sexta-feira, 30 de setembro de 2011

De volta ao meu eu escondido

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG


Malas desfeitas e coração cheio de graça.
Renascida, pois há muito me deixei escondida.

No México fui em busca dos maias e encontrei-me,
Não só em meio a selva de Palenque,
Mas, no olhar silencioso do subcomandante Marcos,
Reencontrei aquela que deixei em 68.
As palavras fazem a revolução,
Disto nunca duvidei.

De Frida khalo, reencontrei as cores e a coragem,
Em Diego Rivera a arte revolucionária.
Dos maias trouxe a esperança no novo tempo.

Despertar da consciência.
Ser com todos.
Fazer das palavras um movimento de libertação.
Colorir o mundo com surrealismo real.
Lutar sem armas, com coração amoroso.
Caminhar mesmo que a angústia se faça presente.

Que continue angustiadamente feliz para não me alienar.
Que eu grite com as palavras e os pincéis.
Que eu denuncie sempre de forma incansável o ocultado.
Que não me quede sob a opressão e corrupção.
Que meu idealismo não seja apenas palavras vazias.
Que meus quês sejam muito mais que porquês.

Há em mim uma que se revolta.
Há em minha alma uma dor do mundo oprimido.
Há muitos silêncios contidos pela revolução.

Mas, nestes dois meses para entrar na sábia idade,
Renascida... Abro meu coração e minha ação
No exercício de há muito calado e guardado.
Estou de volta, despertando os que querem também
Se preparar para o novo tempo.

A era da luz se aproxima.
Para os quem tem ouvidos e olhos abertos
Para os que tem um coração compassivo
Para os que já sabem...
É a hora. A hora é agora.
Que me aguardem, me escutem e leiam, pois
"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer"

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Eternidade interrompida

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Morrer é preciso... tão preciso quanto necessário. Morremos a cada momento através da eternidade; vivemos pela sua possibilidade. Somos impotentes diante do tempo, mas detemos a condição incontestável de exercer a vida. Direito este nem sempre exercido, mas que na maior parte das vezes é reivindicado. Prescindir dele pode significar perdas incomparáveis para alguns; outros, porém, necessitam ter seu tempo supostamente abreviado... quem pode saber?

Na existência talvez nada possa ser predeterminado. Apenas intuímos o porvir, que nem sempre se manifesta por um caminho esperado. O inusitado provavelmente está a nos esperar depois daquela curva, como um prêmio atento às nossas necessidades.

Podem acontecer imprevistos, surpresas, desvios e até o rigor de um traçado delineado. Cada fibra se desvela e se revela no desenrolar de uma rotação. O dia se inicia para alguns, mas apenas acontece para outros. A eternidade, porém, transmuta tudo, até o mais simples desejo a ela se rende. Pode ser que tudo realmente se realize. Mas pode ser que não...

Os traços da imortalidade de cada um se exercem pelo tempo, pelo espaço, pelo que há de mais importante, pelo que se acredita, pelo receio de que nada aconteça como previsto, pelo improvável. Não há garantias na caminhada, mas igualmente não há contemporizações que impeçam o perpétuo, contínuo ato de caminhar.

A eternidade pode estar contida num olhar, num sorriso, numa lágrima, numa dor. Pode estar ausente de si mesma e ainda assim nos lembrar da existência efêmera, fugaz. Tão fugaz quanto nossos dizeres, que se lançam como flechas em direção ao próximo encontro. Encontro este que pode ser com o outro, consigo, com ninguém.

A imortalidade dança em nossos sonhos a perpetuar o infinito, nos mantendo vivos, ainda que em estado de suspensão perene. Talvez sejamos perenes para quem chamamos de Deus... mas talvez sejamos apenas um ponto vago num organismo maior, ou talvez não sejamos nada. Não importa, pois, no instante em que acreditamos, podemos ser tudo. Tudo na finitude nossa de cada dia, sem perdas, sem danos, sem dúvidas, sem temores.

O que importa realmente é perscrutar o tempo de nossa eternidade, pelo que entendemos como tal, ainda que esta seja interrompida a cada morte e vida cotidianas, por meio dos atos singulares que nos induzem simplesmente a ser, na plenitude da razão que nos suporta.

Mas não vamos esquecer de que isso pode importar somente para alguns; para outros mais vai valer sentar na beira do caminho e observar a vida passando, através tão somente do mecânico ato de existir, sem ressalvas ou pretensões. O agora pode ser somente um suspiro da eternidade que parou para descansar.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Desumanização no Atendimento

Beto Colombo
Filósofo Clínico, Empresário, Coordenador da Filosofia Clinica na UNESC
Criciúma/SC



Ultimamente, poucas coisas me irritam muito, mas tem uma que quero compartilhar com você, que é ligar para uma empresa com o objetivo de comprar algo e meu telefonema ser atendido por uma secretária eletrônica. Gélida, ouço uma voz que diz: “Para artigos domésticos, tecle 2; para eletrônicos, tecle 3; para falar com o setor de crédito, tecle 4...” e assim vai até chegar a célebre frase “Se quiser algo mais, aguarde um instante para falar com um de nossos atendentes.”

Já aconteceu isso com você?

Confesso que não tenho a paciência ideal, mas extrapola os limites de qualquer um ficar aguardando uma máquina dando ordens a você, que fica totalmente sem ação, sem poder fazer nada, a não ser esperar ou desligar o telefone. Na verdade, é isso que tenho feito, desligado o telefone. Cansei de ser ridicularizado, de ser humilhado. E olha que não sou só eu.

Recentes pesquisas indicam que 46% dos clientes não compram mais naquele comércio, considerando-se mal atendidos, ou pior, atendidos friamente por uma telefonista eletrônica automática. Em outra pesquisa efetuada pelo Call Center, instituto especializado em atendimento, constatou-se que a grande queda nas vendas de um universo de empresas teve como causas principais o excesso de automatização no setor comercial e o corte de pessoal. Dos entrevistados, 86% disseram que a queda estava ligada à desumanização no atendimento.

Para evitar gastos com mão-de-obra, empresas estão deixando os clientes cada vez mais insatisfeitos e, como sabemos, clientes insatisfeitos mudam de fornecedor. Sei que o que estou falando está na contramão das tendências de mercado, mas tenho refletido que, no setor comercial, é possível que devamos usar a eletrônica apenas no controle das informações e para facilitar a administração das vendas, e não no atendimento aos clientes.

Você prefere tratar com pessoas de carne e osso ou com gravações e atendimento virtual?

Eu gosto de gente, de ser chamado por meu nome, de ser recepcionado com um gostoso “bom dia!”, “Que bom que você veio!”, como nos tempos de nossos avós, lá na venda do seu Vitório.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre desumanização no atendimento?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Vida nova

Sandra Veroneze
Jornalista e Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Os primeiros dias da primavera estão aí e com eles um clima todo especial de renovação, vida nova. São as flores que nascem, os ventos que se espalham e pra mim, que faço aniversário em outubro, o convite é duplo para que de fato se inicie um novo ciclo.

Setembro, portanto, costuma ser um mês diferenciado, por um lado com energia pulsante, direcionada para a vontade de empreender e realizar. Os sonhos gestados ao longo do último ciclo começam a tomar forma numa planilha de planejamento, programação, e os cenários que se desenham também desenham o sorriso nos lábios.

Por outro lado, setembro é portanto e igualmente um mês de limpar gavetas, mente e coração. Jogam-se fora objetos, emoções, sentimentos e planos mortos. Às vezes até pessoas cujo prazo de validade já venceu, por mais duro que isso possa parecer.

Humanos que somos, precisamos desses ritos de passagem, e como é bom respeitá-los, vivê-los. É uma pena que o estilo de vida adotado especialmente nas grandes cidades prejudique a observação de ciclos como noite e dia, estações do ano, fases da vida, cada um nos sinalizando para o que é mais adequado e apropriado de se viver.

