quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Acordem belos adormecidos

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Onde estamos? O que pensamos? O que sentimos?
Será que os cifrões não estão nos adormecendo e hipnotizando?
Comprar, consumir, ter, competir..

A moda seduz e engole a maioria.
Todos querem ter saúde perfeita.
Muitos desejam a beleza eterna.
Os programas de TV atacam com receita de vida saudável.
As propagandas vendem até a alma.

E continuamos de braços cruzados, vendo tudo sem fazer nada.
Fazer? Agir? Para que? Adianta?
E vamos colocando tampões nos olhos.
A espera da salvação. Infeliz esperança que paraliza.

Enquanto isto a fila nos hospitais não andam.
Crianças não tem escolas e são exploradas e vendidas.
A corrupção continua sem punição.

Adormecidos pela mída, administrada pelo poder, vamos.
Aliás, paramos.
Colocar microfones no ar incomoda.

Mas, as lojas nesta quase véspera de natal se abarrotam.
Que humanos somos em nossa desumanidade?
Só estou convidando a pensar, a abrir os olhos e ver.
Para agir. Para acordar e iluminar.

Por isto, acordem, belos adormecidos...
A vida está convidando a sermos plenos.
Pense nisto: - O que você tem feito pelo coletivo?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Helena quer voltar para casa*

(Jardins da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto)


Ela me disse que primeiro afastou o sorriso logo que se casou e teve o primeiro filho. O sorriso a incomodava porque revelava seu ar maroto, ameninada e, agora que era casada, sua demanda dizia respeito a ser mulher.

Com o sorriso, perdeu também um aspecto jovial que tinha e que somente era possível compor tendo como elemento seu jeito de alegrar o rosto. O cigarro que usava, ocasionalmente, deixou ao engravidar. Logo o cigarro, um cigarrinho ou dois por semana, que fumava inclinando a cabeça, enchendo-se de esperança.

Com o marido aprendeu a não se expor socialmente, o que incluía evitar com alguma cerimônia importante comentários sinceros sobre qualquer um. A sinceridade passou a ser utilizada em casa; na rua passou a se estranhar em várias situações.

Helena um dia me perguntou se Fausto, de Goethe, em meio ao pacto, que ela entendia como concessão, não se perdeu de si mesmo. Helena compreendia que fez concessões sucessivas, algumas insignificantes _ caso não estivessem associadas a outras cruciais. À medida que recuava, acatava, partes dela ficaram pelo caminho.

“Onde foi que eu perdi o meu sorriso, a minha esperança, Dr. Packter? O senhor constatou em qual parte da minha história isso aconteceu?”

Eu não sabia responder quando a pergunta surgiu pela primeira vez. Nas vezes seguintes em que a pergunta retomou a própria Helena soube responder. Retornamos em muitas ocasiões ao que ela necessitava recolher e ser novamente. Mas Helena havia realizado concessões demais.

“Fui longe demais em meu casamento. Fui longe demais para poder voltar agora. Algumas partes de mim se foram para sempre”.

Interessante que Helena tenha trazido o Fausto, de Goethe, como comparação porque Fausto aparentemente se encontra e se salva.


*Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

AMOR DE FILÓSOFO
Will Goya
Filosofo Clínico, Poeta
Goiânia/GO


O verdadeiro filósofo mora na cidade das aparências
E tem um olhar de espírita, atravessando as paredes.
Ensina os indivíduos a serem bons,
Mas sabe que não se pode esperar muito dos que muito têm.

Bondade é não exigir aquilo que se pode dar.
Não é se dar ao outro, é a caridade de pedir
E receber o que ele tem de bom para dar.

A civilização precisaria de séculos para acordar
A sabedoria que se pode aos quarenta,
Por isso não é amável consertar o mundo, antes do tempo.

Seria ingratidão pedir a Deus que seja humano,
Como se houvesse algo errado com a maldade natural do mundo,
Como se o nosso mundo precisasse de boa vontade para existir
E não existissem muitas e muitas moradas.

Que importa a religião?
A maioria dos religiosos não tem religião.
A maioria dos filósofos só tem diplomas.

Quem fala de um amor verdadeiro, usa tanto a emoção quanto a categoria
da lógica. Bem mais que gostar, amar é saber cuidar de quem se ama. Ética
é o nome filosófico da sabedoria do amor.

Muitas vezes tentei falar isso em sala de aula, mas... como fazê-lo? Então
fiz um poema sobre a filosofia dos meus sentimentos de amor. Quase sempre é assim: quando não sei explicar racionalmente o que preciso dizer,
faço poesia.

O pensamento é como o sol:
Nunca ilumina os dois lados ao mesmo tempo.
Nenhuma verdade sem amor pode estar completamente certa.
Todo grande amor tem sempre mais que a própria verdade,
Toda grande verdade tem sempre mais que amor-próprio,
Tem também a verdade dos bons amigos,
Que as vestem junto à pele e as recobrem de tecidos.
E não estão errados...
Esquecemo-nos que não somos exatamente o que vestimos,
O que julgamos ser.

Não há mais quem se sinta nu dentro das roupas,
Quem prefira a verdade nua de si mesmo.
A maior verdade é a melhor verdade.

Quem ama seu amigo deve elogiar suas fantasias,
Ter carinhos com sua alma,
Saber que o corpo é algo que se veste e se troca, diariamente.
O amor será sempre cúmplice e traidor da nudez.

As intenções do corpo são os gestos da alma.
Não há beleza interior ou exterior. Há encontros e desencontros.
Fluxos do desejo.

Amar não é “conquistar” alguém, é dar-se por inteiro
[... Quer se aceite ou não],
Renúncia que prefere ser chamada de alegria.

Amar é transbordar-se de contentamentos, sem tradução.
Se houver poesia, será ainda mais lindo.
Se houver filosofia, tudo fará mais sentido.

A alma se derrete inteira na pele, feito cobertura,
Como um gostoso chocolate quente...
Derramando em toda parte vontades de cobiça e sossego.
Assim o corpo é.

Quando vem a saudade, boca selada de um amor distante,
Sabe o filósofo que o tempo é feito de separações – por fim a morte –
E que todo homem deve completar sua mulher, seu grande amor,
Para que ela seja uma pessoa mais feliz, para si mesma
— Seja com quem for.

Amar é
Fazer da amada uma pessoa melhor do que era antes de conhecê-la.
Quem deseja um grande amor, deve primeiro amar os outros.
Exercícios de afeto.

O amor não é dessas coisas que nos são dadas por acréscimo,
De repente.
Não se procura nem se acha: exercita-se pelo encontro.

Todavia,
Antes de conhecer a pessoa amada, antes da amizade, antes
Mesmo que a vontade beba um só gole de satisfação
E o apego arda todo seu ciúme, seu desejo e seu medo...
Sempre que o orgulho estiver do lado errado do espelho
E a vaidade for maior que a beleza,
Será preciso descobrir os prazeres do divórcio de si mesmo.

O que beijamos em alguém é o sabor único, inigualável, da sua história,
De como só ela soube dar gosto a sua vida... e beijar assim.
E cada novo desejo de reencontro, cada mesma vontade acumulada
Será sempre uma nova promessa, sem garantias.

Que bobagem é essa de pensar que ou se cresce pela dor ou pelo amor?
Não!
Tem alguém que não sofre ou nunca sofreu?
E existe nessa vida a opção “sem dor”?

Acaso Jesus, o rei dos amantes, sofreu menos por amar mais?
A escolha sempre foi sofrer
Pela entrega ou pelo apego, com alegria ou com tristeza...

Intensidade e gozo, ou hesitação e arrependimento, o que vai ser?
Amor não é solução, é vida.
Na vida tudo tem uma razão de ser, mas
O futuro é o tempo certo da certeza que não existe.
Se houver amor, é agora.

As experiências dão charme a quem aprendeu poesia.
Charme é uma beleza física que o tempo amadurece no coração
Dos amantes,
Quando não precisa mais seduzir para ser belo.

