domingo, 30 de outubro de 2011

O avesso de mim

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta e Filósofo Clínico
Cambuí/MG


"O mais importante do bordado é o avesso é o avesso"
(Jorge Vercillo e J. Velloso)

Nossa sociedade tornou-se sinônimo de agitação; já não encontramos tempo para mais nada. Desejamos que o dia tenha trinta horas, porque as 24 horas que temos parecem poucas para tantas demandas próprias do nosso cotidiano. Divorciamo-nos da paciência e hoje somos prisioneiros da pressa. Buscamos o futuro sem viver o presente. Nas tramas da vida, os bordados de nossa história são, por vezes, mal feitos e tortos.

A arte do bordado carrega em si um grande ensinamento para nossa vida. Se o avesso do bordado estiver perfeito, o bordado também estará perfeito. No entanto se o avesso do bordado estiver defeituoso, o bordado também estará imperfeito, mesmo que, ao primeiro olhar, ela pareça bonito.

Muitos corações estão com o avesso mal acabado. Há linhas de sentimentos soltas e nós de incompreensões mal arrematados. A princípio muitos seres humanos apresentam-se perfeitos, mas basta um minuto a mais na companhia destes "bordados" e descobrimos que ainda há muitas linhas soltas na alma humana. A vida agitada impediu que eles arrematassem o que ainda estava incompleto.

O bordado é um processo que tem o ritmo da paciência. Algumas peças levam muito tempo para ficarem prontas e belas. E o tempo é fundamental para quem se propõe a realizar um bom trabalho. O processo de vivenciar o tempo é fundamental na vida de quem deseja que seu avesso seja arrematado com perfeição.

O fruto verde não amadurece antes do tempo que lhe cabe. Nossos sentimentos precisam se reconciliar com as estações de nossa alma. Colher o que ainda está verde prejudica o sabor das experiências maduras.

O avesso de muitas pessoas está desfigurado e mal cuidado. A pressa e a busca por soluções imediatas têm prejudicado muitos na arte de se fazerem humanos. Não existe bordado perfeito se as tramas e as linhas do avesso de nossa alma estiverem mal arrematadas.

Na mitologia grega, Ariadne foi a heroína que deu a seu amado um novelo de lã para que ele conseguisse sair com vida de um perigoso labirinto – bastava seguir o fio para achar o caminho. Muitos precisam encontrar o fio da sua vida para sair dos labirintos que os aprisionam. Seguir o fio da vida é nos aventurarmos através dos labirintos de nosso avesso complexo e ainda não terminado.

O que torna o bordado de nossa vida mal terminado é a pressa em querermos ser aquilo que o tempo ainda não amadureceu. Os bordados de nossas atitudes serão tão belos à medida que permitirmos que Deus arremate, no tempo que Lhe cabe, o avesso de nossa alma. Nos bordados de nossas experiências descobriremos que o avesso de nossa alma precisa de um cuidado que se chama tempo.

sábado, 29 de outubro de 2011

COM PAIXÃO

Will Goya
Filósofo Clínico, Poeta.
Goiânia/GO

Entra, se eu servir de abrigo.
Até hoje nossa casa só foi habitada por fora.

Há tantos olhares que não foram ditos...
Enquanto me demorava em não te conhecer.

Se te adoro em tão pouco encontro
É que o tempo se acumula em delicados excessos.
A espera não deveria ser feita de desejos... Mas é.

Mais breve que o amor, foram os dias e noites antes da tua chegada.
Soubesse tão perto, acordaria mais cedo.

Eu te vi sumir a cada esquina, quando corri.
E amei tudo o que não me deixava em paz,
Como se o amor fosse troca, compensando a falta.

Amor antigo, na frente de estranhos.
Contigo aprendi o que era o mundo na tua ausência,
E ainda nem chegaste.

Sozinho em San Pablo, California/US, entre as leituras e as frestas da
janela veneziana do meu quarto, observava a noite chegar. Então pensei:
“quando chegará o meu grande amor?”.

Tolice! Como se um grande amor
fosse outra coisa que não o acúmulo e o metabolismo de todos os amores já vividos, todos os erros e acertos, revelando à nova pessoa amada a
experiente sabedoria do amante.

Mas... naquele instante, abandonadas as
reflexões filosóficas, o que chegou mesmo foi este poema.

Vem... Abandona teu corpo num sorriso.
Deixa os pensamentos se perderem de ti.
Eles também querem voltar pro céu.

Entrega sem reserva tua roupa e teu perfume,
Que em teu corpo há uma taça para beber os gozos da vida,
Emoções à espera dos meus dons... Eu tenho sede.

Nossas almas querem ouvir a noite imensa dos segredos
Que guardamos um pro outro
E do cansaço à exaustão,
Cheios de silêncio, inventar nossas próprias verdades,
Pois o amor é confidente.

Antecipa tua presença, querida...
Que ao longe ficamos os dois a sós.

Dá-me o teu convite à porta do quarto em que me esperas
E descansa em teu rosto os sonhos da vida,
Que às manhãs hei de chamar teu nome com paixão.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Muitos chamados

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Vida acontecendo nos múltiplos convites.
Vastidão de possibilidades. Intensidades de acontecências.
E urgência de fazer escolhas.

Sou livre.

Bibliotecas, livros, portas abertas.
Ruas, pessoas, corações pedintes.

Somos realmente livres?

Os chamados de fora angustiam.
O chamado de dentro escolhe
Entre o dentro e o fora o conflito, a pausa ansiosa
Angústia frente aos muitos.

No fora o universo em expansão
No dentro o universo em comunhão.

Escolha, entre o sim e o não
Estou no chão em trânsito
Metáfora viva.
Linguagem. Comunicação.
Ponto e vírgula,

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Escrever é...

Luana Tavares
Niterói/RJ

Uma catarse... quase um delírio. Difícil até mesmo dimensionar.

Um movimento que transborda, vindo do que ainda falta ser dito, do que nem mesmo se entende, do que se pretende ou não e até do que não se consegue dizer. Vindo do âmago ou da superfície, não importa. O que conta é que costuma vir da alma, do que reconhecemos em nós mesmos; daquilo que se desafia, se precipita e se extingue. Uma eterna página inacabada; um eterno devir...

Escrever é quase solitário, e imprevisível, e incrivelmente confortador!

Mas não é um caminho simples. Que ninguém pense que é corriqueiro ou mesmo obviamente possível externar o que se sente ou o que se pensa. Pode ser até doloroso, de uma dor que machuca, mas que também compensa e se redime pelo sofrimento provocado, curando e renovando.

Por conta do seu movimento, é uma ação autorreflexiva, autoflageladora, de onde não se prevê a consequência... quase uma loucura, exacerbada pela irresistível ação que a motiva.