Naturalmente, a noite seria para o descanso, o inverno para o recolhimento, a adolescência para florescer, mas vemos pessoas dormindo pouco, crianças tendo vivências mais apropriadas para a fase adulta, e assim por diante.

E não adianta culpar a sociedade por isso. Todos nós temos condições de criar nosso próprio oásis de bem estar. Costumo brincar, metaforicamente, que todos os dias, passo por passo, vou construindo o jardim da minha vida, onde é necessário se cuidar do que tem de mais sólido (chão, piso, colunas, construções) e o que tem de mais sutil e delicado (as flores, os objetos de decoração), conjugando objetivo e subjetivo, yin e yang, para que seja de fato um espaço para se celebrar o quanto a vida é boa.

No cotidiano, seria algo como alimentação adequada, exercícios físicos regulares, dormir tanto quanto se precisa, trabalhar com amor e afinco, relacionar-se com verdade e se permitir ser melhor a cada dia que passa, buscando emoções, sentimentos e pensamentos saudáveis.

Enfim, já é primavera e hora de voltar com mais frequência aos parques, colocar o pé na grama, sentir a poesia que está no ar, experimentando o renovar de cargas das baterias para este novo período. Até a próxima primavera temos a possibilidade de caminhar, engatinhar e/ou correr atrás dos nossos sonhos, não importando que caiamos mil vezes, desde que nos ergamos mil e uma!

domingo, 25 de setembro de 2011

Ele tem que ter pegada

Jussara Hadadd
Filósofa Clínica e Terapeuta sexual.
Juiz de Fora/MG


Tudo é muito relativo, a gente sabe disso. Enquanto para algumas mulheres os homens têm que pegar, matar e comer logo, para outras, sensualidade exagerada, pressa para chegar ao "tudão" e toques com a força que ultrapassem o peso de uma pluma de pavão, podem significar o fim da relação. Sendo assim, como classificar o que seja uma boa "pegada"?

Como hoje em dia algumas mulheres já estão fazendo sexo de uma forma mais descomplicada, sem misturar amor, compromisso ou culpas, ficou bem difícil para os homens entenderem ou mesmo adivinharem como começar, como pegar e como transar com uma mulher. Ela quer? Quer logo? Quer carícias preliminares? Quer estabelecer critérios? Quer ficar só essa vez? Quer clima de romance?

Diante de tanta liberdade, o que antes tinha que ser trabalhado, hoje deve ser resolvido e bem rápido, por favor. Mas também não é bem assim. Não é assim para todo o mundo. As meninas estão resolvidas, mas cada um é de um jeito.

Existem homens que também têm dificuldade em partir para o vamos ver, sem nenhuma preparação. Muitos precisam de um grau de envolvimento, outros de muito carinho, outros de fetiches ou estímulos visuais mais audaciosos.

Fica valendo aqui a regrinha básica do: vamos nos conhecer um pouquinho antes? Cada um tem o seu tempo, a sua sensibilidade, o que aceita ou não.

Mas para as moças de hoje em dia, aquelas mais "levinhas", mais bem resolvidas, que querem só sexo e nada mais, para estas, o homem tem que ter pegada. E isto, talvez, signifique dizer que sai ganhando o homem seguro de si, que se cuida, que se ama, que se conhece bem, que está com tudo em cima. Pois o que é o contrário, pode se inibir ou se sentir rejeitado diante da liberação da mulher que expressa sua vontade em fazer sexo e como deseja fazer, ficando sem ação e frustrando a expectativa de algo mais.

Meninos pouco orientados quanto à sua sexualidade ou desatentos às questões mais fundamentadas do prazer sexual, também erram na qualidade da tal pegada quando levam a transa somente para os órgãos genitais, desprezando todo o caminho que o prazer pode transcorrer. Beijos, carícias manuais, sexo oral bem feito e sem pressa e tentativas de, a cada encontro, descobrir novos prazeres, mantendo a relação sempre quente e estimulada pelas novidades.

Tudo tem uma medida certa e a liberdade de expressão pode facilitar bastante o bom resultado do sexo de um casal. Comunicar o que deseja, sem medo de ser mal interpretado, pode garantir um entendimento ímpar sobre os lençóis. Não é pra qualquer um, infelizmente. Mas não há quem saiba tudo e também não há quem não precise aprender um pouquinho mais.

Sendo assim, uma boa pegada, consiste em atender às expectativas do outro, sendo atento e dedicado e, mais, disposto a trocar formas de prazer, sem pressa e sem egoísmo.

Uma dica interessante para quem não quer se envolver, para quem gosta de trabalhar com sexo no atacado, é saber do comportamento feminino através da leitura de revistas femininas, conversando com mulheres com as quais não tem intenção de transar e assim, descobrir o que as senhoritas que também só querem colecionar "ficadas" gostam de um modo geral. Tudo vale.

Boa sorte! Pegue o que é seu.

sábado, 24 de setembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXI*

"Casanova não é um gênio pelo modo com que descreve sua existência, e sim pelo modo de vivê-la."

"A eficácia de toda terapêutica, que tem a fé por base, aumenta com a contribuição de um cerimonial mágico ou religioso."

"Os enfermos não se preocupam com o fluido, nem o como nem o porque: limitam-se a precipitar-se para o mago, impelidos pela fama de sua novidade e atraídos pela esperança."

"Desde as fórmulas do exorcismo dos antigos até a teriaga e os excrementos cozidos de rato da idade média e o rádio de nossos dias, todos os métodos de cura, devem uma grande parte da sua eficácia à vontade de sarar, ingênita no enfermo, e em tão alto grau que o veículo eventual, base dessa fé, seja imã, hematias ou injeções, em grande número de enfermidades, pode dizer-se que é supérfluo comparado à energia que possui o enfermo e que é a que dá eficiência real ao medicamento."

"A própria natureza é o 'médico interior' que palpita em cada criatura desde o seu nascimento e que, por isso, sabe sobre enfermidade mais do que qualquer especialista, que tem de limitar-se ao exame dos sintomas externos."

*Stefan Zweig

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Os filhos nossos de cada dia

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Hoje quero falar de filhos. Mas não importa muito a que filhos me refiro. Filhos podem ser de muitas naturezas. Podem ser tantas coisas... de infinitas e diferentes origens.

Quem sabe sejam aqueles sonhos que acalentamos, ou as nossas incertezas que nos perseguem, ou ainda nossas reflexões inusitadas e com um toque bizarro de surrealidade, ou a ocupação que nos consome e nos delicia; podem ser também aqueles que levamos no ventre físico ou do nosso coração.

São muitos os filhos dos partos diários que fazemos e que nos (pré) ocupamos em embalar. Esses partos podem ser fáceis ou podem acontecer mediante fórceps, mas ainda que isolados na condição pessoal de existir, o fato é que parimos um novo dia, a cada dia, a favor ou contra a corrente. Às vezes a existência parece ter uma respiração inexorável.

Dos filhos nascidos da união das sementes, houve um tempo em que os considerei a máxima do papel existencial, o fim último da existência. Não sei se ainda é assim... não que eu tenha mudado de opinião, não é bem isso, mas tenho a sensação de que os incorporo melhor a esse sentido de existência maior. Continuo achando-os uma missão suprema.

Parece-me que seja o lugar onde realmente se exerce melhor os atributos divinos. Digo divinos porque assim me parecem, como se algo transcendente, ao mesmo tempo mágico e simples, como um instinto básico que continuamente se revela. Ser mãe ou pai não é padecer no paraíso; não é padecer em lugar algum. É um exercício de terapia cotidiano, onde as falsas ideologias não têm vez. Não dá para fazer de conta, não dá para viver eternamente de ilusões.

