quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CONTO DE FADAS MODERNO

Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico, Escritor
Porto Alegre/RS


Quando éramos crianças, adorávamos dormir escutando contos de fadas. Os finais eram sempre felizes, mas os começos muito tristes. Com freqüência existia um padrasto ou madrasta má, alguém que se perdia, estava muito doente, era espancado, seqüestrado, engolido. O enredo das histórias envolvia crueldade e injustiça, para no final surgir o amor e os mocinhos viverem felizes para sempre. Nossos pais não sabiam, mas é claro que estas histórias de amor romântico contadas ao pé da cama, mais tarde trariam conseqüências.

Crescemos, acabou a fantasia, caímos na realidade. Nosso mundo está cheio de injustiça, maldade, mentira, inveja, egoísmo, doenças, sofrimento. Nos contos de fadas sempre havia um herói para reverter a situação e encerrar o livro com um final feliz. E na vida real, onde estão estes heróis?

O sonho de que o sofrimento é passageiro, a injustiça será corrigida, mais cedo ou mais tarde surgirá um herói e o amor romântico vencerá ficou incrustado em nosso âmago. Mesmo que o mundo não esteja sendo nada daquilo que imaginamos, precisamos acreditar em um amanhã melhor. São os efeitos colaterais tardios daquelas histórias lúdicas. O problema é descobrir quem há de ser o protagonista atual destas mudanças?

Na infância nossos pais eram os heróis. Fadas, príncipes, guerreiros e paladinos também tinham esta função. Na vida adulta projetamos idealizações em nossos parceiros. Não precisam mais vir montados em seus belos cavalos brancos, tornamo-nos menos exigentes. Podem surgir via internet, ter sobrepeso, celulite, calvície, filhos de casamentos anteriores, pensões por pagar, empregos mal remunerados, estresse. O que importa é que nos entendam, apóiem, aceitem, abracem, defendam e nos façam felizes por toda a eternidade, contrabalançando assim, as agruras da vida.

É o amor romântico salvador retornando, remasterizado, mas ainda assim, irreal. Amor romântico é muito bom para os imortais, mas não funciona nos relacionamentos humanos, que não conseguem ser perfeitos e coloridos em tempo integral. É preciso começar a pensar em um amor compatível com nossa realidade, um amor com os pés no chão e a consciência de que não será algo mágico, fácil de conviver e caído dos céus.

Nossos parceiros deixam a desejar em comparação aos príncipes, mas em contrapartida, também ouviram histórias românticas na infância e sonharam que seus príncipes e princesas fôssemos nós. Estamos fazendo a nossa parte? Nossos parceiros, além de não possuírem aquele glamour dos heróis, machucam, magoam, discordam, erram, gritam, choram e isto não significa que deixaram de amar ou que amem menos.

Significa apenas que não são aqueles personagens frios e infalíveis das historias. São seres humanos, imperfeitos como todos nós e sujeitos aos mais variados tipos de sentimento. E o amor que buscamos não pode mais ser aquele irreal dos contos de fadas, este não existe e só é eterno no imaginário. Precisamos de um sentimento entre seres imperfeitos, que nos transforme no melhor que podemos ser.

Alguns chamam este sentimento de amor. Pouco importa o nome ou definição, precisamos é vivenciá-lo. Precisamos pois, amar um parceiro que nos ame da melhor forma que conseguirmos. Tomara que seja por toda a vida, mas que seja eterno enquanto dure. O amor não precisa ser perfeito como nos contos de fadas, ele só precisa ser de verdade. E recíproco.

“Você só saberá realmente o que é o amor, quando lhe perguntarem sobre ele e você não pensar em uma definição, mas em um nome”.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXXVIII*


"O nosso ensino moderno da medicina, bem como o da psicologia e filosofia acadêmicas, não dão ao médico a formação necessária, nem lhe fornecem os meios indispensáveis para enfrentar as exigências, tantas vezes prementes, da prática psicoterapêutica (...) vamos ter que frequentar mais um pouco a escola dos filósofos-médicos daquele passado longínquo, do tempo em que o corpo e a alma ainda não tinham sido retalhados em diversas faculdades."

"É a sua visão do mundo que orienta a vida do terapeuta e anima o espírito de sua terapia. Como ela é uma estrutura subjetiva, por mais rigorosa que seja sua objetividade, é possível que desmorone muitas vezes ao contato com a verdade do paciente, para depois levantar-se de novo, rejuvenescida por este contato."

"A psicoterapia surgiu de métodos nascidos da prática e da improvisação. Tanto é que por muito tempo teve dificuldade em refletir sobre os seus próprios fundamentos conceptuais."

"Ser 'normal' é a meta ideal para os fracassados e todos os que ainda se encontram abaixo do nível geral de ajustamento."

"De que ponto de vista nos permitimos definir algo como ilusório? Será que existe algo dentro da alma que possa ser chamado de 'ilusão'? Quem sabe se essa ilusão é para a alma a forma mais importante e indispensável de vida, como o oxigênio para o organismo? (..) A alma, provavelmente, não se importa com as nossas categorias de realidade."

"(...) a terapia não terá outro recurso a não ser orientar-se pelos dados irracionais do doente. Neste caso, a natureza nos servirá de guia, e a função do médico será muito mais desenvolver os germes criativos existentes dentro do paciente do que propriamente tratá-lo."

"(...) a tendência, tanto de Freud como de Adler, é ajustar os pacientes e normalizá-los."

"O público leigo, não raro, alimenta o preconceito de que a psicoterapia é a coisa mais fácil do mundo, resumindo-se na arte de convencer ou de tirar dinheiro do bolso da gente. Mas na realidade, trata-se de uma profissão difícil e perigosa."

"(...) de um modo geral, todas as religiões, e mesmo as formas mágicas das religiões dos primitivos, são psicoterapias, são formas de cuidar e curar os sofrimentos da alma e os padecimentos corporais de origem psíquica."

"O terapeuta não é mais um sujeito ativo, mas ele vivencia junto um processo evolutivo individual."

*C.G. Jung
Agosto de 1957

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Invisibilidades*



"Não pude dispersar os meus deslimites que caíam e refaziam os caminhos de volta a mim. E agora... encontro-me enfermo de sonhos!”
Djandre Rolim

Um reflexo parece dizer sobre se estar dentro da vida e fora do tempo, como uma ficção exilada na realidade. Ao ter uma epistemologia de subúrbio, sua filosofia da estranheza esboça um soar excessivo.

A atitude introspectiva refaz manuscritos sobre o fenômeno à deriva no traço. Interseção extraordinária entre o lapso das travessias e as poéticas do absurdo. Atualiza a visão desses delicados contornos a se deslocar, parece reivindicar uma arte de tornar-se.

A partir desse sujeito transbordando originais, os excepcionais eventos integram a irrealidade presente no cotidiano. Esse esboço de eus ficaria irreconhecível, não fora esse nômade das chegadas_partidas.

O estrangeiro de cada um se oferece nos trocadilhos, distorções, contradições quase imperceptíveis, muitas vezes em labirintos de lógica kafkiana, onde os delírios rascunham a rara aptidão de estar inteiro em cada momento.

Talvez a pessoa ao ser inédita para si mesma, consiga desconstruir o anonimato dessas raridades. A releitura, ao apontar o movimento de toda permanência, pluraliza combinações, oferece inéditas alternâncias pelos vãos manuscritos desses outros de si mesmo. Sua designação de caráter flutuante ressoa num sorriso, lágrima ou frase sem sentido. Assim pode ir longe sem sair do lugar, numa busca a pluralizar horizontes.

As práticas de multidão se sustentam entremeios de dúvida e certeza, numa insinuação sobre um estranho na própria casa. A subjetividade assim descrita possui lógica de periferia, se desloca quase invisível pelas sucessivas vizinhanças. Aqui arrumar as malas significa reinventar caminhos.

Nessas frequências internadas na rua, a quimera do olhar itinerante multiplica modos de ser, estar, deslocar. Acompanha um exercício de liberdade exótico aos códigos conhecidos. O querer dizer calado na verdade estilhaçada se oferece na esteticidade a integrar paradoxos.

A utopia vivenciada no mundo das ideias ameaça, com sua vertigem especulativa, abrir janelas, derrubar paredes, prescrever amanhãs. Parece ser um desses lugares onde a natureza existe antes de ser palavra.

