.

Sorriso pra valer tem que ser natural, espontâneo. A geladeira estragou, o cão sujou seu sofá novo, a fila do banco está demorada, o trânsito engarrafou. Isto não é o fim do mundo. Não seja tão perfeccionista e ria dos pequenos azares que lhe acontecem. Ria também de você mesmo. Incorpore o sorriso no seu cotidiano. Encarar com bom humor as adversidades reduz o risco de ataques cardíacos e ativa o sistema imunológico.

Mais ainda, o riso pode ser contagioso. Sempre que você consegue que as pessoas riam, cria-se uma conexão, elas vão lhe ouvir e você pode dizer qualquer coisa a elas. Já dizia o grande humorista Charles Chaplin: “um dia sem sorrir é um dia desperdiçado”.

Apesar de todos os cuidados, a preocupação da vida não deve ser focada apenas em chegar bem à velhice. Para chegar lá, é preciso andar, comer e sorrir pelo caminho. Provavelmente no futuro surjam mais segredos e tomara que quando lá chegar, as rugas que vierem a marcar meu rosto, indiquem apenas onde os sorrisos estiveram.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O paradoxo da novidade.

Jussara Hadadd
Terapeuta sexual e Filósofa Clínica
Juiz de Fora-MG


Você está preso e acredita que só pode viver dentro dos padrões e dos conceitos enraizados em sua mente a partir e até quando sua personalidade foi formada, até quando sua linha de pensamento foi formatada pelas pessoas e pelos meios que influenciaram sua vida e a maneira como deveria viver, dentro dos limites do certo e do errado, contextualizando a sociedade e você dentro dela.

Você caiu em uma armadilha e agora não consegue se libertar. Você nem ao menos sabe que precisa se libertar. Todo mundo diz que você poderia mudar nisto ou naquilo, para ser visto como alguém menos polêmico ou menos chato, mas você não enxerga o caminho para a mudança. Formou seus conceitos, plantou seus valores e só sabe viver dentro deles.

Um exemplo: muitos homens acreditam que em muito pouco tempo de casamento o interesse sexual por suas mulheres deve acabar e que eles, porque são homens e não podem mais ficar apaixonados por elas, precisam e tem direito a novos estímulos. Ele precisa descobrir e realçar todos os defeitos de sua mulher e justificar este seu comportamento. É assim que deve ser, foi assim que ele aprendeu a exercer sua masculinidade.

Nas relações íntimas, entre os casais, um ensejo muito forte para a traição é a necessidade do novo. É a premência em encontrar novos estímulos e driblar a rotina que, dentre os fatores que nos levam a não suportá-la, está o fato de não conseguirmos trabalhar firmes e retos em um propósito. Neste caso, no propósito de manter viva a paixão e fazer do sexo na relação estável um alicerce forte para a manutenção da vida do casal.

Neste caso, ainda, em não conseguir acreditar que o sexo feito com amor e vindo de um desejo espontâneo pode ser tão prazeroso, melhor dizendo, muito mais prazeroso que o sexo feito através dos artifícios criados para que ele aconteça. Que o sexo de um casal apaixonado é muito mais explosivo, louco e sem limites que o artificial criado pela indústria sexual que manipula o ser humano vil e imediatista que a era moderna multiplicou na face da terra.

O ser humano é chegado à facilidade de mudar em detrimento ao trabalho que possibilita conhecimento e domínio no êxito de uma situação. O ser humano é chegado à ilusão e aos efeitos de falso encantamento que ela propõe.

Em uma relação a dois isto é muito constante, porque o orgulho e a vaidade impossibilitam que um ou outro ou ainda que os dois vejam no outro um objeto de infinito encantamento para que a relação seja constantemente apaixonada e supra as necessidades visuais e sensoriais que levam a um encontro quente e que justifique aquela união para sempre.

A falta de humildade impede que as dificuldades e limitações sejam discutidas, avaliadas e melhoradas. A coisa corre solta dentro da omissão ou então traumatizada pela falta de entendimento entre o expoente queixoso e corajoso em expor suas necessidades e o orgulhoso em admitir que pudesse ser melhor.

- Eu, ruim de cama? Só com você, porque com outras pessoas eu arraso. Homens com problema de virilidade, normalmente culpam suas mulheres oficiais. Acusam-nas de descuidadas, de cuidadas demais, de cobradoras, de mães demais, de inteligentes, de limitadas.