Aliás, frequentemente ocorre que tudo se misture ou se condense na penumbra de uma nuvem obscura e cinzenta, onde o olhar turva e confunde o que vislumbra. É isso, escrever é um encantador vislumbre! Pode acontecer do ser se evaporar ao final de cada ponto ou reticência... mas é preciso lembrar que até a vida, às vezes, é reticente,é extensa, é turva.

Então, pouco há o que fazer. E nada que uma nova respiração não reanime.

Escrever concede essa possibilidade assustadoramente autogênica, transformadora, que abre as comportas da imaginação no momento em que esta se permite esvair. É um alento para quem se rasga e se emenda. Restaura e reedita emoções.

Oferece à alma a chance de se regenerar, de se expor, de se extorquir, de se recompor. Tudo sem se render a nenhum caminho do meio, a nenhuma máscara, pois não é permitido um caminho do meio para a expressividade que se dispõe a vazar.

Ainda que se apague e se reescreva, ou mesmo que se amasse o papel ou delete a ideia, o que gerou as linhas aconteceu, existiu e tomou forma, nem que por um só instante. A entropia reflexiva aumenta, mas ao contrário do que se supõem, não degrada; na verdade, agrega contribuições múltiplas ao constante exercício expressivo.

As palavras são simplesmente ferramentas que concretizam o fluxo da imaginação. Por elas, nos revelamos, mesmo que se revelem mudas em seu grito ou construídas pelo silêncio.

Mas escrever é, essencialmente, um prazer, uma deliciosa aventura, que lança o que se desnuda para muito além do que imagina. Não há limites possíveis, não há fim imaginável,não há horizonte que se esgote, até mesmo porque não há como deter o sentimento, a dor, o prazer, a saudade. Não há um fim! Pois quando a alma expele a lava intensa, não há fuga possível. Ou melhor, a lava é a fuga!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Como Belano casou com Janice sem saber que continuava casado com Jaqueline

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Belano conheceu Janice um ano após o divórcio. Ele concedeu o divórcio a Jaqueline após uma pequena encenação circense na qual ela ameaçou os medos mais íntimos de Belano. Ele aceitou o divórcio e, no fim, estava quase implorando para que ocorresse.

Durante as consultas, Belano iniciava falando o quanto estava feliz com Janice, o quanto a amava. Então, alguma coisa mudava em seus olhos, ele pigarreava, discorria longamente sobre o quanto sua vida com Jaqueline havia sido restritiva aos sonhos, aos desejos mais simples como conversar com os amigos antes de voltar para casa.

Ele contava da nova casa com Janice e conseguia descrever uma casa maravilhosa, com jardim de inverno, gramados em planos inclinados, tudo em poucos minutos; em longos minutos ele descrevia o apartamento escuro, cortinas sempre cerradas, no qual viveu com Jaqueline. Descrevia minuciosamente os hábitos de Jaqueline que a levavam a gostar das cortinas sempre cerradas.

- O que o senhor quiser saber dela, pergunte para mim. Eu sou uma autoridade nos caprichos dela.

Belano era demorado em suas observações sobre Jaqueline. Às vezes ele estava tornando uma história minuciosa e era difícil diferenciar se ele estava tratando de Janice ou de Jaqueline. Em vários momentos ele parecia não saber também. Chamava uma pelo nome da outra frequentemente.

Belano afirmava querer esquecer, querer uma nova vida ao lado de uma nova mulher, mas cada vez que se ocupava do novo o antigo lhe retornava. Ele olhava diretamente para aquilo que desejava não ver e que assim acabava vendo cada vez mais, cada vez mais. Cada vez mais.

Foram muitos meses de entrevistas até que um dia Belano, cansado, decidiu não falar mais de Jaqueline, decidiu não pensar mais nela, não se ocupar das coisas que foram. Belano decidiu falar sobre Janice, decidiu pensar sobre Janice, decidiu se ocupar de Janice. Decidiu olhar, tocar, estar com Janice. Belano então de fato iniciou seu casamento

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Viagens, suspiros, exclusividade

Sandra Veroneze
Jornalista, Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


"Suspiro

Se me fosse concedido
Um único desejo, um único pedido
E sendo este momento o derradeiro
Eu pediria você comigo
Para lembrar, na eternidade
Que o amor existe"

"Viagem

Vou
Fico um tanto que é sempre pouco
E volto
Entre você e eu
Milhas e milhas de saudade"

"Exclusividade

Não importa se é paixão, amor ou obsessão
Ou ainda um lindo sonho de amor romântico
Importa que saiba o que quer, como, quando, onde e por que
E que neste olhar, como mulher, só caiba eu
Porque eu, quando quero, quero tudo e quero inteiro
E também só quero o que é meu"

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Haicai

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, que você esteja bem. Hoje vamos falar de um assunto cujo nome é bem diferente: Haicai. “Haicai” é uma palavra originária do japonês Haiku, resumindo, é uma forma poética de se expressar de forma simples, concisa, objetiva e direta.

Os poemas têm três linhas, contendo na primeira e na última, cinco caracteres japoneses (totalizando sempre cinco sílabas), e sete caracteres na segunda linha (sete sílabas).

Aprofundando um pouco mais, o “haiku” é tradicionalmente impresso em uma única linha vertical, enquanto o “haicai” geralmente aparece em três linhas, em paralelo.

Quem escreve o haicai é chamado de "Haijin". No Brasil, um dos haijin mais conhecido é o escritor Millor Fernandes.

Haicai é, portanto, um verso ou então um minúsculo poema, onde tudo o que tem que ser dito deve ser dito com apenas dezessete sílabas.

Esta forma de expressão é uma parte do ritual de Seppuku ligado a cultura dos guerreiros samurais. Em seu livro “Shogun”, Clavell descreve as origens que o regem.

Segundo Clavell, o Haicai é parte do ritual onde o guerreiro escreve um Haicai antes de cometer o suicídio, seu último Haicai. Um exemplo: “Estas pimentas! Acrescentai-lhes asas e serão libélulas...” (Haicai de Bashô). Poucas sílabas que devem representar a essência de uma vida.

Voltemos ao ocidente. E se você fosse desafiado a descrever o que significa ou significou a sua passagem nessa existência, o que você escreveria?

Precisam ser palavras essenciais, já que elas vão ser o que restou de uma jornada aqui nesse planeta, neste plano.

De forma parecida, porém, sem muitos critérios, nós ocidentais costumamos escrever frases de impacto nos epitáfios, que são as frases nas lápides dos túmulos.

Uma que eu gosto muito é a do poeta californiano, Roberto Frost. Ele escreveu e pediu que gravassem em sua lápide: “Ele teve um caso de amor com a vida”.

Em Porto Alegre, no cemitério São Miguel e Almas, encontramos a sepultura de Mário Quintana. Os fãs que visitam saem sorrindo com a frase: “Eu não estou aqui”. E, realmente, ele não está lá, está sim nas poesias, nas mentes criativas, nas páginas de seus inúmeros livros, ele se imortalizou pelas palavras e ações durante sua existência.