A inquietude precursora embala novos vocabulários, sua pronuncia reivindica viajantes a transpor fronteiras. Quiçá ofereça uma leitura visionária sobre esse recém-chegado ao velho jardim.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Delírios na multidão indecisa

Luana Tavares
Filosofa Clínica
Niterói/RJ


Na estrada adiante, a caminho de um destino qualquer, no meio da multidão que transforma todos em uma unidade festiva, sem rosto, sem corpo, ou melhor, com o corpo de todos, na expectativa de encontrar algo que não se sabe, ponderamos se o que existe atrás das infindáveis e ininterruptas respirações suspensas, reproduz a eternidade. Estamos todos a caminho do mesmo buraco negro existencial, para onde tudo converge, para onde a ausência de luz é justamente o prenúncio da clarividência.

Mas mesmo em meio ao jorro da luz do dia, ou no manto escuro e silencioso da noite, sem noção de tempo ou espaço, entre o limiar do que pode ser estar em cima ou abaixo, os pés deslizam suaves no imaginário dos seus próprios significados, pouco importando para qual direção, pois nenhuma seria suficientemente justa para determinar seus horizontes.

E a multidão acompanha, ainda incerta de suas certezas, levadas por uma força que escapa ao entendimento entre tocar e sentir, entre ouvir e escutar, entre olhar e realmente enxergar, enfim, entre viver e existir.

Talvez nada importe tanto quanto o encontro com o que não ainda não conhecemos ou mesmo pressentimos. Nem mesmo levantar o olhar, pois que a multidão, ainda que levada por seu impulso de seguir em frente, um dia, a qualquer momento, vai esbarrar, surpresa, no seu próprio propósito, que pode ou não coincidir com o de cada um; pode ou não conferir uma tradução a tudo o que se espera do próximo passo. Vai acontecer, mesmo que não se saiba quando, nem onde, nem como.

Mas afinal, para que estamos aqui? Por que nos defrontamos tão intensamente com nossos dilemas existenciais? Por que às vezes temos a sensação de conhecer aquele rosto enigmático que nos observa a cada vez que nos refletimos no espelho? De quem se trata, afinal?

A sensação de saber de quem se trata perdura por, talvez, alguns milésimos de segundo... daí em diante é pura especulação, delírio. E tomar as rédeas desse delírio não cabe aos que ainda não se rasgaram ou não se desnudaram diante do espelho. O despertar apenas pertence a quem ousa.

Ainda assim, talvez continue a não fazer muita diferença sobre o que, como ou quando filosofamos ou intuímos a vida, pois que o movimento não cessa, desfrutemos nós de profundos debates ou apenas surfemos na superfície do lago. Tudo terá um tempo... e este, obedecendo ou não à cadência da multidão, estabelece pontos de singularidade de onde cada um emerge, de onde cada um transpira, vazando emoção pelos poros que deixam escapar a essência divina de cada um.

Mas múltiplas percepções dos universos paralelos, que se equilibram entre a razão e a loucura, não são atributos apenas dos que não compactuam com a nossa lógica – embora para estes lidar com qualquer lógica alternativa seja bem mais fácil, pois seguem seu curso normal, sem envolvimento com a multidão, sem nenhuma pressão a não ser a de seu âmago –; talvez elas pertençam a quem se dispõe a desviar o olhar, pois esbarrar no próprio propósito e ainda contemplar a beleza do instante, deve ser simplesmente incomparável.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sofismas ou a fábrica de doenças.

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Nos próximos dias, se puderem, mantenham o computador desligado. Se possível, retirem o HD e o coloquem em um local arejado e seco. Mas se não puderem fazer isso, fiquem calmos e não abram nenhuma mensagem com um arquivo chamado “Olá, bacana!”. É a nova versão do antigo “Lembrei de você!”.

O “Olá, bacana!” é terrível e não tem nada de bacana. Guarde água em casa, não abra a sua porta, independente de quem enviou o “Olá, bacana!”, não abra. Trata-se de um vírus que tem um sorrisinho safado. Cuidado, porque pode parecer bacana.

Pois o bacana vai torrar o seu disco rígido, vai fazer a sua impressora imprimir ao contrário, vai disparar e-mail para todo mundo. Aliás, o vírus veio exatamente de um conhecido seu que gostou do “Olá, bacana!”.

Olha, para o bem de todos, mande este e-mail para todos os seus conhecidos, mande para alguns desconhecidos também por segurança, afinal não se pode conhecer todos os conhecidos.

O “Olá, bacana!” provoca um ruído na placa mãe como se fosse um gemido. Quando a pessoa aproxima o ouvido da máquina logo percebe um ruidinho tipo “hi, back”. Daí o nome aportuguesado de “Olá, bacana!”.

Segundo a BBC e Agenda New Press, é o pior vírus já inventado. Ele foi descoberto ontem à tarde pela Avast!, ainda que ela tenha negado, o que quer dizer que é verdade. Não há vacina. A trilha Zero e o Sector um do Disco Rígido travam imediatamente; alguns simplesmente congelam, mas não se sabe ainda a diferença.

O Ministério da Saúde acha que uma cepa do vírus pode migrar para o ser humano, mas somente para aqueles que usam o computador de modo promiscuo. A Fundação Osvaldo Cruz identificou um caso suspeito no Senado.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Livro 40, Sim! E dai?*
Um guia de qualidade de vida feito para a mulher de 40 anos

Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, Filosofa Clinica
Juiz de Fora/MG


Livro 40, Sim! E daí? Mostra como aproveitar melhor essa fase de vida

A mulher de 40 anos de hoje é bem diferente da de antigamente. A que antes era quase que uma “matrona”, praticamente sem novas perspectivas de vida, agora é bem cuidada, moderna, inteligente, empreendedora, gosta de se cuidar e persegue seus sonhos e objetivos com muita vontade e determinação.

Mesmo com a maturidade que os 40 anos proporcionam e com o acesso a muitas informações, fazer 40 anos ainda representa um período de muitas dúvidas para a mulher. Para acabar de vez com as dúvidas, a jornalista Andrea Franco escreveu “40, sim! E daí?”, (Idéia & Ação – 224 páginas).

O objetivo é estimular a auto-estima dessa mulher e promover saúde e bem-estar por meio de orientações de ginecologistas, geriatras, psicólogos, endocrinologistas, nutricionistas, dermatologistas, entre outros especialistas que indicam como viver em harmonia nessa idade.

A autora ensina como lidar com alterações físicas e emocionais, saúde, beleza, sexualidade, menopausa, maternidade, alimentação, carreira, entre outros assuntos, tudo com uma linguagem simples e direta.

Há também relatos de mulheres que já passaram dos 40 anos e contam como é a vida pessoal e profissional desse novo ciclo, além de informações e dicas de prevenção sobre o câncer de mama, a doença mais temida por elas.

Um livro para as mulheres que já aceitaram a maturidade. E também para aquelas que querem passar por isso da melhor forma possível.

Trecho:
“De repente, você acorda no dia do seu 40º aniversário, se olha no espelho e se pergunta: “E agora? Como será daqui para a frente?”. Uma ligeira angústia dá lugar a uma tomada de ânimo, um suspiro de alívio e logo você pensa: “Ah, a medicina está muito evoluída, novos procedimentos estéticos aparecem a cada dia, há a ginástica, o Yoga, as cápsulas de vitaminas, o chá da moda...”.

Enfim, você enumera uma série de recursos poderosos que podem proporcionar longevidade e tenta aceitar tranqüilamente a entrada nos “enta”. Então, por que se preocupar com o fantasma da idade?

Ok, mas os 40 chegaram, e melhor do que fingir que uma eventual crise não existe é encarar tudo o que a quarta década da vida nos traz e tentar usar as experiências em benefício pessoal. Segundo especialistas, a mulher, aos 40 anos, começa a se libertar do jugo das imposições biológicas, familiares e da sociedade. Há mais tempo para dedicar a si própria. Pode ser angustiante se perguntar: e agora?. É importante manter atividades físicas e intelectuais, encontrar meios de se manter ativa. Atividade produz vitalidade e trabalha a circulação. Ficar sedentária não é bom!”