Tive um caso no consultório, onde o marido dizia à mulher que não conseguia manter a ereção, somente com ela e por causa dela. Descobrimos juntas que este era um problema absolutamente dele, uma vez que ele não cuidava de sua saúde. Que era muito nervoso, que se alimentava de gorduras e que dormia mal.

O fato foi confirmado quando ela me relatou que ele era impotente somente no coito, nas penetrações e que ele se mantinha ereto por um longo tempo quando recebia sexo oral dela ou quando ela o masturbava. Ou seja, quando o sexo não exigia dele nenhum movimento de corpo, nenhum esforço físico – ele era um homem sem condicionamento físico. Por muitos anos ela se sentiu insegura e as conseqüências disto, é dispensável dizer aqui, não é?

Criar novidades dentro da própria relação pode ser muito interessante e até deve acontecer, mas a maior dica é manter vivo o amor, a admiração e o interesse pelo corpo do outro. Elogiar o outro. Você sabia que existem pessoas que aprendem em sua criação, com os seus pais, que elogiar alguém pode estragar o seu desenvolvimento e pode fazer dela uma pessoa muito poderosa? Não se deve elogiar os filhos - ouvi isto uma vez de uma mãe.

Não acreditei no que ela dizia, é obvio, porque conhecia o resultado da criação de seus filhos e não achava nada interessante. O elogio trabalha a auto estima e o resultado só pode ser positivo. Encantar o outro e criar novidades dentro da relação estável, está em se cuidar, em se manter belo e atraente para o outro. Em não magoar, em não criticar com a intenção de ferir ou em não entender como critica negativa as observações do outro quando para melhorar. Em não ofender ou em não se sentir ofendido quando o outro tiver a coragem de solicitar algo que atenda as suas fantasias. Em atender o outro. Contudo, todo encantamento precisa de alguém que queira e que aceite ser encantado. Costuma acontecer de a pessoa ser tão desencantada com ela mesma que nada nem ninguém conseguem encantá-la.

Costuma acontecer de o que trai, o que fere, que magoa, que despreza, ser o grande problema da relação. É como se ele usasse uma arma para tentar destruir alguém que não precisa de arma alguma para viver. Uma arma para tentar matar quem o mata, simplesmente pela sua pura capacidade em ser feliz.

Há de se falar aqui ainda, da aceitação. Aceitação não é nem de longe, conformação. Ninguém é obrigado a suportar alguém que não se cuida para estar bem. Mas aceitar alguém com suas limitações é lindo, discursivamente então, é maravilhoso, entretanto é necessário que o que precisa ser aceito seja alguém, no mínimo, humilde.

Vocês já ouviram colocação mais ridícula que esta? No começo tudo é paixão, depois fica só aquele amor... Isto é jargão de gente preguiçosa, negligente e incapaz de trabalhar para que a relação seja sempre apaixonada. Afinal, abrir mão, jogar no lixo e buscar a novidade que estimula é muito mais simples e hoje em dia, dinheiro resolve isto fácil.

Este é um fato muito frequente entre os homens – embora muitas mulheres estejam lançando mão deste recurso também - que para manterem seus casamentos, buscam em outras mulheres a novidade como alento ou até mesmo como constatação de sua virilidade perante o novo.

Ora, ora, quem não se encanta perante o novo? Mas o novo sempre ganhará tempo e como tudo que é pratico, é efêmero e passará a vez para outra novidade que ilusoriamente manterá vivo o ser volúvel e leviano e matará aos poucos e para sempre o verdadeiro objeto de sua felicidade que poderia ser o amor. Trabalhar pela relação, como em tudo na vida, ainda pode ser o melhor caminho.

domingo, 10 de julho de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LII*

Acontece amiúde que as verdadeiras tragédias da vida apareçam de forma antiestética, que nos ofendam com a sua crua violência, a sua incoerência absoluta, a sua absurda falta de sentido, a sua total falta de estilo. Agem sobre nós da mesma forma que a vulgaridade. Dão-nos a impressão da mera força bruta, contra a qual nos revoltamos. De vez em quando, no entanto, uma tragédia que possui os elementos da beleza passa pelo nossa existência. Se estes elementos de beleza forem verdadeiros, despertarão o sentido dramático que existe em nós. De repente percebemos que já não somos os protagonistas de um drama, mas sim os espectadores. Ou então somos as duas coisas juntas. Assistimos ao espetáculo de nós mesmos, e somos tomados pela maravilha do espetáculo.