Voltando ao nosso desafio, que é escrever um poema, uma frase, qual é o Haicai que resumirá sua existência? Tem a ver com vida? Quem sabe amor, compaixão? Talvez respeito, caridade, liberdade, fé, esperança, sabedoria, justiça? Enfim, quais palavras essenciais resumirão sua vida até aqui?

Talvez hoje o meu seja: ...Encontrei Deus, e ele me vê pelos olhos dos outros!

Lembremos que se não tivermos boas palavras agora, ainda há tempo para reescrevê-las.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre haicai?

domingo, 23 de outubro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXVI*

"Sonhar é acordar-se para dentro"

"Amor
Quando duas pessoas fazem amor
Não estão apenas fazendo amor
Estão dando corda ao relógio do mundo"

"Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas..."

"Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo..."

"Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo..."

"Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava."

"Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar"

"Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação!"

"O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face."

"Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!"

"Amar é mudar a alma de casa"

*Mário Quintana

sábado, 22 de outubro de 2011

Sobre os terapeutas

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta e Filósofo Clínico
Cambui/MG


Muitos barulhos me perturbam... O ruído dos carros, das vozes externas e das que em mim habitam. Já cheguei a pensar em procurar um terapeuta. Mas após consultar meus velhos amigos desanimei. Disseram-me que os terapeutas de hoje são muito tagarelas. Antes de o cliente terminar a fala eles já tem a receita para os conflitos que tumultuam os pensamentos.

Não! Não quero um terapeuta que tenha na ponta da língua as respostas das quais necessito. Quero encontrá-las sozinho! Afinal eles irão caminhar por mim? Óbvio que não! O meu caminho é único.

Quero um terapeuta que seja companheiro de jornada! Que olhe comigo as paisagens que vou descobrindo ao longo de minha caminhada. Quero um terapeuta com o qual eu possa partilhar meus medos e meus sonhos. Que tire os sapatos e pise no solo sagrado de minhas dores.

Terapeutas que desejam que eu sonhe os sonhos deles estão fora de minha agenda. Como posso sonhar o sonho de alguém? Impossível! Não quero um terapeuta que aplique suas teorias em minha história de vida. Quero sim um terapeuta que conheça a minha história e a respeite, sem julgamento nem preconceito.

Não! Não quero ser julgado. Mas será a partir da compreensão do meu terapeuta que eu irei também me compreender.

Disseram-me ainda que os terapeutas de hoje buscam respostas prontas nos manuais que as faculdades indicam. Tenho medo de terapeutas que amam mais os livros que as pessoas. Não quero ser mais um livro a ser estudado. Quero ser uma pessoa amada e respeitada.

Não quero terapeutas racionais! Quero um terapeuta poeta! Que fale com a alma e ouça com o coração. Quero um terapeuta que goste de flores e pôr do sol. Que leia Fernando Pessoa e Adélia Prado. E que compreenda o cotidiano como lugar teológico.

Meu terapeuta pode até ser ateu! Isso mesmo! Mas ele terá que respeitar as minhas crenças.

Quero um terapeuta que ouça o que eu nunca vou dizer! Que leia as frases sofridas e de alegria em minhas lágrimas. Não quero um terapeuta que viva no passado. Quero sim, um terapeuta que me faça enxergar cada nova manhã como experiências de ressurreição.

Se eu perceber que meu terapeuta é preconceituoso, irei abandonar a terapia imediatamente. Ele terá que olhar além dos meus rótulos. Afinal, meus sentimentos não estão com a data de validade vencida!

O terapeuta que busco precisa amar os filósofos! Ele deverá ser amigo da sabedoria. Mas uma sabedoria que não me deixe confuso, mas que aponte as estrelas nas noites escuras de minha alma.

Por fim, meu terapeuta terá que falar uma linguagem que eu entenda! Precisará ser humilde para adentrar a minha simples casa e comigo tirar o pó dos conceitos que me prendem, e ajudar a irrigar o solo seco dos meus jardins!

Enfim, meu terapeuta terá que ser humano!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Liberdade é a meta

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Não dá para continuarmos sendo escravos,
Deixar a mídia dominar e o poder controlar,
Escolher por si mesmo é possível,
Quando a mente , o coração e a vontade se harmonizam.

Não é tão fácil assim sair desta alienação,
Deixar de ser seduzido pela propaganda,
Que baseada nas faltas, vendem a alma.
Por isto a filosofia incomoda
Ela denuncia e faz pensar.

Mandela,mesmo 27 anos na prisão foi livre.
Subcomandante Marcos mesmo perseguido é livre
Dalai Lama mesmo expulso de sua terra é livre.

Liberdade de palavra e ação é nosso direito.
Ninguém e nenhum governo podem tolher nossa liberdade.
A liberdade não se encontra fora, mas dentro de cada um de nós.
A menos que o amor flua,você não sentirá livre.

Liberdade se faz no estar presente.
Liberdade nada mais é que a capacidade de escolher
Sabendo perder e desapegar do que não se escolheu.

Liberdade é a meta
De quem abre o coração a experimentar cada instante
Bons e ruins.

Liberdade é o abrir-se sem medo
Mesmo que com muito medo.
Liberdade é o agir de acordo com o Si-mesmo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Ilusões

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Ou vivemos de ilusões ou elas vivem através de nós! Às vezes é como se elas se precipitassem sobre nossas essências e plasmassem em nós poderosas impressões.

E não há como fugir; as ilusões te perseguem por entre as frestas das emoções ou mesmo pelos átimos fugazes dos pensamentos, detectando cada anseio e fortalecendo aquilo que nem mesmo percebemos.

Porque é inegável que a vida se reveste, às vezes, de nuvens densas, pelas quais não conseguimos penetrar e nem sempre compreendemos o sentido das reais intenções ocultas.

Só que as ilusões sabem, elas nos compreendem melhor do que nós mesmos... então se manifestam, se insinuam e se traduzem, promovendo fantásticas alterações na nossa construção. Mas elas também se esvaem e se desintegram, como se jamais houvessem estado ali. Por isso são ilusões...

E assim, permanece obscuro o sentido das ilusões. Ele se esconde por entre as sombras da lógica singular que transitam pelas infinitas subjetividades. E para que entender as ilusões? Para confirmar o que não deve ser explicado ou para por a prova que não se vive sem elas? De que adiantaria?

Não saberíamos, simplesmente porque fluir no vácuo da mediocridade existencial não nos dá acesso às nossas perspectivas e possibilidades. Para chegarmos lá, para obtermos o ingresso, temos que nos esforçar mais e ficar atentos às ilusões, porque mais do que nos iludir, elas nos tentam e nos desafiam para outros vôos.