*40,sim! E daí? – 224 páginas
Andrea Franco - Matrix editora

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Meus 60 anos

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG


Nasci velha.
Eterno retorno. Renascimento neste tempo de envelhecer.
Por isto alegremente celebro meus sessenta anos.

Nasci no dia de Ação de Graças.
Desde pequenina olho para fora a questionar a existência e olho para dentro tentando encontrar minha essência... Sou esta que sou!

Chegar aqui é uma vitória. Para quem não poderia viver um dia, todo dia é um milagre. Assim tenho muito que contar e muito ainda a comunicar. Entro no tempo da realização e celebração, no caminho alquímico de fazer a alma.

Esta é minha carta de alforria para transgredir e subverter, para deixar sair esta rebelde que sempre me habitou e que por vezes reprimi. Poder viver sem culpa minhas imperfeições, livremente, e me expressar mais loucamente.
Agora é tempo de lapidação, do tirar as arestas e dar brilho à consciência no exercício da compreensão. Hora de soltar meu Dioniso e dar vazão as imagens criativas que me povoa deixando os deuses me guiar.

Cheguei ao alto da montanha. Plantei árvores, gerei filhos, escrevi livros. Plantarei muitas outras árvores, escreverei livros e cuidarei dos amigos com a ternura e amor de meu coração aprendiz.
Tenho a felicidade de ter um parceiro de uma vida, num compartilhar sereno e profundo, onde o amor ajudou a superar todas as dificuldades. Caminhamos lado a lado de mãos dadas, isto é uma benção.

Vislumbro o horizonte de possibilidades infinitas. Com eterno ânimo sagitariano.
Entre a puella (eterna jovem) e a senex (velha sábia) Estou! Aprendiz e caminhante. Eterna criança curiosa e sapeca.
Sei que preciso ir descendo lentamente, colhendo os frutos e as flores, registrando os caminhos pensados com o coração, com paciência e simplicidades, desapegando e me libertando dos excessos.
Descer é ir rendendo ao que sou. Com prazer de envelhecer.

Angustiadamente feliz, duvido, questiono, reflito e não perco meu caráter “Smita” de eterno sorriso de gratidão por ter nascido neste planeta e conhecido tanta gente interessante.
Olho para todo caminho trilhado e só tenho o que celebrar. Os momentos difíceis me fortaleceram. Nas doenças encontrei a saúde da alma. Dos conflitos aprendi a força da paz.

O verbo envelhecer significa, para mim, um estado poético da alma. A velhice é uma aventura, síntese de muitas experiências e estórias, aventura da lentidão.

Entro em um bom tempo, que sempre esperei. Tempo das reminiscências. Vou tecer lentamente os retalhos de minhas aprendizagens. Hora da grande Opus. Trocarei o que é saudável em minha natureza por o que é importante para meu caráter. Irei investir no companheirismo, nas amizades, na liberdade, nas artes, na natureza, no silêncio, no trabalho por prazer e na simplicidade.

Desejo uma longa velhice para “desemaranhar os nós e deixar as coisas certinhas”.
Tenho muitos para agradecer, pois se cheguei até aqui foi por causa de todos.
Agradeço aos meus pais e irmãos. Agradeço meu marido e filhos. Agradeço meus amigos. Agradeço meus alunos, ouvintes e pacientes. Agradeço aos inimigos. Não duvido que “nossa alma se faz” na relação com o outro. O rosto do outro evoca meu caráter. Aprendi e aprenderei enquanto me for dado viver e cada um é meu mestre nesta jornada.

Canto o encanto de poder ser e estar neste planeta. Saúdo o céu e o mar, as árvores e as flores, os pássaros e os animais. Saúdo meu Xamã curador. Cada dia, cada passo, cada amanhecer, cada encontro é uma oração e uma benção.

Agradeço ao Jung, ao Osho e a todos os mestres que povoam minha biblioteca e que me mostram o caminho da sabedoria.
Que bom poder parar e agradecer, com alegria no coração poder chegar aqui neste alto de montanha e ver horizontes.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXXVII*


"O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna."

"Ora um desvio patológico equilibrado é uma de duas cousas - ou o gênio ou o talento. Ambos estes fenômenos são desvios patológicos, porque, biologicamente considerados, são anormais; porém não são só anormais, porque têm uma aceitação exterior, tendo, portanto, um equilíbrio. A esse desvio equilibrado chamar-se-á gênio quando é sintético, talento quando é analítico; gênio quando resulta da fusão original de vários elementos, talento quando procede do isolamento original de um só elemento."

"A verdadeira arte decadente é a dos românticos. Aqui o ponto de partida é o sentimento; o intelecto é utilizado para interpretar esse sentimento."

"A beleza, a harmonia, a proporção não eram para os gregos conceitos da sua inteligência, mas disposições íntimas da sua sensibilidade. É por isso que eles eram um povo de estetas. Procurando, exigindo a beleza todos, em tudo, sempre. É por isso que com tal violência emitiram a sua sensibilidade sobre o mundo futuro que ainda vivemos súditos da opressão dela."

"O poeta pode ter a sua moral particular."

"A finalidade da arte não é agradar. O prazer é aqui um meio; não é neste caso um fim. A finalidade da arte é elevar."

"(...) afinal, que são os heterônimos senão o afloramento do eu profundo?"

*Fernando Pessoas

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Alma gêmea, difícil de explicar, fácil de sentir.

Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico, Escritor
Porto Alegre/RS


Sabe aquela situação onde você quebra o braço, precisa engessar e então começa a reparar um monte de gente com braços machucados como o seu? Ou quando quer comprar uma bolsa e de repente começam a desfilar na sua frente pessoas com marcas, cores e modelos diferentes? Parece que ficamos mais ligados e nossos sentidos começam a funcionar como um radar, detectando em qualquer lugar aquilo que estamos procurando.

Depois do episódio do cão que me acompanhou na corrida de rua e partiu por falta de despojamento meu em adotá-lo, passei a ficar mais atento. Olho para os lados na esperança de encontrar novamente minha alma gêmea corredora. Talvez esta atenção esteja exercendo algum poder de atração.

Depois de uma semana correndo e procurando sem sucesso o cão, uma adolescente começou a me seguir na rua, exatamente como ele fizera. Feliz e sorridente como uma criança brincando, seus passos ao meu lado eram leves e soltos. Percebendo que ela não teria fôlego para me acompanhar, diminui o ritmo e expliquei que tinha treinamento aeróbico e por isto minha velocidade era maior. Não convencida com o argumento, a menina levantou a blusa e mostrou sua barriga dizendo que estava em forma e iria correr comigo.

Quinhentos metros depois, mesmo sem aumentar a velocidade, a menina cansou e desistiu. Apesar de mostrar disposição em querer me acompanhar, conversar, sorrir, pensar, não conseguiu chegar nem perto da cumplicidade desenvolvida pelo cão. Por mais que se esforçasse, não houve aquela identificação imediata da alma gêmea corredora.

Alma gêmea? Se não olhamos para dentro, não estamos interessados e nem conhecemos direito nossa alma, como vamos saber quando surgir uma alma gêmea? Talvez este seja um dos tantos motivos de relacionamentos infelizes entre almas ditas gêmeas: falha no diagnóstico. O fato de alguém gostar das mesmas coisas que você necessariamente não o torna sua alma gêmea. O contrário também é verdadeiro, não é preciso encaixar em cem por cento de suas preferências para se identificar como tal.

Não existe manual de identificação e também não adianta forçar a barra procurando pelas esquinas ou buscando justificativas para acreditar que encontrou sua cara metade. Alma gêmea é uma questão de sentimento, quando chegar a hora, não vai haver dúvida alguma e o reconhecimento será instantâneo.

Como num passe de mágica, a pessoa transcende e se descobre através do outro, que funciona como um espelho, refletindo e mostrando nosso lado desconhecido, o lado de dentro da própria alma. Ao enxergarmos no outro o que somos, imaginamos ser nossa alma gêmea – “o outro é o outro de mim mesmo”.

Aquele cão amigo revelou minha felicidade com a corrida, o simples prazer de correr, a brisa batendo no rosto, as preocupações mundanas sendo esquecidas. Enxerguei nele minha alma corredora. Mostrou-me este aspecto específico e partiu.