O que percebo é o quanto eles contribuem como seres independentes, íntegros, com suas singularidades, para a qualidade do ser humano que cada um pretende fazer valer até quando as células tiverem disposição de se renovar. Há uma constatação de responsabilidade enorme, é certo... mas com prazer me dou conta igualmente da reciprocidade na qualificação da vida. Qualificação esta não necessariamente positiva, negativa, mista ou confusa, mas quem sabe múltipla em seus desdobramentos, como interseções que se renovam até mesmo em nossas entranhas.

Dos outros filhos (e cada um conhece os seus melhor do que ninguém), que se fale na medida do que representam. Na medida ínfima ou suprema da importância, valorativa ou não, que sobrevoa o movimento de cada um. Cada qual conta a sua história; cada qual se reconhece na genética exposta de sua criação, como se espelhos fossem de nossas almas que, pouco a pouco, tornam-se translúcidas a quem nos dedica atenção.

Nesse sentido somos como que pais de nossos partilhantes, pois estes conosco dividem seus anseios e experiências e se constroem também com o que com eles dividimos. São a escuta dos filhos dos filhos de nossos filhos, em suma, o que realmente importa.

Enfim, nossos filhos podem ser um banquete de fortes emoções acompanhados de olheiras, embaraços e surpresas. Ou podem ter sentido inverso, torto, vazio... Dentro de nossas construções, erguemos verdadeiros monumentos ao inesperado, pelo menos algumas vezes para alguns. Acredito que muitas vezes para nós mesmos.

A tal existência inexorável pode ser um desatino, assim como criar filhos pode resultar num verdadeiro desastre... mas, e daí? Onde está escrito que engravidar (pelos pensamentos), gerar (pela continuidade) ou dar a luz (pela experimentação) seja lá do que for, nos dá competência para exercer essa mater/pater(nidade)?

Estamos aqui por motivos diversos, cada um ao seu modo, cada modo ao seu jeito, cada jeito a sua realidade, nos moldando plasticamente à vida, exercendo ou não sobre ela algum poder. Nosso primeiro compromisso é com o que acreditamos, com o que nos faz filhos de nossas próprias intenções.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Pensar? Para que pensar?

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Somos viciados em receber tudo pronto. Pensar? Para que pensar? Se tudo já vem enlatado, deformado em
informações programadas.

Questionar, para que questionar? Mais fácil ser conduzido pelas ideologias dominantes. Ser massa e rebanho. Para ser aceito pela alienação da maioria.

Ligamos a TV e ficamos paralisados vendo todos os mais fantásticos recursos tecnológicos nos ensinando o que devemos ou não fazer. Acreditamos que todo o televisivo é a verdade absoluta.

Ser ou não ser. Relatividade. Dúvida. Interrogação. Angústia. Para que vamos complicar a vida? Sombra?
Queremos apenas a perfeição.

Acreditamos que a vida é apenas isto. O que os outros nos dizem que deve ser e é, passa a ser o dogma estabelecido. O ‘pode ser’ ou ‘não ser’ não tem lugar no nosso dicionário diário.

Gente maluca estes tais filósofos. Complicam a vida. Andam na contra mão e questionam tudo. Nada
respondem, só perguntam. Parecem crianças de 5 anos.

Imagina só. Tem professores que não mais querem dar aula, eles querem que a gente pense. Dão textos e ficam observando a gente trabalhar. Que chatice! Pensar para que? Queremos tudo pronto. Decorar e copiar. Pensar dá trabalho.

Será que as grandes descobertas surgiram como passe de mágica? Ou da cabeça de gênios pensantes? Teríamos a internet, o avião, o celular, as grandes cirurgias, se todos ficassem apenas sentados frente TV, apenas copiando e repetindo o já existente?

Há 2500 anos atrás um homem singular, chamado Sócrates já convidava a pensar, questionando. E foi convidado a tomar cicuta. Ele era um homem muito perigoso. Pensar é perigoso. Pensar gera transformação.

Jesus, também não dava o peixe, mas ensinava a pescar. E foi crucificado. Ele era muito perigoso. Continua a ser perigoso ainda hoje.

Criatividade? Singularidade? Ser rebelde? Ser livre? Para que? Viver plenamente? Com as luzes e sombras?
Com angústias e alegrias? Vale a pena, viver com nosso coração atrelado a cabeça?

Questão de escolha e de consciência. As luzes precisam acender e nos fazer ver e perceber que temos neurônios demais adormecidos. Podemos pensar com nossos cérebros ativos e usar nossa genialidade escondida pelo sistema que prefere cordeiros.

Como? Será que conseguiremos romper com a preguiça de pensar por nós mesmos? Sair da acomodação
dos ‘tudo pronto’ e ter a coragem de agir livremente sem as muletas das cópias e regras pré-estabelecidas?

Experimente!
A vida nos chama agora.
A questão é descobrir o próprio caminho entre as pedras e encontrar a fonte.

Não nascemos humanos para sermos apenas animais. Recebemos um cérebro capaz de pensar e criar.
Não é justo colocar nosso potencial no armário das inutilidades e não viver todo nosso potencial. Afinal
somos demasiadamente humanos. Seres de inteligência e consciência.

Nossa inteligência pode e deve usar de toda sua criação num pensar e refletir continuamente para realizar o
grande desafio que é o VIVER HUMANO.
Viajar...

Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei/MG


Banho de poeira
Sacolejar
Despertar a menina
Alma tagarelar
Degustar Água Benta
Berço do Rio São Francisco

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ser ou Não Ser

Beto Colombo
Filósofo Clínico. Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC. Empresário.
Criciúma/SC


Questões existenciais, quem não as tem? Pois é, talvez, quem sente é quem sabe. A frase “ser ou não ser eis a questão”, originária da peça A Tragédia de Hamlet – Príncipe da Dinamarca, de William Shakespeare, é uma prova inconteste que as questões existenciais estão aí, há séculos.

A cena que sempre me vem a mente é Hamlet, o personagem principal, com uma caveira na mão questionando se vale a pena continuar vivendo e sofrendo ou tirar-lhe a própria vida.

No início do ato III, cena I, Hamlet declama: “Será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias e combatendo-o, dar-lhe fim?”

Shakespeare, ao escolher tal frase, “ser ou não ser eis a questão”, talvez não imaginasse tantas interpretações dessa frase longe daquele contexto.

A frase pode ser entendida como uma alegoria qualquer “faço isso ou não faço? E agora o que faço?”. São escolhas e nós somos resultados, reflexos delas, das escolhas.

Para viver em sociedade, em muitos momentos deixamos de “ser” para “aparentar”. Eis a questão: ser politicamente correto ou não ser? Ser eu mesmo ou não ser eu mesmo? Ás vezes, ou muitas vezes, somente representamos, seguimos um papel existencial longe da nossa essência, do nosso puro ser.

Também para as terapias cuidadoras como a filosofia clínica, psicologia, psiquiatria, aprende-se que na mesma pessoa somos masculino e feminino, o verdadeiro e o mentiroso, corajoso e covarde, o belo e o feio, luz e sombra, yin e yang.

Nas civilizações tradicionais, falam da nossa constante luta interna, como no dizer do Xamã que afirma que “dentro de nós há dois lobos brigando, um mau e outro bom”. Ao ser questionado qual deles ganha o confronto, o xamã responde: “Aquele que eu mais alimento”.