As ilusões perseguem o que não entendemos e se fortalecem nos sonhos e devaneios que acalentamos. Mas não nos eximem de nossas intenções. E nem mesmo nos consolam das irrealidades que cultivamos ao longo de nossas absurdas e surreais realidades.
Vale lembrar que as mesmas correntes que animam a existência também se voltam contra ela e, assim, muitas vezes permanecemos navegando por águas incertas, nem sempre rasas, nem sempre profundas.

Mas inevitavelmente confusas e turbulentas, ainda que envoltas em névoas imperceptíveis. Qualquer brisa imprime movimento e qualquer movimento gera uma sequência de acontecimentos sem possibilidade de volta.

E não sendo possível definir o que nossas ambiguidades pretendem, precisamos que as ilusões nos transportem ao imaginário irrestrito da nossa loucura particular, aquela que não confessamos nem mesmo a nós mesmos. Confessar seria quase uma inadmissível traição.

Mas ao nos iludirmos, também nos confirmamos... porque deve ser lá, no mistério insondável da utopia, que verdadeiramente existimos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Esvaziar a Mente

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, que você esteja bem. Hoje vamos refletir um pouco sobre esvaziar a mente. Tenho pensado muito, nos últimos dias, sobre um assunto que a meu ver é interessante e extremamente importante em nossas vidas, na vida de cada um. E o foco do meu pensamento, até bastante prazeroso, é o de se esvaziar.

Lembro que fiz o Caminho de Santiago duas vezes e dele tirei uma conclusão que trago até hoje, que é o de esvaziar a mochila, de deixá-la mais leve. Daqui a pouco a mochila está tão pesada que a vida, que é o que deve ser vivida, não pode seguir seu fluxo porque tem muito peso, muitos compromissos, muitas responsabilidades.

É comum eu receber solicitações para encontros, para programas, para festas, para reuniões, para trabalho, para sociedade, enfim, como ser humano aberto ao contato com as pessoas, recebo muitos convites. Se eu aceitasse pelo menos metade deles, necessitaria de 48 horas no dia, 14 dias na semana, 60 dias no mês, 730 dias no ano. Talvez até mais.

Além da mochila pesada, e isso a gente sente no corpo, ainda temos o cérebro cheio de coisas: de ideias, de agendas, de compromissos... Nosso cérebro, muitas vezes, é comparado a uma biruta de aeroporto. Gira para todos os lados e não sai do lugar. Esvaziar a mochila é fácil, é visível. Mas como esvaziar o cérebro, a mente?

Em conversas com amigos e especialistas, uma das fontes é a meditação. Pelo que sei, há várias formas de meditação, desde as sentadas, as deitadas até as caminhando. E foi aqui nela que me encontrei.

Mas meu foco no tema de me esvaziar surgiu quando Thereza Carlota, uma amiga de 68 anos que fez o Caminho da Ilha comigo agora no último mês de junho - juntos percorremos 188 quilômetros ao redor da capital de Santa Catarina em 8 dias – ela, quando se esvaziou para o novo, é que sentiu o que é a meditação e, a partir daí, passou a dar valor.

Não tem como não citar o diálogo do aprendiz com o mestre:

- Mestre, o que devo fazer para meditar? - perguntou o aprendiz.

Diante da pergunta, o Mestre respondeu:

- Sente e medite!

Não tem outra forma de fazer, senão fazer.

Sentado, deitado ou caminhando, não importa. Talvez devesse encontrar o seu jeito, a sua forma . Há aqueles que meditam observando pássaros. Você quer tentar? Então pare, escute-se e não pense. Pelo menos por alguns instantes durante o dia. No começo é difícil, depois a prática ensinará.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa de esvaziar a mente?

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXV*

"Reflexão n°.1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido"


"A tentação

Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo
“ Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz”


"Texto de consulta

A página branca indicará o discurso
Ou a supressão o discurso?

A página branca aumenta a coisa
Ou ainda diminui o mínimo?

O poema é o texto? O poeta?
O poema é o texto + o poeta?
O poema é o poeta - o texto?

O texto é o contexto do poeta
Ou o poeta o contexto do texto?

O texto visível é o texto total
O antetexto o antitexto
Ou as ruínas do texto?
O texto abole
Cria
Ou restaura?

O texto deriva do operador do texto
Ou da coletividade — texto?

O texto é manipulado
Pelo operador (ótico)
Pelo operador (cirurgião)
Ou pelo ótico-cirurgião?

O texto é dado
Ou dador?
O texto é objeto concreto
Abstrato
Ou concretoabstrato?

O texto quando escreve
Escreve
Ou foi escrito
Reescrito?

O texto será reescrito
Pelo tipógrafo / o leitor / o crítico;
Pela roda do tempo?

Sofre o operador:
O tipógrafo trunca o texto.
Melhor mandar à oficina
O texto já truncado.

A palavra cria o real?
O real cria a palavra?
Mais difícil de aferrar:
Realidade ou alucinação?

Ou será a realidade
Um conjunto de alucinações?

Existe um texto regional / nacional
Ou todo texto é universal?
Que relação do texto
Com os dedos? Com os textos alheios?

Juízo final do texto:
Serei julgado pela palavra
Do dador da palavra / do sopro / da chama.

O texto-coisa me espia
Com o olho de outrem.

Talvez me condene ao ergástulo.

O juízo final
Começa em mim
Nos lindes da
Minha palavra"

*Murilo Mendes
Poeta Mineiro

domingo, 16 de outubro de 2011

Inversão

Jane Difini Kopzinski
Fisioterapeuta, quiropraxista, filósofa clínica
Porto Alegre/RS


Um vôo rasante
Interno na alma
Espelho das asas
Transcende ao vento

Quebra as nuvens
Pousa em sí mesmo
Toma de seu próprio ar
Planando em sua brisa

Abre as asas
Movimentos secretos
Na alma flutuante

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Assim ela me parece

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta e Filósofo Clínico
Cambuí/MG


A Filosofia Clínica não se divorciou do mundo acadêmico, apenas escolheu dar vida aos pensamentos dos grandes filósofos. Os termos indecifráveis continuam sendo válidos e necessários. Mas a Filosofia descobriu que sem poesia, aromas e sonhos ela não conseguiria chegar a essência do ser humano. Assim nasceu o que foi gestado durante séculos por tantos filósofos e filósofas. A criança ainda está no berço...

Enquanto tantas terapias tem respostas prontas e psicologizadas, a Filosofia Clínica rema contra a maré das respostas prontas e múltiplas. Ela navega pelo oceano da singularidade. Num mundo onde a certeza é o caminho que todos procuram, a Filosofia Clínica demonstra que o incerto é ponto de partida.