*Oscar Wilde

sábado, 9 de julho de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LI*


"Vens da pobreza das casas do Sul,
das regiões duras com frio e terremoto
que quando até seus deuses rodaram á morte nos deram a lição da vida na greda.

És um cavalinho de greda negra, um beijo
de barro escuro, amor, papoula de greda,
pomba do crepúsculo que voou nos caminhos,
alcanzia com lágrimas de nossa pobre infância.

Moça, conservaste teu coração de pobre,
teus pés de pobre acostumados às pedras,
tua boca que nem sempre teve pão ou delícia.

És do pobre Sul, de onde vem minha alma:
em seu céu tua mãe segue lavando roupa
com minha mãe. Por isso te escolhi, companheira."

*Pablo Neruda

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Passos da arte de tornar-se


Mônica Aiub
Filósofa Clínica
São Paulo-SP


"O papel do filósofo clínico, longe de ser aquele que promove a separação, o desconectar-se do real, é acompanhar a pessoa em sua construção, provocando-a a olhar para a realidade na qual se insere, e a encontrar, nesta realidade, os elementos para modificar a si mesma e ao mundo ao seu redor"

"Observe que não se trata de isolar o partilhante de seus contextos, de compreendê-lo de modo subjetivista, pois o filósofo clínico pretende observar a singularidade do partilhante na coletividade na qual ele se insere. Interessa conhecer como a pessoa se tornou o que é, como ela interpreta o vivido, situando-se no mundo e interagindo. Interessam as relações"

Dessa ideia, surgiram algumas questões: Como isso ocorre nos consultórios de filosofia clínica? Como se dá o processo de construção de si mesmo? Ao respeitar a singularidade, não se tornaria um trabalho subjetivista, podendo levar a pessoa a construir uma “realidade paralela”, desconectada do real?

Iniciemos pelo primeiro ponto:

Como isso ocorre nos consultórios de filosofia clínica?

Quando afirmo que um elemento fundamental no trabalho dos filósofos clínicos é o respeito à singularidade, e que isso significa que cada pessoa é única, com isso também afirmo que o partilhante – que assim é chamado justamente por partilhar suas questões, sua história, seus processos –, como um ser singular e autônomo, poderá constituir-se a partir dos processos clínicos.

Conforme já descrito em outros textos, o primeiro passo é o Assunto Imediato, a questão que o partilhante apresenta na clínica, o motivo que o levou a procurar a terapia. Como o “voo da coruja de Minerva”, símbolo da filosofia, o filósofo clínico realiza um “voo panorâmico”, tentando situar as questões trazidas pelo partilhante em contextos mais amplos.

Obviamente, quem traça os contextos é o próprio partilhante, e esse, ao traçá-los para o filósofo clínico, acaba por observar os contextos de suas próprias questões.

Trata-se, portanto, de provocar a pessoa a observar suas questões singulares, a partir de seus modos de vida singulares, em contextos mais amplos, nos quais esses modos de vida acontecem e suas questões se inserem. Nesse primeiro momento da clínica, o objetivo é traçar o panorama da questão, é compreender os contextos nos quais ela surgiu, seu processo de constituição e suas implicações em outros fatores da existência do partilhante.

Observe que não se trata de isolar o partilhante de seus contextos, de compreendê-lo de modo subjetivista, pois o filósofo clínico pretende observar a singularidade do partilhante na coletividade na qual ele se insere. Interessa conhecer como a pessoa se tornou o que é, como ela interpreta o vivido, situando-se no mundo e interagindo. Interessam as relações.

Para compreender o partilhante e seu universo, o filósofo clínico necessita acompanhar seus movimentos, e para tal pede ao partilhante que relate sua historicidade, a partir da qual observará as movimentações.

Novamente, ao contar sua historicidade, o partilhante poderá observar a si mesmo e seus contextos, compreendendo elementos de sua constituição e as articulações que geraram seus modos de vida, suas inquietações, suas necessidades e possibilidades.

Observe o papel do entorno na pesquisa. O partilhante é provocado a olhar não apenas para si, mas para o mundo que o rodeia, para as relações que constitui, para os ambientes que frequenta, e outros tantos aspectos dos denominados Exames Categoriais.