É justo abrir a janela e desapegar-se ao vento,
Mesmo que não haja janela
E o agradável frescor do ambiente seja apenas a memória do cheiro...
Do banho de ervas.

Aquele antigo e esquecido jeitinho gostoso de sentir-se eterno,
De vez em quando.
É como beijar suavemente algodão doce de olhos fechados,
O vazio se torna um suspiro e a alma sem apegos...
Leve
Para bem longe a cidade das aparências.

domingo, 27 de novembro de 2011

Filosofia e Música

Beto Colombo
Empresário, Filosofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, que você esteja bem. Hoje, em nosso comentário, vamos falar sobre filosofia e música.

Filosofia, como sabemos, significa “amigo da sabedoria”. E também sabemos que todos filosofamos, de um jeito ou de outro e que cada um que me lê nesta coluna não deixa de ser um pensador, um filósofo.

Mas, para pensar, para filosofar, é necessário fazer algo fundamental: perguntar, questionar. A pergunta abre, impulsiona, nos faz movimentar. A pergunta nos move. Talvez as descobertas mais importantes da humanidade surgiram com as perguntas. Justificada a importância da pergunta, vamos a uma: quanta filosofia há nas notas musicais?

Caetano Veloso canta sabiamente: "Quando eu te encontrei frente a frente não vi o meu rosto, chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto mau gosto. É que Narciso acha feio o que não é espelho, e a mente apavora o que ainda não é mesmo velho"...

Por intermédio da música Sampa, Caetano retrata a cidade de São Paulo em pleno eldorado brasileiro, com seu frio concreto e o formigueiro humano do final da década de 1960. E também o quanto ele estranhou o lugar bem diferente das cidades praianas em que ele vivera até então.

Chico Buarque, outro ícone da nossa música, extravasa na música Roda Viva, de 1967, ao dizer que: "A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá. A gente vai contra a corrente e até não poder resistir"... Aqui é o Chico protestando e relatando a situação do Brasil em plena ditadura militar.

Tanto na música como também na ciência há muita filosofia. Como exemplo, cito o Biólogo Johannes Von Uexkull, que afirmou que cada organismo é uma música que se toca. Um colega da informática disse, certa vez, que o corpo é como um hardware e que há um software instalado.

Bernardo Soares, autor do livro Desassossego nos diz que "a alma é um buraco escuro onde moram músicas. Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumento tange e range, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia".

O filósofo Johannes Kepper afirmou que Deus não havia colocado os planetas daquele jeito no céu por acaso. Para ele, Deus é um grande músico geômetra e que os movimentos dos astros em sintonia com os planetas tocavam uma melodia para o êxtase dos homens.

A igreja, por sua vez, diz que há muito tempo havia decifrado a música de Deus e que nós já a conhecemos, pois nas celebrações dominicais já estavam usando que é o conhecido canto gregoriano.

O Papa Paulo VI dizia que quem canta reza duas vezes. Já o Papa Bento XVI acredita nisso e vai além. E essa é a razão pela qual ele deseja o retorno do canto gregoriano nas missas. O canto gregoriano é a melodia de Deus e nós, reles mortais, não devemos interferir com nossas letras e músicas profanas na melodia divina de exclusividade eclesiástica.

A música, para mim, é um procedimento clínico. Talvez haja mais filosofia nas letras e melodias do que em todos os escritos filosóficos.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre filosofia e música?

sábado, 26 de novembro de 2011

Íntima raíz

Jane Difini Kopzinski
Fisioterapeuta, quiropraxista, filosofa clínica
Porto Alegre/RS


Entre devaneios, delírios e poesias, o ocultar da real objetividade.
A grande dança da singularidade da alma
O feito por menor dos desejos ocultos
Entrelaçados em um emaranhado de subjetividades objetivas em si

No repouso do olhar sobre si mesmo
Revela a obra mais rara e única de um ser
A complexidade da alma se ajustando
Entre estruturas intrínsecas, dançam e compõe
Delirantes poemas, músicas raras, inéditos sonhos...

A obra inigualável da vida
Brotando de um ser em autogenia constante
Na roda viva de sua própria existência
Sua íntima raíz

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXXI*


Balada do louco*

Dizem que sou louco
por pensar assim
Se eu sou muito louco
por eu ser feliz

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos,
Sou Alain Delon
Se eles são famosos,
Sou Napoleão

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no ar

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz

Mas louco é quem me diz
Que não é feliz,
Eu sou feliz

*Letra e música: Arnaldo Baptista e Rita Lee

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SUPER-HERÓIS NÃO PODEM AMAR

Ildo Meyer
Médico e Filosofo Clínico
Porto Alegre/RS


Neste mundo que nos tocou viver, temos que matar um leão por dia. Somos cobrados e ao mesmo tempo cobramos metas, números, competências, desempenhos. Precisamos ultrapassar a concorrência, vencer desafios e mostrar a todos que somos os melhores. Temos que ser perfeitos, bem sucedidos e deixar bem claro para todos que o fracasso mora ao lado.

Acontece que não somos perfeitos. Ninguém é perfeito, mas não queremos mostrar isto. Escondemos nossos defeitos e não mostramos quem somos de verdade. Temos vergonha que descubram nossas fraquezas. Fomos criados para nos preocupar com o que os demais pensam de nós e para permitir que outros ajudem a definir quem somos.

Por conta disto, todos os dias, antes de sairmos da cama, precisamos vestir nossa máscara de super herói. Atrás dela, ocultamos nossos pontos fracos, disfarçamos nossos medos e ficamos prontos para encarar o cliente, o patrão, o vizinho, o colega, o marido, o pai, o amante, o professor...

No momento em que colocamos o disfarce de heróis, ocultando nossos medos, um fenômeno interessante nos atinge. Não se pode escolher congelar seletivamente uma única emoção. Se paralisarmos o medo ou a vergonha, automaticamente a alegria, o amor ou a felicidade poderão ser embalados no mesmo pacote.

Quando o patrão diz que precisamos trabalhar mais horas, pois não atingimos os objetivos, não gostamos, queremos reclamar, mas com medo de uma demissão, encaramos a nova ordem e aumentamos nossa carga de trabalho. Não mostramos o medo, e depois em casa, não mostramos a alegria. Medo e alegria paralisados.

O marido reclama da esposa, sobrecarregando-a com um monte de novas obrigações. Não querendo estragar o casamento com discussões, ela vai lá e faz o que ele quer. Não mostra a vulnerabilidade e à noite não dá amor. Simples assim!

As conseqüências de enterrar emoções vão aparecer, cedo ou tarde. É muito cansativo ser alguém que você não é. Além disto, de tanto usar a máscara, ela pode grudar no rosto e não mais sair. O individuo passa tanto tempo longe de si, que depois se desconhece.

Além de vestirmos a mascara, a colocamos também em nossos filhos. Começamos desde cedo a prepará-los para a competição da vida. Inglês, computação, judô. Queremos torná-los perfeitos, talvez até porque lá em nosso íntimo, reconheçamos nossas deficiências.

Na minha infância sonhava em ser super herói. Cresci, virei adulto e hoje sei que super heróis não conseguem levar uma vida com emoções e afetos. Escondem-se atrás de uma identidade secreta, de uma máscara.

Não era o Superman quem amava a Lois Lane; o apaixonado era o desajeitado Clark Kent. Batman, Homem Aranha, qualquer um destes mascarados com rótulo de super-herói não conseguem se relacionar. Super-heróis não podem amar, suas vidas se resumem a salvar vidas em perigo e depois sumirem.

Os tempos são outros, e hoje em dia, o verdadeiro ato de bravura é se mostrar. Não é doloroso nem vergonhoso mostrar suas imperfeições, fragilidades e vulnerabilidades. É isto que nos faz diferentes, é isto que nos torna bonitos, é isto que nos torna humanos.