Talvez a Filosofia Clínica não seja para todos... Assim como a Psicologia, a Física, a Matemática... não seja para todos... Porém, todas as outras ciências do saber cabem na alma da Filosofia Clínica. O rótulo foi deixado de lado, quando os Filósofos Clínicos descobriram que a diferença é essencial para quem deseja se aproximar dos caminhos que se cruzam na grande teia da vida.

As noites de lua cheia, o silêncio, o poema que estremece a alma, os aroma do café, o cheiro da chuva na terra seca, a música que recorda uma saudade nostálgica... sempre serão matéria-prima deste novo modo de entender e respeitar o ser humano.

A liberdade de ser aquilo que sempre sonhamos em ser, é a única garantia que a Filosofia Clínica pode dar a um partilhante. Ir além desta realidade pode ser perigoso. Mais incerta que nossa historicidade é o caminho que nos propomos a percorrer.

Talvez não haja chegada, mas apenas o início de uma longa viagem com novas maneiras de se compreender aquilo que ainda não tem nome.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O grito rebelde

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Peito angustiado frente a dura realidade.
Isto não me impede de admirar as flores da primavera
Nem sentir a brisa no meu corpo
Muito menos olhar a lua e as estrelas.

Mas, não posso calar frente tamanhos desrespeitos:
Sistema de saúde a mingua neste Brasil a fora.
Educação falida e faltosa.
Corrupção a cada esquina.
Estradas descuidadas.

Poder político mascarado e perverso.
Hiperconsumismo.
Mal uso das mídias.
Enlatados na TV.
Uso abusivo de remédios e drogas.
Exploração de menores.
Abuso sexual de crianças.

Ai... Pode ser mais fácil não querer ver.
Pode ser mais fácil cruzar os braços.
Pode ser mais fácil calar e se alienar.
Pode ser mais fácil não sofrer.

Nietzsche convida aos melhores amigos o sofrimento
Pois, a dor fortalece a alma.
Não podemos parar de lutar.
Nem abrir mão de nossa liberdade de escolha.

Nem deixar de dar as mãos solidaria num compartilhar autêntico.
A preguiça enfraquece.
O egoísmo adoece.
O poder emburrece.

Por isto saúdo os mestres ainda vivos:
Mandela, Dalai Lama, Subcomandante Marcos ...
E os que partiram, mas continuam presentes:
Sidarta,Sócrates, Jesus, Ghandi, Osho, Paulo Freire...

Que possamos todos pensar e agir de forma mais consciente.
Que possamos amar com coragem de expressar nossa alma.
Que possamos levantar a bandeira da paz.
Que plantemos flores e colhemos estrelas.

Pois, chega o novo tempo. Os portais estão abertos.
Não dá mais para a passividade e ressentimentos dominarem.
Não dá mais viver na contra mão e não gritar.
Atitude! Ação! Transformação!
"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A beleza da dor que se dói

Sandra Veroneze
Jornalista e Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


É bem verdade que a dor constitui veículo de consciência. A partir dela, revisamos conceitos, comportamentos, e temos a oportunidade de nos lapidarmos como seres humanos melhores – seja lá o que isso signifique para cada um.


A dor como veículo de beleza é tema sobre o qual tenho me debruçado mais recentemente, após assistir à entrevista com o transexual Lea T no Gabi Gabriela.

A primeira vez que tive contato com o assunto ‘transexualidade’ de forma séria e científica foi durante a graduação, quando li um livro de cases. Curiosamente, talvez pela simpatia que guardo pela fluidez de gêneros, a mim é mais fácil compreender a existência de um cérebro masculino em um corpo feminino, e vice-versa, do que a depressão, por exemplo.

Na entrevista, Lea T fala de sua trajetória, sobre as expectativas para a realização da cirurgia, recheando as entrelinhas com uma dor que, de tão funda, chega a ser bela. Toca de maneira sutil vários cantos da alma, sugere a necessidade de muito cuidado e tato com as coisas que correm na vida interior de cada um – e mostra, com toda força da sutileza, que a subjetividade é templo individual e sagrado, merecedor de todo respeito ‘que houver nesta vida’.

Não se trata, evidentemente, de fazer apologia à dor, mas respeitá-la em seu intento natural, que é doer. A dor que se dói, e sangra, é muito diferente da dor que se veste também de outros sentimentos, como raiva, ódio, etc. A poesia que ela gera, pode-se dizer, é quase rarefeita.

E falo isso com toda autoridade do mundo, porque não sei somente doer. Minha dor costuma vir acompanhada de raiva, que funciona mais ou menos como a tecla ‘te mexe’ acionada – e ali reside a explicação para a dificuldade que tenho para compreender a depressão.

É tão bonita a dor que se dói, aquela que faz a gente só sentar, ou deitar, e chorar. Deixar as lágrimas simplesmente correrem, feito rio tranquilo, que segue seu curso, desviando dos obstáculos, cumprindo todas suas etapas, até chegar ao destino /cessar. Essa dor tem em si o silêncio, que é sábio e tem jeito de ancião, negado àqueles que doem com fúria, raios, trovões e tempestades.

Eu me apaixonei pela Lea T.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Comunicado e convite:

Devido ao feriado de 12 de outubro, nosso Encontro de Filosofia Clínica e Educação ocorrerá no dia 20, quinta-feira, 19:30, discutindo a temática: Thomas Kuhn e os paradigmas em educação, com coordenação do Filósofo Clínico César Mendes da Costa.

Tema:
Thomas Kuhn e os paradigmas em educação.

A produção filosófica de Kuhn teve início em seu trabalho docente. Enquanto preparava as aulas para um curso sobre filosofia aristotélica, ele percebeu que existia uma diferença entre Aristóteles e Newton, no que se refere à concepção de movimento.

Aprofundando sua pesquisa, desenvolveu o conceito de incomensurabilidade para demonstrar que uma concepção não conduz a outra, mas, ao contrário, há descontinuidade histórica entre elas, demarcando a constituição de um paradigma.

Sendo um paradigma, segundo ele, aquilo que os membros de uma comunidade científica compartilham, podemos afirmar que professores atuam segundo um paradigma educacional? Caso afirmativo, qual o paradigma educacional atual? Tal paradigma é partilhado com os alunos?

Ou haveria incomensurabilidade de paradigmas entre as concepções de alunos e professores? Quais as implicações destas questões na prática docente e nos processos de aprendizagem dos educandos? De que maneira a filosofia clínica pode contribuir na reflexão acerca dos paradigmas educacionais em sua relação com a prática docente?

São questões que abordaremos em nosso Encontro de Filosofia Clínica e Educação no mês de outubro.
Dia 20 de outubro - quinta-feira
Horário: 19:30
Local: Instituto Interseção - Rua Martinico Prado, 26 cj. 25 (próximo à estação Santa Cecília do metrô)em São Paulo/SP.

Entrada Franca!