Através das categorias, o filósofo clínico aproxima-se de dados sobre a realidade da pessoa, podendo provocá-la a estudar essa realidade em busca de elementos para a construção de si mesma e do mundo circundante.

Quando nos movimentamos, movimentamos o mundo à nossa volta, ainda que seja por reverberação, e o contrário também ocorre: movimentações no entorno, no mundo à nossa volta, provocam movimentações em nós. Se tais movimentos ocorrem sem que os percebamos, sem que os compreendamos, é possível que estejamos nos constituindo a partir de hábitos arraigados que, por não serem avaliados, podem reproduzir-se, replicar-se, ainda que não nos sejam benéficos, ou pior, ainda que gerem dificuldades, problemas, impossibilidades a nós.

Somos movidos pela corrente, nossos movimentos são automatizados, somos, como diriam os gregos na Antiguidade, levados pelo “rio do esquecimento”.

Ao olhar para si mesmo e para seu entorno, o partilhante poderá perceber elementos que necessita fortificar, outros que precisa suprimir, ou ainda, alguns que necessitam ser articulados. Mas isso não significa que o fato de ter observado o tenha levado à compreensão, e menos ainda que o compreendido venha a provocá-lo ao movimento.

Você habitualmente observa seus movimentos? Consegue identificar os elementos de seu contexto que lhe provocam a movimentar-se? Ou é movido pelas circunstâncias? Você consegue observar a si mesmo e ao mundo e, a partir de tal observação, compreender o que se passa e criar formas para lidar com suas questões? Ou está preso a automatismos dos quais sequer tem percepção? Se você se observa, com que frequência faz isso?

A filosofia, na Antiguidade Clássica, teve o papel de não permitir ao ser humano “cair no rio do esquecimento”, levando exatamente ao questionamento dos padrões estabelecidos, das formas prontas, e buscando a constituição de formas de vida compatíveis com suas necessidades, pautadas nos dados observados na natureza e no ser humano. Manter-se acordado, não cair no rio do esquecimento, esta é a tarefa do filosofar.

Na continuidade dos procedimentos clínicos, os processos divisórios buscam mais dados, mais elementos. Um “sobrevoo da coruja”, em geral, é insuficiente para que compreendamos nossos processos de modo mais profundo. É preciso investigar mais. E as formas para proceder a investigação são variadas. Aqui a criação já se faz necessária.

Do ponto de vista didático, basta dividir a historicidade contada e pedir para a pessoa contar em trechos menores, com mais dados. Mas isso nem sempre é suficiente para a pesquisa. Outras formas de expressão podem se fazer necessárias. Fotos, músicas, pinturas, desenhos, textos, diários, cartas, blogs, filmes... o que utilizar?

Divisão por datas, temas, eventos, de trás para frente, em blocos... como dividir? Depende do partilhante, depende dos dados que ele traz no momento em que conta sua historicidade pela primeira vez.

Filósofo clínico parceiro

Outros veículos de expressão presentes devem ser pesquisados, pois poderão ser formas para construir o trabalho subsequente. A estrutura de formulação das questões deve ser, também, compatível com a estrutura do partilhante. Ou seja, o filósofo clínico recolhe os dados que se apresentam e os pesquisa, como o artista pesquisa os vários materiais com os quais comporá sua obra. Interessante observar que, não se tratando da obra do filósofo clínico e sim do próprio partilhante, o filósofo clínico se coloca como parceiro de pesquisa, provocando a investigação.

Contudo, o objetivo é levar o partilhante a se apropriar do conhecimento dos elementos presentes em si e em seu entorno, para que ele possa constituir a si mesmo a partir destes. Às vezes é preciso buscar ou criar novos elementos, pois os existentes não são suficientes para as necessidades da pessoa.

Além dos elementos para constituir-se, é preciso encontrar as formas para articulá-los. E isso, muitas vezes, exige exercício, exige prática, constituição de novos hábitos. Novamente, o filósofo clínico poderá auxiliar a pessoa a pesquisar formas possíveis, provocá-la ao exercício necessário à constituição de si mesma.

Também é papel do filósofo clínico observar quando a pessoa, ao utilizar as formas, une elementos que associados dessa maneira poderão gerar problemas graves a ela. Nessa observação cabe apenas levantar pontos, que surgirão não da subjetividade do filósofo, mas dos dados observados nos Exames Categoriais.