A diferença entre super-herói e ser humano não está na fantasia que se usa. Com esta a gente pode brincar. Talvez a verdadeira diferença esteja na coragem. Não na coragem para lutar contra bandidos e malfeitores. Coragem de gritar por socorro, dar um tempo para se conhecer, descobrir aquilo que somos e nos diferenciar do que não somos. Resumindo, coragem para se assumir.


Nietzsche, o grande filósofo já dizia: “Torna-te quem tu és”. Agora pergunto eu: “Estamos nesta correria toda para agradar a quem? Quem você não quer desapontar, quem deseja orgulhar? Cuidado com suas respostas, pois ao tentar agradar aos outros pode estar se perdendo de você.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXX*


"No início era uma lenda estes olhos de criança meiga:
O que restava era um espaço ilhado por tanta dor."

"Amar o que não sei, só tem uma forma:
Mirar-me num espelho e ver-me em você."

"A fala tinge de branco o que a incerteza nos impõe: o silêncio."

"A solidão me madurou de borboleta...
Estou apto. Já posso discursar com minhas paredes."

"Falar de mim talvez necessite
Um reinaugurar de novas palavras.
Criar descontos.. andarilhos de silêncios.
Ignorar as sintaxes cheirosas de brejos...
Borrificar as sílabas ardente de ermos...
(simplesmente influir nos desertos de minhas letras)."

"As lágrimas de minhas dores viraram mares de poesias."

"Inventei uma casa sem telhados, numa rua sem nome:
queria com isto perder-me devagarinho
como uma noite cega..."

"Não pude dispersar os meus deslimites que caíam e
refaziam os caminhos de volta à mim:
E agora...Encontro-me enfermo de sonhos!"

*Djandre Rolim
Poeta cigano, dramaturgo,
Escultor, artista plástico,
ator, diretor, dançarino.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A arte de reescrever a vida

Pe. Flávio Sobreiro
Filosofo Clínico, Poeta.
Cambuí/MG


Livros muito usados têm capas desgastadas, folhas que se soltam devido ao manuseio por muitas pessoas. Quanto mais o tempo passa mais amarelas as folhas ficam. Envelhecimento causado pelo tempo. Cada livro é sempre uma surpresa. Mas nem toda surpresa é agradável. Mas o respeito por todas as surpresas sempre é necessário.

Com o tempo os livros vão ficando velhos e desgastados. Outros permanecem intactos, pois nunca foram abertos. Ninguém teve a curiosidade de conhecê-los. Mas isso não os impede de ficarem velhos. A única diferença é que nunca tiveram seu conteúdo conhecido. Foram impressos, mas nunca foram lidos.

Muitos julgam o livro pela capa. Mas nem sempre a capa revela o conteúdo de um livro. Há livros com capas feias e pouco atraentes, mas cujos conteúdos são de uma riqueza imensa. Outros livros têm belíssimas capas, mas o conteúdo é fútil e pouco aproveitável.

O ser humano é um grande livro escrito pela vida. O estilo literário que trazemos em nossas páginas da vida são os mais variados possíveis.

Existem dramas de vida que criaram feridas que nunca foram cicatrizadas. Há belas histórias de amor e tristes conclusões de separações. Existem terríveis contos policiais. Há histórias fictícias que nunca irão acontecer e sonhos que esperam o momento de ganharem vida. Há ainda relatos de superação que podem ajudar outras pessoas a se reerguerem após as quedas da jornada existencial.

Cada vida é uma história e cada história um livro que escrevemos nas páginas de nosso coração.

Muitas pessoas escreveram suas histórias de modo triste. Rabiscaram frases corretas e apagaram páginas de felicidade. Outros apagaram os erros e reescreveram novas frases de esperança. Nas páginas da história da vida muitos tem enriquecido o vocabulário de seus textos com valores que sempre serão eternos.

Há histórias inacabadas que ficaram pela metade. Em cada alma encontramos um livro diferente. Aprender a ler a vida de cada pessoa com amor é um ato humano de olhar o livro além das capas que desenharam. O respeito e o carinho pelas frases ilegíveis das imperfeições da escrita de cada ser humano é um abraço de misericórdia em histórias mal concluídas.

Quando a pecadora ia ser apedrejada, Jesus não ficou preso à capa daquela história que lhe contavam. Ele sabia que nas linhas tortas e na letra ilegível daquelas páginas mal escritas existia o arrependimento de não ter acertado as lições da vida.

Enquanto todos julgavam o livro pela capa, Ele preferiu ler as entrelinhas daquela alma. E foi na leitura amorosa do perdão que Jesus mostrou que aquela história que tinha uma capa maltratada pelo tempo poderia ser reescrita de modo correto.

Jesus olhou para aqueles que desejavam por fim àquela história e lhes mostrou que as histórias de cada vida eram tão mal escritas quanto às daquele livro que estava prestes a ser apagado da história. Quando todos olharam para suas belas capas de perfeição descobriram o conteúdo mal redigido de suas vidas.

Foi o amor de Jesus que deu a pecadora a chance de reescrever novos parágrafos de uma vida que havia sido lida apenas pela capa que trazia consigo. Ao olhar para as páginas que ela mesma tinha escrito, pode perceber que a borracha do perdão divino havia apagado os erros da caligrafia de uma vida de imperfeições.

Com as páginas novas de possibilidades aquela mulher voltou para casa com a esperança de fazer de sua vida um poema de felicidade.

Aquilo que escrevemos nas páginas de nossa história pode não ter sido tão bonito como havíamos sonhado. A vida não nos permite arrancarmos as páginas de nosso livro da vida, mas ela permite que reescrevamos frases de um tempo novo que se chama hoje.

Cada novo dia nos oferece uma nova página para escrevermos histórias que serão eternizadas no coração de Deus. Nas linhas da vida, Deus nos oferece a borracha do perdão que apaga os erros de frases mal escritas.

Muitos podem olhar para a capa de seus erros, mas Deus olha para aquilo que você ainda vai escrever. A mais bela história da vida é escrita com as tintas do amor de Deus. As frases de uma vida nova começam com novos parágrafos que escrevemos em nossa alma.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Fonte interna da Eterna Juventude

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


O convite é para que todos sejam sempre jovens, puer e puella.
A negação do envelhecer prevalece, infelizmente.
As rugas, que contam nossa história, são disfarçadas com botox e plásticas. Um rejuvenecimento imbecil, pois não esconde a essência da luta.

A busca de uma imagem perfeita tenta esconder as dores da vida e a incompreensão da finitude.
O assunto das tvs são bem estar, saúde, dietas... Busca da vida eterna. Uma loucura.

Por um lado aumenta-se a quantidade de anos e por outro não querem que amadureçamos. Devemos permancer sempre jovens.

Precisamos continuar sempre no "ponto perfeito"para sermos aceitos, o que não é possível, pois como seres humanos temos o privilégio da imperfeição.
A maioria torna-se hipocrondríaca. Nada se pode comer. Tudo faz mal. Proibição é a lei dos inconscientes.

E a frustração, quando tudo que foi feito não adianta, leva a incríveis compulsōes.
As rugas chegam, as doenças aparecem e a velhice se apresenta e pronto.
Os jovens rejeitam o envelhecer e os velhos brigam com a realidade natural.
O capitalismo se alimenta fartamente do consumo exagerado no mercado da ilusão, vendendo eterna juventude.

Compreender o envelhecer torna os homens bem mais plenos.
Não podemos esquecer que a velhice é fundamental para que o caráter se complete.
Tudo tem seu tempo certo.

O envelhecimento pode ser compreendido como uma revelação que transparece a sabedoria do corpo.
Cada sintoma conta um caminho que precisamos retornar, que deixamos para trás em nossa longa jornada.
O que reprimimos e não vivemos é cobrado. A doença chama a compreensão e a consciência.