A menina corredora, nada revelou. A maioria das almas que cruzarem nosso caminho passarão em branco. Pouquíssimas terão o dom de identificação imediata conosco, e dentre estas, nem todas vão refletir nosso lado bondoso e afetivo, algumas irão escancarar os aspectos mais sórdidos da alma humana.

Para nos protegermos e evitarmos sofrimento desnecessário, identificamos as almas bondosas como gêmeas e rechaçamos as demais. Não reconhecemos nossa parcela de responsabilidade na maldade do outro e passivamente esperamos o milagre de receber via sedex aquela alma que se encaixará perfeitamente na nossa. Quando ela vier, vamos nos apaixonar, casar e viveremos felizes para sempre.

Almas gêmeas não precisam casar, ter desejo carnal, procriar e viver juntas para sempre. Se isto acontecer, ótimo. Almas gêmeas têm a função de expor nossa intimidade. Mostram nosso lado de dentro e nos permitem crescer. Isto dói demais.

Algumas ficam ao nosso lado por toda a vida, outras por algum tempo e muitas depois de cumprida sua missão, vão embora. Mesmo assim, são os encontros mais importantes de nossas vidas. Fique atento e deixe fluir, pois estes encontros são eternos, mesmo que não durem para sempre.

Alma gêmea, difícil de explicar, fácil de sentir.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Os sonhos de Andy

Pe Flavio Sobreiro
Filosofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG


Andy era uma lagarta muito triste. Passava os dias sozinha. Não tinha amigos. Vivia isolada de tudo e de todos. Mas porque Andy vivia desse modo? Vamos ver como tudo começou...

Certo dia suas amigas, resolveram participar de um concurso de beleza: Miss Inseto. Para participar do concurso era necessário fazer a inscrição. Mas nem a inscrição Andy conseguiu fazer. Ao chegar ao local, foi logo reprovada. Disseram a ela que para se inscrever era preciso ter pelo menos alguma beleza exterior...

O tempo foi passando e Andy se tornou uma velha lagarta. Sua aparência feia não impediu que se tornasse um inseto especial. Ela amava a todos, aprendeu a superar as tristezas, e sempre dava sábios conselhos a quem lhe procurava. Porém, no fundo do seu coração tinha uma pequena tristeza: desejaria que a natureza pudesse ter sido um pouco mais generosa com ela...
Certa manhã, Andy não apareceu para irrigar as flores do seu jardim.

Os vizinhos acharam estranho a ausência de Andy. Foram até sua casa. Ao entrarem, viram que Andy estava morta! Seu corpo era agora um casulo! Muitos insetos choraram a morte de Andy. Seus amigos levaram seu corpo agora envolto em um casulo para o centro da floresta. Um belo lugar cercado de flores silvestres.

O tempo passou... E certa manhã ensolarada, o casulo em que Andy estava começou a se abrir! Aos poucos foi surgindo um novo ser! Não! Não era um novo ser! Era Andy!!! Mas com um corpo totalmente novo! Com lindas asas coloridas! Andy era agora uma linda borboleta. A mais bela de toda a floresta

Andy saiu voando e foi ao encontro de seus amigos. Quando chegou no lugar onde seus amigos moravam, ninguém a reconheceu! Quem era aquela linda borboleta? De onde teria vindo?

Aos poucos Andy pode explicar aos seus amigos tudo o que havia acontecido. Na verdade ela não havia morrido. Ela havia passado pelo processo de metamorfose, ou seja, um processo de transformação. Nem ela mesma sabia que um dia iria ter que passar por aquela mudança. As surpresas da vida chegam quando menos esperamos.

Seus amigos ficaram encantados com tudo o que havia ocorrido. Andy era um novo ser, porém seu coração era o mesmo. Sua aparência era outra, mas seus sentimentos continuavam sendo de amor. Os sonhos de Andy haviam se tornado realidade. A esperança nunca morre no coração de quem ama. Os sonhos têm o poder de transformar em verdade aquilo que nos dizem que é mentira.

Andy sonhou com uma nova aparência. Mas a sua maior alegria foi ter aprendido a amar os outros e a se aceitar como é. Não podemos mudar nossa aparência. Mas podemos mudar o nosso coração. Quando os sonhos que buscamos se juntam com a nossa esperança, passamos pelo processo da metamorfose. Todos podemos realizar uma verdadeira transformação na nossa vida. Sonhos não morrem. Eles se tornam realidade quando menos esperamos.

Desde pequena, Andy sentia-se inferior em relação aos outros insetos que conviviam com ela. Suas amigas eram bonitas, e Andy sentia-se o inseto mais feio do mundo. Não era preciso que ninguém falasse para Andy que ela era feia, pois ela mesma se achava horrorosa.

Mesmo em meio a tanto sofrimento causado pela sua aparência, Andy nunca desistiu de sonhar. Acreditava que um dia poderia ser feliz. Tinha esperança que uma nova manhã poderia surgir linda e radiante na sua vida... Ela tinha certeza de que os sonhos são alimentos para a vida.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A forma da distância

Patrícia Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Distância é uma coisa engraçada né? Tem tantas dimensões, tantos tamanhos, tantas formas… Tamanhos? Formas? É! Hoje em dia a distância pode ter forma de computador, de skype, de msn, de facebook. Forma de câmera com microfone. Ou mais moderno ainda, forma de telefone celular que mostra a pessoa do outro lado, como nos Jetsons (do arco do velha, mas que também sentiam saudade, aposto).

Quanto mais o tempo passa, quero dizer, a modernidade chega, mais as distâncias diminuem. Antes era tão difícil falar com alguém. Telefone não existia, carta demorava dias, meses e até anos. Hoje não. A tecnologia melhorou tudo (ou não, pode ter afastado ainda mais as pessoas que agora se escondem atrás da tela de um computador).

Hoje existe avião, barco, navio, helicóptero, carro, moto, ônibus… até espaçonave existe. E existe telefone, celular, internet, sedex, sedex 10, skype, Viber e Whatsapp pros mais moderninhos. Tantas formas de chegar… chegar onde quer, do lado de quem deseja, no lugar que almeja. Encurtamos distâncias pra matar a saudade, pra conhecer lugares, pessoas, coisas… pra fugir de lugares, pessoas, coisas…pra comprar, pra meditar… pra ir, simplesmente por ir.

Hoje se pode estar em qualquer lugar, a qualquer hora, e as vezes até mesmo em mais de um lugar ao mesmo tempo (e viva a videoconferência). Mas a grande pergunta é, toda essa distância, toda essa tecnologia, todos esses meios de transporte são suficientes quando se fala de alma, de corpos, de presença?

Quando se fala de beijo, de abraço, de cafuné, de colo, de calor? De sorvete numa tarde de calor, ou de cinema com pipoca numa noite de frio? A internet é linda e encurta distâncias sim, os meios de comunicação são fantásticos, e os meios de transporte nem se fala, mas alguma coisa substitui a presença naquele segundo exato que a saudade fala mais alto que o coração? Não, acho que não.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ser ou Não Ser

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Questões existenciais, quem não as tem? Pois é, talvez, quem sente é quem sabe. A frase “ser ou não ser eis a questão”, originária da peça A Tragédia de Hamlet – Príncipe da Dinamarca, de William Shakespeare, é uma prova inconteste que as questões existenciais estão aí, há séculos.

A cena que sempre me vem a mente é Hamlet, o personagem principal, com uma caveira na mão questionando se vale a pena continuar vivendo e sofrendo ou tirar-lhe a própria vida.

No início do ato III, cena I, Hamlet declama: “Será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias e combatendo-o, dar-lhe fim?”

Shakespeare, ao escolher tal frase, “ser ou não ser eis a questão”, talvez não imaginasse tantas interpretações dessa frase longe daquele contexto.

A frase pode ser entendida como uma alegoria qualquer “faço isso ou não faço? E agora o que faço?”. São escolhas e nós somos resultados, reflexos delas, das escolhas.

Para viver em sociedade, em muitos momentos deixamos de “ser” para “aparentar”. Eis a questão: ser politicamente correto ou não ser? Ser eu mesmo ou não ser eu mesmo? Ás vezes, ou muitas vezes, somente representamos, seguimos um papel existencial longe da nossa essência, do nosso puro ser.