Coordenação.
Cegueira

Beto Colombo,
Empresário, Filósofo Clínico, Escritor
Criciúma/SC


Queridos leitores, hoje vamos comentar sobre cegueira.

Falando em cegueira, duas ideias me vêm à mente: a primeira é o livro do escritor português José Saramago, intitulado “Ensaio sobre a Cegueira”. Este livro, inclusive transformou-se num impactante filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles – uma boa dica para o próximo fim de semana.

A segunda ideia que me vem à mente é um livro um pouco mais velho, a bíblia. Nela lemos que Jesus cuspiu no chão, fez uma bola de barro, colocou nos olhos, depois tirou, e ele voltou a enxergar. Se levarmos ao pé da letra, Jesus apenas abriu os olhos de uma pessoa que não via a luz, porém, a verdade pode ser também que Jesus, na realidade, estava falando da Síndrome da Caverna.

Em sua obra República, Platão utilizou-se da alegoria de uma caverna para mostrar que o conhecimento consiste em o ser humano ficar livre das correntes que o condena a ignorância. “O ser humano está de costas para a saída da caverna, por isso só enxerga a própria sombra”.

Os homens são como escravos presos numa caverna e obrigados a ver no fundo dela as sombras por um fogo que arde fora. Tomam essas sombras por realidade porque não conhecem outras.

Quando um deles consegue se libertar e visualizar a realidade externa, a luz ofusca suas vistas e o sol o deslumbra. Somente aos poucos e com dificuldade ele consegue adaptar-se a nova realidade, percebendo que o mundo em que vivera até agora era irreal, feito apenas de reflexo e sombras do mundo verdadeiro.

Se ele voltar e tentar convencer os outros que ainda estão acorrentados, corre o risco de ser incompreendido e até perigo de vida.

Escrevo isso levando em conta muitas discussões pós-palestras, onde existem questionamentos se o que se prega não é apenas utopias, que na prática não existem. Situações simples colocadas como gestão participativa, participação nos resultados, fim do emprego formal, centrar a atenção na competência básica, terceirizar tudo ou quase tudo que não for da sua competência básica, virtualizar o máximo possível, fazer parcerias com os concorrentes, relacionar-se com os funcionários como se fossem sócios da empresa e por aí vai, onde em muitas situações sou incompreendido, principalmente por empresários com mentalidade antiga. Para mim, tudo o que existe está ficando velho.

Talvez essa fosse a missão dos empresários filósofos de hoje: tirar das pessoas as correntes de alienação e favorecer o conhecimento sobre a nova realidade em que estamos inseridas, como no tempo de Sócrates.

Claro que não é um processo fácil nem rápido, mas deve ser enfrentado sob pena de ficarmos vendo as sombras dos novos fatos que estão acontecendo sem entender o significado do real, pois muitos além de cegos, também são surdos. E provavelmente o pior surdo é o que não quer ouvir e o pior cego é o que não quer enxergar.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre a cegueira?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Autogenia

Jane Difini Kopzinski
Filósofa Clínica, Fisioterapeuta e Quiropraxista
Porto Alegre/RS


Um pássaro
Seguindo um rumo
Voando em círculos
Escolhendo a melhor brisa
Voltando a rota
Sentindo o vento
Pousando

Batendo as asas
Novos ventos
Outra brisa
Nova rota
Novos rumos
Um novo pássaro
Outro pouso

domingo, 9 de outubro de 2011

Filosofia Clínica e os rótulos

Bruno Packter
Filósofo Clínico
Florianópolis/SC


Os Papéis Existenciais são rótulos em Filosofia Clínica. Segundo Lúcio Packter, o tópico estrutural XXII – Papel Existencial diz respeito aos rótulos, aquilo que a pessoa utiliza como princípio de identificação, mas, em alguns casos, esta identificação pode ser uma roupagem.

Como podemos identificar um Papel Existencial?

Na historicidade da pessoa aparecem os Papéis Existenciais ou rótulos por nomeação direta, como: “eu sou filho”, “ eu sou pai”, “eu sou terapeuta” e assim por diante. Esta pessoa está dando um parecer sobre uma roupagem existencial com a qual se apresenta em diferentes âmbitos da existência dela.

A própria pessoa é quem confere nomes ao Papel Existencial. Ele é atribuído por ela mesma, muitas vezes, para cada circunstância de sua vida. Compete à própria pessoa assumir e ter isso para com ela como um Papel Existencial ou não.

É possível um Papel Existencial fazer parte da pessoa, mas sendo atribuído de fora para dentro por outra pessoa, isso via agendamentos. Poderá ocorrer, se a pessoa tomar a roupagem para si, através de agendamentos externos a ela, identificando-se e assumindo este Papel Existencial.

Em outros casos, certas vivências não podem ser feitas por conta do Papel Existencial que está ligado a elas. Isso se deve ao fato de que a pessoa não consegue vivenciar o rótulo, ou seja, consegue vivenciar apenas os atributos da roupagem.

Algumas pessoas tratam de suas questões neste tópico estrutural XXII da seguinte maneira: “Se você não for, se você não é, você não será coisa alguma.”
Aqui, estamos diante dos elementos ligados ao jeito de ser. Às vezes, a pessoa mora num castelo, tem os melhores carros, pode ter de tudo o melhor, mas de nada adiantará, pois pode ser extremamente infeliz consigo mesma.

O que pode ocorrer quando o tópico estrutural XXII – Papel Existencial não for determinante na malha intelectiva da pessoa?

A pessoa pode dizer, em uma determinada circunstância, que o que importa são o dados afetivos, a família por exemplo e, não um rótulo. Provavelmente , neste caso, irá se dirigir a outros tópicos, pois o Papel Existencial não será determinante na sua malha intelectiva.

Algumas pessoas necessariamente precisam ter uma roupagem existencial para determinados âmbitos da vida, sob pena de se terem como perdidas. Para algumas pessoas a vestimenta existencial ganha relevância. Elas não sabem fazer uma conversação sem dizer quem elas são.

Muitas vezes, os Papéis Existenciais podem não estar na forma de uma nomenclatura, mas na forma de um elemento processual descritivo. Isso quer dizer que a pessoa descreve sua roupagem, seus rótulos através de tópicos de sua estruturação.

Existem pessoas que ao descrevem seus Papéis Existenciais o fazem através de tópicos estruturais, ou seja, tratam de sua família, do trabalho e assim por diante.

Nem sempre a roupagem existencial costuma ser para sempre, há como mudá-la. A pessoa terá este rótulo para si durante uma parte de sua vida, às vezes. Pelo próprio exercício do Papel Existencial e, de acordo com os tópicos com os quais ele estiver envolvido esta roupagem poderá evoluir, mudar e transformar-se em outras coisas. Saberemos as relações entre os Papéis Existenciais, se for este o caso, somente pela historicidade da pessoa.