Construir o caráter aumenta a longevidade.
Ao envelhecer a alma convida a sermos o que somos, nada mais que isto.
A poética do envelhecer clama ao mergulho a fonte "interna" da eterna juventude, da paixão e da liberdade.
E assim temos a chance de rompermos com aquilo que não somos.
Viver a vida não vivida é a grande possibilidade do envelhecer.

Para pensar:
"o que acontece com a sociedade onde o rosto envelhecido é alterado cirurgicamente, domado cosmeticamente e seu caráter acumulado é falcificado?" Hillman

domingo, 20 de novembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXIX*


"Não é a crítica que quero me referir, porque ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que fala."

"Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são - como são para os outros."

"O heleno sentindo que a vida é imperfeita, busca aperfeiçoá-la em si próprio, vivendo-a com uma compreensão intensa, vivendo de dentro, com o espírito, a essência do transitório e do imperfeito."

"A arte que vive primordialmente do sentido direto da palavra chamar-se-a propriamente prosa, sem mais nada; a que vive primordialmente dos sentidos indiretos da palavra - do que a palavra contém, não do que simplesmente diz - chamar-se-á convenientemente literatura."

"O poeta superior diz o que efetivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir."

"Toda arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa."

"Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama."

"Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos."

*Fernando Pessoa

sábado, 19 de novembro de 2011

SENTIMENTOS DENSOS

Will Goya
Filósofo Clínico. Poeta.
Goiânia/GO


Sento de costas para a parede, olhando a entrada,
Mas tudo que vejo é uma saída.

Vejo os móveis da sala, e algum detalhe descolorido no chão...
Como quem deseja se desapegar do corpo, pra pensar melhor,
Deixo aos ombros cair todo o silêncio do mundo, acumulado, nos cantos,
Sozinho em casa.

Cobiça de um desejo frio de voar à morte, para ser mais leve.
Sensação que o abismo exige de quem ama o desconhecido, e se entrega
Ao desejo de não mais ter vontades.

Por que é tão difícil não querer olhar para dentro de uma porta aberta?

Janelas fechadas existem sem intenções, como pedaços contínuos de parede,
Mas uma fresta é sempre uma possibilidade do lado de fora,
Desabrigando sentimentos, como um eixo de gravidade, pesando
À memória tudo o que não se deve lembrar.

Que ninguém ouse olhar muito tempo o vazio das coisas,
Esse ímã de insuficiência preso a tudo o que nos incomoda.

Com sentimentos densos, sozinho em casa, fiquei olhando a porta aberta
e me lembrei de uma antiga piada: “por que o cachorro entrou na igreja?
Porque ela estava aberta. E por que ele saiu?...”. A simplicidade patética
da anedota me fez pensar que tal como existe uma lei da gravidade, para
baixo, também há uma lei das expectativas pesando o olhar.

Misturando filosofia, emoções de angústia, prazeres inconfessáveis e sensações que eu não saberia definir, reuni todo o “material” para fazer um poema. Depois,
carregado e sofrido, fui para o teclado do computador... e comecei a imaginar como seria o tempo deserto da solidão. Às vezes eu simplesmente
tinha de escrever um poema. Obrigações de escritor.

A maior parte de tudo o que se vê não se vê. Está lá:
Suposto, visível em segunda opção.
O que seria um objeto sem avesso, sem volume nem profundidade –
Essas coisas da alma?

Eis como seria o mundo se não existíssemos para ele:
Um desenho sem autor,
Uma verdade jamais conhecida,
Papel de um lado só.

Não tirássemos da alma e imaginássemos o resto...
O mundo seria menos que a metade.
Não vemos o mundo como ele é, mas como nós o completamos.

Quem desiste des-existe.
O único registro de vida é a transformação.
Nesse exato momento talvez haja uma imensa visão de alegria...
Mas ninguém para vê-la.

Quando a curiosidade está ausente para visitas,
A poeira sobre o vidro faz parecer que o tempo envelheceu demais.
Buscaria alívio no céu, no escorrer da chuva, se houvesse.

Pequenos detalhes, grandes aos meus olhos...
Pensamentos meus selados com pálpebras de janelas
E o mundo inteiro do lado de fora, em espera.
Incrível como a solidão ocupa espaço e me expulsa fora de casa.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Penúltimas notícias:

Parceria HEPA e Instituto Packter

O Hospital Espírita de Porto Alegre em parceria com o Instituto Packter promove Curso de Extensão em Filosofia Clínica para funcionários do hospital.

O curso que terá duração de dois meses, será ministrado pelo filósofo clínico Hélio Strassburger. Serão oferecidas três turmas e os encontros acontecerão às sextas-feiras a tarde na Sala de Eventos, no 2º andar da Instituição.

A Filosofia Clínica é uma nova abordagem terapêutica com base na filosofia. Trata-se de uma parte da filosofia acadêmica direcionada ao consultório, à clínica. É uma atividade utilizada em hospitais, escolas, instituições por todo o país. A partir dos trabalhos do filósofo gaúcho Lúcio Packter, desde o final dos anos 80, este novo paradigma se difundiu no país e no exterior.

Para outras informações a respeito acesse o site e o blog da filosofia clínica: www.filosofiaclinica.com.br e casadafilosofiaclinica.blogspot.com

*Informação compartilhada pelo site: www.hepa.org.br.

Coordenação

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Singularidade*

“A prosa e o verso das expressões de face maldita podem antecipar ao inédito olhar de si mesmo inexplicáveis belezas, contidas na originalidade de ser único”
Hélio Strassburger


De tudo o que intuímos, sentimos ou pensamos, infinitos saberes, racionalidade e emoções participam, como visitas e revisitas, na elaboração das malhas intelectivas e sensitivas da existência.

Mas há um pontinho essencial, primordial, fundamental, que através de trilhas improváveis, nos direciona, assim como uma estrela nos guia na mata escura do destino imprevisível, nos orientando na imensidão existencial.

Este pontinho é a nossa singularidade!

A mais desafiante e desestruturante capacidade de sermos únicos no universo... o mesmo universo infinito por onde transitamos, de carona neste pequeno mundo líquido e azulado, onde atmosferas são cúmplices da nossa ínfima transitoriedade.

Não escapamos ao que nos determinamos ou ao que somos determinados a viver. E talvez não exista nenhuma importância neste escapamento, nesta fuga. Tal qual a Fênix, também nos deparamos com a astúcia do desenrolar de um vôo cego em direção a um futuro incerto. O renascimento é dádiva para qualquer um que se disponha a amanhecer seus sonhos ou simplesmente a acalentar a doce condição dos batimentos involuntários. Realmente não importa!

Vale é prosseguir, ainda que tateando, na imensidão dos espectros desavisados, transportando o fardo que cada asa é capaz de suportar. A força que é subtraída de cada acréscimo de poder investido no aquário existencial – onde as profundezas podem ser inimagináveis – nos permite vôos cada vez mais ousados.

Para uns talvez apenas o destino a se cumprir seja o que conta; para outros talvez seja o caminho... o que vale é entender que somente a harmonia com cada intenção deve ser valorizada e mesmo esta intenção só vale em sintonia com a nota de cada acorde pessoal, em conformidade com a passada efêmera, tal qual um perfume pressentido e tocado pelo vento.

E o fogo que nos persegue é o mesmo que nos impulsiona; que nos faz registrar instantes de euforia ou de sobrehumanidade. A singularidade é poderosa quando nos exige unicidade em tudo o que tange nossos ilimitados corpos que queimam e se renovam pela singela passagem (ou não) do tempo.

Mas a preciosa contribuição deste poder único, conferido a todos indistintamente, participa da efetivação do sentido universal que permite a vida.

Cada pássaro é único, assim como cada digital, cada lembrança e cada verdade nela contida. A beleza da unicidade não se esgota na singularidade de uma vida, mas se propaga e se renova pela eternidade diante dos olhos e do revoar e nesta esperança nos transformamos, ainda que defrontados com o profundo processo singular da existência.