Também para as terapias cuidadoras como a filosofia clínica, psicologia, psiquiatria, aprende-se que na mesma pessoa somos masculino e feminino, o verdadeiro e o mentiroso, corajoso e covarde, o belo e o feio, luz e sombra, yin e yang. Nas civilizações tradicionais, falam da nossa constanteluta interna, como no dizer do Xamã que afirma que “dentro de nós há dois lobos brigando, um mau e outro bom”. Ao ser questionado qual deles ganha o confronto, o xamã responde: “Aquele que eu mais alimento”.

Ser ou não ser? Ou só parecer? Na vida, estamos constantemente decidindo o que seremos no instante a seguir. Ao decidirmos, somos. Ao sermos, fazemos história e nesta nos mostramos ao mundo. No frigir dos ovos, eu não sou somente aquilo que falo, aquilo que penso, mas fundamentalmente eu sou aquilo que eu faço.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre isso?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXXVI*

"Fruto de enganos ou de amor,
nasço de minha própria contradição.
O contorno da boca,
a forma da mão, o jeito de andar
(sonhos e temores incluídos)
virão desses que me formaram.
Mas o que eu traçar no espelho
há de se armar também
segundo o meu desejo.
Terei meu par de asas
cujo vôo se levanta desses
que me dão a sombra onde eu cresço
- como, debaixo de árvore,
um caule
e sua flor"

"Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto"

"Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada"

"Escrever é escutar as águas interiores e espreitar vultos no fundo"

"Para ser inteira não preciso me defender erguendo barreiras à minha volta: às vezes só me fragmentando e dilacerando de amor, dor ou perplexidade, terei chance de juntar meus pedaços e me reconstruir mais inteira"

"Não importam os significados: qualquer interpretação será insuficiente. Como na vida, vale o desafio: que no breve espaço do nosso tempo a gente consiga quebrar as algemas do preconceito, recusar as indevidas cobranças, entender que a culpa é o selo da morte. E abrir-se para a vida: que nem sempre é mesquinha; e que nem sempre nos trai"

*Lya Luft

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Anjos e Demônios

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


De anjos e demônios todos temos um pouco! Verdade, temos luz e sombra. É assim que nos acontece. De um lado do ombro, o anjo tem bons pensamentos e é cheio de boas intenções. No outro ombro o diabinho sapeca instiga, critica, dá piruetas e nos confunde. É o maniqueísmo atuante, o bem contra o mal, que bem chamamos de "estar dividido, confuso".

Se decidimos previligiar o anjo, com certeza o demônio toma posse de nossos pensamentos. É sempre assim, o que mais negamos nos invade. Sabe por que? Talvez seja porque só pensamos no poder do negativo. Na realidade damos poder ao diabinho. Ele alimenta o medo, a culpa, a raiva,a inveja, a competição, o orgulho... Ri, goza e dá piruetas de nossas tagarelices mentais. E adora nos ver tristes, angustiados e deprimidos. Então, se não podemos previlegiar apenas o anjo, como fazer?

Privilegiar o diabinho perverso? Essa não! É mais simples a solução, pode crer. Tomar consciência e pensar bem não fugindo dos demônios, mas dialogando com ele e o colocando no lugar devido. Sempre é bom lembrar do que Jung nos ensinou: O mal que eu evito me faz mal.

Quando nos permitirmos enfrentar a realidade como ela é, dialogar com os demônios, o anjo nos guiará com leveza e suavidade de forma natural. Interessante saber que os dois lados fazem parte de nós, luz e sombra. Somos dialéticos. A grande questão é deixar os anjos e demônios dialogar. A síntese acontecerá trazendo bem estar.

Afinal, "somos humanos demasiadamente humanos", como diz Nietzsche. Não precisamos ser bonzinhos demais, nem malzinhos de menos. Podemos sim, transitar pelo caminho do meio como peregrinos, atentos a acontecências. Agindo em conformidade aos movimentos que vão surgindo, integrando passado e futuro no presente, único instante de pulsação da vida.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Retalhos da Alma

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG

Retalhos de velhos tecidos tornam-se bonitas colchas quando costurados com amor. O que era velho se torna novo. Tecidos que um dia marcaram momentos importantes da vida tornam-se um quando juntos unem-se para uma nova realidade. A arte de costurar os velhos retalhos de tecido exige paciência. É preciso se despedir daquela roupa que não mais tem utilidade. Recortar o que de bom ficou. Costurar é dar vida ao que restou.

Uma colcha de retalhos ganha aos poucos à sensibilidade de quem a confecciona. Cores, formas, desenhos, esperanças, dores... Muitos momentos unidos para um único objetivo: unir pedaços de velhos tecidos que foram esquecidos no fundo das gavetas do guarda-roupa da alma.

Em nosso guarda-roupa encontramos os momentos de nossa vida. Aquela camisa que marcou o primeiro encontro com a pessoa amada. O sapato que acompanhou a despedida de quem um dia conviveu conosco. O lenço que enxugou as lágrimas de uma saudade silenciosa. A blusa que aqueceu os frios nos momentos de indiferença. Cada roupa é um momento que ficou gravado nas estações de nossa alma...

Por vezes lembramos-nos das primaveras em que sentíamos o perfume das alegrias; dos outonos que anunciavam o frio de um inverno de despedidas; e do verão que aquecia a saudade de antigas memórias.

Muito se vive na vida e pouco se costura com o que foi vivido. Há um momento em nossa vida que é preciso abrir as portas do velho guarda-roupa da vida e ter a coragem de costurar aquilo que ficou solto ao longo de nossos caminhos existenciais. As lágrimas de antigas noites precisam ser costuradas a manhãs de novas possibilidades. Os retalhos de nossa história desejam se tornar uma linda colcha de retalhos daquilo que sofremos e amamos.

Nem sempre é fácil nos reconciliar com o passado das estações de nossa alma. Há roupas que um dia tentamos queimar. Colocamos fogo, mas, contudo ainda restou um pedaço do tecido molhado das lágrimas das noites que se eternizaram em nosso coração.

Abrir as portas de um novo tempo, retirar das gavetas da alma cada tecido de velhas experiências, alegres ou tristes, e cortar em retalhos cada momento de nossa história. Às vezes a agulha que irá unir os retalhos de nossa vida poderá ferir nossas mãos já cansadas pelas lutas da vida. No entanto o trabalho final será a colcha de tudo aquilo que somos.

Cada retalho da grande colcha de nossa vida revela uma parte daquilo que somos e vivemos. Não importa se os retalhos são tortuosos ou redondos. O que importa é que a diferença que em nós habita faz do caos a mais bela obra de arte do universo. Com a agulha da esperança, e a linha da fé, iremos costurar os retalhos de nossa história e contemplaremos a beleza de nossa essência.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Filosofia Clínica e os elementos da inventividade

Bruno Packter
Filósofo Clínico
Florianópolis/SC


A característica central do procedimento clínico Atalho é a inventividade, a doxa, a criatividade. Isso em geral é atestado no convívio com a pessoa, mas deve ser respaldado pela compreensão da historicidade desta.

A grande característica das pessoas que utilizam este submodo, e que aparece muito, ao longo da historicidade ou em alguns eventos da vida, é ter por hábito o olhar diferente as coisas que para os outros são iguais.

Algumas pessoas constroem seus Atalhos, ou seja, criam novas saídas na vida através dos impedimentos, dos obstáculos. Isso quando o submodo Atalho estiver associado ao procedimento clínico Em Direção ao Desfecho, mesmo que ainda tenhamos aqui somente os indícios.

Saberemos se o Atalho será ou não producente à pessoa através da história de vida dela. Por exemplo, se a pessoa está inserida em uma instituição dogmática, fechada, provavelmente as questões da dúvida, da interrogação, da busca por alternativas não serão bem recebidas. Podem existir problemas graves se a pessoa tentar promover mudanças nesta instituição. Portanto, o Atalho, em muitos casos, não será producente à pessoa, mesmo ela utilizando este submodo.

Quando uma pessoa utiliza em seu discurso termos e expressões como “vou dar um jeito”, “inventarei uma saída”, “vou criar uma resposta” estamos provavelmente diante do procedimento clínico denominado Atalho.