Ser ou não ser? Ou só parecer? Na vida, estamos constantemente decidindo o que seremos no instante a seguir. Ao decidirmos, somos. Ao sermos, fazemos história e nesta nos mostramos ao mundo. No frigir dos ovos, eu não sou somente aquilo que falo, aquilo que penso, mas fundamentalmente eu sou aquilo que eu faço.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre isso?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

David, campeão do mundo

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Dia 14 de junho, um dia antes do Brasil estrear na Copa, um pequeno jornal catarinense publicou o seguinte artigo que escrevi:

Você já leu alguma coisa de Charles Dickens? Eu gosto muito daquele livro chamado David Copperfield. É aproximadamente uma autobiografia e David é uma criança de quem gostei logo às primeiras páginas.

Bem, Charles Dickens costuma arrumar as coisas de modo intenso, raramente deixa de exagerar e não despreza nenhuma banalidade que possa ser engraçada.Uma das coisas que me chamavam a atenção é como situações complexas se resolviam subitamente, no momento exato em que precisavam ser resolvidas, na história de Charles Dickens.

Eu penso em Dunga, em Kaká, Robinho e os demais dungas daquela seleção. Desejo que eles conheçam David Copperfield, que saibam que a bola é o detalhe importante da coreografia da vida. A telinha mostra somente aquele balãozinho branco indo e vindo, deixa de lado toda a vida inteligente dos avanços, recuos, esquadras e danças por todo o campo, as coincidências que depois chegarão à bola. Estas coincidências podem ajudar se nos depararmos com uma Itália, uma Holanda e com, Deus nos livre!, aquela Argentina de Messi e de outros Maradonas.

Acho que vamos precisar da poesia, das coincidências incríveis que acabavam ajudando David Copperfield, do sonho para irmos adiante nesta Copa. No fundo eu gostaria de ver Ganso, Ronaldinho Gaúcho, Adriano voando e comovendo em campo.

Não me importaria de retornar das quartas de final diretamente para Guarulhos depois de perder de 3 a 1 para a Holanda. Eu quero primeiro a poesia, a rima imperfeita, o sonho, as lindas e inteligentes jogadas. Isso, para mim, é ser campeão do mundo.

domingo, 18 de setembro de 2011

Fragmentos filosóficos (nada) delirantes LX*

"Rotular os indivíduos que se sobressaem, ou que são incapacitados por problemas da vida, de 'doentes mentais' apenas impediu e retardou o reconhecimento da natureza política e moral dos fenômenos para os quais se dirigem os psiquiatras."

"O homem em sociedade é como um enxadrista que conhece bem as regras do xadrez."

"A visão de que as chamadas doenças mentais são mais idiomas do que doenças não foi ainda adequadamente articulada, nem suas implicações totalmente apreciadas."

"Parece-me que o que Piaget identifica como desenvolvimento 'normal' da criança é efetivamente o tipo de desenvolvimento que ele considera desejável, e que muitos membros das classes média e alta da sociedade ocidental contemporânea também considerariam desejável."

*Thomas S. Szasz. Médico. Professor de psiquiatria na universidade estadual de Nova York.

sábado, 17 de setembro de 2011

Carinho

Sandra Veroneze
Jornalista e Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Outro dia estava sentada na praça central de uma cidade do interior, deliciando-me com um dos meus exercícios preferidos: observar. O meu olhar se interessa por pessoas, animais, plantas, detalhes das casas e tudo mais que possa compor o cenário.

Como há alguns dias estava frequentando esta praça, e apaixonada por bichinhos que sou, acabei fazendo amizade com um cachorrinho viralata todo preto, lindo, que passa seus dias desfilando seu charme por aí e ansioso por carinho e bom trato.

Pois este cachorrinho, que é um doce de amável, caiu na antipatia de um menino, que insistia em lhe dar chineladas. Observei a cena e comecei a me irritar. Disposta a defender o cão, me ergui e fui até o local onde agora estavam o cachorrinho, o menino, e mais duas meninas que defendiam o animal.

Perguntei ao menino porque batia no cão e a resposta foi de este o havia mordido, ou tentado, afirmativa diante da qual as meninas prontamente se manifestaram: ‘é mentira’. Sinceramente, não acredito que o cão o tenha mordido, ou tentado, a menos que um ato de brutalidade inicial tenha partido do menino. Também não acredito que as chineladas que o menino dava no cachorro tinham por objetivo machucar, ou mostrar alguma autoridade, ou repreender.

Sabe o que acho? Esse menino é tão carente quanto o cão, mas não sabe dar e nem pedir carinho. Talvez tenha aprendido que docilidade não é coisa pra ele, e então o jeito que encontrou de encostar no bichinho, trocar algum calor, tenha sido o da brutalidade.

Pois é. Nós seres humanos somos assim. Mandamos mensagens contrárias muitas vezes. Se queremos compreensão, passamos o tempo todo reclamando que o mundo não nos entende e assim fechamos as portas pra qualquer entendimento. Se queremos carinho, nossa carência e revolta por ela nos faz agredir.

Mais fácil seria, quando queremos carinho, sair correndo atrás da pessoa se abanando todo, disposto, feliz, com os olhos dizendo ‘você é meu dono, você é tudo pra mim, olha como me rolo, me sacudo, me entrego pra ti. Te adoro, vem cá, vamos brincar”. É assim que os cães fazem, e, convenhamos, quem consegue resistir? É muito mais fácil gostar de um cachorrinho do que de um menino como este das chineladas, porque no cachorrinho abunda, e é de forma explícita, o seu desejo por troca, por afeto...

Eu acredito que humanos e animais têm uma natureza disposta à troca, ao amor, ao carinho, à compreensão. Mas acredito que os animais têm uma vantagem sobre nós: são muito mais dispostos. E o motivo é simples: pra eles, todos são merecedores de atenção.

Nós, seres humanos, antes de uma entrega ficamos avaliando, pensando, ponderando, e nesse processo, muitas vezes, nos podando. Claro que motivos não faltam, e nesse sentido pesam argumentos como histórico de frustrações de cada um e o fato de existir gente mal intencionada mesmo. De qualquer forma, 1 a 0 para os animais.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Existências que se tocam

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Há pessoas que não conseguem ser esquecidas...
Por mais que se esforcem... não conseguem.
São como diamantes raros, belos e multifacetados que concentram em si o sentido da eternidade na qual interferem e transferem ao outro o dom de possuir algo que não deveria nunca ser explicado.

Há pessoas que seduzem e impregnam o outro como se fluidos fossem, sem permissão, deixando muitas vezes um legado que se aproxima da perplexidade.
Há pessoas que conferem autonomia, poder, reconhecimento pelo simples movimento da existência, traduzidas pela palavra que se insinua, pela fugaz troca de olhar, pelos sentires intensos.

Pessoas assim existem... e isso basta! Não há como explicar...
E para que explicar o que não se entende? Para que entender o que não se explica? Para que formalizar o que o coração não suporta?

Estas pessoas, por serem tão vastas, permanecem um mistério, onde o amor e a admiração muitas vezes se confundem... e se fundem em incondicionalidades.
Mas o que é incondicional é o que traz em si a intenção de ser para sempre, pois nem o tempo deveria ser obstáculo ao que não tem regras, ao que é puro e repleto de ternura.

E a beleza dos que evocam a ternura justifica o risco do que se supõem inadequado...
Na verdade, somos andarilhos ávidos por novas compreensões e penetramos o destino sem avaliar o porvir...
Talvez pela ingenuidade e imprudência.

A dança de insinuações - que não consegue evitar a batida forte, a respiração suspensa, o desejo que pulsa, forte e repleto de fantasias... para depois se recolher, impotente e obstruído diante da realidade... cruel, porém inevitável – também gera distâncias.

Fica uma dor ao longe... uma dor que não se cansa de doer... porque lá no fundo acreditava em algo maior.

Com o tempo, essa dor se faz acompanhar da aceitação e da entrega de si mesma aos registros da memória, onde o coração evita acessar; onde só a razão tenta interceder.

Ele (o coração), avariado e confuso, tem dificuldade para compreender as perdas que se seguem à indiferença. E, por ser coração, às vezes não consegue compreender nada e se recusa ao óbvio.