*Luana Tavares
Filosofa Clínica
Niterói/RJ

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Loucos e Santos

Beto Colombo
Empresário, filosofo clinico, coordenador da filosofia clinica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, hoje vamos falar de um interessante tema: loucos e santos.

Oscar Wilde, dramaturgo, escritor e poeta irlandês, que se destacou na Inglaterra por seus escritos no período Vitoriano, escreveu um poema que não tem tempo. É atemporal. Loucos e Santos é o seu título. Antes de prosseguir com o poema, vale a pena dizer que Wilde foi preso e humilhado perante a sociedade por causa de uma opção, a opção sexual: ele era homossexual. Isso levou-o, inclusive a prisão.

Voltemos aos loucos, aos Loucos e Santos.

Escreveu Oscar Wilde: “Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos”. Lembrando que naquela época um desejo ruim era o de que os inimigos contraíssem maus hábitos. “Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo”, continuou o poeta. “Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco”.

Mas como tudo tem, no mínimo, os dois lados, ele que dizia preferir os loucos, agora se curva aos santos, lembrando que homem santo e mulher santa nada mais é do que homem são, mulher sã.

“Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria”.

Da obra de Wilde foram baseados vários filmes como “A liga extraordinária”, “Dorian Gray”, mas a vida de Oscar Wilde é quem deu subsídios para o filme “Wilde”.

Diz o autor: “Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.” O irlandês toca fundo quando diz: “Não quero amigos adultos nem chatos”.

Ainda prosseguindo no poema deste ser humano sensível: “Quero-os – os amigos - metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa”.

Ao finalizar, Oscar Wild expõe: “Tenho amigos para saber quem eu sou, pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril”.

Faço deste poema, o meu poema.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa dos loucos? O que acha sobre os santos?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Sertões incertos

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta e filosofo clínico
Cambuí/MG


O que os poetas não podem expressar o silêncio se encarrega de sepultar. Assim é a vida de muitas pessoas. Há dores e feridas que nem mesmo o mais sábio dos poetas pode expressar em palavras. Vida de dores silenciosas. Desencantos que estão guardados em algum território da alma. A vida pode silenciar o que o coração não consegue dizer o que é.

Sabiamente disse João Guimarães Rosa que o sertão é dentro da gente. Território desconhecido é o que trazemos em nosso coração. De florestas selvagens a caatingas de desesperanças. De várzeas alagadas a montanhas de sonhos. De praias desertas de solidão a bosques encantados de sonhos. Como conhecer um lugar desconhecido sem o mapa que nos garanta a chegada?

Há muitas chegadas sem mapa. Conviver e aprender com a vida silenciosa de lugares ainda pagãos é uma tarefa laboriosa.

Judas não suportou a dor de ter traído. Não encontrou em seu sertão uma estrada que o pudesse conduzir ao perdão. Perdido em si mesmo, ficou preso na tarde silenciosa de seus erros. E foi assim que sepultou no solo de seu território a si mesmo. Se ele tivesse andado um pouco mais descobriria que na divisa do seu arrependimento estava à água que lhe devolveria as esperanças vendidas por algumas moedas de prata.

O sertão tem tons de prisões e canções. Melodias tristes de um por do sol e manhãs que anunciam mais um dia de seca. Onde estará a certeza da vida quando tudo é tão incerto? Onde estará a chuva que poderia fazer o verde da esperança colorir de vida os sonhos de outrora?

Na dúvida ele não quis seguir o mestre. Diante da dúvida preferiu ficar preso na seca que havia tomado conta do seu sertão. Suas riquezas eram maiores que os tesouros que ainda não conhecia. Tinha a possibilidade de ver a chuva irrigar o solo seco de sua alma.

Quando se acostuma com as estações do passado, as possibilidades do presente são perigosas.

Estranha é a maneira como se vive. O medo que aprisiona é sempre incerto. O que não se sabe da vida é perigoso aos olhos da noite que encobre os primeiros raios de sol. Perdidos no calor do sertão das estações da alma, o dia de amanhã será sempre a reprise do dia que ficou aprisionado em mossas decepções.

Ao chegar ao túmulo naquela manhã de um novo tempo, Maria Madalena estava presa no ontem de sua história. Esqueceu-se de olhar para o sol da alegria de um novo tempo que anunciava que as sementes já haviam brotado no solo das tristezas. As tristezas impedem os olhos da alma a verem além das paisagens e descobrir a fonte da paz escondida no mistério do amor.

A paciência do sertão das experiências é o que move a vida do sertanejo. Na espera silenciosa das madrugadas de inquietações, o canto do galo anuncia não a traição dos sentimentos, mas sim a esperança de que um novo amanhã está para chegar. Ouvir o silêncio do sertão da vida é partir para novas estações que ainda hão de vir.

domingo, 13 de novembro de 2011

Reduzindo uma obra de arte ao juízo de valor

Rosangela Rossi
Psicoterapeuta e Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


A arte é uma forma de expressão do ser do artista. Toda expressão pode ser um desabafar ou um desejo de comunicação, ou ambas as coisas. Quem vê ou lê uma obra de arte, entra no diálogo que a obra lança ou se fecha diante dela fazendo um julgamento de valor.

Sempre uma obra nos afeta. Quando positivamente ela expressa uma comunicação de alma para alma.Quando negativamente ela ativa nossa sombra, ela nos mostra o que não queremos ver. Na realidade o que vemos nos vê.

O mundo é representação nossa. Quem diz gostar e não gostar está a falar de si mesmo e não da obra de arte em si. Quando diz gostar é porque a arte a afetou na essência, há uma compreensão inconsciente da intenção velada do artista, há uma sinergia e harmonia na relação. Quando se diz não gostar é porque a obra mexeu com a sombra, ativou um conflito velado, incomodou e criou um conflito e uma defesa.

Colocar um ponto final através do julgamento é reduzir a obra, logo a ler apenas na superficialidade para não tomar consciência do conflito em si, pois este o incomoda tanto que há um mecanismo de defesa que bloqueia a realidade subjetiva e profunda.

Quanto mais a pessoa se permite não projetar em julgamento, mais ela vai se conhecendo melhor e se comunicando mais profundamente com a estética de uma arte, respeitando sua expressão com naturalidade. Falar apenas que não gosta é fechar o diálogo, privilegiando a relação de poder e controle sobre a obra, colocando um juízo de valor crítica.

Quando se compreende a obra, mesma sendo ela oposta a sua preferência estética é uma forma e abrir o diálogo saudável. Bom lembrar que diálogo vem de pensamentos diferentes, cada um expondo sua expressão.

O importante diante uma obra de arte não é gostar ou não gostar, mas estar aberto ao diálogo e a comunicação que a obra propõe. É um saber olhar liberto de prejuízos. É um estar aberto a aprender. É enfim um render ao novo e ao diferente sem preconceito.

Arte é para ser apreciada e não julgada. Se ela nos afeta negativamente, nos resta silencar e aprender com o que ela tem a nos ensinar. Precisamos ter humildade e tentar compreender o porque determinadas escolas de arte não nos agrada.

Com certeza compreenderemos muito mais de nós que qualquer outra reflexão. A filosofa estética é uma grande ponte para entrarmos em contato com nossa alma. Que tenhamos humildade para sair dos prejuízos e nos tornarmos eternos aprendizes.

sábado, 12 de novembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXVIII*

"Nas horas de grandes achados, uma imagem poética pode ser o germe de um mundo, o germe de um universo imaginado diante do devaneio de um poeta."

"Ainda existem almas para as quais o amor é o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios."

"Como pode um homem, apesar da vida, tornar-se poeta ?"

"O devaneio nos dá o mundo de uma alma, que uma imagem poética testemunha uma alma que descobre o seu mundo, o mundo onde ela gostaria de viver, onde ela é digna de viver."

"Um excesso de infância é um germe de poema. Zombaríamos de um pai que por amor ao filho fosse 'apanhar a lua'. Mas o poeta não recua diante desse gesto cósmico. Ele sabe, em sua ardente memória, que esse é um gesto de infância. A criança sabe que a lua, esse grande pássaro louro, tem seu ninho nalguma parte da floresta."