Existem alguns cuidados. Um dos enganos mais comuns é a confusão entre repertório existencial e inventividade. Uma pessoa que tenha um repertório existencial derivado de sua erudição pode em um momento de crise surpreender colocando as diversas possibilidades para lidar com as questões. Isso pode levar o filósofo clínico a considerar que a pessoa utiliza este procedimento clínico: Atalho. No entanto, muitas vezes, nada mais é do que o uso de prerrogativas e reflexões solidamente construídas sem o recurso da inventividade – semelhante ao que ocorre no repertório das jogadas de um xadrez eletrônico.

Inicialmente, uma advertência oportuna: a característica central do Atalho é a inventividade, a doxa, a criatividade. Isso em geral é atestado no convívio com a pessoa, mas deve ser respaldado pela compreensão da historicidade desta.

Precisamos ter cuidados em relação ao uso do procedimento clínico Atalho. No trabalho clínico, necessitamos invariavelmente obedecer aos seguintes critérios: Historicidade, Exames Categoriais, os dados divisórios, os enraizamentos e Estrutura do Pensamento, que costumam ser suficientes para esta importante diferenciação.

Lidar com pessoas que utilizam Atalho, que tem este procedimento clínico como um dos fatores da vida, é lidar com o novo, com o insólito, com o inédito, com aquilo que não é comum. É necessário habituar-se, pois a pessoa costuma inventar moda, inventar coisas. É uma tendência da pessoa fazer desta maneira.

Há situações na vida, por mais criativa que a pessoa possa ser, pela própria maneira como a questão foi construída, impede que você seja criativa. Por mais que você crie, você sempre estará preso à situação. Há contextos na vida que nos aprisionam. A pessoa nestes casos dirá: “não tem jeito!” Estamos diante da associação submodal: Atalho X Armadilhas Conceituais.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eu não consigo chegar lá. Alguém pode me ensinar?

Jussara Hadadd
Filósofa Clínica, Terapeuta sexual
Juiz de Fora/MG

A participação da função sexual é muito importante na formação do psiquismo humano, mas há ainda hoje, principalmente entre os povos ocidentais, certo preconceito de culpabilidade, relacionado à atividade sexual feminina.

O corpo feminino ganha contornos de sensualidade e erotismo, além de ser um instrumento de prazer para a própria mulher, seja na relação sexual, seja na prática da masturbação que passou a ser denominada também de autoerotismo, algo até então inimaginável. A virgindade não é mais imposta como norma para todas as mulheres. A mulher na fase da menopausa ganha novas possibilidades para o exercício de sua sexualidade.

A imagem que se fazia da mulher era de alguém frágil que precisava ser decifrado, e o orgasmo algo a lhe ser oferecido. Hoje, na contramão da história, percebemos que tais problemas ainda habitam o ambiente do mundo masculino, sobretudo agora, sob a ótica do liberalismo que causa espanto, que desafia e propõe que os homens não têm mais nenhuma responsabilidade sobre o prazer da mulher. A bem da verdade, hoje, mais que antes, a partir da contemporaneidade, o senso machista maltrata por orgulho e desatino.

Na maioria das vezes, a mulher precisa muito mais de amor que de sexo e quase sempre se confunde na expressão de seu sentimento associando sexo a amor. Para a maioria dos homens, amar e fazer sexo são propostas distintas.

A mulher super erotizada, glúteos enormes e atrativos, seios a mostra, abdomens à prova, dizendo que nenhuma gravidez jamais passou por ali, tem beleza como vitrine e exposição de um corpo que antagonicamente deseja reconhecimento e prazer. Deseja se dar e se vender. Jamais se dar e jamais se vender.

Universalmente decretada, a ditadura da beleza vem na contramão do desejo sincero da mulher em ser feliz e resolvida sexualmente. Com muito mais foco na estética e menos foco no prazer, a dificuldade com o orgasmo feminino que antes se dava por conceitos de pudor, de vergonha, de moral ou falsa moral, hoje, em muitas mulheres, ela acontece a partir da preocupação com a estética apresentada e apreciada ou não pelo seu parceiro sexual.

Ainda neste contexto, ressaltamos a disputa entre as fêmeas da modernidade que, como feras, exibem seus corpos perfeitos para outras mulheres, com o objetivo de intimidar e eliminar a outra, da disputa por um macho.

Na região Sudeste, segundo algumas estatísticas, existe nove mulheres para cada homem e mesmo em padrão de alta contradição, quando tentam mostrar que não precisam se relacionar de nenhuma maneira com eles, os disputam sordidamente. O resultado é o de um sexo feito sob pressão. Manter uma máscara de super mulher, de a mais bela, de a mais perfeita de corpo pode custar muitos orgasmos. A mulher que entra neste jogo está sempre exausta e nunca se permite ser ou aparentar menos. Sua vaidade, que deveria libertá-la para uma vida sexual plena de prazer, a aprisiona, a exaure a esfria, endurece e a deixa muito distante da comunhão entre amor e sexo prazeroso.

A sexualidade humana e, mais ainda a feminina, não pode ser reduzida a uma questão meramente anatômica. Pequenos e grandes lábios, clitóris e vaginas são erotizados ou não desde a mais tenra infância, conduzindo a vida erótica feminina por diferentes caminhos. Nenhuma cirurgia ou correção estética seria capaz proporcionar à mulher, os orgasmos que ela não aprendeu a ter.

Diante dessas e tantas outras complexidades que circundam o mundo feminino e sua dificuldade com o sexo e o prazer, mesmo hoje em dia, onde ambos, para muitas não passam de simples tabu, nossa mensagem para as mulheres que ainda se perdem entre os conceitos que as privam de uma vida sexual gostosa e tranquila, jovem ou madura, esteticamente dentro ou fora dos padrões de beleza atual, é que busquem se conhecer.

Cada pessoa lida com limites próprios de necessidade de sexo. Cada pessoa tem seu limite de prazer. Descubra, contudo se o prazer no sexo para você, pode estar simplesmente em exibir suas formas perfeitas. De bem com esta realidade, que seja, não haverá mais conflitos.

Toda tranquilidade se dá, a partir do momento em que estamos resolvidos quanto ao que desejamos e aceitamos nossa condição.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXXV*


"(...) considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que consegue modificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante (...)"

"Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem"

"Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos 'flâneur' e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar"

"A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros"

"O homem chora, ergue os olhos para o azul do céu, a menor das suas ilusões povoa-o de forças invisíveis e fala, e pede, e suplica"

"É destino do homem rezar, pedir o auxílio do desconhecido para o bem e para o mal; é sina deste pobre animal, mais carregado de trabalhos que qualquer outro bicho da terra ou do mar, ter medo e desconfiar das próprias forças"

*João do Rio

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Cambalhotas do mundo

Patrícia Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Hoje eu não vim falar de moda. Nem vim falar de maquiagem, nem de sapato, nem bolsa, nem creme, nem vestido. Hoje eu quero falar de gente. Quero falar de sentimentos, de corpos, de almas, de encontros e desencontros.

Já pararam pra pensar em como o mundo não dá apenas voltas, mas dá cambalhotas? E o mais curioso, com todos nós dentro dele? Pois é, pois é! Embaralha tudo que estava quieto, em seu devido (será?) lugar, no seu canto, do seu jeito, na sua quietude. Ele vem, e como um tsunami ou um furacão, arranca tudo do lugar, mistura, reorganiza, bagunça, e leva as coisas e pessoas não se sabe pra onde, e te põe de frente com não se sabe o que, ou quem.

E no começo você chora a falta do seu lugar, do seu espaço como era, das suas coisinhas ali inertes, e se assusta com aquela imensidão de incertezas, de coisas belas e feias que você jamais poderia imaginar se tivesse continuado quieto no seu canto… mas o tempo passa… e você começa a esquecer um pouco da dor, ou resolve deixá-la de lado, e não doi mais tanto.

Na verdade é bom estar tudo de pernas pro ar, porque agora você pode colocar ordem na casa, organizar como bem lhe entender, com pessoas que você quer ou não, e conhecer pessoas novas, e coisas novas, e lugares nunca antes imaginados. Precisou de um desvio da natureza pra te fazer bagunçar a cabeleira e mudar tudo. E a dor vira euforia, força, garra, vontade renovada.