Já os espaços criados, agora são saudades, onde diálogos possíveis e que se desdobraram em infinitas possibilidades, resultam vazios, carentes de seu mais precioso sentido: aquele que é simplesmente o de ser e compartilhar o que há de mais sublime nas existências que se tocaram.

A amizade deveria ser mais forte e não se deixar levar pela surrealidade da nossa pequena humanidade.

Pessoas assim podem até dar adeus, mas não se extinguem jamais.
Não podem ser esquecidas... simplesmente não conseguem.
E permanecem envoltas no maior carinho possível: aquele que não depende do outro para existir.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

ABUNDÂNCIA

Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico, Escritor.
Porto Alegre/RS


Ainda era escuro quando Clara acordou. Passara as noites anteriores em claro pensando em sua triste, densa e já distante vida de casada e nos eventuais encontros e desencontros pós separação. Olheiras e papadas demonstravam seu esgotamento. Aquela noite tudo foi diferente, era escuro, mas de alguma forma, havia luz. Mais do que isso, havia brilho em seus olhos. Sentia-se segura, tranquila e feliz. Durante o sono havia feito as pazes com seu inconsciente e com o mundo. Voltemos um pouco no tempo.

Recém divorciada, quarenta e cinco anos de idade, bonita, independente, livre e desimpedida para encontrar um novo amor. Tudo o que precisava para seu futuro era conhecer alguém legal, se apaixonar, não cometer os mesmos erros do passado e ser feliz. Apesar da suposta liberdade, Clara não conseguia se soltar. Permanecia escravizada pelas dúvidas. Pensamentos mil, resposta nenhuma, atitude zero.


Valeria à pena começar tudo de novo? Estaria velha demais? Procuraria homens mais jovens? Mais velhos? Parecidos com o que havia deixado para trás ou apostaria no extremo oposto? Viveriam juntos ou em casas separadas? Frente a tantas indecisões, Clara ficava paralisada e o tempo ia passando.

Tias apresentavam sobrinhos, colegas de trabalho falavam de irmãos desempregados, amigas convidavam para baladas noturnas, o cabeleireiro sugeria que circulasse em academias de ginástica pela manhã, à tarde no shopping e à noite em cursos de investimentos. Inscreveu-se em um site de relacionamento. Clara até arriscou um “encontro às escuras”. Em meio a toda esta agitação, sua terapeuta lhe recomendava paciência.

Teoricamente a oferta de candidatos era enorme, na prática nenhum servia. Todos apresentavam algum defeito que os desqualificavam. Haveria algum homem perfeito? Não enxergava luz no fim do túnel. Com tantas opções de escolha, cada pretenso candidato concorria com outros tantos imaginários que poderiam ainda surgir. A dúvida e a indecisão estavam lhe aprisionando.

Às vezes até escolhia bons homens e iniciavam um relacionamento, mas cada pequena decepção, automaticamente fazia renascer a esperança de encontrar outro melhor, gerando arrependimento e diminuindo a empolgação com o parceiro selecionado. Quanto mais opções disponíveis, maiores as expectativas e menor a chance de agradar.

A abundância de escolhas estava tornando Clara miserável. Cercada de candidatos a príncipe e solitária como uma bruxa. Enquanto sonhava com homens melhores, não aproveitava o momento, não deixava fluir, frustrava-se e a história não rolava. Estava com a síndrome da insatisfação pela abundância.

Quando Clara acordou naquela noite, não precisava mais de respostas, pois as perguntas haviam sumido. Despertara do sonho de fadas convicta que a melhor parte da história não era imaginar o final “felizes para sempre”. Descobrira que a parte mais gostosa de qualquer história de amor é construír e vivê-la por inteiro, intensamente, e se possível, por mil e uma noites.

Clara havia despertado com o ronco do homem que dormia a seu lado. Apesar de torcer pelo time rival, fumar, não usar perfume e não dançar, ele a fazia sorrir, pensar, sentir, gozar e acima de tudo, não lhe dava chance alguma de hesitação na escolha de amá-lo. Uma boa história precisa ter começo, meio e fim, não necessariamente nesta ordem.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Explorando Mundos - Representação

Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


No artigo anterior exploramos o mundo como coerção, que é o mundo enquanto ferramenta de enquadramento do ser. E não é de se assustar ao saber que a maior parte das pessoas de que se tem notícia veem a realidade desta maneira. Neste artigo veremos o mundo como representação, onde a questão se torna muito mais difícil, uma vez que o que se apresenta no mundo enquanto representação é fácil de entender e ensinar, mas difícil de viver.

O exercício que se dá deste ponto em diante é o de levar a compreensão de dois princípios básicos da Filosofia Clínica. O primeiro destes princípios vem de um filósofo chamado Protágoras, o qual diz: "O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são." O segundo filósofo chama-se Schopenhauer e disse: “O mundo é minha representação”.

Antes de avançar em direção ao que cada filósofo disse e a interação disso com o que se vive nos dias atuais é interessante retomar o ponto central, ou seja, o mundo. Imagine-se Sentado em um banco no cafezinho às cinco e meia da tarde, vendo as pessoas passarem. Ao seu lado, ouve-se um homem de longa data, com voz rouca e compassada dizer: “Este lugar é muito movimentado, pessoas que entram e saem sem parar.

Lembro quando sentávamos no banco da praça e podíamos contar as pessoas que passavam em uma hora”. Um rapaz, neto deste senhor diz: “Vô, o senhor acha isso movimentado porque não conhece São Paulo, Nova Iorque, lá sim é muito movimentado, pessoas indo e vindo rapidamente”.

Os que ouvem a discussão atribuem razão ao mais jovem, provavelmente pelo que já viram na televisão ou leram em jornais, mas quem está certo? Nenhum dos dois, tanto o jovem neto, quanto o avô sabem do que estão falando e o falam de acordo com o mundo que têm para si. Talvez um dia esse avô conheça São Paulo ou Nova Iorque e então diga: “Não sabia que o lugar onde vivo é ainda tão calmo”.

Quando o filósofo Protágoras diz que “o homem é a medida de todas as coisas”, ele está colocando que a medida de grande e pequeno, leve e pesado e até mesmo certo e errado não podem vir de fora. Quando o neto ouve a história do avô e diz que aquele lugar é calmo se comparado aos grandes centros mundiais ele o está fazendo pela medida dele.

Pois é ele quem conhece estes centros e pode comparar ao que vê naquele momento, mas como teria o avô como medir coisas que não conhece? Como um pai pode medir a dificuldade dos estudos da faculdade de um filho se não está lá no lugar dele? Piorando ainda mais, mesmo que vá ao banco da escola, será ele que está lá e não o filho.

Neste caso se o filho diz que está difícil, temos de conhecer a medida dele e só assim poderemos determinar se realmente está difícil. A medida de cada coisa da sua vida é você, não há como dizer se é fácil ou difícil o que você está passando sem conhecer como é para você.

O outro filósofo completa esta máxima dizendo que “o mundo é minha representação”, então, se aquele lugar é movimentado para o avô, assim o é para ele. E, se o lugar não é movimentado para o neto, assim o é para ele. A maneira como cada um representa aquele lugar onde está é diferente e por isso querer dizer que um está certo e outro errado é praticamente absurdo. Usando um termo simples, pode-se dizer que o que é calor para uma pessoa é calor para ela, não quer dizer que seja calor para outra pessoa. Não tenho como provar para a pessoa que não está calor simplesmente porque não está calor para mim.