"Que importam para nós, filósofo do sonho, os desmentidos do homem que reencontra, após o sonho, os objetos e os homens ? O devaneio foi um estado real, em que pesem as ilusões denunciadas depois."

*Gaston Bachelard

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Inscrições abertas:

Ao estágio supervisionado em Filosofia Clínica no hospital psiquiátrico em Porto Alegre/RS.

Período: 11/11 a 15/12/2011.

Pré-requisitos: conclusão da parte teórica, pré-estágio avançado, carta de interesse, entrevista com a coordenação.

Atividades: clínica na internação integral, hospital-dia, grupos, cursos de extensão, pesquisa. Período: 12 meses, com início em março/2012.

As inscrições serão recebidas, exclusivamente, pelo: heliostrassburger@gmail.com

Vagas: 06 titulares e 02 suplências.

Coordenação.
Insana

Jane Difini Kopzinski
Fisioterapeuta, quiropraxista, filosofa clínica
Porto Alegre/RS


Enfim a loucura
Dos desarranjos de minha alma
Da inércia do tempo
Tira-me a estrutura

Enfim o tempo
De um espaço vazio
Louca dor da espera
De um nada para lugar algum

Enfim me possuo
De minha própria alma
Perdida na loucura e no tempo
Acha-se esquisita

Enfim a dor
De uma alma corrompida
Dilacerada pela dúvida
De ser louca ou esquisita
Devaneios incessantes
Produzindo inquietude
Procura centrar a louca delirante
Num tempo distante

Enfim o espelho
Não acho nem perco
O centro da alma
Nos meus pensamentos

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quase tudo por você

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Há algum tempo, meu filho me pediu para mudar de time (sou Fluminense e ele é Flamengo). Respondi que faria tudo por ele, mas que de time eu não mudava. É claro que ele não apreciou a minha resposta e emendou espantado: “Como assim? Você faria tudo por mim, mas não mudaria seu time por minha causa?”

A explicação é simples: seria capaz de tudo por filhos, de exercer mudanças inimagináveis, de realizar sacrifícios que podem ou não valer a pena, de morrer por eles... mas não posso alterar o que sou essencialmente. Isto está além da minha capacidade.

Entendo que na própria vida conta a compreensão de tudo o que nos estrutura, de tudo o que confere integridade até mesmo para permissões incondicionais. O que nos valida não se altera, apenas se nossa compreensão assim solicitar.

Então, para uma vida que nos foi confiada, deve haver a demanda atenta às portas que se abrem. Não me refiro ao básico, ao óbvio, mas ao que possibilita novas perspectivas na formação de um espírito em construção. E esta flecha deve ser lançada, prioritariamente, pela culatra, antes de retornar ao outro, exatamente para que exista o outro.

Conhecer-se, a si e ao outro, é um processo de alteridade, o mais desafiante, o mais instigante que talvez aconteça, mas igualmente um dos mais compensadores.

Em qualquer situação, conhecimento é um pressuposto válido, mas sabedoria é fundamental. E é sabedoria com sabor de adequação, com textura de firmeza, com percepção de entendimento. Mas sabedoria demanda tempo e não se esgota jamais. Seus efeitos são precisos.

Mas o processo de revestir-se de sabedoria, no sentido existencial, não é nada fácil de ser localizado no âmago. Muitas vezes ela nem está lá (nada demais se não estiver; não nascemos prontos e o instinto não dá conta do que nossa atual conjuntura social comporta), exigindo um esforço extra na delimitação do espaço do respeito e da ética. A lida humana tem dessas exigências.

E é preciso observar que a receita do bolo não é universal. Mesmo quando pronto, o bolo não deve ser servido a todos, pois que instinto de procriação é um atributo da espécie (neste sentido já fartamente assegurado) e não da individualidade.

Já filho é uma fascinante aventura, onde desafios e incondicionalidades se manifestam. Uma prioridade no exercício de vida para muitos, mas ainda assim não é a própria vida. Esta é uma caminhada repleta de atalhos constantes e imprevisíveis, que nos forçam a constantes e prazerosas reavaliações. E que ninguém se engane, pois haverá enganos; que ninguém se iluda, pois haverá dissabores, desgostos, frustrações.

Nossas crianças e nossos jovens precisam de apoio e orientação, não exatamente de mais amiguinhos para torcer no time. O preparo para nos tornarmos pais (de fato e de direito) exige tempo e investimento. Tempo no sentido da maturação e investimento no da vontade. Só cuida com eficiência quem tem algum conhecimento de causa... só damos aquilo que temos.

Então, que cada um se exerça como puder, se cumpra como for possível, e que tenha seus próprios filhos, a sua escolha. Mas se forem os de carne e osso, bom seria se cuidassem de atender ao caminho da edificação e da amplitude da valorização humana. Assim, a semente plantada e cultivada ao sabor da atmosfera do respeito às diferenças e às igualdades e pela respiração da vida que se renova, poderá perpetuar existências e serenidades.

Para isso, atitudes de humanidade são fundamentais e condições de limites também. Tudo, ou quase tudo, que for permeado com amor consciente, recheado com incentivos, muita conversa, troca de experiências, responsabilidade, será passível de validade. O comprometimento é com a opção, ainda que indevida. Assim, escolhas precisam ser feitas e nem sempre são as mais doces; Dizer “não”, por exemplo, pode parecer azedo aos sentidos imediatos, mas proporcionarão uma digestão tranquila ao processo nutritivo da vida.

A vida não é um projeto fechado, no qual não precisamos nos questionar, aprender e refletir. Vida é um perene cuidado e a percepção de se estar na estrada, compartilhando, é que nos permite medos e anseios, dúvidas e equívocos. Permite-nos ser humanos e ser íntegros em nossa essencialidade.

Tudo na vida é plástico o suficiente para que possa ser mudado, alterado, revertido, mas tudo cumpre seu papel. E a vida é insuficiente... exatamente por isso que a vivemos, para preenchê-la com nossas experiências e contribuições.

De volta ao futebol, lamento... sou tricolor de coração!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

CONSOLO

Will Goya
Filósofo Clínico, Poeta.
Goiânia/GO


O mundo está de partida.
Não me peças agora para ser tão natural, que a morte nunca foi leve.
É um amor sem entrega, um abraço ao vento
E um difícil agradecimento a Deus.

Hoje uma eternidade repousa em mim.
Termine minha vida quando terminar, ela aí estará por inteira.
Tudo se demorou em estar sempre completo,
Como uma formatura à espera do diploma, em qualquer escola da vida.

Nenhum tempo ou erro foram desperdiçados,
E até meu sono cumpriu o seu destino.
Eu sei que todas as pessoas me seguirão na morte... e lá jamais estarei só. Lá.
Morrer é voltar pra casa, reaprender a ser eterno.

Aqui somos todos imperfeitos, dádivas contidas, sementes completas.
Os céus querem tanto a perfeição dos homens que os fazem nascer crianças,
Para que a Terra venha brotar maturidade em suas almas.
Germinarem o tempo.

Só as rugas de amor rejuvenescem o espírito.
Soube que uma pessoa desconhecida estava para morrer, com câncer. Era o
tio de uma amiga muito querida. Queria que o meu coração fosse parente
de todos, que eu amasse a todos igualmente, mas isso não acontece.

Como prática, exercitei um caminho, um método psicológico: “e se ela ou meus
filhos morressem, teria eu consolo?”. Recolhi meus sentimentos e quis morrer também. Com surpresa, essa imaginação da morte trouxe-me também
o desejo de viver mais um momento, e dizer últimas palavras.
Ao contrário das últimas, chegaram apenas as mais recentes.
Renasci, e amei mais.

Mas as asas vieram buscar meu pequeno anjo,
Que ainda vive as primeiras primaveras.
Eu sei que as flores morrem no inverno. Morrer é natural, mas
Por que achamos que o nosso amor é diferente?