Você quer tudo ao mesmo tempo, quer engolir o mundo, quer conhecer mais e mais… mais pessoas, mais lugares, mais coisas, porque você finalmente viu que havia mais coisa fora da caverna escura que você vivia. E ao mesmo tempo quer quietude, quando isso lhe convier. Você pode decidir… E surgem novos amigos, novas conversas, novos assuntos, novas viagens, novos lugares, novos sabores, novos amores…. e novos sapatos, novas bolsas, novos cremes, novos vestidos… e tudo volta a ser como antes…? Não! Passa a ser muito, muito melhor.

E de repente você está onde jamais pensou estar, mas sabe de uma coisa? Você está feliz! E agradece o universo por ter dado cambalhotas no mundo e colocado as coisas nos seus devidos lugares…. ou não. A escolha agora é sua.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dublin, Irlanda

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica

O rapaz contou em tom casual, literatura de passeio, que se casou com um casal. Quinta-feira, 25 de setembro, uma tarde de sol na Irlanda. Bem, ele se casou com um casal, mas como ele era anteriormente casado, perguntou se existiria algum grau de parentesco entre sua mulher e o casal com quem se casou. Um casamento verbal, sem papel, porque “no verbal o mundo parece mais íntegro” – foi o que ele disse. Reparei que ele tinha as unhas das mão esquerda pintadas de azul; as unhas da mão direita eram carmim.

Esta situação vertiginosa para muitos de nós torna-se menos rara a cada dia. As interseções deixam os limites dos padrões e rumam para complexidades maiores e maiores.

Algumas pessoas adoram concepções que dificilmente têm como ter desempenho de eficácia ou eficiência juntas; no entanto, as adotam exatamente porque é no impedimento que ela transitam com a espevitamento esportivo com que transitamos em um Ferry Boat em um domingo de sol.

O que se tornou objeção para muitos de nós é incentivo ou autorização ou caminho para muitos dos outros de nós.

Houve uma vez, conversei com uma garota, 19 anos aproximadamente, e ela me disse que decidiu abolir o nome de sua identidade. Apresentou-se por um som, um som que mistura o farfalhar das folhas com as batidas de uma asa de um pássaro; de uma asa somente, como ela explicou. O som que ela fez não me lembrou nem remotamente isso, mas a explicação ajudou bastante.

Pessoas sem nome, com vínculos familiares indistinguíveis, com vidas incompreensíveis para os padrões atuais, elas se anunciam nos horizontes, elas se anunciam em Berlin, em Edinburgh, em Dublim, e muitas vão de fato existir.

A interseção delas as pessoas “normais”, “gente de bem”, estes que tentam fazer com que tudo continue igual, ainda que considere isso que é igual um grande engano, esta interseção será um acervo de estudos aos filósofos clínicos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Silêncio

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Sábado eu e minha companheira fomos num Shopping Center em Florianópolis onde as garagens ficam no último andar e, ao entrarmos, foi como entrar numa colmeia de abelhas, tamanho o ruído. Mas minha maior surpresa foi quando fui pela primeira vez no Corcovado (RJ), o ruído é coisa impressionante, eu não conseguia entender de onde vinha tanto ruído, é inacreditável.

Como gosto de ouvir o silêncio... Às vezes vou para a Chácara da Lagoa somente para ouvir o silêncio. Ultimamente não tenho conseguido, até lá o barulho dos sons dos tocadores de CD´s dos automóveis têm quebrado aquele paraíso silencioso. Será que temos medo do silêncio?

Ano passado emprestei o chalé para um colega que precisava se concentrar no seu trabalho de mestrado e pediu para se hospedar por três dias. Foi sem seu automóvel, pois pretendia se isolar do mundo e temia que se fosse com seu automóvel ele retornaria. Não adiantou, na madrugada do dia seguinte ele me ligou desesperado pedindo para buscá-lo: “Por favor, venha me buscar, pois eu não me suporto mais”, dizia-me ele ao telefone.

Parece-me que o silêncio se tornou um vácuo que o homem abomina. Diz-se que antes de existir o ruído havia sons, som é diferente de ruído. No silêncio ouvimos o som do mundo. Será que o silêncio é apenas a ausência de ruídos? Você já percebeu que o homem moderno começa seu dia com o “som” do rádio despertador, usa CD’s e rádio nos automóveis, ouve “música de ambiente” no escritório e termina o dia com o ruído da TV em casa? E ainda é capaz de dormir ouvindo buzinas de automóveis da avenida próxima e o ladrar dos cães nas noites, que para alguns são intermináveis. No Caminho de Santiago de Compostela, um peregrino me disse que estava com dificuldades de dormir, pois só conseguia dormir com o ruído do ar condicionado.

Os ruídos da matraca do vendedor de cartucho, a buzina do leitero, a gaitinha de boca do afiador de facas apenas rompia o silêncio de antigamente. Hoje, o que mais desejo é que o silêncio interrompa o interminável barulho do mundo moderno.

Os sábios de antigamente costumavam fazer-se a seguinte pergunta: “Se uma árvore cai na floresta, fará algum ruído se não houver ninguém para ouvi-la?” Será que o homem moderno faz tanto barulho apenas para ter certeza que ele está ali? Será que os Sul-Africanos e suas vuvuzelas na copa do mundo apenas queriam dizer: “Ei mundo, nós existimos?”.

Perguntei para um colega de trabalho hospedado no chalé da lagoa. “Por que você liga o rádio tão alto?” E a resposta foi: “É que quando fico sozinho eu gosto de som alto, acalma minha solidão”. Talvez para algumas pessoas o ruído é como uma droga acústica usada como calmante. Será que é isso?

Para mim, quando preciso me acalmar, lembro-me de uma passagem no livro dos salmos de Davi escrito quando pastorava ovelhas nos Ermos lugares da Mesopotânia: “Aquietai-vos e sabeis que eu sou Deus”. E para aquietar meu coração, o acalento é fugir do ruído do mundo moderno. Ali, ao ouvir o silêncio, aquieto meu coração e me apaziguo.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, se acalma como?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

ALMA GÊMEA

Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico, Escritor
Porto Alegre/RS


Parecia um dia como outro qualquer, mas não foi. Modificou minha vida. Acordei às oito horas, tomei café e sai para praticar a rotineira corrida matinal. Já havia percorrido uma boa distância quando percebi alguém se aproximando. Olhei para trás e vi um cão correndo para me alcançar.

Era um boxer branco, magro, sem coleira e com algumas marcas no pelo. Não identifiquei se eram feridas cicatrizadas, micoses ou simplesmente marcas de nascença. Não importa. O cão começou a me acompanhar. Não deu um latido, sequer olhou para mim. Simplesmente quis correr ao meu lado.

Achei engraçado e imaginei que logo adiante ele iria cansar e me abandonar. Não foi o que aconteceu. Depois de cinco minutos juntos, percebi que estávamos em perfeita sintonia. Quando eu aumentava a velocidade, ele correspondia. Quando parava em algum sinal de trânsito, o cão ficava ao meu lado.

Era como se houvesse sido treinado desde pequeno para correr comigo e fossemos velhos companheiros. Chamava atenção nossa desenvoltura, parceria, sincronia e felicidade. Não sei se cabe a expressão, mas reconheci nele, minha alma gêmea corredora. Já havia experimentado correr com outros cães, porém nada se comparava à cumplicidade instantânea que desenvolvemos.

Depois de quarenta minutos de corrida, chegamos a meu destino. Precisava tomar um banho e sair para trabalhar. Adorei ter encontrado aquele cão e passearmos juntos. Gostaria de correr acompanhado dele todos os dias. Como? Infelizmente tive que me abstrair do prazer daquele momento e começar a pensar em uma maneira de adoção.

Moro em um apartamento e quase nunca estou em casa.. Deixar um cão daquele porte e vitalidade preso à minha espera, talvez fosse egoísmo demasiado. Considerei também o trabalho, a sujeira e a despesa com a manutenção de um animal dentro de quatro paredes. Estava entre dois extremos, minha alma corredora pedindo pra ficar com sua metade e meu cérebro racional empilhando impedimentos.

Não consegui entrar no prédio e abandonar o cão. Sentei no meio fio da calçada e ao mesmo tempo em que me enchia de prazer vê-lo sentado ao meu lado, sem nada pedir, apenas desfrutando da companhia, angustiava-me porque uma voz interior muito chata dizia que eu estava procurando sarna para me coçar, no sentido mais puro e literal.