Não é fácil aceitar que a medida da felicidade, da satisfação é o outro, pois muitas vezes nos é ensinado que existe um padrão e que estar neste padrão é ser normal. Muito mais difícil é entender que, quando o seu filho diz que você não foi um bom pai ou uma boa mãe isso é assim para ele. Que mesmo você dando seu sangue a ele até hoje, ainda assim ele não se sente amado, não é fácil aceitar que isso não é culpa sua. Não é você que não lhe deu amor, ele é que não consegue receber o que você tem para dar. É fácil entender que cada um é a própria medida e que representação de mundo é única, mas muito difícil aceitar e conviver com isso.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ferimentos

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Sem porto seguro
navego águas
turbulentas encostas
sacode corpo nú

massageia espírito
dolorido sopro
quentes palavras
borbulhantes poções
aquecem entranhas

inspiração possível
criação metamorfoseante
colo treme frenesi
caixa possuída
inquietação fantasma

fantasias fome
febres fendas
frágil fidelidade
filosofias fugidias
fisionomias

finos fazeres
fios fachadas
fora faiscado
falso fascínio

fomentado
fosfóricamente
fazendo ficar
flores ferimentos

domingo, 11 de setembro de 2011

A difícil arte de escutar

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofoa Clínica
Juiz de Fora/MG


A tagarelice real e mental toma conta
quando aos encontros surgem.
Cada um quer falar mais que o outro.
A ansiedade domina.
A luta pelo poder e a competição assumem o comando.
Silenciar, escutar e dialogar,
na maioria das vezes, não acontece.

Sair de si,
Escutar por inteiro,
Em pura presença,
No tentar compreender,
É uma arte sábia.

Ouvir não basta.
Silenciar é preciso,
Em total atenção a fala do outro.
Muitas vezes, só se pensa na autoafirmação,
Querendo alimentar o ego do poder.

Não se escuta o que outro está falando pois,
A preocupação é apenas no que vai responder.
E na maioria responde-se
exatamente algo que não tem nada haver com a conversa.

Escutar requer respeito,
Abertura,
Capacidade reflexiva,
Humildade,
Capacidade aprendiz.

O silenciar nem sempre significa escuta.
A tagarelice interna pode estar cheia de prejuízos.
O silêncio da escuta pontua e responde sem orgulho e vaidade.
O silêncio da escuta pergunta e se posiciona
Gerando um diálogo sustentável.

Escutar e dialogar é uma arte
De quem quer realmente aprender.
Escutar e dialogar é uma arte
De quem realmente sabe amar.

sábado, 10 de setembro de 2011

Significados

Beto Colombo
Filósofo Clínico. Empresário. Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC.
Criciúma/SC



Aquela água da torneira clorificada torna-se benta se colocada num cântaro no altar da gruta, assim como a flor pode ser uma confissão de amor, ou até uma afirmação de saudade se jogada sobre uma sepultura. O fogo torna-se símbolo sagrado nas velas dos altares e nas piras olímpicas.

Rubem Alves, no livro O Que é Religião, com sabedoria diz que há coisas que significam outras, são as coisas/símbolos. “Uma aliança significa casamento; uma cédula significa um valor; uma afirmação significa um estado de coisas além dela mesma.”

E se alguém simplesmente usar uma aliança na mão esquerda sem ser casado? Uma cédula pode ser falsa. Uma afirmação pode ser uma mentira. Por isso, quando nos defrontamos com as coisas que significam outras coisas é inevitável que levantemos perguntas acerca de sua verdade ou falsidade.

Aquela fonte no morro, que era apenas uma bica d’água, tornou-se um lugar de peregrinação porque aquela gruta construída deu um novo significado e a água que brota dela agora é benta e cura gastrite, reumatismo e faz milagres.

Fui à casa de um bom amigo e encontrei um antigo altar da igreja de Santo Agostinho que outrora era a mesa de celebração da Eucaristia nas missas dos domingos, onde o vinho transformava-se em sangue de Cristo e o pão no corpo de Cristo, e agora é apenas uma mesa de jantar de sua família.

Quando um artista pinta um quadro, ele está dando o seu significado àquela pintura. Outra pessoa que nada sabe sobre aquele artista dará a sua interpretação conforme o acervo agendado no seu intelecto, na sua estrutura de pensamento.

Um beijo dado por Maria em Jesus Cristo provavelmente é amor e carinho, agora um beijo dado por Judas significa outra coisa.

Algumas vezes nos deparamos com palavras de alguém que fala e o interpretamos dando o nosso significado àquela situação sem dar a chance dele colocar “a sua verdade”, apenas julgamos e condenamos como se fôssemos juízes: isso é verdade, isso é mentira. Verdade pra quem? E mentira pra quem? Aquela verdade pode ser a interpretação da minha verdade.

Algumas vezes, antes mesmo de ouvir o outro, antes de prestar atenção naquilo que ele está dizendo, apenas estamos ouvindo nossos pensamentos para formularmos o que vamos dizer em seguida. Será que estamos ouvindo o que o outro fala ou apenas o que estamos sentindo e significando conforme nossa estrutura de pensamento? Às vezes nós transformamos o que o outro está falando conforme nosso significado em objeto de concordância ou discordância.

Tenho aprendido que é preciso manter-se a literalidade do falante, limpando a mente de todos os ruídos e interferências durante a fala alheia. Exercitar o ouvido atento, ouvir o outro sem oferecer julgamento, sem significar, apenas entregar-se ao outro e diluir-se nele. No início da minha prática como terapeuta em consultório esse foi um grande desafio, não foi fácil, mas hoje sei que é necessário e possível.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, tem exercitado o ouvido atento?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ilhas de risco

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Desde que nascemos, ou mesmo antes de sermos concebidos, quando bilhões de metades percorrem longos e vagos impulsos para cumprir metas que sequer têm consciência, perdendo-se e chocando-se contra o desconhecido e contra si mesmos, parece que temos impressa uma característica de risco, de um ‘não sei o que pode acontecer’, tal como um caminhar no vazio, por entre penumbras e sensações desavisadas, sempre expostos ao inusitado ato de sobreviver.

O exercício da vida pode ser traduzido como uma constante respiração suspensa, onde desafios nos remetem a desbravar trilhas sinuosas e realizar escolhas, como se os desdobramentos existenciais futuros dependessem da nossa capacidade intrinsecamente humana de resistir e se sobrepujar aos acontecimentos e devires a que estamos constantemente nos expondo.

Estranho é supor que há risco em qualquer momento, talvez a todo instante, e não importa a que representação de mundo nos remetemos, o fato é que não há como ficarmos imunes a esse estranho controle que nos escapa, sobre o qual na realidade não temos controle algum.

Somos como ilhas desgarradas, à mercê de um complexo sistema de mundo do qual somos parte e ao qual estamos sujeitos. Contribuímos com a pura existência, com o simples ato de existir, para que o todo seja o que é, pois certamente não seria completo se não fizéssemos parte desse movimento que, ao mesmo tempo em que nos conduz ao risco, nos torna inerente a ele.

E assim estamos permanentemente vulneráveis e constantemente impelidos ao caminhar, ao fluxo contínuo, constante, do tempo e do espaço que nos remete a vivências onde nossa matéria se exprime, incapazes de resistir. Nossa condição humana nos incita a experimentar visões de mundo que se modificam com a velocidade da nossa percepção ou da condição cultural ou existencial.

Experimentamos igualmente emoções e infindáveis pré-juízos, que possuem muitas vezes o poder de nos reduzir a meros observadores ou reprodutores de comportamentos preconcebidos, que, por sua vez, geram novos comportamentos, muitos já envelhecidos.

Mas para muitos é nesse instante, o do olhar ou da inconcebível magnitude da consciência de vida, do estar vivo, de ter representação e legitimidade no espaço e tempo em que estamos inseridos, neste instante ímpar, é que se tem a chance do entendimento da extensão da nossa significância e consequente exercício de um papel existencial profundo, que confere diferença e nos salva do risco constante.