Ele sempre me trouxe perfumes,
E a beleza dos sonhos de quem visita o jardim.
Quando a noite retirar sua alma para sonhar, seu corpo vai dormir no chão,
Sem dizer nada.

Eu sempre achei que ouvia seu sorriso no pôr do sol. Ouvirei mais.
Como pode o corpo partir antes da vida, se ao coração basta amar?
A saudade é um sonho de abraços e beijos, e um desejo de não acordar
Sozinho.

Desejo não abrir os olhos.
Mas quem vive, vive porque ainda tem frutos para dar.
Acaso a primavera é tão perfeita que não lhe cabe mais um grão de vida?

– Oh, meu Deus! É natural que o amor volte para casa.
Ensina-me a deixá-lo ir.
O passado é adubo. Somos todos sementes...
Se o grão não morre, não nasce a vida.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Viagens*

“Vivemos um intervalo e, então, nosso lugar não mais nos reconhece.”
Harold Bloom



Existe um universo de possibilidades para seguir de um lugar para outro. Você pode ir em frente caminhando, realizar uma introspecção e mergulhar em si mesmo, se deixar levar pelo curso dos deslocamentos multifacetados, sobrevoar tendências de ser estrada sem direção.

Muitas vezes se vai longe sem sair do lugar. Noutras é preciso o movimento físico para estacionar. Em alguns a arte de contemplar horizontes se desenvolve como essência do ser viajante.

Trajetos de muitas paisagens, cores e sabores, evidenciam presságios de novos roteiros. Em alguns instantes se tem a nítida ideia de já ter estado ali, fazendo parte dos cheiros, sons familiares. Também é possível muita coisa passar despercebida, aprisionada na ilusão do primeiro olhar.

Um sentido pessoal vai desenhando, por essas idas e vindas, os cenários por onde a vida se esboça para acolher distâncias. Um vislumbre andarilho a percorrer rotas e compor a dialética das estradas. Uma estética imaginativa a se oferecer na obra aberta do percurso.

Quando se inicia uma viagem objetiva, quase sempre começam outras, do lado de dentro, no universo subjetivo de cada um. Assim a alternância de paisagens pode evocar recordações, associações, promessas, renovando o estoque das vontades nas pronuncias desse morador de lugar nenhum.

É possível não se perceber quando a vida nova já chegou. Às vezes as rotas de fuga podem cristalizar o convívio com o passado, também pode significar chegar antes ao improvável futuro. Com o pé sempre a caminho, essa espécie de cavaleiro andante, persegue a extraordinária rotina das estações.

Qualificar a interseção entre o sujeito e suas circunstâncias pode elaborar o paraíso refugiado na ficção pessoal. As alternativas desse estrangeiro dependem de seu vislumbre, como protagonista em uma estória que lhe pertence. Ao saber viajante as poéticas reverenciam os mestres da realidade transfigurada. Adquirir um bilhete pode significar um passeio pela infinidade de eventos sem nome.

O templo sagrado da alma aprendiz acolhe a pluralidade das evasivas, retomadas e ressignificação, para oferecer, num agora passando, a coexistência com o mundo inteiro que lhe cabe. Assim a integração dos itinerários vai deixando pistas de algo mais, numa fenomenologia das viagens por vir.

Lançar-se em uma trilha nova pode significar um acordo com a musicalidade presente nos encontros, desencontros, reencontros, capazes de aproximar distâncias, enriquecer a vida. Ao exceder os limites do mundo atual, logo depois da zona de desconforto, costuma ter uma velha casa reconhecível.

Um roteiro absurdo aparece nos trajetos, não é raro uma sensação de perdição se instalar naqueles que ficam estacionados, quando deveriam andar, ou, aqueles a perseguir estradas, quando deveriam investir no endereço onde se encontram.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

BELEZA ARTIFICIAL

Ildo Meyer
Médico e Filosofo Clínico
Porto Alegre/RS


Era apenas mais um lançamento de moda. Estavam preparando a coleção de biquínis para o próximo verão. Durante a sessão de fotos, o diretor de criação da agencia publicitária sugeriu uma montagem onde o umbigo da top model sumisse. A idéia era fazer com que parecesse um ser alienígena com aparência exatamente igual à de uma mulher, porém sem umbigo. Abdome completamente liso.

Direção de arte, redação, produção se engajaram na campanha e em poucos dias o projeto estava na mesa do cliente para aprovação. A foto de uma mulher com corpo escultural, passeando em uma praia deserta, vestindo apenas um biquíni e botas até o joelho, carregando em uma das mãos um micro aparelho que sugeria ser um computador de última geração e na outra uma coleira com um belo cão dálmata. Apenas uma frase abaixo da foto: “Mulheres evoluídas sabem o que vestir neste verão”.

O cliente achou a modelo maravilhosa, a foto belíssima, mas comentou que estava faltando o umbigo. Este era o objetivo da agência, chamar a atenção do público para algo totalmente inusitado, uma mulher sem umbigo. Depois de muitas horas de reunião o projeto foi aprovado na íntegra e trinta dias depois a campanha saiu para as ruas.

Investiram muito na divulgação: capa de revista, outdoor, comercial de TV. As vendas de biquíni superaram as expectativas e a campanha foi considerada um sucesso. Até aqui nenhuma novidade, o dia a dia das agências publicitárias é assim mesmo. Criar campanhas. Algumas com retumbante sucesso, outras atingindo os objetivos, e outras mais fracassando. Faz parte do negócio.

O que ninguém esperava é que uma famosa atriz de cinema norte americano tivesse assistido o comercial, adorado o visual do abdome sem umbigo e realizado uma cirurgia para conseguir aquele tipo de corpo. Não demorou muito para ser contratada como garota propaganda de uma rede de academias de ginástica. O efeito “abdome liso” era algo muito diferente do que as pessoas estavam acostumadas a ver, e acabou trazendo um grande retorno de público para treinar na academia.

A novidade agradou. Um desfile de lingerie na Semana da Moda em Paris apresentou todas as modelos sem umbigo. A arte ficou por conta de um maquiador muito esperto que conseguiu disfarçar aquele orifício com algodão e produtos especiais.

Umbigos foram desaparecendo em efeito cascata. Durante o show, uma pop star levantou a blusa e mostrou seu abdome liso, dizendo que umbigo era coisa de mulheres do século passado. Mulheres evoluídas não tinham mais umbigo, um “buraco” que não servia para nada a não ser acumular sujeira.

O efeito desta declaração foi bombástico. Desenvolveu uma epidemia de mulheres sem umbigo. Anúncios em jornais e revistas oferecendo cirurgias se multiplicaram. No inicio a técnica ainda não estava bem desenvolvida e uma pequena cicatriz marcava o abdome. Em poucos meses, videolaparoscópios resolveram este “problema”, não deixando mais vestígios.

Interessante notar que só mulheres se interessaram por este tipo de cirurgia, talvez por influência daquele primeiro comercial que falava em “mulheres evoluídas”, mas provavelmente os homens ficaram retraídos, por comportarem-se conforme declaração de um renomado estilista, que colocou o umbigo como um diferencial moderno entre homens e mulheres.

Seja como for, virou moda mulher não ter umbigo. Pior do que isto, virou padrão de beleza. Quem ainda tinha umbigo, preferia mantê-lo escondido para não ser alvo de comentários e fofocas. Mulheres com umbigo passaram a sentir-se infelizes, pois seus corpos estavam em desalinho com os novos padrões de perfeição.

Poderíamos utilizar o exemplo das tatuagens, piercings, próteses de silicone, lipoaspiração, plásticas faciais, cabelos alisados artificialmente... A história do umbigo foi apenas uma metáfora para sensibilizar médicos, pacientes e clinicas sobre a possibilidade de intervenções estéticas criarem um novo padrão de beleza, passando a imagem do corpo modificado a ser vista como a condição de normalidade e levando os demais a uma condição de anomalia, com o sofrimento psíquico daí decorrente.