Seu papel, repito, é alertar a pessoa para as possíveis consequências de seu fazer, de sua criação; e não definindo o que deve ou não ser feito, do que deve ou não ser criado.

Poderíamos, assim, resumir os passos da arte de tornar-se em pesquisar a si mesmo e o universo que o rodeia, buscando não apenas a gênese para a compreensão daquilo que se é, mas também os elementos e suas possíveis articulações para tornar-se. Considerando que o tornar-se promoverá movimentos não apenas internos, mas também no universo circundante, podemos pensar num tornar-se em devir.

Assim sendo, o papel do filósofo clínico, longe de ser aquele que promove a separação, o desconectar-se do real, é acompanhar a pessoa em sua construção, provocando-a a olhar para a realidade na qual se insere, e a encontrar, nesta realidade, os elementos para modificar a si mesma e ao mundo ao seu redor. Em outras palavras, o amigo com quem se partilha a construção, sem que a partilha leve a perder a autoria da obra.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Estudo da Personalidade Estereotipada do Homem

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Wilhelm Reich, um filósofo do corpo, escreveu em um verão, em 1946, um pequeno texto para uso interno de seu Instituto. Nesse escrito ele mostrava, entre outras coisas, o que o homem comum, classe média, homem universal de sua época, fazia a si mesmo. Sua visão de manada, suas reações de coisa, sua alma encarcerada. No consultório, aquele breve texto de Reich, Escuta, Zé Ninguém!, encontra atualizações várias.

No meu trabalho em consultório, como filósofo clínico, atendo pessoas em diversas cidades pelo País, ecos de estereotipia, que levam a atualizações do texto de Reich, ecoam. Vejamos um deles.

As mulheres deveriam saber, já que muitas parecem não ter notado, que homem é um ser em extinção. Algumas conseguem um exemplar em oficinas, igrejas, indústrias, com muita dificuldade, pois existem imitações ordinárias.

É urgente um movimento que hasteie cuecas, camisetas de educação física, de preservação aos últimos espécimes. Reservas ambientais deveriam ser criadas para que este esplêndido animal possa se recuperar.

Homem não gosta de aliança, de casamento, de imposto de renda, mas tolera. É um caminho para obter sexo, comida, um canto para dormir e beber água. Mas isso depois acaba sendo tão caro que ele deixa de comer direito e de fazer sexo - ao menos na jaula. Casamento, família, sogra, estas coisas foram feitas para a mulher; estão extinguindo os homens.

Não mande, nunca, flores para um homem. Homem mesmo é aquele que olha para uma flor como uma variedade da alface. Mande uma caixa de cerveja forte.

Homem não come brócoli nem sabe o que é. Come carne vermelha, malpassada. O pessoal fala mal, diz que homem é grosso, que arrota, mas isso é coisa que diz quem não conhece ou que não gosta de homem. Também gente que tem inveja. Tem muito invejoso por aí. Homem não arrota por falta de educação, arrota porque tem opinião.

Não dê carinho a um homem, ele vai pensar que você está doente. Bote uma lingerie e se incline entre ele e a TV no intervalo do jogo. Isso é o mais próximo de carinho que ele vai entender. Para um homem, a mulher é um ser maluco cuja melhor parte é a bunda. Não pense, nem em um minuto de sua vida, que um homem entende você. Se ele entendê-la, certamente não é homem. Homem entende de bomba de gasolina, de taxa de juro, de bunda.

Quer agradar convidando para ir a um cinema? Esqueça. Se quiser agradar, não incomode. Se não incomodar já estará agradando. Faça o seguinte: diga a ele que não quer casar, que tem alergia a filhos, que não menstrua porque fez aquele tratamento da Ana Paula Arósio, que não gosta de shopping, que não tem mãe, que sua família mora na África, que você quer sexo sem compromisso, que você ganha seu próprio dinheiro. Se ele acreditar, vai querer casar com você. Mas, atenção, não case! Ele vai saber que é armadilha. Se bem que homem mesmo, homem de fato, é burro para estas coisas; são facilmente abatidos, tanto é que estão em extinção.

Pelo menos uma vez por semana coloque uma cerveja na frente do homem para ver se ele está bem de saúde. Desinteresse pode ser febre, alguma infecção.