A estas alturas, já estava trinta minutos atrasado para o trabalho. Acariciei meu “novo” amigo, levantei-me e fui buscar uma tigela com água. O cão veio comigo mas não pode entrar. Edifícios modernos não permitem que animais circulem nas áreas coletivas. Fiquei com medo de entrar e deixá-lo do lado de fora do portão. Na minha volta, poderia não mais estar ali. Pensei em amarrá-lo por uns instantes, mas nem corda tinha naquele momento.

Apostei na sorte. Entrei, o cão ficou me olhando e eu olhando para ele. Afastei-me andando de costas para não perdê-lo de vista. Rapidamente voltei com a água que foi sorvida como um néctar. Estava atrasado, precisava trabalhar, já havia telefonado duas vezes avisando do imprevisto. Solicitei ao porteiro que vigiasse o cão enquanto tomava um rápido banho e trocava de roupa. Neste meio tempo alguma idéia haveria de surgir.

Quem mandou brincar com a sorte? Na minha volta o cão havia partido, o porteiro nada sabia e eu fiquei sem minha alma gêmea corredora. Atrapalhado com a situação, peguei o carro, dei várias voltas pelo bairro, mas ele havia sumido. Na esperança de encontrá-lo, tenho corrido todos os dias no mesmo trajeto, mas ele não mais apareceu. Restaram algumas perguntas, ou respostas, tanto faz.

Quantas vezes em nossas vidas identificamos emocionalmente nossas almas gêmeas, mas não conseguimos deixar fluir e as perdemos porque precisamos trabalhar, estudar, pensar, racionalizar, conversar, conhecer melhor?

Quantas vezes a alma gêmea está ao nosso lado, mas não a reconhecemos porque não temos tempo de olhar para ela e deixar que se aproxime?

E se o cão falasse? Se dissesse que era um cão abandonado, acostumado a dormir ao relento, viciado em drogas e suas cicatrizes eram resultado de brigas entre gangues, seu passado o condenaria ou ainda assim o reconheceria como minha alma gêmea corredora?

E se o cão me contasse que largou tudo o que estava fazendo quando me viu correr porque reconheceu que éramos as duas rodas da mesma bicicleta, e queria ficar correndo para sempre ao meu lado, teria eu deixado nosso futuro nas mãos da sorte?

Não pretendo aprofundar o assunto almas gêmeas, muito menos quando se trata de um cão corredor. O fato é que este episódio, feliz e ao mesmo tempo triste, serviu claramente para me acordar acerca de encontros e relacionamentos que marcam nossas vidas e podem ser perdidos devido a preconceitos e paredes que vamos construindo. Ao invés de sentirmos e deixarmos fluir, ficamos presos aos aspectos mundanos do trabalho, família, sociedade, reduzindo descobertas mútuas, impedindo nossa capacidade de despojamento e impossibilitando-nos de ir adiante.

Este cão apareceu em minha vida para me libertar, depois foi embora. Cumpriu sua missão. Vai ver que almas gêmeas servem pra isso. Quem sabe quando nos encontrarmos de novo, transcendemos e providenciamos outro desfecho. Tomara!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Redes Sociais e Ética

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG

Estamos conectados com os mais modernos meios de comunicação virtual: Facebook, Twitter, Orkut, Msn, Google +... Todos estes recursos modernos chegaram para facilitar a vida. Muitos tem acesso a internet e consequentemente as redes sociais. Hoje estas mesmas redes sociais se encontram nos celulares, Tablet’s, IPad, IFone. Carregamos o avanço tecnológico em nosso bolso.

Mas como temos usado estas redes sociais? Quais os benefícios destas redes sociais? Existe algum perigo escondido no uso destas novas mídias?

Toda moeda tem dois lados. O mesmo acontece com as redes sociais. Muitas pessoas procuram usar com sabedoria as Redes Sociais. Outras, no entanto esquecem-se de uma palavra importante e que aos poucos vai perdendo seu sentido em nossos tempos: o limite.

Entre o particular e o público muitos acabam tornando a vida um livro aberto demais. Expõe-se de tal maneira que caem no ridículo. Em épocas em que a privacidade tornou-se algo descartável é necessário recuperarmos aquilo que pertence somente a nós mesmos.

As Redes Sociais vieram para facilitar a comunicação. Mas a comunicação ética tornou-se algo secundário. Não basta estar nas redes sociais, é preciso estar em evidência. E para que isto seja alcançado muitos têm perdido a noção do ridículo. A banalização da própria imagem é algo preocupante nas Redes Sociais. Num território sem fronteiras que são as Redes Sociais fica muito fácil perde o mapa da ética.

Nas Redes Sociais o número de compartilhamento de informações é tão grande que se torna impossível acompanhar o que todos partilham. Meia hora usando o Facebook e você tem uma enxurrada de informações compartilhadas. Muita informação para um único cérebro.

O limite é necessário em qualquer setor da vida e nas Redes Sociais não é diferente. Em busca do estar evidência estamos perdendo a noção de nossos próprios limites.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXXIV*


"Palavras de ordem não toleram as brumas, pois é lá que moram os sonhos. Luminosidade total para tornar impossível sonhar. Pois os sonhos são testemunhos de que a alma se recusa a se tornar um pássaro engaiolado"

"Poesia: o esforço desesperado para dizer o que não pode ser dito. Silêncio: o Vazio onde vivem criaturas impensáveis, protegidas pela escuridão!"

"O deserto é belo porque, em algum lugar, ele esconde um jardim"

"Cada sonho é um testemunho de que o Paraíso ainda não chegou"

"No mundo descrito por Orwell, 1984, sonhar era crime, e um homem foi preso porque, ao dormir, falou o seu sonho. E, fazendo isso, confessou que sua alma voava longe"

"Para uma lagarta não há nada mais lindo que coisas que se assemelhem a ela. No mundo das lagartas, até os deuses são lagartas. Mas as borboletas obviamente dirão: tolice..."

"(...) 'Ali, onde penso, lá não estou'. Os poetas têm estado repetindo isso o tempo todo. Não é de espantar, portanto, que não sejam convidados para nossos jantares acadêmicos. Quando os poetas falam, os outros convivas pensam que eles estão bêbados"

"Tinha de ser uma palavra mágica, pois ela tinha de ter o poder de trazer à existência aquilo que não existia"

"A Palavra é masculina: a fala se projeta como falus, eleva-se e penetra, a fim de dar prazer e engravidar. Pala palavra introduzo meu sêmen em outro"

"Os sonhos são os espelhos do invisível... Os espelhos normais refletem as coisas presentes, mas os sonhos mostram as coisas ausentes"

*Rubem Alves

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Multidão, sociedade imaginável invisível


Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG


Foi de Hillman que tomei emprestado este título.
Hillman foi para o mundo de Hades em pleno sol em escorpião, 27 de outobro 2011.
Psicoterapeuta brilhante e rebelde, demonstrou que o Self, não se encontra apenas como subjetividade, mas na interação com o mundo. A alma está no mundo.

Habita em nós uma multidão que vive na relação contínua com o mundo.
Já dizia o poeta Walt: - Sou múltiplo, contenho mim multidōes.
Esta multidão chora e ri, sofre e se deleita de amores, relaxa e goza....

Agendamentos invisíveis. Imagens que dizem mesmo sem palavras.
E alguns pensam não haver inconsciente. Que eles comandam, comandam.
E toda nossa historicidade se apresenta como complexos.

Complexos que nos paralizam, quando devíamos agir.
Que gera a depressão e múltiplas ansiedades.
Tomar consciência de nossa realidade psíquica é fundamental.
Não somos tão bonzinhos e perfeitos com imaginamos.
E nem por isso somos menos.

Nossa multidão por vezes se confunde e se perde.
Faz parte de nossa humanidade os conflitos e as dúvidas.
Por isto pensar com o coração, sem fugir da realidade é um dos caminhos.

Caminhos de que? De viver com consciência.
Ir desvendando o inconsciente...
Processo eterno no contínuo vir a ser.

Lembrando sempre que o mundo é presentação minha.
Assim, a alma se faz na relação.
E o mundo imaginável invisível está na ponta de meu nariz.