Na medida em que famosos e bem sucedidos passam a habitar os meios de comunicação com novos recortes e preenchimentos corporais, cria-se a demanda, pois os agora disformes e destoantes têm sua auto-estima rebaixada e necessitam fazer alguma intervenção para adaptarem-se aos novos padrões da sociedade.

Quem está habilitado a estabelecer e lançar padrões de beleza? Quando uma flacidez, dobra ou ruga deixam de ser considerados sinais de envelhecimento e se transformam em “doenças estéticas”? Qual o tamanho e forma de uma mama normal? Até onde vamos esticar a pele para compensar achatamentos na auto-estima? Estamos medicalizando nossa imagem corporal, criando belezas artificiais e reforçando o significado da aparência.

Somos o segundo pais do mundo em número de cirurgias plásticas, com cerca de 1700 procedimentos diários, e ao mesmo tempo detemos o recorde de filas de espera por atendimentos e cirurgias através do Sistema Único de Saúde. Definitivamente, vivemos em um país de contrastes, onde a superficialidade e as aparências maquiam os verdadeiros problemas da sociedade. Isto nos torna mais bonitos? Isto nos deixa mais saudáveis?

domingo, 6 de novembro de 2011

Podemos mudar de ideia

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Quem pensa muda de idéia.
Quem escuta aprende e se recicla.
Não somos donos da verdade.

Vida é mutação.
A cada encontro uma nova possibilidade.
Vastos horizontes.
Vir-a-ser.

Liberdade de escolher novos caminhos.
Desapegos e experimentos.
Penso no que você me disse.
Duvido. Reflito. Pondero...
Êta vida !

Ficar preso as máscaras me escraviza.
Fechar num só pensamento limita.

Há pluralidade.
Há multiplicidade.
Há um mundo lá fora acontecendo.
Há um mundo lá fora ensinando.

Basta abrir os olhos e coração,
Para transformar sempre.

sábado, 5 de novembro de 2011

Apenas o essencial

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta e Filósofo Clínico
Cambuí/MG


Uma das regras fundamentais para quem deseja organizar uma mala de viagem é levar apenas o essencial. Nem sempre conseguimos seguir esta regra. Sempre levamos alguma “coisinha a mais”. O medo do que possa faltar faz-nos exagerar no excesso. E assim partimos... Com muitas malas e excesso de peso.

Ao final da viagem nos defrontamos com uma realidade visível: não usamos a metade do que levamos. Voltamos para casa com o excesso daquilo que nos pesa na alma.

Nem sempre é fácil decidir o que levar. A principio tudo parece importante. Não queremos deixar nada de fora. Enquanto cabe, vamos dando um jeitinho. Muitos quando estão em viagem ficam tristes porque não encontram entre as malas um lugar para colocarem algo que adquiriram ao longo da viagem. As malas estavam tão cheias que nada mais caberia.

Em nossa vida também guardamos em nossa alma sentimentos desnecessários. Acumulamos ódio, raiva, desejo de vingança... Muitas vezes nem temos noção de que estamos sobrecarregando nosso coração com um fardo pesado demais. Em coração pesado não cabe o essencial.

Semelhante às malas de viagem que se tornam pesadas demais e nos impedem de andarmos a um ritmo normal, nossa bagagem emocional quando pesada demais por sentimentos contrários as belas experiências da vida, nos impedem de seguir nossa jornada em paz.

Muitos ficam estacionados ao longo da vida. Param e não tem coragem de abrir as malas da alma e deixar para trás todo um amontoado de sentimentos que os impedem de continuar caminhando. Preferem ficar com a bagagem pesada daquilo que as impedi de serem livres.

Há bagagens pesadas que nos estacionam e há bagagens que são leves e nos impulsionam a descobrir o amor em gestos concretos no cotidiano da vida. O que colocamos nas bagagens do coração podem prejudicar uma caminhada que seria realizada com mais tranquilidade se levássemos apenas o que é essencial na vida.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXVII*


Sobre a Escrita,

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida.

Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas.

Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

*Clarice Lispector

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O OUTRO

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, que você esteja bem. Hoje vamos refletir sobre O Outro.

De todos os animais, talvez o ser humano seja aquele que mais necessita do outro, a começar pelo tempo em que começa a ter decisões próprias, autonomia de ideias e financeira.

Lembro-me de quando estava no caminho de Santiago e filosofava despreocupadamente quando tive um
_insight_: "O eu somos nós". E aqui vale refletir, pois jamais chegaremos ao "nós" se não reconhecermos que fora de mim há o outro e que este outro também sou eu.

Por isso, hoje desejo falar com você sobre este encontro com o outro.

Para mim, falar do outro é falar de Emmanuel Lévinas, filósofo francês nascido numa família judaica na Lituânia. Apesar de ser exilado e aprisionado pelos nazistas, forçado a viver no cativeiro, onde escreveu e desenvolveu boa parte de sua filosofia, ele nunca se referiu aos nazistas como monstros. "Não posso reduzir uma pessoa a um ato", explica sabiamente sua posição, que completa: "Se eu chamar aquele de monstro eu estarei me tornando o monstro", referindo-se a um soldado que momentos antes havia fuzilado uma criança judia.

A filosofia de Lévinas nos leva ao encontro do outro e a Deus. "Só podemos conversar com Deus quando reconhecemos o outro". A religião é a manifestação mais sublime da acolhida do outro. Talvez "Deus seja o outro". Num jogo de palavras, somos uma aglomeração de "Eu", portanto, muitos de nós somos um grupo de Eu, de Eus, de Deus.

O "outro" como pessoa é terra santa, sacralidade absoluta, solo sagrado. Ao aproximarmo-nos dele é necessário que tiremos nossas sandálias. É necessário despojar-se de si mesmo e diluir-se no outro com ouvido atento sem oferecer julgamento. É fazer-se responsável pela sua existência.

Entre eu e o outro existe um infinito. Dizer que conhecemos o outro é negar este infinito sagrado. O que mesmo eu conheço da pessoa que se encontra na minha frente? O outro é como um _iceberg_, nós vemos apenas uma fração que às vezes o outro se permite mostrar, a grande parte está escondida. Não respeitar esse infinito que existe entre eu e o outro é negar a existência de Deus no outro, é negar o outro como sagrado, o outro como religião.

Para Lévinas, Deus é manifestação do sagrado a partir da relação com o outro. Quando estou diante de uma pessoa só sei que nada sei a respeito daquele solo sagrado e a sujeira incrustada nas minhas sandálias deve ficar lá fora, distante.

A regilião judaico-cristã diz: "não matarás". Não matarás, no dizer de Lévinas, é que não devemos reduzir o outro a uma ideia, a um ato. Matar é o mesmo que reduzir as virtudes, a história e todo acervo do outro apenas numa atitude, num erro. O outro é muito mais que isso.

Algumas vezes esquecemos do outro como sagrado e no primeiro deslize, no primeiro erro, reduzimos o outro ao erro. No momento que reduzimos o outro ao erro cometido, então estamos nos afastando do sagrado. O outro é muito mais que aquele ato cometido por ele, mesmo sendo um ato monstruoso.

Para Lévinas, a religião verdadeira é a manifestação do sublime na acolhida do outro. Quando acolhemos o outro, logo nos aproximamos do sagrado.

Isso é assim para Lévinas e para mim hoje, fonte que eu também bebo.
E para você, o outro o que é?

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Crescer???

Jane Difini Kopzinski
Fisioterapeuta, Quiropraxista, Filosofa Clínica
Porto Alegre/RS

Minha criança
De leve esperança
Com alma branda
Sutil gentileza
Marota faceira
Quebrando a razão
Da adulta imperfeita

Traquinagens inconseqüentes
Suavidade e leveza
Faceirice radiante
No mundo amante
Da vida que desperta

Vivências após
Autogenia perfeita
De uma adulta feliz
Compartilhada existência