Não diga, nunca mesmo, que sua irmã vem visitar você. Homem não gosta de mulher que tem irmã. Diga que uma pessoa que deve dinheiro a você está trazendo o cheque; ele vai abrir a porta para ela e ficará por perto.

Quer sensibilidade? Cultive violetas, rosas. Quer amor? Compre um cachorro. Quer poesia? Leia Cecília Meirelles. Quer conversar? Messenger. Está sozinha? Convide uma amiga para tomar chá. Quer falar sobre aspectos ginecológicos? Ginecologista, claro. Se não aguenta certas coisas e quer se expressar, procure um padre. Mas se, de fato, você insiste em intimidades, se realmente quer se expressar com seu homem, se você é mesmo teimosa, e mulher é, fale que não é necessário trocar o carro, que este está bom; não é preciso pintar o muro, afinal, muro não se pinta; sua família vai se mudar da África para a Ásia; o time dele contratou o zagueiro da seleção.

Homem é mentiroso, fanfarrão, exibido, mas sempre de um modo viril. Minta para ele, diga que ele é bom de cama, que nunca você conheceu alguém igual. Ele vai acreditar. Diga que é bobagem ele fazer musculação. Para quê? Para tirar aquela barriga charmosa que se esparrama para fora das calças? Olha, é difícil um homem não acreditar em um elogio, a não ser quando a questão envolva dinheiro.Homem é um bicho pouco inteligente que acha que é inteligente. Alguns pensam que sabem tudo, têm um modo empinado de ver o mundo, e se têm dinheiro e trabalho, usam isso como argumento. São geralmente os mais burros, mas nunca discuta com eles, pois não entenderão. Homem, quando não entende, briga. Quando entende, briga. Quando briga, acha que está certo. É genético.

Lembre-se: quem se destaca é o homem; quem tem razão é ele; quem é homem é ele. Você é a mulher, fique sempre um passo atrás. Mesmo que saiba as respostas, pergunte a ele. Não chore, pelo amor de Deus! Geneticamente, o homem não tem como lidar com choro de mulher, ele pensa que é dor, não sabe distinguir.

Alva, uma jovem empresária, pouco mais de 30 anos, em 2011, pensa este arrazoado (!) de coisas sobre os homens. Enquanto caminhávamos e conversávamos, parte da consulta dela, Alva concluiu o assunto afirmando que, na opinião dela, a maioria das mulheres concordaria com ela.

Por escrever da forma que escrevia, entre outras ideias, Reich foi condenado à prisão em maio de 1956. Alguns meses depois, em março de 1957, esgotados os recursos, foi recolhido à prisão. Em novembro daquele ano, na penitenciária de Ludwigburg, Pensilvânia, morreu no cárcere por um ataque cardíaco.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Inteligência Coletiva

Beto Colombo
Empresário
Filósofo Clínico
Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma-SC


“Penso, logo existo”, já disse o filósofo Descartes.

Uma das diferenças do homem com os outros animais é o fato dele pensar. No entanto, fico impressionado ao ver como algumas pessoas preferem não pensar e não desenvolvem uma das competências mais importantes para o mundo moderno: aprender a pensar.

É claro que para algumas pessoas o exercício do pensar dá trabalho, dói medularmente. Quem se dispõe a “queimar neurônios”, quando podemos receber quase tudo “de mão beijada”? No entanto eu vejo que sem o exercício da reflexão, corremos o risco de ter vidas vazias, como folhas mortas levadas pelo vento de um lado ao outro. Precisamos aprender a pensar. Talvez só assim tomaremos as decisões mais acertadas.

Em 1995 participei, em nossa empresa, de um seminário designado “Como Empresas Competitivas Aprendem a Aprender”. Durante três dias seguimos um método próprio que levava as pessoas a pensar, refletir, aprender a fazer projetos de uma forma muito simples e acessível a todos. Penso que esse foi um dos grandes passos que demos para o sucesso de nossa empresa, naquele seminário aprendemos a aprender e aprendemos a planejar juntos.

Estamos conscientes hoje que a fonte e o caminho mais seguros para obtermos vantagens competitivas é o conhecimento. O conhecimento para nós é como aquela lanterna que ilumina um pouco adiante nosso caminho, mas que o deixa obscuro lá na frente. Isso, também requer uma integração entre saber e fazer.