Neste tópico XXII, precisamos ter certos cuidados, pois nem sempre o Papel Existencial construído pela pessoa é algo estático, fechado e coerente. Existem pessoas que constroem seus Papéis Existenciais com elementos internos contraditórios, não havendo, muitas vezes, uma nomeação direta da própria pessoa. Quando a pessoa tenta uma nomeação para o seu Papel Existencial aparece de forma às vezes fragmentada.

Um dos aspectos problemáticos neste tópico dizem respeito às pessoas que não podem e não têm como fazer frente a assumir um Papel Existencial. Neste caso, a pessoa tem apenas os atributos para o Papel existencial. O problema aqui diz respeito a esta vestimenta existencial com que a pessoa se apresentará aos outros.

Papel Existencial pode ser dado a uma pessoa pela sociedade na qual ela vive, somente se aceitar e tomar para si este rótulo via agendamentos, por efeitos, por associações e ainda por outros fatores isso pode ocorrer.

Os encaminhamentos no atendimento seguirão os dados pertinentes da historicidade da pessoa e sua estruturação.

sábado, 8 de outubro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXIV*


"Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda música.

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte.

Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões"

*Tomas Tranströmer
Poeta Sueco
Prêmio nobel de Literatura 2011
Com as palavras

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Com as palavras vamos tecendo o tempo,
Construíndo afetos, destruíndo mitos,
Ascendendo consciências, fazendo revoluções.

A poética dos desejos, faltas traçadas nos vazios,
Compostas nas fronteiras do existir enigmático
Entre o nascer e entardecer, nas entrelinhas
Das noites de nossas almas,
Rasgam páginas da história,
Que nos desafiam a viver as dores
E as alegrias de ser em acão contínua.

Com as palavras desbravamos acontecências,
Pontuamos acontecimentos,
Interrogamos injustiças,
Exclamamos atenção,
Agradecemos solidariedade,
Quebramos fronteiras desumanas.

Com palavras podemos revolucionar,
Construíndo laços para ação efetiva,
Tecendo esperanças, criando possibilidades
Infinitas de mudar sempre.

Com as palavras bem ditas,
Distribuímos o pão da vida.
Com as palavras mal ditas
Destruímos sem dó.

Urge pensarmos antes de falar
Ou simplesmente trazer as palavras
Do fundo do coraçāo, para escrever
Nas entre linhas, um traço firme
De força determinada.

Com as palavras tudo e nada pode acontecer,
Num simples entrelaçar de idéias que
Brotam, de nosso pensar, ditando
Um mundo em contínua mutaçāo.

Com as palavras, gritamos: Haja Agora!
Pois o tempo tecido espera.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Terapia é...

Letícia Porto Alegre
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Terapia é um espaço, com uma terra fértil, que ajuda a desabrochar as mais lindas flores.

Ao desabrochar se descobre espinhos, folhas mortas e até galhos tortos. Detalhes que compõe uma flor única. Mas são apenas partes que constituem o todo da flor.

Terapia é significar, é resignificar, é dançar entre as linguagens que formam o mundo de cada um.

É descobrir para onde as tuas asas podem te levar, ou melhor ainda, é poder escolher para onde deseja que tuas asas te levem.

Terapia é contato com as suas verdades, é poder brincar com essas verdades e, quiçá, descobrir que o que existe é apenas um espaço infinito de possibilidades de verdades.

Terapia é descobrir que você faz parte de um todo, mas também é autônomo e tem as suas próprias escolhas.

Fazer terapia é escolher para si mesmo despreender-se das grades de uma prisão, é poder se colocar sem se defender das mesmas e de se mudar para um local no qual lhe traz felicidade existencial.

É escolher ser feliz a ter razão!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

E o que dizer da saudade...

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Às vezes, ao deslocarmos olhares em direções confusas e imprecisas, que mal distinguimos, podemos sentir vazios que, por estranhos e cruéis, perpassam emoções impregnadas de conflitos. Estes vazios justificam angústias e antecipam ausências; eles abatem, drenam forças e podem nos lançar em labirintos cujo fio se desfaz a cada intenção de fuga.

Arrebatam a alma, desafiam a dor e obrigam a recomeços não previstos, e nem mesmo permitidos, de onde questionamos as possibilidades de sobrevivência. Nesses instantes, as dúvidas se revestem de uma irritante prepotência e insistem em fazer (re)visitas que não podemos receber. Não estamos preparados. A imposição deste novo momento não vem acompanhada de sorrisos e atitudes adequados, nem do chá com bolinhos. Pasteurizar a alma não é próprio de sentimentos sinceros, simplesmente porque não é possível fingir ou transferir ilusões.

O que dizer da saudade? Talvez, apenas que sempre há um instante para se dizer adeus; um tempo para repousar a alma e o corpo exaustos de lágrimas ou eufóricos de êxtase. Porque saudade também nos obriga a um olhar perspectivo e a seguir em frente, ainda que sem o aval da alma ou o preparo da existência. Afinal, quem está pronto para a angústia? Quem se habilita a aprender antecipadamente o que não é possível ou o que não é ansiado? Quem é capaz de desdenhar a dor?

A questão é que olhar em frente não é um caminho que se escolha; na verdade, pode ser apenas o único caminho possível. Não porque não se possa mudar de direção, ou mesmo desistir, mas simplesmente porque até isso pertence à inexorável respiração do tempo.

A vida, quer a entendamos, quer a desejemos, quer a rejeitemos, não descansa. Não repousa um só instante. Ela continua invicta nos seus infinitos e desafiantes momentos, em que se expande, se transmuta, se encerra ou se esvai, a gosto dos juízos de cada um. E a saudade... bem, esta permanece, na suposta tentativa de ser eternizada.

Saudades vem acompanhadas de muito, de tudo o que não conseguimos suportar, mas também de impressões válidas e significativas. Elas podem ser observadas de perto pelo que está longe... ou de longe pelo que está perto... por tudo o que não se pode viver... por tudo pelo que podemos morrer e por todas as incondicionalidades possíveis e permitidas.

Saudades são labirintos existenciais, perdidos entre tantos e incontáveis desvios e atalhos.

Saudades podem ser assim. Mas podem ser também a nossa dose diária (necessária) de humanidade.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXIII*


Crônica do Amor*

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso.

*Arnaldo Jabor

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O tempo que resta

Sandra Veroneze
Jornalista e Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


“O tempo que resta” é um dos últimos filmes a que assisti. É francês e mostra os meses finais de vida de um jovem fotógrafo que descobre sofrer de um tipo de câncer já em processo de metástase. O filme é sensível, triste e tem aquele tempo e tom especialíssimos que só os europeus sabem imprimir nas produções cinematográficas.