Perpetuar o espanto gerado pela percepção da consciência de si mesmo e pelos desdobramentos desse assombro pode nos permitir a redenção dessa condição quase fatídica de cooperação com esse risco inevitável, ainda que a condição humana da mortalidade continue a nos conferir força e fragilidade através da nossa fugaz realidade, aquela que chamamos de existência.

Somos ilhas e somos universos, desafiando nossa própria dimensão, refletindo sobre ir além, assim como sobre flores e canções, ao mesmo tempo em que nos rendemos às intempéries que o capricho da natureza nos oferece a cada manhã.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A arte da convivência

Sandra Veroneze
Jornalista e Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Estou com vizinhos novos. Quer dizer, em breve os terei, porque a fase atual é de reparos na casa ao lado do meu prédio. Mas já não gosto deles. Uma amiga disse que estou exagerando e sendo chata e é bem provável que sim, só porque não gosto do som que eles escutam e democraticamente compartilham com toda vizinhança: funk.

Essa amiga minha também tem uma situação chata pra administrar. A mãe ainda não percebeu que a filha cresceu e tem andado com umas ideias meio estranhas, como por exemplo acompanhá-la nas férias na praia, junto com o amor e os amigos da menina, como forma de protegê-la (em outras palavras: monitorá-la). Detalhe: minha amiga tem 33 anos.

Os exemplos de quanto a arte da convivência é delicada são infinitos. Alguém disse certa vez que a liberdade de um termina quando começa a liberdade do outro. Particularmente, acredito que todo mundo pode ter liberdade conjuntamente, desde que haja respeito. Nada contra ouvir funk, por exemplo, se a pessoa curte, se diverte, gosta, mas que seja em quantidade de decibéis necessários para que só ela escute. Estou errada?

A invasão do espaço alheio é somente uma das facetas da arte da convivência. Existe outro igualmente importante: o quanto conseguimos admitir e ficar junto do diferente. Tudo que não é exatamente do jeito que a gente gosta nos soa ‘estranho’. E a primeira reação é de repulsa e distanciamento. A segunda é de tentarmos adequar a realidade ao nosso gosto e somente a terceira, em uma perspectiva bem otimista, é a de compreendermos para então aceitarmos.

Os incomodados que se retirem? Simplista demais, sob pena de o mundo virar uma baderna e os indivíduos cada vez mais isolados (alguma semelhança com o que vemos à nossa volta?). Para que haja entendimento, penso eu, incomodados e incomodadores devem dar um passo à frente. “É preciso que cada um ceda um pouco”, diriam os mais sábios. E emendariam, com uma polida filosófica: que aquilo que nos separa seja menor do que aquilo que nos une.

É isso aí!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Fragmentos filosóficos (nada) delirantes LIX*

"Na proporção em que o matrimônio passou a ser considerado sagrado e indissolúvel, a psiquiatria involuntária foi considerada indispensável, uma verdadeira benção; e na medida em que a discórdia conjugal e o divórcio são considerados escandalosos, a doença mental e seu tratamento compulsório serão considerados científicos."

"A esquizofrenia é definida de modo tão vago que, na realidade, trata-se de um termo frequentemente aplicado a quase toda e qualquer espécie de comportamento reprovado pelo locutor."

"A esquizofrenia é um símbolo sagrado da psiquiatria, da mesma forma que, digamos, o cristo crucificado é um símbolo sagrado do cristianismo."

"Antes de 1900, os psiquiatras acreditavam que a paralisia geral era devida a má hereditariedade, alcoolismo, fumo e masturbação."

* Thomas S. Szasz
Médico. Professor de Psiquiatria da Universidade Estadual de Nova York.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Brincando de Ser Feliz

Jussara Hadadd
Terapeuta sexual e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Fantástica essa era moderna onde tudo é possível e toda a imaginação é potencializada e toda experiência é apreciada e aproveitada.

Bendita era, onde os sagazes se realizam perante a facilidade em encontrar alternativas para driblar desde a falta de dinheiro até a falta de amor e de sexo.

Maravilhosa a indústria do sexo que oferece produtos de todos os tipos facilitando o acesso ao prazer a quem até bem pouco tempo pensava que iria morrer à míngua.

Nesta categoria, podemos citar as pessoas que se acham feias e indesejáveis, os tarados de plantão, os reprimidos, os medrosos, e os fingidos.

As lojas não se restringem aos espaços físicos e pela internet, é possível comprar qualquer objeto de prazer, qualquer brinquedo que eleve a um nível bem próximo da realidade, qualquer tipo de fantasia sexual.

Fazer sexo sozinho e com qualidade, agora virou algo perfeitamente realizável.

Ficou para trás a famosa dor de cabeça feminina. Os homens encontram bonecas infláveis com orifícios penetráveis para atender a qualquer preferência. Sexo anal, vaginal e oral, com perfume, lubrificação, vibração, sons e gemidos que excitam e até elevam a auto-estima em um sussurrante: Gostoooooso! Garanhão! Poderooooso!

Se não quiserem a boneca inteira, existem boquinhas, mãozinhas e milhares de acessórios como cartas de baralho, revistas e filmes pornográficos, para estimular e sustentar sua atividade sexual com toda qualidade.

Para elas, o mercado oferece infinitamente mais produtos e é impressionante, como as mulheres consomem muito mais que eles dentro deste segmento. Estão cada dia mais sozinhas e nem importa se por opção ou não. O fator que influencia neste caso é a dificuldade de elas usarem o mercado da prostituição. Ainda estão inibidas quanto a esta opção que de fato é bem mais arriscada.

Não vamos falar aqui dos milhares de recursos que elas usam para conquistar e manter o homem que as interessam ou que matem esta ilusão, isto não vem ao caso agora, embora seja o grande filão das sex shop com o batido e falso jargão "agarre já o seu homem". Vamos falar dos brinquedinhos que oferecem a mulher sozinha todo o prazer que ela merece e admite sentir, agora que descobriu que pode.

Já se foi o tempo em que uma mulher enlouquecia por falta de sexo. Já ouviram a palavra histeria? Os hospícios eram lotados de mulheres histéricas. Ninguém mais liga se não tem namorado, se a paixão acabou, se o maridão não quer mais saber da brincadeira. Elas estão escolhendo, entre alguém que vale a pena, que não vai prejudicar em nada a sua vida ou viver a sua sexualidade sozinha.

Se o que falta são carícias, existem produtos que esquentam e gelam livros que levam a imaginação quase ao ápice da sensação, filmes eróticos e românticos e com a dose certa de pimenta para o feminino. Linguinhas de silicone macias e movidas por um motorzinho com várias velocidades para usar onde nasce o arrepio.

Dos vibradores, nem preciso falar. São tantos de tantas formas, cores, texturas... Para as mais taradinhas, existem os mini vibradores chamados "borboleta", que podem ficar no local o dia todo. Usem a imaginação.

Entre os pênis artificiais, tem para as corajosas e para as medrosas. São perfeitos. Tem com vibrador e tem até com motor que simula as penetrações. Parecem humanos, com pele macia e com tons de pele branca e negra. É demais.

Travesseiros para dormir de conchinha, que gracinha. Sai pra lá solidão.

As pessoas que não estão a fim de dividir seu tempo, seu corpo e sua intimidade com alguém, não precisam mais se angustiar ou o que ainda seria pior, que é se revoltar contra tudo e contra todos. Com esta grande oferta de brinquedos eróticos dá pra todo mundo se cuidar de maneira saudável, sem riscos e ainda contribuir com a paz no mundo.

Vale tudo por um estado de calma, por um sorriso no rosto, por um sono gostoso e pela espera por dias melhores para quem gosta de amar.