Esse projeto nos convoca a um novo humanismo, que amplia o “conhece-te a ti mesmo” para um “aprendamos a nos conhecer para pensarmos juntos” transformando o “penso, logo existo” em “formamos uma inteligência coletiva, logo existimos”.

Hoje, talvez um dos passos para o sucesso seja fazer convergirem os pensamentos das pessoas para uma mesma sintonia, pois numa empresa ou em qualquer outro tipo de organização, dependemos do capital intelectual por ela desenvolvido ou estimulado para crescer. Como presidente de nossa empresa eu percebo que se quisermos uma empresa gigante, precisamos criar gigantes ou, no mínimo, saber identificá-los.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre inteligência coletiva?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Noite Invernal

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora-MG


A noite foi chegando mansamente
O frio dentro e fora me convidando ao acolhimento sob os cobertores.
Mas,o sono fugiu...

Cantei uns mantras em meditação, orei.
E, o sono correu...
Minha alma em festa, serenamente esperou.
Porém, o sono não surgiu...

Sorrindo e em paz decidi ler poesia.
E o calor do instante acendeu minha alma, quando li sobre kabir:
Ele diz:
"Tem-se que procurar pela beleza.
Ela está em todo lugar;
Toda natureza está plena de beleza.
E a beleza não é nada mais que Deus escondido.
Toda a beleza é d'Ele".

Arrepiei, não de frio, mas de emoção.
E continuei lendo:
"Cada flor é um convite, um encontro marcado com Deus".
kabir poetizou:
"Meu coração está delirante,
E exponho na minha alma o que está escondido.
Estou imerso na grande felicidade
Que transcende todo prazer e toda dor".

...e o sono não mais teve espaço, nesta noite invernal.
A poesia de Kabir me acolheu, me ninou e, nos amamos
No silêncio da meia noite.
E meus olhos foram fechando.
Plena deste encontro, gozei de alegria.

Frio,noite. Quente,amor.
Poesia solta no espaço...
Foi trazendo, assim, delicadamente
O sono, o sonho e o render a alma.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ritmo interno x metas x limites

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS


Vivemos em uma sociedade, especialmente em sua face profissional, empresarial, de negócios, que hipervaloriza características como força, foco, resiliência, resistência, determinação...

De modo geral, acredita-se que esses predicados proporcionam que se chegue mais próximo das metas e objetivos pretendidos. A contrapartida de satisfação é estresse, cansaço, desânimo, quiçá também doenças, problemas de saúde, afetivos, etc, dependendo de quanto e como cada um lida, melhor ou pior, com a pressão.

Para alguns, a adrenalina do último momento é fundamental para manter o brilho e a vibração, para o desespero de quem prefere atuar com prazos mais dilatados, planejamentos, agendas milimetricamente calculadas. Certo e errado, diante da total diversidade de pessoas, situações, modus operandi, é uma lógica que, aqui, cai por terra. Inclusive por ser o constructo de cada um, a partir de vivências, que determina o que é mais adequado para gerar bem-estar subjetivo.

Outro dia conversava com um amigo sobre a crueldade que faz consigo aquele sujeito que é notadamente noturno e escolhe um trabalho onde é necessário bater ponto às 7h30min da manhã. Ou o sujeito completamente afeito a regras e disciplina que escolhe uma atividade profissional onde é o improviso, a flexibilidade e o jogo de cintura mais preponderantes para o sucesso da atividade.

A cada dia que passa percebemos que se torna mais atual o que Sócrates já falava há mais de dois mil anos atrás: “Conhece-te a ti mesmo”. Aquele que conhece seu ritmo interno tem condições de fazer escolhas que respeitam sua singularidade e que portanto não violenta seu jeito próprio de ser.

Se ajudar possa: em grego, meta significa limite. O que meta significa temos internalizado praticamente desde a infância: onde queremos chegar, a flecha no alvo, sonho realizado...

O limite agrega outras palavras, como ‘poder’ chegar, esgotamento dos recursos, o máximo que se consegue ir. Escolher a meta e portanto o limite, novamente, pressupõe uma dose generosa de autoconhecimento, que conjuga o querer com o poder, sem tirar o brilho do sonho e inclusive o ir além, o superar-se, se isso for importante para o indivíduo.

domingo, 3 de julho de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes L*


Espera

"Não me digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos,
Sente o perfume da paixão antiga,
Dos nossos bons e cândidos abraços!

Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços...
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera...espera...ó minha sombra amada...
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!...

*Florbela Espanca
Olá amigos,

Contamos com sua participação em nosso Café Filosófico Clínico na Livraria Martins Fontes: um bate-papo informal sobre questões cotidianas, abordadas a partir da perspectiva filosófico clínica. Tragam suas questões!

Quinta-feira - dia 07/07, às 19:30 - Av. Paulista, 509 - São Paulo - SP

Abraços,

Monica
Instituto Interseção
www.institutointersecao.com
(11) 3337-0631

sábado, 2 de julho de 2011

Inverno

Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei-MG

Domingo nublado
Vale do Matutu
Perto do casarão
Saboreando farofa de pinhão
moranga recheada
com truta defumada
cachaça mineira
O olhar cutucou a vida.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

MÉDICOS E MÁGICOS

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre-RS


Quando se trata de fazer um brinde, automaticamente pensamos em saúde. Poderíamos deduzir então que um dos principais anseios da humanidade seria uma vida saudável? Não é tão óbvio assim. O que significa saúde e de que forma será alcançada?

Parece que ao brindar, as pessoas imaginam estar fazendo um pedido mágico, como a um gênio da lâmpada, que eliminará qualquer doença que possa estar rondando. O trabalho e a preocupação serão transferidos para este ser poderoso e os “brindadores” não mais precisarão levar a sério os cuidados com o corpo, pois encontram-se protegidos. Só lembrarão da saúde na hora do próximo brinde ou quando ela faltar.

Quando surge um sintoma indicando que a saúde está de partida, não reconhecem, negam e postergam a procura por ajuda especializada. Iludem-se dizendo que contra eles a má sorte não acontecerá. Contam com a magia do brinde.

Não estou falando da previdência social, onde enfermos carentes necessitam e buscam tratamento, mas permanecem meses na fila, esperando o milagre de sobreviver até conseguir uma consulta médica. Isto é uma questão política ou talvez de falta desta. Nosso assunto aqui é saúde. Por que as pessoas não procuram o médico profilaticamente ou logo que surge um sintoma?

As causas parecem ser culturais. Ao procurar o médico o paciente terá que expor sua intimidade, talvez realizar algum exame invasivo desconfortável e ainda por cima, ser julgado e cumprir orientações restritivas (não fumar, fazer dieta, exercícios físicos, tomar medicamentos regularmente). Este tipo de comportamento exige empenho, cooperação e conscientização do paciente. Como as pessoas não acreditam que possam ficar doentes, é mais fácil ficar com pensamentos mágicos e contar com a sorte.

Outra razão para evitar o médico é o medo do diagnóstico. Se uma simples gripe se transforma em um dramalhão mexicano, imagine se o doutor diagnosticar um câncer ou um aneurisma cerebral? Quem procura acha! Optam por torcer pelo gênio da lâmpada e assim não enfrentar o médico e suas repugnantes investigações.

Às vezes pode até dar certo e a cura acontecer sem auxilio médico. Alguns sintomas são auto-limitados no tempo, funcionários de farmácias eventualmente indicam medicação correta, pesquisas na internet, palpites e conselhos podem ajudar, mas e quando tudo isto falha, a doença progride e os devaneios se perdem, o que faz agora nosso fragilizado “brindador” da saúde? Transfere imediatamente todos aqueles poderes imaginários para o médico, que será sua última esperança, o salvador, o mágico. Resignado, aceita agora encarar todos os inconvenientes em troca da expectativa de cura.

Desesperado, tenta marcar consulta. Consegue agendar para a próxima quinzena. Chega no horário marcado e aguarda por mais de hora pelo atraso do médico. A consulta dura exatos quinze minutos, o especialista requisita uma bateria de exames, prescreve analgésicos e marca um retorno na próxima semana para analisar o resultado dos exames.

De um lado da mesa, um médico realizando consultas expressas. De outro, um paciente vivendo em um mundo de faz de conta onde espera pela cura fantástica. Nada de empatia. Nada de confiança. Nada de lúdico. Nada de mágico. Com este cenário o coelho não sai da cartola, o paciente não vai ao médico e o pior de tudo, a doença é quem faz o espetáculo.