Em alguma medida, ‘O tempo que resta” lembra outro filme: “O poder além da vida”. Este fala também de um jovem que precisa encarar a morte ou a vida depois de sofrer um acidente de trânsito enquanto se prepara para participar das olimpíadas. Com os movimentos limitados, se vê obrigado a deixar para trás a vida de noitadas, mulheres e bebidas, contando com o auxílio e inspiração de um senhor que o jovem apelida de “Sócrates”.

A diferença das duas obras é que, no primeiro caso, o personagem principal desiste de viver e, no segundo, a tragédia serve como divisor de águas na trajetória do jovem, convidando-o a adotar valores e princípios mais elevados. Impossível não se sensibilizar tanto com uma como com outra obra e não por acaso lembro imediatamente de uma amiga que se diz ateia e que teme o acontecimento de uma grande tragédia na própria vida para que nela desperte a consciência sobre a existência de Deus.

Afora argumentos religiosos ou espiritualistas sobre a existência ou não de uma divindade, fato é que, para grande parte das pessoas, é necessária uma dor imensa ou perda para que atentem para o lado bom da vida. São inúmeros os relatos de pessoas que perceberam o modo de vida maluco que levavam só depois de um impacto emocional violento.

Lembro que, ainda na adolescência, considerando que pretendo viver pelo menos 80 anos, calculei quantos dias de vida me restavam. Surpresa, cheguei à conclusão de que era muita coisa para apenas cumprir o ciclo de nascer, crescer, reproduzir e morrer, ocupando boa parte da vida produtiva para acumular bens e recursos que seriam gastos na terceira idade, para tratar doenças decorrentes de um modo de vida inadequado.

Dica: Experimente fazer o mesmo e não espere uma notícia ruim para viver aquelas coisas simples do cotidiano que tanto bem fazem ao físico, ao emocional e espiritual: chimarrão com amigos (sim, sou gaúcha), passeios nos parques, férias na praia, trabalho voluntário, mais tempo com a família...

A notícia boa é que todos os dias temos a chance de nos reinventarmos e se o modo de vida que levamos não é nada inspirador, sempre há chance de mudarmos. Cada um sabe onde a vida puxa para baixo ou para cima e com um mínimo de boa vontade pode escrever um futuro completamente novo, verticalizado, e a partir de agora! Chave importante: cada um está onde se coloca. Em que faixa de vibração e qualidade de vida você se coloca?

domingo, 2 de outubro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXII*


Estamos com fome de amor*

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?
Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!".

Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.
Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos.

Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.

Mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza?

Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

*Arnaldo Jabor

sábado, 1 de outubro de 2011

CONGRESSOS, JORNADAS, SIMPÓSIOS...

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Cenas lamentáveis aconteceram durante um congresso médico de âmbito mundial, realizado recentemente em Buenos Aires. O número de congressistas ultrapassou em muito as previsões da comissão organizadora, transformando o que deveria ser uma jornada de atualização científica e congraçamento em uma maratona de reclamações e indignação.

A fila de espera para receber o crachá de inscrição, que permitia o ingresso nas salas de aula, demorava em média quatro horas. Muitos olhavam o tamanho da fila, que chegava a dar voltas no prédio e desistiam. Alguns retornaram no dia seguinte e encontraram a mesma situação. Quase dois dias de congresso perdidos numa fila.

A surpresa maior estava no interior do centro de convenções: salas de aula sempre lotadas. Quando se conseguia entrar em alguma, não havia mais lugares disponíveis. Sentava-se no chão ou ficava-se em pé pelos cantos. Os restantes acotovelavam-se no corredor, tentando escutar através de uma porta semi-aberta. A alternativa para conseguir assistir determinadas palestras era mais uma vez formar fila na porta das salas, enquanto transcorria a sessão anterior.

O conhecimento médico exige atualização constante. Todos os anos, com este objetivo, alternam-se simpósios, jornadas e congressos em cidades diferentes. As dificuldades para a realização destes eventos são enormes. Os riscos maiores ainda, tanto para congressistas quanto para organizadores,

O trabalho de um congresso precisa começar três a quatro anos antes de sua realização, alugando centros de convenções, reservando rede hoteleira, contratando empresas especializadas, convidando palestrantes. Tudo isto apoiado na imprevisibilidade dos patrocinadores, freqüência de congressistas e desequilíbrios econômicos que possam surgir até a data do evento. Nada pode dar errado.

Visando atrair o maior número de participantes, o programa científico procura contemplar interesses múltiplos, divididos em várias salas com apresentações simultâneas. Tudo é muito corrido, comprimido em três ou quatro dias. O congressista precisa selecionar alguns temas e descartar os demais, conseguindo assistir no máximo trinta a quarenta por cento das atividades propostas.

Além disto, existem os custos com viagem, estadia e inscrição, sem contar os dias em que se fica ausente do consultório sem perceber honorários. Isto leva muitos profissionais a mesclarem congressos com férias, tentando desta maneira, unir o útil ao agradável. Aproveitam tanto as férias como os congressos pela metade.

Cidades com grande apelo turístico costumam ter maior número de inscritos, o que não significa presença efetiva no congresso. Muitos alternam passeios e praia com aulas, dificultando a previsibilidade de dimensão das salas, que podem ficar completamente lotadas, ou totalmente vazias.

As chances de conversar mais demoradamente com colegas de outras cidades são pequenas, e as de falar com aquele professor famoso, praticamente nulas. Imaginem o sentimento do cidadão que atravessou o mundo para chegar até o congresso de Buenos Aires, perdeu dois dias na fila, conseguiu assistir cinco palestras, três destas sentado no chão... Será que voltará no próximo ano?

Apesar de ser um negócio bastante lucrativo, favorecendo turismo, indústria, sociedades médicas, talvez os congressos precisem ser repensados, tanto em sua freqüência como na forma. Uma alternativa podem ser apresentações virtuais, onde conferências, mesas redondas, simpósios e casos clínicos são apresentados via internet e podem ser vistos no horário e velocidade que o assistente desejar. Um congresso nestes moldes pode durar seis meses, permitindo que médicos se inscrevam a qualquer momento e mesmo assim, assistam ao programa científico na íntegra.

As apresentações podem ser mais longas e o material exposto muito maior. Perguntas respondidas e discutidas via email ou em salas de bate papo virtual. Inscrições gratuitas ou com custo baixíssimo, pois além da redução drástica nas despesas, estas podem ser patrocinadas através de exposições virtuais de produtos e equipamentos. Abolidas as barreiras de tempo e distância, as possibilidades são infinitas.

Ficarão faltando jantares, cafezinho com colegas, bate-papo no centro de exposições, mas isto pode ser feito em um congresso de “carne e osso” a cada dois ou três anos, sem prejuízo do ponto de vista cientifico ou educacional. O importante é não repetir mais o ultrapassado ritual do retorno para casa com um certificado na mão, valido para a revalidação do diploma, e a dolorosa sensação de não ter aproveitado nem o congresso, nem as férias, e muito menos, se atualizado.