Vale a pena se amar.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Aprendendo a conviver

Giovani Alberton Ascari
Filósofo Clínico
Orleans/SC

Você que lê este texto, talvez seja uma daquelas pessoas que sente bem quando está junto de outras pessoas: a família, os amigos, os colegas de trabalho, o seu time de futebol, algum tipo de associação da qual você faça parte, as festas sociais... enfim, você é uma pessoa ativa, envolvida em vários grupos sociais. Você é alguém que gosta de estar com os outros e que participa intensamente da vida social.

Mas, pode ser que você pense: “não, eu não sou assim, eu não gosto de estar com as pessoas, prefiro mais a solidão e os meus bichos de estimação”.

Tudo bem, não estou aqui para julgar e não vejo problema em ser de um jeito ou de outro. As pessoas são diferentes mesmo. Há pessoas, por exemplo, que vão à Igreja, movidas pela fé, para encontrar-se com Deus. Mas, há quem vai à Igreja para encontrar-se com as outras pessoas da comunidade. Há também aquele que vai à Igreja, justamente quando não há ninguém por lá, pois prefere estar a sós, na solidão fecunda com Deus. Há, ainda, aquele que não vai à Igreja, porque acredita que o universo inteiro é um santuário divino e que Deus está em todo lugar.

Talvez você seja uma daquelas pessoas que busca um equilíbrio entre estar consigo mesmo e estar com os demais.

Há uma fábula contada por um filósofo chamado Arthur Schopenhauer, onde ele diz que num dia muito frio de inverno, uma vara de porcos-espinhos precisou se aproximar para se esquentar mutuamente, aliviando o frio que estavam sentindo. Mas, quando se aproximavam, logo sentiam a picada dos espinhos e isso os afastava.

Porém, a necessidade de aquecimento novamente os aproximava e aquele incômodo se repetia, de modo que eram atirados de um lado para outro, entre esses dois sofrimentos, até que conseguiram encontrar uma distância mais equilibrada, um meio-termo, no qual puderam suportar-se e aceitar-se da melhor maneira possível.

Assim também parece ser a vida em sociedade que inclina as pessoas umas para as outras. Se por um lado, somos incomodados pelas picadas dos “espinhos da convivência humana”, por outro lado, também somos agraciados pelo calor positivo da convivência em muitos momentos difíceis de nossas vidas.

O importante é aprendermos a conviver, através da educação, das boas maneiras e do respeito mútuo. Desse modo, com certeza, as vantagens da vida social serão muito maiores a ponto de as picadas dos espinhos quase não serem nem sentidas.

É assim que eu vejo hoje, e você?

domingo, 4 de setembro de 2011

Uma pausa

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Há tempo para tudo.
Agora é meu tempo de pausa.
Férias de escrever aqui.
Vou curtir as flores e as cores.
Gestar mais um projeto.

Olho para horizonte e vejo
O entardecer invernal.
Cheiro no ar de flor de laranjeira.
Quietude na alma.
Saber serenar é bom.
Menos sempre é mais.

Estou me preparando para entrar nos
Sessenta.
Tempo novo.
Bom tempo.
Sempre sonhei com este tempo.

Paz no coração de todos
Continuarei diariamente na rádio e no consultório
No mais é tempo sabático.

sábado, 3 de setembro de 2011

Minha Matrix

Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei/MG


Sebastian Bach Maria Betânia

Rum Coca Cola

Livro Pipa

Montanhas de Minas Sol

Lagoa Cachoeira

Rio Jequitinhonha Rio São Francisco

Noite Dia

Semana Santa Folia de Reis

Causos Fogueira

Carro de boi Maria Fumaça

Saudade Alegria

Estrada Fotografia

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

NUNCA FOI TÃO FÁCIL CUIDAR DA SAÚDE

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Nunca foi tão fácil cuidar da saúde. Tive uma experiência para comprovar esta hipótese. Ao acordar pela manhã, percebi uma cor avermelhada, tipo sangue diluído, em minha urina. Antes de contar para alguém ou tomar qualquer atitude, procurei informações na internet.

Digitei as palavras “Sangue na urina” e encontrei um milhão e oitocentos mil resultados. Refinei a busca digitando “Sangue na urina – o que pode ser?”. Setecentos e quarenta e dois mil resultados. “Sangue na urina em homens” – Quinhentas e trinta e seis mil citações. Procurando bem encontraria sintomas parecidos com os meus e informações sobre diagnóstico e tratamento.

Depois de ler alguns artigos, fiquei assustado e nem fui adiante. Infecção urinária, cálculos renais, glomerulonefrite, rins policísticos, tumor dos rins, tumor de bexiga, tumor de próstata, abuso de analgésicos, traumatismo renal eram possíveis causas de minha urina avermelhada. Toda essa informação, ao invés de tranqüilizar, me deixou sem saber o que fazer. Decidi esperar as próximas micções e observar melhor a coloração.

Três horas depois, além de um vermelho bem mais forte, senti também ardência ao urinar. O que fazer agora? Quem sabe foi um cálculo sendo expelido? Vai ver foi aquele analgésico que tomei na segunda-feira? Pode ser uma infecção muito leve que vai curar sozinha? Tomo o antibiótico indicado na internet? Mas e se for um tumor maligno?

Achei que deveria procurar um médico urologista. Consultei o livro do meu plano de saúde e encontrei 123 especialistas. Como escolher? Sem nenhuma referência de familiares ou conhecidos, precisei adotar um critério de seleção. Vizinhança e disponibilidade foram determinantes.

Telefonei para dez médicos. Um me atenderia no mesmo dia, três naquela semana, cinco dali a quinze dias e um no próximo mês. Descartei o médico do atendimento imediato, pois pré julguei que a prestatividade era devida a ociosidade do consultório. Aproveitei o fato de que a consulta seria paga pelo plano de saúde e agendei horário com os três que dispunham tempo durante a semana.

Todos solicitaram exames semelhantes e foram inconclusivos em relação ao diagnóstico. Precisavam aguardar os resultados. Confesso que o Doutor “A” me passou mais segurança e se tivesse que optar, ficaria com ele. Queria ouvir a opinião dos três sobre o meu caso, por isso retornei para as reconsultas.

O diagnóstico foi unânime: cálculo renal, porém as condutas foram diferentes. Cada qual me colocou os prós e contras de manter uma conduta expectante, retirar os cálculos por endoscopia, bombardeamento com ondas de choque ou implante de cateter ureteral. Assinei documentos onde afirmava que tinha ciência de meu diagnóstico, das alternativas de tratamento propostas e dos riscos inerentes.

Nunca foi tão fácil cuidar da saúde. Nunca houve tamanha autonomia e liberdade de escolha. Pesquisei um milhão e oitocentas mil citações sobre o tema sangue na urina, consultei três especialistas em urologia. Poderia ir além. A abundância de informações e escolhas me permitiu navegar pela internet e consultórios, avaliar riscos e benefícios e mesmo assim, não sei o que fazer. Estou em um dilema, três médicos e três condutas diferentes. Preciso tomar uma decisão, mas tenho medo de fazer a escolha errada.

Parece que antigamente, quando só havia um urologista e poucas informações disponíveis, tudo era mais fácil. Nosso trabalho era ir ao médico e seguir sua prescrição. A obrigação de acertar era dele. Agora a responsabilidade pela escolha foi transferida para o paciente, um leigo que não sabe quase nada de medicina, está doente e ansioso. Possui informação, mas não sabe lidar com ela. Falta-lhe conhecimento e experiência. Possui autonomia, mas tem medo da responsabilidade. O risco é grande, mas a escolha será sempre do paciente.

Nunca foi tão fácil cuidar da saúde. Há quem duvide.

Obs. Este é um artigo de ficção, escrito com o intuito de sensibilizar pacientes, médicos e administradores sobre a responsabilidade pelos cuidados com a saúde.